J.D. Salinger Por Daniel Clowes

Recentemente, li Mundo Fantasma, de Daniel Clowes. Ler essa obra era um débito antigo comigo mesmo. Já conhecia a graphic novel Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro¹, do mesmo autor – uma obra, no mínimo, diferente, que aborda o imaginário popular norte-americano de uma maneira realista. Como estava difícil encontrar Mundo Fantasma à venda e, por enquanto, me recuso a ler scans, o jeito foi aguardar. E, enfim, comprei a HQ. É excelente. E não pude deixar de associá-la ao romance de Salinger. Abaixo, abordo aspectos do romance e, após, do quadrinho, para evidenciar as razões dessa associação.

Salinger irritado com paparazzi

Recordo três filmes que citam O Apanhador no Campo de Centeio: O Colecionador, Teoria da Conspiração e O Assassinato de John Lennon. Devem haver outros. Isso é engraçado se levarmos em conta que o autor do romance, J. D. Salinger, odiava o cinema. Essa ojeriza aos filmes é repetida pela boca de Holden Caulfield, o protagonista pentelho da obra. Mas o cinema, em se tratando de Holden, não é paradigma para nada. Ele odeia tudo e todos. No livro, sua irmã – Phoebe – pergunta do que ele gosta, qualquer coisa. Ele só consegue pensar em um garoto falecido, que, na verdade, mal conhecia. Aqui, temos um dos trechos mais tocantes da obra:

“Aí ouvi todo mundo correndo pelo corredor e se despencando escada abaixo. Botei o roupão e também desci correndo, e lá estava o James Castle, caído bem nos degraus de pedra e tudo. Estava morto, os dentes e sangue espalhados por todo o lado, e ninguém nem ao menos chegava perto dele. Estava com um suéter de gola alta que eu havia emprestado a ele. E não aconteceu nada com os caras que estavam no quarto dele. Só foram espulsos do colégio. Nem ao menos foram presos.”²

A cada capítulo, Holden xinga o cinema; refere-se ao próprio irmão (mencionado apenas pela inciais D.B.), roteirista em Hollywood, como um “prostituído”. Na verdade, tanto esse irmão, quando a irmã, são as únicas pessoas que o riquinho e mimado  parece gostar. Além de Allie, o caçula, falecido e sempre vivo na memória familiar. Tudo, para ele, é cretino e imbecil.

Holden Caulfield é um eterno adolescente, aos dezessete anos, possivelmente na década de 50, em plena Nova Iorque. E como nos faz lembrar nós mesmo, quando adolescentes, com nossos quinze anos de idade, quando achávamos tudo à nossa volta cretino e imbecil. Maduros, vemos o erro de pensamento do rapaz. Sabemos que, na verdade, todos são cretinos, cada um à sua maneira. Até nós mesmos. E, assim como nos chateamos com a imbecilidade alheia, os outros também se chateiam com a nossa. Não adianta querer mudar nada. O romance narra, quase totalmente, um final de semana, saindo desse momento apenas próximo ao final. E Holden não muda nada à sua volta, nem a si mesmo. E, tentando mudar a si mesmo (em parte), a fim de buscar mais tranquilidade para sua vida, é que J. D. Salinger parece nos dizer que ele vai a um hospital psiquiátrico, de onde nos conta esses três dias em sua vida.

O Apanhador… não é um romance rural. O título remete uma canção que cita um trecho do poema de Robert Burns. A primeira vez, no livro, que Holden escuta a canção, é cantada (de maneira errada) por um garoto, na rua. Depois, quando Phoebe pergunta o que ele quer ser (profissão, ocupação), mais à frente, ele cita o verso, dando o título a obra.

“Seja como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que é quê eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho de aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer.”

No trecho acima, ele parece querer ser um protetor da vida pura, ingênua, das crianças, para que não se emporcalhem com o desencantamento da vida adulta. Penso que o nome de Holden é emblemático, embora não me depare com pessoas pensando sobre isso. Seu primeiro nome me lembra “abraço”, “pegar”, “segurar”. Enquanto seu sobrenome me remete à “coifa” (caul),“calor”, juntamento com a palavra “campo” (field). Seu nome já me parece um propósito em seus desígnios (ou desejos pueris).

Mas, durante toda a história, é o Caulfield que está caindo, vertiginosamente, como alertado pelo seu professor Antolini:

“Tenho a impressão de que você está caminhando para algum espécie de queda… uma queda tremenda. Mas, honestamente, não sei de que espécie…”

Sobre o autor, é sempre bom destacar sua reclusão e que poucas fotografias lhe são conhecidas. Durante anos, morou na pequena cidade de Cornish, em New Hampshire.

Quem não leu, vale a pena. A leitura é curta, fácil e dinâmica. Recorde-se de quando você era o centro do planeta e nada era tão bom como deveria ser. Mas, sim: o mundo é cretino; nós somos. Cada um com a sua parte. Penso que, mais à frente, Holden descobriu isso.


Mundo Fantasma, no Brasil, foi publicado pela Gal Editora, editado e traduzido por Maurício Muniz, o controverso editor da extinta (e, sim, saudosa) Pandora Books. É bom lembrar que esta última – controvérsias à parte sobre seus problemas de licenciamentos – foi responsável por dar aos carentes leitores brasileiros obras até então postas um pouco de lado. E a Gal, atualmente, parece disposta a fazer a diferença, conquanto com cautela e pouco número de publicações.

Basicamente, Mundo Fantasma aborda alguns dias nas vidas de duas jovens amigas, Enid e Rebecca, enquanto, à toa na vida – naquela fase entre o final da adolescência e o início do peso da maturidade -, discorrem acerca de banalidades, hábitos e acontecimentos à sua volta, tendo sempre uma crítica ácida ou mal educada – bem fundada ou vazia – sobre tudo. E é aí onde enxergamos O Apanhador no Campo de Centeio. Mudando a época e os personagens, encontramos em Enid e Rebecca – mais na primeira que na segunda – o caráter confuso e sectário de Holden Caulfield. Mas, diferente do que ocorre com a criação de Salinger, Enid sabe – e revela à sua amiga – que sempre se odiou.

Em um determinado momento do quadrinho, Enid comenta, numa lanchonete: “Putz, este lugar é uma merda… Antes, éramos as únicas pessoas legais que vinham aqui“. Esse comentário é emblemático, e poderia muito bem ter saído da boca de Holden. Mas, enquanto este procura ajuda médica para se ajustar mais ao mundo (compreender-se), Enid empreende uma jornada solitária para isso, procurando, em ao menos um dia em sua vida, ir a outra cidade, onde seria outra pessoa. Em uma viagem de carro, ela confidencia a Rebecca: “Eu sinto que quero virar alguém completamente diferente“. E, mais à frente: “Antes de ter que ir pra faculdade, meu plano secreto era um dia tomar um ônibus pra outra cidade qualquer, sem contar nada pra ninguém, e virar uma pessoa totalmente diferente… e não voltar até que tivesse virado essa pessoa diferente“.

Rebecca é a parte conformada de Enid e, durante a história, lhe serve de apoio. Aliás, em um determinado ponto, ela se reconhece como alguém resignada e inerte, incapaz até mesmo de sair de casa se não for “empurrada” pela Enid.

Pouco antes de concluir a narrativa, Enid recebe a notícia que não vai para faculdade, pois foi reprovada no exame de admissão, e diz ao pai: “Eu sabia que não era esperta o bastante para passar no exame“. Tais palavras não seriam pronunciadas com tanta facilidade por Holden, mesmo que ele tivesse conhecimento disso. E, assim, ela tem como opção imediata viver o restante de sua vida na cidadezinha de sempre, junto com todos os outros esquisitos e fracassados, perdendo até mesmo o garoto que ama para sua contraparte resignada, Rebecca – de quem, pouco a pouco, vai se afastando.

Às duras penas, enfim, todos descobrem o mesmo que Holden Caulfield: que apenas fazem parte da porcaria toda.

Como sabemos, o quadrinho foi adaptado para o cinema. Enquanto J.D. Salinger não gostaria da notícia sobre a adaptação cinematográfica de alguma obra sua³, o roteiro foi escrito pelo próprio Daniel Clowes e conta com a beleza de Scarlett Johansson.

Observações

1. Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro foi publicado, no Brasil, pela Conrad no ano de 2002;

2.  As citações de O Apanhador no Campo de Centeio foram retiradas da 17ª edição brasileira publicada pela Editora do Autor;

3. O conto Uncle Wiggily in Connecticut de Salinger foi adaptado para o cinema, resultando no filme My Foolish Heart, o que aumentou a ojeriza do autor pela indústria cinematográfica.

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Kleiton Gonçalves é Advogado (não militante), Analista da Justiça do Trabalho e autor do blog Ordem do Eterno Grau de Neófito.