Batman: Fim de Jogo | Análise

Por Sidarta Pacheco, direto do site Crise nas Infinitas Comics.

Batman Fim de Jogo, a saga que pega entre os números #35 e #40 da mensal do Batman Novos 52 , é a segunda história de Snyder com Capullo a tratar do conflito do Coringa com o Batman. Confira a análise da recém finalizada saga, mas a análise contém spoilers sobre a trama, leia por sua conta e risco.

Scott Snyder e Greg Capullo são um dos nomes mais falados da DC desde o início dos Novos 52; e não é para pouco. Snyder trouxe diversas ótimas histórias ao decorrer do reboot: a Corte das Corujas, Morte na Família e o Ano Zero. Todos desenhados de forma caricata e única por Greg Capullo; o Batman nunca esteve assim tão bem. Cada uma das histórias teve seus acertos e erros, é claro, mas foi fácil ver como Snyder e Greg cresceram juntos; e Endgame é o auge deles.

Fim de Jogo começa em Batman #35, mas qualquer um que conheça um mínimo sobre o Morcego pode pegar e começar a ler a partir daqui. Com direito à uma bela síndrome de Frank Miller – isto é, o Cavaleiro das Trevas dando um cacete em qualquer um que apareça na sua frente, inclusive na liga – a história começa  de uma forma cômica, exagerada e inteligente. O Batman está, hoje em dia, mais preparado do que nunca para batalhar contra qualquer um que surja à sua frente; e a primeira parte (#35) e a segunda (#36) vêm para nos mostrar isso.

O problema é quando o inimigo não está na frente dele. Ao final da segunda parte, no momento em que é revelado o vilão da história – o Coringa – o meu nariz torceu. O Coringa de novo?! Bem, sim. Enquanto em Morte na Família (a primeira história de Snyder/Capullo com o antagonismo desse vilão) o maldito palhaço agia de uma forma previsível e repetida – afinal, não era a primeira vez que o Coringa tentava matar um Robin – em Fim de Jogo a proposta é completamente outra: reescrever o vilão.

Mas como se reescreve um personagem que está há 75 anos enraizado na mitologia de Batman? Para responder isso, precisamos observar que quando Endgame entra na sua terceira (#37) e quarta (#38) edições, não se trata mais somente do Batman, mas de toda a história de Gotham. Snyder consegue, com maestria, criar um roteiro que adapta uma personagem tão conhecido como o Coringa em algo completamente novo, porém natural, como se a personagem estivesse quebrando a quarta barreira o tempo todo; enganando a todos nós, leitores, por tanto tempo: se nem o Batman conhece o Coringa, quem somos nós, leitores, para conhecer?

Não é exagero dizer que Snyder conseguiu, junto com Capullo, definir o que e quem é o Coringa de verdade. Endgame termina por definir um estilo “gótico” shakesperiano para o maior antagonista do cavaleiro das trevas, dando um ar teatral para todos os momentos em que o Coringa está “em cena”. A grande reviravolta, porém, não está na mudança da origem do Coringa – que é, na verdade, um homem com centenas de anos de vida, que utiliza do Dionésio, um elemento químico, para se manter vivo.

A reviravolta, de verdade, está no ato final. Depois de sequências e substanciais mudanças em toda a mitologia de Gotham; é perceptível que a definição de “quem e o que é” o Coringa coloca em cheque  o fato de que nós, leitores, conhecemos o velho Bruce, independentemente do reboot. O mesmo não pode ser dito do Coringa. A quinta (#39) e sexta (#40) parte nos mostram um final que comprova isso.

Tanto nas artes de capa quanto nas consequências das ações dos personagens: o inesperado e ousado é o que acontece. Este “novo” coringa e o “velho” Batman se confrontam: o leitor não era o único que conhecia o Coringa, o próprio Bruce também não. E isso resulta em um final gore, cru e intenso de batalha entre os dois. Com um excesso de sangue e cenas teatralmente sincronizadas; o choque entre o velho e o novo acaba tendo um resultado simples: o fim do jogo.

Não é a primeira vez que o Batman morre – muito menos a primeira vez que o Coringa morre. Porém, não digo com exageros que esta é a primeira vez que o Batman como conhecemos morre. Quando Bruce Wayne voltar, ele será outra pessoa, graças a intensidade de seu confronto com o coringa. Parece que o maior detetive do mundo caiu numa piada. O fim de jogo é, na realidade, o início de algo novo. Um novo Coringa, talvez? Um novo Bruce também? Ambos irão voltar, é óbvio, cedo ou tarde; mas não é o fato deles terem morrido, é porque o grande Batman errou e caiu na pegadinha, em um “mindgame”, e mesmo no ápice de seu momento, a sua ingenuidade o matou. “Ele já enfrentou de tudo: aliens, magia, monstros… E mesmo assim vai despreparado. É como se ele desafiasse a morte” diz Julia Pennyworth, no final do capítulo. Essa é a realidade: Bruce desafiou a morte, mas, dessa vez, a morte foi mais inteligente do que ele. Bruce e a morte ficam de mãos atadas para dar risada neste trágico fim de jogo – que inaugura um novo Status Quo para o Batman.

Snyder e Capullo dão um passo a frente em Endgame, mudando a mitologia e o status quo de Gotham e do Batman, sem ter medo de expor que, no final, todos nós fomos enganados pelo Coringa. É o fim para dois amigos, que morrem um ao lado do outro. O velho Batman e o novo Coringa.

Nota: 9.75

Essa saga começa no número 35 da mensal do Batman.

Essa saga começa no número 35 da mensal do Batman.

Conselho de Elrond, Sociedade do Anel e Grupos Centrados na Tarefa

Existe coisa mais polêmica do que falar de O Senhor dos Anéis ou Guerra nas Estrelas em um site, blog ou afim que tem como público alvo Nerds??? Galera muita calma nessa hora, vamos lembrar que temos uma sequencia vindo por aí e que cada vez mais começaram a falar sobre as obras de Tolkien de novo. O filme O Hobbit – uma Jornada Inesperada estreia no Brasil dia 14/12 e estamos todos ansiosos para voltar a Terra-Média. Assim, pensando em fazer um “esquenta” resolvi escreve esse texto para falar não necessariamente sobre O Hobbit, mas para dividir uma leitura psicológica sobre eventos do Senhor dos Anéis. Este texto, portanto, trabalhará com a teoria de grupos pensada pelo Psicanalista Argentino Pichon Rivière. Os grupos: Conselho de Elrond e Sociedade do Anel serão argumentados como representações interessantes de dinâmicas que ocorrem em grupos para a Psicanálise. Quem gostar do tema aproveite e visite o  Podcast 04 – Senhor dos Anéis das antigas e o recente Videocast 142 – RPG

Primeiro um pouco sobre o autor (mil perdões para aqueles que já conhecem sua biografia). J.R.R. Tolkien é atualmente uma das grandes referências da literatura fantástica no mundo. Escritor inglês nascido em 1892 ganhou destaque no cenário literário mundial quando publicou em 1937 o livro O Hobbit. O enredo consistia em uma aventura fantástica recheada de criaturas mitológicas como, por exemplo: Orcs, Elfos, Trolls, Magos, Anões, Dragões e Hobbits. A inspiração de Tolkien advinha da literatura nórdica e literatura inglesa, temas de Sociedades que o escritor frequentava – funcionavam como grupos de estudos universitários – sendo que um dos que mais ficou famoso foi a Coalbiters, grupo que contava com a participação de C. S. Lewis, criador da famosa epopeia As Crônicas de Nárnia.

As obras de Tolkien foram reconhecidas, principalmente nos anos 1960 como clássicos da literatura inglesa, principalmente por cumprirem o objetivo maior do escritor: Inventar uma literatura folclórico-mitológica inglesa – literatura essa que, segundo afirmavam as Sociedades de qual participava, praticamente não existia. A nonologia O Senhor dos Anéis (The Lord of The Rings, 1954-55) ganhou bastante destaque na cultura mundial, pois era constantemente referenciada em letra de músicas por bandas como Led Zeppelin e Blind Guardian. Porém, foi em 2001 que a obra de Tolkien alcançou o apogeu de seu sucesso, transformando-se em um ícone indispensável da cultura cult, através dos filmes homônimos dirigidos por Peter Jackson. Por tanto, se você está lendo isso e não faz ideia do que seja O Hobbit ou O Senhor dos Anéis, por favor, VÁ AGORA ASSISTIR OS FILMES E LER OS LIVROS, quando acabar volte e termine o texto.

Uma das coisas mais legais – dentre várias – que Tolkien inseriu em sua epopeia é sem dúvida o elemento que dá o nome da primeira parte da trilogia – inicialmente eram nove livros que foram copilados em três volumes. A Sociedade do Anel trata-se de um grupo que dá certo na perspectiva psicológica, pois estava centrado em sua tarefa. Para Pichon Rivière a eficiência de um grupo está em sua capacidade de manter-se focado na tarefa a que o grupo se propõe. Espera-se que o grupo desfoque e fique resistente frente à tarefa, mas para “dar certo” o grupo precisa sempre reencontrar o seu caminho para a centralidade na tarefa. Na história, a Sociedade do Anel inaugura-se no início do segundo livro em um evento chamado Conselho de Elrond, em um lugar paradisíaco chamado Valfenda. Lá se reuniram representantes de várias raças fantásticas: Anões, Elfos, Elfos da Floresta, Homens, Hobbits e Magos. Este conselho coordenado pelo anfitrião, Elrond tinha como objetivo discutir o destino do Um Anel – anel poderoso criado pelo senhor das trevas Sauron e que apenas pode ser controlado por seu dono. Então o que temos neste conselho é algo como uma reunião de guerra, em que um de seus integrantes está em posse da arma mais poderosa do exército inimigo, só que além de não conseguir utilizá-la, quanto mais o grupo mantêm a posse desta arma mais prejuízos ela traz para o grupo.

Na cena os integrantes do conselho sentam-se envolta de uma “mesa” onde está o anel. A tarefa deste grupo é o lidar com o Anel e é o que fazem, ou ao menos tentam, pois este anel exerce algum tipo de poder sobre a mente de quem o deseja, tal como o Anel dos Nibelungos da Ópera de Richard Wagner: O Anel dos Nibelungos. O anel é o representante do desejo em sua forma mais obscura. A vida em grupo traz a questão do manejamento dos desejos narcísicos, ou seja, pessoais em oposição ao desejo do grupo. A vida em sociedade não aceita que cada indivíduo faça o que bem entender de seus desejos, pelo contrário a vida em grupo exige a abdicação de certas regalias para que possamos viver bem organizados. Nietzsche exemplifica esta questão do grupo de maneira interessante, quando diz que somos “porcos-espinhos na neve”, ao mesmo tempo queremos ficar juntos para ter o acalento do grupo, mas se ficamos próximos demais nos espetamos. O Anel representa a sedução, o desejo de cada integrante do grupo, desejo este que os afasta da possibilidade de viver em uma horizontalidade com os demais integrantes do grupo. O Um Anel representa um vácuo de desejo que tende a todo o momento sugar o grupo para a autodestruição.

Desta maneira, temos um grupo e temos uma tarefa: pensar o destino do Anel. A horizontalidade deste grupo é a que todos estão ameaçados pelo inimigo Sauron, portanto, desejam destruí-lo. Mas o Anel tem o poder – e ele parece ter vida própria mesmo – de trazer à tona em cada discurso a verticalidade de cada sujeito a discursar. A fala de Elrond está pautada em sua necessidade de tirar o Anel de seu território. No caso, Elrond estava prestes a “deixar o mundo” junto com sua linhagem de Elfos, mas a presença do Anel em Valfenda o fez ter de atrasar sua partida. Após sua partida, a guerra com Sauron deixaria de ser seu problema e de seus familiares, pois há muito tempo atrás o próprio Elrond já havia estabelecido sua guerra contra o senhor sinistro.

Os Anões e os Elfos da floresta presentes no conselho mostram-se extremamente resistentes ao trabalho em conjunto, devido às históricas divergências políticas entre estas raças. Os homens são representados pelo personagem Boromir, que traz para questão detalhes sobre o front de batalha, nos limites entre o reino dos homens – Gondor – e o reino do Sauron – Mordor. O discurso de Boromir mostra-se como o mais egoísta do conselho, pois relata que o Anel deveria ser uma recompensa pelos anos de proteção oferecidos pelos homens que enfrentam diariamente as investidas de Sauron para dentro do território dos “aliados”. Este discurso egoísta aparece como disfarçado de benevolência perante aqueles que protegem a Terra-Média. Segundo Boromir, de posse do Anel o reino dos homens poderia acabar com o exército negro de uma vez por todas. As proposições de Boromir fazem com que todo o conselho entre em crise e comece um debate acalorado e desrespeitoso dentro da resistência frente à tarefa de decidir o destino do Anel. Cada um começa a falar dos motivos pessoais pelo qual deveria possuir o Anel, já que os outros não seriam dignos de tê-lo. A verticalidade e o narcisismo tomam os integrantes do conselho que entram em um momento de pré-tarefa, ou seja, evitam o duro e angustiante fardo de centrar o grupo na tarefa. Assim, o grupo fez-se massa e alienou-se no desejo do Anel de destruí-los.

A questão que se põe é que a única maneira de destruir o anel é leva-lo por dentro do reino de Sauron e jogá-lo no fogo onde foi inicialmente forjado – tarefa que ninguém deseja realizar, muito menos deixar outros realizarem. Frodo, um Hobbit, traz o grupo de volta para a tarefa quando diz: “Levarei o Anel […] embora não conheça o caminho.”. Frodo faz um traço importante no grupo para trazê-lo de volta a tarefa: “desverticaliza-se”, se coloca em uma posição de “não saber”. Abandona seu narcisismo e se incumbe da tarefa do grupo, não por acreditar ser o melhor para a missão e nem por pessoalmente precisar que a solução resolva-se, mas sim por saber que nada sabe. A posição de Frodo neste debate assemelha-se a de Sócrates em O Banquete de Platão. Quando o pensador é convocado a fazer seu elogio a Eros – o Amor, opta por trazer o discurso de outra pessoa no seu lugar, traz o saber de Diotima, uma mulher que havia sido negada no banquete, pois Sócrates “Sabe que nada sabe”. O Anel assim é o depósito de toda a angústia deste Conselho de Elrond. Mesmo assim, Frodo decide ser o portador da angústia do grupo – é o que Pichon chama de Porta-voz.

Uma ótima representação de um grupo centrado na tarefa como propõe Pichon Rivière é a Sociedade do Anel. Quando Frodo assume para si a tarefa de levar o Um Anel até a Montanha da Perdição, os companheiros do Conselho de Elrond decidem por acompanhá-lo. Legolas um Elfo da floresta, Gimli um Anão, Aragorn e Boromir Homens, Gandalf um mago e Sam, Merry e Pipin – Hobbits. No filme de Peter Jackson o momento de união desta comitiva mostra-se de maneira interessante. Aragorn oferece a Frodo sua espada, Legolas o arco, Gimli o machado e Boromir sua proteção (escudo). Há uma resignação de quem “são” e o que representam. Não se tratam mais de raças diferentes, mas sim de “meros instrumentos” que juntos favorecem a realização da tarefa. Assim, neste momento há uma atenuação da verticalização que os dominava no Conselho de Elrond e todos se identificam com o grupo na horizontalidade.

O grupo intitulado a Sociedade do Anel tem a tarefa de auxiliar Frodo em sua jornada para destruir o Anel. O êxito desta tarefa mostra-se como impossível, como o próprio Boromir afirma: “Ninguém simplesmente entra em Mordor”. De imediato o cumprimento da tarefa mostra-se impossível. Pichon indica a impossibilidade de manter-se o grupo centrado na tarefa. O que os mantém unidos como grupo? O que os faz manter-se focados em uma tarefa impossível? A proposta possível é a de que há um deslocamento da tarefa. A tarefa de destruir o anel passa a ser somente de Frodo, o que o torna completamente responsável por ela e o faz sofrer todo o peso desta demanda. A Sociedade do Anel assume assim a tarefa de auxiliar Frodo na realização de sua tarefa. O grupo reconhece assim o vazio existente na centralidade deste grupo, pois não há indicativo nenhum de que Frodo será bem sucedido, mas o grupo suporta esta angústia e confia no pequeno Hobbit. Aragorn e os outros dão um “salto” neste vazio, um salto de confiança que é o que mantém este grupo unido – mesmo estando a léguas de distância. O salto só torna-se possível a partir do momento em que se é “tecida” uma rede de vínculos afetivos no grupo. Esta rede oferece um suporte de segurança para o grupo, indicando que “tentaremos realizar esta tarefa juntos, caso falhemos, falharemos juntos” – assim o vínculo sempre é um ganho.

Boromir sucumbido à verticalidade de querer ajudar seus conterrâneos tenta tomar o Anel de Frodo, o que faz com o que o grupo sofra uma cisão e ocasiona a morte de Boromir. Ao tentar se apoderar do Anel o cavalheiro sacrifica os vínculos estabelecidos entre o grupo e a única maneira de retornar o grupo para a centralidade da tarefa – proteger o Frodo – é através do sacrifício do próprio narcisismo. A morte de Boromir é mais significativa ao grupo do que a sua própria presença, a ausência de um integrante traz de volta ao grupo a existência de um vazio como centralidade da Sociedade. O que parecia estar superado com o deslocamento de uma tarefa para outra, retorna em ato como fatalidade e exige dos integrantes um posicionamento ético frente à tarefa. Neste momento o grupo divide-se em três: Frodo e Sam dirigem-se para Mordor; Merry e Pipin são capturados e são levados para Isengard; e Aragorn, Legolas e Gimli decidem por salvar seus Merry e Pipin.

Inicialmente a opção de Aragorn e os outros pode indicar uma desistência da tarefa de proteger Frodo. Porém, as últimas palavras de Boromir indicam o que pauta a decisão de Aragorn. Boromir afirma em seu último suspiro: “Eu não consegui deixá-lo ir”. O grupo exige perdas, principalmente perdas severas aos pequenos narcisismos. Este ponto talvez seja o que mais atraia a atenção do grande público para estas histórias que contam sobre como os grandes grupos de aventureiros passam por suas desventuras nas relações interpessoais grupais. De Jasão e os Argonautas, Os Vingadores até o Big Brother Brasil a premissa é a mesma: assistir aos processos grupais de um lugar protegido e ser expectador de como os entraves entre o narcisismo e a união grupal se dão. É fascinante por que é extremamente familiar a qualquer pessoa – abdicar-se de suas vontades para uma boa convivência grupal para Freud é esta questão é universal.

Assim, Aragorn compreende que a melhor maneira de proteger Frodo, é separando-se dele. No enredo isso se dá por que Aragorn e os outros utilizam disto como um estratagema para atrair a atenção de Sauron – enquanto o inimigo preocupa-se com esta distração, Frodo encontra um caminho livre. A cena mais representativa talvez seja no final da história quando Frodo finalmente chega a Mordor, mas lá encontra um acampamento de milhares de Orcs. Neste momento Frodo e Sam deparam-se mais uma vez com a angústia perante o vazio grupal. Reconhecem-se como individualmente fracos para enfrentar tamanha tarefa. O que se segue é que paralelamente a isto, Aragorn e os outros fazem uma investida ao reino de Sauron de maneira que o exército acampado a frente de Frodo precisa se deslocar rumo à batalha e Frodo encontra o caminho livre. Gosto desta imagem paradoxal: quando Frodo encontra o campo CHEIO de inimigos depara-se como VAZIO que sua tarefa impõe e quando o campo ESVAZIA-SE o animo retorna e a execução de sua tarefa torna-se possível mais uma vez.

A Sociedade do Anel sabe que esta investida rumo ao exército de Sauron não surtará resultados, mas a comitiva acredita que Frodo terá uma chance melhor se isto acontecer. O interessante é que a Sociedade decide por este sacrifício – todos sabem que iriam perecer frente a este ataque – mesmo sem receber nenhuma notícia de Frodo desde a cisão do grupo. A Sociedade neste momento funciona como um grupo de comandos com ações extremamente cronometradas. Para Pichon o grupo centrado na tarefa poderia dividir-se e mesmo cumprir com a execução da tarefa, desde que cada confie que o seu antecessor e seu sucessor irão cumprir com sua parte do plano. Gandalf e os outros simplesmente confiam que Frodo ainda está vivo e centrado na tarefa. Isto significa que o grupo mantem-se neste salto de fé que apenas é sustentado pelo próprio grupo. Apesar de diversos eventos ocorrerem entre a formação da Sociedade do Anel e esta batalha final a centralidade da tarefa não se perde, pois o grito de guerra puxado por Aragorn na hora da disparada sacrificial em direção a um inimigo invencível é: “Por Frodo!”. Interessantemente Frodo retorna a posição de Sócrates no Banquete, pois também não consegue destruir o Anel. Cabe à criatura Gollum realizar a tarefa. Acredito que isto apenas nos indique que Frodo precisou manter-se nesta posição de não preencher o vazio grupal até o final, deixa que outro o realize para ele. O papel de Frodo é o de Portador da angústia grupal – “ferida esta que nunca cicatrizará”.

A Transformação em Vader

‘O maior vilão de todos os tempos’, talvez. Com certeza um dos mais famosos. Darth Vader foi apresentado ao grande público pela primeira vez no filme Guerra nas Estrelas Episodio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV: A New Hope, EUA, 1977). A jornada de Anakin para se tornar Darth Vader é complexa principalmente pela profundidade do personagem, pois poucos personagens na história do cinema têm sua história revelada em seis diferentes filmes. Muitas questões atravessaram a vida deste personagem para transformá-lo, em sequencia cronológica, de herói para vilão e herói mais uma vez. Uma destas questões claramente exposta nos filmes de maneira a não ser negligenciada, em uma busca para entender essa transformação, foi sua relação com o poder. Darth Vader é, em sua mais simples caracterização, um personagem poderoso. Este poder (e sua busca por ele) regeu a vida de Anakin Skywalker de maneira que proporcionou para a psicologia uma exemplificação icônica de uma das possibilidades de relacionamento humano com o poder.

Em sua mais tenra idade Anakin Skywalker já era dotado de muita ambição. Filho de uma escrava, e consequentemente escravo, o jovem sonhava que um dia sairia voando em uma nave espacial para tornar-se um Jedi, voltar e libertar todos os escravos. Mas apesar de ser um jovem ‘diferente’, como sua mãe o descreve, ele nunca havia feito nada de pródigo. Sua ambição estava limitada em uma condição de ser escravo que lhe era imposta deixando o “sujeito a…” alguém, dentro de uma condição opressiva. Desta maneira se dá a primeira relação de Anakin com o poder. Neste cenário seu poder é limitado, Skywalker está subordinado à condição inerente herdada de sua mãe e por isso deseja ser mais poderoso para poder decidir entre ser livre e ser escravo por todos que estão na mesma condição. A mãe acredita que o jovem é altruísta e que não espera nada em retorno, mas podemos perceber que Ani espera a liberdade em retorno, como se ajudando os outros, em algum momento seria ajudado.

O tempo passa e o nosso herói desenvolve papel importante como general dentro das guerras clônicas. É atrevido, impulsivo e desleixado, por outro lado é criativo, confiante e habilidoso. Suas ações como general colocam o exército da República próximo à vitória. Em conjunto com suas habilidades, cresce também sua indiferença em relação à morte, por muitas vezes está convicto de que decidir pela vida de seus inimigos. Assim sua relação com os seus mestres Jedi torna-se cada vez mais delicada e tênue. Já sua relação com o chanceler anda “às mil maravilhas”, pois este insiste em bajular o jovem, agradando-o e sustento sua auto-imagem inflada. Ani permanece deslocado no meio desta “guerra fria” entre o Conselho e o chanceler. Mais uma vez nosso herói fica a “mercê de…”, por ambos os lados. Recebe o pedido de espionar os dois lados, funcionando como agente duplo, porém o jovem esperava este tipo de atitude do chanceler, mas não dos seus Mestres.

Durante um diálogo, Palpatine conta uma história para ele sobre um Sith que ao atingir o ápice de seu poder podia impedir as pessoas que amava de morrer. Vale ressaltar que Anakin já havia contato sobre seus pesadelos para o chanceler. Os pesadelos com Padmé se intensificam e o jovem começa a sonhar acordado com a morte da esposa. Anakin acredita ter encontrado um meio de salvá-la deste futuro. Sem uma análise mais profunda podemos nos precipitar e erroneamente constatar que a traição de Anakin foi devido a sua vontade de preservar a vida de sua esposa. Mas ao verificar os sentidos que o poder sobre a vida e morte tem perante toda a história de vida do personagem, tal constatação torna-se insuficiente. Temos que levar em conta a ânsia do jovem por poder, o poder de evitar as determinações incontroláveis da existência, por exemplo, a finitude. Acredita ter que possuir este seu dom, já que no fundo está colado na imagem de ser “o escolhido”. Ani sentia-se limitado pelas decisões do Conselho Jedi, enquanto o chanceler lhe oferece o “poder ilimitado”. O Jedi que nunca se satisfez com o seu estado e sua posição no mundo decide ter e ser mais.

Só há um sentido em sua vida agora, buscar poder. Torna-se paranóico, pois teme perder o poder que já tem, assim como perder a possibilidade de possuir mais. Em sua paranoia desconfia de sua esposa e quase a mata sufocada. Aqui constatamos que sua traição acontece por motivos egoístas e narcísicos. Anakin quer o poder para si, controlar sua condição e controlar o mundo a seu bel prazer. O pretexto de salvar Padmé perde o seu sentido, mostrando que suas ambições ultrapassam o altruísmo. Skywalker diz para sua esposa que eles poderão fazer as coisas como quiserem, afirma ser forte o suficiente para derrubar Sidious, e que juntos o casal poderá governar a galáxia. Aqui o jovem já se desorganiza todo, não sabe mais o que quer, está completamente cego e seduzido pelo poder. Obi-Wan Kenobi encarrega-se de impedir as ações malignas de seu aprendiz. Durante a épica batalha entre Skywalker e Kenobi um diálogo importante acontece, após sufocar Padmé, Vader diz:

Vader: Você a jogou contra mim!

Obi-Wan: Foi você mesmo que fez isso!

Vader: Não vai tirá-la de mim!

Obi-Wan: Sua raiva e cobiça pelo poder já fizeram isso! Permitiu que esse Lorde Sombrio fizesse sua cabeça, agora você se tornou aquilo que jurou destruir.

Vader: Sem sermões, Obi-Wan. Eu enxergo através das mentiras dos Jedis. Não temo o lado sombrio como você. Eu trouxe paz, liberdade, justiça e segurança ao meu novo Império.

Obi-Wan: Seu novo Império?

Vader: Não me obrigue a matar você.

Obi-Wan: Anakin, minha lealdade é para coma República. À democracia!

Vader: Se você não está comigo… então você é meu inimigo.

Obi-Wan: Somente um Sith é tão radical assim. Farei o que devo fazer.

Vader: Você vai tentar.

Vader está delirante, sua percepção de realidade totalmente deturpada torna-se uma ameaça. Acredita ser um herói e já possuir todo o poder que busca. Está tomado por ódio e seduzido pelo poder. Não percebe as consequências de seus atos e acredita apenas em suas versões de verdade. Não há mais o outro, a única coisa que importa é Vader. Após vencer a batalha e mortalmente ferir Vader, Kenobi se desespera:

Obi-Wan: Você era o escolhido! Devia destruir os Sith e não se juntar a eles! Trazer equilíbrio a Força e não deixá-la na escuridão!

Vader: Eu odeio você!

Obi-Wan; Você era meu irmão, Anakin. Eu amava você.

Vader é envolto em chamas e abandonado para morrer por seu antigo Mestre. Kenobi está frustrado, pois seu aprendiz se perdeu em sua destinação e por consequência seu treinamento falhou. Vader está totalmente impessoal e é só ódio. Acaba envolto por chamas, como se a cobiça e o ódio fossem uma chama que queima o ser até não restar mais nada. Pouco do homem que ali existia, ainda permanece. Quando seu corpo é reconstituído com anatomia robótica, Darth Vader está completo. Agora é mais máquina do que homem. O vilão apresenta um percurso de retorno à condição inicial, voltando a ser escravo, o que é contraditório ao seu projeto de vida inicial de libertar-se da condição de escravo. Torna-se escravo do Imperador, das máquinas que o mantém vivo e de sua culpa, por ter perdido sua mãe e esposa. Sente-se culpado por não ter este poder e por ter ido embora a deixando à mercê do destino. O mesmo sentimento de culpa transpõe-se para sua falha em relação ao seu projeto de vida: libertar todos os escravos, pois não tem este poder. Seu desejo por controlar a vida e a morte, e consequentemente o destino de todos, se transforma em desejo por controlar/escravizar os outros. Não foi o Jedi que deveria ser, não foi o escolhido, não tem o poder ilimitado. O escravo, agora escraviza, não liberta.


A Trajetória de um Perdedor: A Construção do personagem Darth Vader

O maior vilão da história do cinema é Darth Vader. A estrondosa bilheteria acumulada de seus filmes, somada aos resultados de centenas de enquêtes na internet, confirmam essa afirmação. É mesmo irrecorrível, é difícil negar que a criação de George Lucas possui atributos mais do que suficientes para receber tal título honorífico. Os físicos saltam aos olhos: armadura negra, mais de dois metros de altura, voz metálica, respiração pesada, sabre de luz sangüíneo etc. O currículo de maldades é farto: traiu e ajudou a destruir a Ordem da qual fazia parte, decepou em combate a mão do próprio filho, cortou pela metade o corpo de seu já idoso ex-mestre, chacinou a sangue-frio uma tribo inteira de beduínos, por capricho assassinou subalternos incompetentes, não teve escrúpulos em testar o perigoso procedimento de congelar um ser humano vivo em carbonita, usou sua influência política para espalhar o terror pela galáxia etc.

Curiosamente, a história de Darth Vader, apesar de todo seu poder e glória, é, na verdade, a trajetória de um perdedor. O filme Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith, último capítulo da saga de ficção científica, sedimenta sua vocação para a derrota. Em segundo lugar, deixa explícita a forma desordenada com que o personagem foi desenvolvido. O mito do vilão perfeito não resiste a uma análise mais apurada.

O personagem possui duas grandes fases. A primeira vai de 1977 até 1983, e compreende o período em que a primeira trilogia Star Wars foi lançada nos cinemas. Trata-se da chamada Sagrada Trilogia, tamanha sua importância para os rumos do cinema enquanto principal produto da cultura de massa no século XX. Com esses filmes George Lucas, praticamente, re-inventou o cinema moderno. Mas, como se sabe, a primeira trilogia conta a segunda parte da história. A primeira parte, que compreende a segunda fase do personagem, foi contada na segunda trilogia, lançada entre 1999 e 2005. Não chega a ser uma nova Sagrada Trilogia (essa honra cabe a série O Senhor dos Anéis), mas, apesar de muitos senões, possui seus méritos e foi um imenso triunfo financeiro. No século XXI, Star Wars deixou de ser objeto de culto para se tornar um grande produto, um bem corporativo.

O filme de 1977, intitulado inicialmente Star Wars e depois rebatizado como Episódio IV – Uma Nova Esperança (A New Hope), é uma pérola: divertidíssimo, ritmo quase perfeito, roteiro inteligente e quase sem furos, diálogos simples e eficientes. A direção de arte e os efeitos especiais eram revolucionários para a época. A magnífica trilha sonora, composta por John Williams, deliciosa de ser assobiada, possuía certa sofisticação semi-erudita. Sua qualidade inegável lhe garantiu um improvável lugar entre os finalistas para o Oscar de melhor filme. Em Uma Nova Esperança estabeleceu-se alguns dos conceitos que viriam a ser desenvolvidos posteriormente: a Força, Guerras Clônicas, Velha República, Ordem dos Cavaleiros Jedi, dentre outros.

Sua continuação, Episódio V – O Império Contra-ataca (The Empire Strikes Back), de 1980, não é nada menos do que uma obra-prima. Uma aventura épica como poucas: movimentada, trágica, centrada nos personagens. Contêm algumas das melhores cenas de batalhas já filmadas. Dessa vez, George Lucas concentrou-se na produção. Dividiu o roteiro com Lawrence Kasdan e cedeu a cadeira de diretor para o documentarista Irvin Kershner, depois de ver seu trabalho em Os Olhos de Laura Mars, de 1978. A visão intelectualizada de Kershner da ópera pop de ficção cientifica que era o primeiro Star Wars enriqueceu a saga, desenvolveu sua mitologia, deu-lhe ares de filme sério. Deixou para trás o estilo “matinê de sábado” de Uma Nova Esperança.

O longa seguinte, Episódio VI – O Retorno do Jedi (Return of the Jedi, título traduzido erroneamente como O Retorno de Jedi), de 1983, ficou aquém das expectativas. Lucas não quis que Kershner voltasse. Talvez para garantir sua autoridade criativa sobre a saga. O primeiro diretor escolhido, Steven Spielberg, por motivos diversos, não pôde aceitar a proposta. O cargo ficou com Richard Marquand, cineasta conhecido pelo gênio difícil. O resultado foi um filme infantilóide, mal escrito e interpretado com preguiça (sobretudo por Harrison Ford). O entrecho dramático é de novela mexicana: mocinho pobre apaixonado pela mocinha rica, que é apaixonada por seu melhor amigo, descobre que ela é na verdade sua irmã-gêmea, da qual foi separada na infância, e vai confrontar o pai ausente, de quem exige amor e compreensão. A missão dos heróis, o ataque à segunda Estrela da Morte, é, praticamente, uma refilmagem piorada do IV episódio. Apesar do festival de bizarrices foi um sucesso.

Concluída a primeira trilogia, o apelo de Star Wars permaneceu. Criou-se uma série de subprodutos que desenvolveram a história em outras mídias, tais como filmes para televisão, desenhos animados, livros, gibis, internet e videogames. É o chamado Universo Expandido. O sucesso de um de seus elementos, o livro Herdeiros do Império, lançado em 1991 pelo escritor Timothy Zahn, levou George Lucas a considerar que havia chegado o momento de retomar a saga. O resultado foi à reinvenção e reinterpretação, algumas vezes de forma equivocada, dos conceitos e entrechos dramáticos da Sagrada Trilogia.

Em 1999 foi lançado Episódio I – A Ameaça Fantasma (The Phantom Menace). Apesar do brilhantismo técnico, o filme é decepcionante. Depois de mais de vinte anos, George Lucas voltou a ocupar a cadeira de diretor. Ele, que se mostrou um cineasta competente em Uma Nova Esperança e na comédia dramática American Graffitti, estava totalmente fora de forma. Transformou um tiro certo em algo próximo do lastimável. Esse é, sem dúvida, o pior filme da série. Seus diálogos são dramaticamente pueris, os personagens frouxos e o humor tolo. Chega a desmoralizar alguns dos mais célebres conceitos da saga com explicações esdrúxulas. Vide a revelação de que a Força é produzida por umas “coisinhas” chamadas midichlorians. Desmoraliza personagens consagrados atribuindo-lhes origens esdrúxulas. O maior exemplo é o caso de C-3PO, originalmente um sofisticado autômato de protocolo. É revelado que o dróide foi criado para ajudar uma escrava em tarefas domésticas em um planeta desértico. Ignora o fato de que na Sagrada Trilogia os detentores da Força sentem a presença uns dos outros, mesmo a muitos quilômetros de distância. Torna-se inexplicável como o “sábio” Conselho Jedi não foi capaz de descobrir a identidade da “ameaça fantasma” por esse método. Descobrimos que o potencial de um jedi é medido por um Baralho Zener tecnológico. Talvez o mais grave: simplesmente esqueceu-se de usar o efeito “túnel de estrelas” nas viagens interestelares em velocidade da luz, um dos grandes achados visuais da primeira trilogia. Por essas e outras, A Ameaça Fantasma consegue ser ainda mais infantilóide do que O Retorno do Jedi. E, não podemos descartar a hipótese, talvez por isto tenha tido mais sucesso do que ele. Afinal, quando Lucas recriou o cinema moderno, criou juntamente o espectador anestesiado pelo visual, comedor compulsivo de pipoca, que está pouco ligando para a substância do que vê na tela. O importante é que a imagem seja arrebatadora.

Lucas esteve melhor em Episódio II – O Ataque dos Clones (Attack of the Clones), de 2002. Se este longa não é um primor, não chega a comprometer. Apesar de o título escolhido ter sido ridicularizado pelo extremo mau-gosto, o filme em si foi um pouco melhor roteirizado (Lucas dividiu o roteiro com Jonathan Hales) e o apuro técnico continuou irrepreensível. Contêm algumas boas cenas de ação. Destaque para o surreal duelo entre Yoda, o personagem mais carismático da série, e o Conde Dookan, interpretado pelo sisudo Christopher Lee. Um combate entre cômico e empolgante. Infelizmente, O Ataque dos Clones não desenvolve a história tanto quanto poderia, obrigando o episódio posterior a se desenrolar às pressas para conseguir cobrir todo o enredo. O resultado é que o público ficou privado de acompanhar as célebres Guerras Clônicas dentro do enredo principal da nova trilogia. Testemunhamos apenas seu início e seu termino. As séries animadas Clone Wars, vinculadas na TV e no cinema, tentaram suprir esse vácuo.

Em 2005 foi lançada a última parte, Episódio III – A Vingança dos Sith (Revenge of the Sith), com Lucas novamente na direção. Dessa vez entregou um bom filme, o terceiro melhor dentre os seis. Inferior apenas ao insuperável O Império Contra-ataca e ao ótimo Uma Nova Esperança. É bem verdade que o roteiro e os diálogos não são muito equilibrados, apresentando várias pontas soltas e tempos mortos, mas cumprem seu papel a contento. A ação é espetacular e acaba por diminuir o efeito dos equívocos narrativos. A platéia é seduzida pelo deslumbrante espetáculo visual.

Infelizmente, em se tratando de Star Wars, uma história sagrada para várias gerações de nerds, um erro mínimo é um grande erro. Os espectadores mais exigentes não podem deixar de notar a evidente pouca habilidade de Lucas em lidar com o Universo que ele mesmo criou três décadas antes. Uma sensação sacrílega, mas incomodamente real. Lucas é um fomentador de inovações técnicas sem igual, mas há tempos está com o talento de escritor enferrujado. Algumas de suas decisões se mostraram absurdamente equivocadas. Por exemplo: como justificar que o poderoso Yoda não conseguiu derrotar um já combalido Imperador, enfraquecido pelo duelo com Mace Windu? Como explicar a morte da heroína no parto porque “perdeu a vontade de viver”? Qual o sentido de dar uma aparição tão pífia e gratuita a Chewbacca (Peter Mayhew)? Se era para ser tão pouco, não seria mais interessante fazer o wookie figurar já nos episódios I ou II, talvez ocupando o espaço preenchido pelo insuportável Jar Jar Binks? Em termos de direção de cena, o que pode ser menos inspirada do que a “estréia” ao estilo Criatura de Frankenstein de Darth Vader? Seja como for, está feito. Agora sabemos de tudo.

Nos filmes da Sagrada Trilogia, os espectadores têm a impressão que o personagem principal é o Luke Skywalker de Mark Hamill. Assistindo ao conjunto de seis longas percebemos que o verdadeiro protagonista é seu pai, Anakin Skywalker, o homem que um dia se transformaria em Darth Vader. A saga Star Wars conta a sua história: seu nascimento miraculoso, infância sofrida, anos de formação, ascensão, queda, carreira maléfica, martírio, redenção e vitória sobre a morte.

No mínimo, sete atores interpretaram o personagem. Os dois principais foram David Prowse e James Earl Jones. O primeiro, ex-fisiculturista, contribuiu com seu porte aristocrático e físico avantajado. Uma curiosidade: Prowse, que possui raras aparições cinematográficas no currículo, pode ser visto sem máscara no papel do grandalhão de shortinho vermelho que carrega no colo o protagonista de Laranja Mecânica. O consagrado ator negro James Earl Jones contribuiu dublando Prowse. Emprestou sua voz grave e possante a Darth Vader. Sem ela o personagem não seria o mesmo. Não seria um clássico da imitação vocal, tão popular quanto o Pato Donald ou Vito Corleone.

David Prowse, o primeiro ator a vestir o manto negro.

Também contribuiu o esgrimista Bob Anderson, e os atores Sebastian Shaw e C. Andrew Nelson. Anderson, especializado em treinar atores na arte do manuseio da espada, encarnou Vader em muitas de suas cenas de duelo. Prowse era lento e pesado demais para realizá-las. Contudo, quando a máscara negra foi retirada no final de O Retorno do Jedi, debaixo de pesada maquiagem, o rosto carcomido pelo mal que apareceu foi o de Shaw. Nelson vestiu a armadura negra em algumas cenas extras, especialmente filmadas para a edição especial de O Império Contra-ataca.

Em sua segunda fase, a fase cara-limpa, seus interpretes foram Jake Lloyd e Hayden Christensen. O primeiro fez Anakin Skywalker ainda criança, em seu planeta natal, o desértico Tatooine. Uma escolha infeliz. O jovem Lloyd é um dos piores atores infantis já vistos nas telas. Muito limitado, não convence em momento algum fazendo um tipo tão profundo e complexo. Parece extra de um daqueles filmes de animais fofinhos produzidos pela Disney. O amigo do amigo do amigo do herói. Apesar de não ser brilhante, Christensen saiu-se um pouco melhor, interpretando-o no final da adolescência e na vida adulta. Ator esforçado, ele chegou a ganhar cerca de quinze quilos de massa muscular para poder vestir a armadura negra no final de A Vingança dos Sith, quando, finalmente, Anakin Skywalker tornou-se o maior vilão da história do cinema.

Um grande vilão para quem nada dá muito certo. A rigor sua primeira aparição foi em Uma Nova Esperança. Aqui Vader está sempre em segundo plano. É um coadjuvante de luxo. Aparece bem menos do que a fama adquirida posteriormente faz imaginar. Tampouco é muito prestigiado. Da forma com que é apresentado temos a impressão de que não é muito mais do que um burocrata paramilitar. A estrutura do Império Galáctico remete diretamente ao nazismo alemão. Seu superior imediato nem mesmo é o Imperador, e sim o comandante da estação espacial Estrela da Morte, Moff Tarkin, interpretado por Peter Cushing. A prisioneira princesa Leia Organa (Carrie Fisher), encontrando os dois juntos, chega a resmungar desaforada: “Governor Tarkin, i should have expected to find you holding Vader´s leash” (sim, nesta galáxia muito, muito distante o principal idioma é o basic, muito, muito parecido com o inglês da Terra), ou algo como: “Governador Tarkin, já esperava encontrá-lo com Vader na coleira”. Na verdade, Vader não parece ter aqui uma posição muito bem definida na hierarquia do Império. Diversos outros oficiais tratam-no como igual ou mesmo o inferiorizam. É visto como uma anacrônica relíquia de um passado perdido. Um feiticeiro supersticioso, ao qual não precisam necessariamente temer ou tratar com respeito.

Comandante Moff Tarkin

Seu duelo com o Obi-wan Kenobi de sir Alec Guinness, seu antigo mestre, parece final de campeonato de esgrima da terceira idade. Lento, lentíssimo. Mas está correto. Afinal, a luta é travada entre um idoso e um deficiente físico. A rigor é isto que Vader é: um homem muito doente. Sua armadura negra, para além de um símbolo opressor, tem uma função pragmática: mantê-lo vivo. Trata-se de um complexo sistema de manutenção de vida, uma espécie de UTI móvel particular. Sua respiração pesada não é um mero capricho sonoro, é dificuldade mesmo. O que talvez tenha sido estabelecido a posteriori, uma vez que, inicialmente, a máscara foi concebida para ajudá-lo a respirar no vácuo, tendo Lucas depois mudado de idéia e ela de função.

Kenobi foi o responsável por deixá-lo assim. Para Vader este combate significava sua chance de vingança. Na primeira vez que lutaram, Kenobi foi o vencedor. Na revanche o resultado é diferente, mas não muito. A vitória de Vader é ilusória. Kenobi deixou-se derrotar para poder se unir a Força e guiar os passos de Luke Skywalker. Em certo sentido, derrotou seu pupilo uma segunda vez.

O dia não é mesmo dos melhores. Pouco depois, quando Darth Vader, que se considera o melhor piloto da galáxia, está perseguindo com seu ultra-sofisticado caça, modelo TIE-Figher Advanced, a nave de Luke Skywalker, um X-Wing padrão, estando prestes a destruí-lo, é atingido pelo ferro-velho mais veloz do universo, o Millenniun Falcon, pilotado pelo mercenário fanfarrão Han Solo (Harrison Ford). Não pode reclamar muito, sobrevive por sorte. Dupla sorte, pois também escapa da explosão da Estrela da Morte. Resta-lhe uma indigna retirada estratégica.

Voltamos a encontrá-lo em O Império Contra-ataca, que se passa cronologicamente cerca de três anos depois dos eventos do capítulo anterior. Nesse filme, Darth Vader é realmente grande. Um vilão cruel, ambicioso e sofisticado. O excelente roteiro burila inclusive uma sagaz aproximação do personagem com o mito de Cronos, o titã grego que devorou os próprios filhos. Amparado por estas referências eruditas, Vader vive seus melhores momentos. O que significa os piores momentos para os outros personagens. Agora, nem mesmo o mais alto oficial do Império deixa de tremer em sua presença. Acabaram-se as ironias. É, finalmente, o segundo em comando. Abaixo apenas do Imperador. E o melhor: planeja um golpe de Estado.

Em O Império Contra-ataca vemos Darth Vader travar com Luke Skywalker o melhor duelo de sabres de luz de toda a saga, nos porões de Bespin, a Cidade das Nuvens. Vader, depois de derrotá-lo, decepar sua mão e encurralá-lo em uma ponte, revela para Luke que é seu pai. Deseja tê-lo a seu lado para completar seu treinamento. Juntos poderiam derrotar o Imperador, destroná-lo. Governariam a galáxia como pai e filho, mestre e discípulo. Seu discurso sobre o poder do Lado Negro da Força é fantástico. Mas, Luke, claro, não aceita a sedução e foge saltando no vazio, sendo resgatado por Leia Organa. O close da máscara negra, impassível, consegue transferir para o espectador toda a decepção e rancor de Vader. Na seqüência seguinte ele aparece caminhando solitário e poderoso na ponte de comando de seu cruzador. Não desistirá de seus planos.

Mas desistiu. Em O Retorno do Jedi, depois de algumas boas seqüências iniciais, Darth Vader mostra o quanto é volúvel. Quando finalmente têm seu filho a sua mercê, desarmado, levá-o para o Imperador. Abortou o plano de destroná-lo. Obedeceu subserviente as ordens de seu mestre. Voltou a ser dócil como um cachorrinho treinado. Na coleira, como disse sua filha Leia Organa. Estranhamente esta docilidade representou um passo consciente para o suicídio.

Darth Vader é um lorde sith, um jedi dominado pelo Lado Negro da Força. Pela tradição dos sith, eles jamais podem exceder o número de dois. Um mestre e um discípulo. A observância desta lei é vital para o equilíbrio de poder. Se forem três, fatalmente dois se uniriam contra o terceiro e depois acabariam lutando entre si.

O objetivo do Imperador era alimentar o ódio de Luke Skywalker até levá-lo para o Lado Negro da Força. Com o poder do Lado Negro poderia destruir Darth Vader e substituí-lo como seu aprendiz. Vader foi uma decepção para o Imperador. Jamais pôde desenvolver todo seu potencial. É, portanto, substituível por um jedi mais jovem e poderoso.

Depois de muito hesitar Luke Skywalker acaba duelando uma segunda vez com seu pai. Inicialmente apenas se defende. Depois, quando Vader ameaça converter não mais ele e sim sua recém-descoberta irmã-gêmea, Leia Organa, Luke se enfurece e ataca com toda a força. Derrota o pai desnaturado com facilidade. Decepa sua mão direita, uma mão biônica. Contudo, apesar do ódio liberado o jovem jedi não abraça o Lado Negro da Força. Frustrado, o Imperador decide matá-lo. Ataca-o com raios que saem de suas mãos (em uma seqüência de efeitos especiais de extremo mau-gosto). Neste momento ocorre a redenção do maior vilão da história do cinema. Penalizado com o sofrimento do filho, Vader, repentinamente de volta ao lado bom da Força, daí o título do filme, agarra o Imperador e o lança no poço do gerador de energia da Segunda Estrela da Morte. A explosão resultante deixa-o a beira da morte.

O que vêm a seguir é piegas até o último fotograma. Pedido de perdão, morte feliz, cremação do corpo, aparição do espírito ao lado dos antigos amigos Obi-wan Kenobi e Yoda (em 1983 aparecia Sebastian Shaw, na edição especial de 2004 o fantasma é Hayden Christensen). Desfecho patético para o maior vilão de todos os tempos. Um final feliz com sabor amargo.

Se o final da história é fraco, não se pode considerar que o início foi diferente. Voltando décadas no tempo, durante os eventos narrados em A Ameaça Fantasma, reencontramos Vader na infância, ainda como Anakin Skywalker. É um escravo de dez anos de idade. Segundo sua mãe, sua concepção foi virginal e segundo seu descobridor, o mestre jedi Qui-Gon Jinn (Lian Neeson), ele é uma espécie de messias que trará equilíbrio a Força. Duas pouco convincentes referências bíblicas. Depois de ganhar uma corrida de bigas turbinadas, numa citação explicita de Ben-Hur, e de miraculosamente destruir uma nave espacial inimiga, torna-se um padawan, um aprendiz jedi. Impressiona o então senador Palpatine (Ian McDiarmid), futuro Imperador, que promete acompanhar de perto sua trajetória. Com toda razão, pois é um jovem promissor. Ninguém jamais teve tantos midichlorians quanto ele no sangue (!!??).

Quando o encontramos dez anos depois, em O Ataque dos Clones, Anakin já é um jedi quase formado. Sua personalidade sombria transparece pelas roupas que veste, sempre mais escuras do que as de seus confrades. Apesar de reconhecidamente talentoso não inspira confiança aos líderes da Ordem, Yoda e Mace Windu (Samuel L. Jackson). Sua instabilidade emocional pode conduzi-lo ao Lado Negro da Força a qualquer momento. Basta fraquejar.

E fraqueja. Primeiro por ceder ao amor. Apaixona-se pela ex-rainha, agora senadora, Padmé Amídala (Natalie Portman). Envolvimentos sentimentais são proibidos aos jedis. São como monges das antigas Ordens Militares medievais terrestres: guerreiros e clérigos ao mesmo tempo. Fraqueja por deixar-se dominar pelo ódio. Quando sua mãe morre em seus braços, massacra uma aldeia inteira de nômades do Povo de Areia, de Tatooine, que a seqüestraram e torturaram. Os jedis devem usar suas habilidades apenas para se defender ou para cumprir alguma missão, jamais em vinganças pessoais. Fraqueja por ser orgulhoso e alto-confiante em demasia. Considerando-se o melhor espadachim da galáxia, ataca sozinho o sith Conde Dookan. Leva a pior. Tem metade do braço direito decepado. É salvo da morte pelo pequeno mestre Yoda.

Ao final do filme casa-se em segredo com Padmé. No lugar do braço ostenta uma prótese biônica. Há mesma que décadas depois será cortada por seu filho.

Reencontramos Anakin Skywalker três anos depois, em A Vingança dos Sith, como um veterano da Guerra dos Clones. Uma cicatriz no rosto dá testemunha do quanto já lutou. É um herói de guerra. Seu último grande feito foi o resgate do senador Palpatine, agora Supremo Chanceler da galáxia. Para isto precisou enfrentar novamente o Conde Dookan. Dessa vez foi o vitorioso. Pressionado por Palpatine, degola a sangue-frio seu já rendido adversário. Um grande passo para a perdição.

Além de hábil político Palpatine é também Darth Sidious, um mestre sith. Pouco a pouco seduz o instável Anakin Skywalker, disposto a transformá-lo em seu aprendiz. Começa convencendo-o que os líderes da Ordem Jedi o desdenham e desrespeitam. Não reconhecem seus serviços como deveriam. Pior, são inimigos da República. Planejam um golpe de Estado. O passo seguinte é lhe prometer o segredo para vencer a morte usando o poder do Lado Negro da Força. Tal promessa, a essa altura, equivale a vender a Torre Eiffel a um turista que alimenta pombos em Paris. Mas Anakin cai. Fácil deduzir o motivo. Obi-wan Kenobi, em uma cena de Uma Nova Esperança, ensinou em basic que: “The Force can have a strong influence on the weak-minded”, ou algo como: “A Força pode ter firme influência sobre mentes fracas”. Anakin, a despeito de seu imenso poder, quando jovem, nunca foi conhecido por sua inteligência e percepção. Melhorou com a idade.

Certamente não foi a mesma estratégia que converteu, digamos, o Conde Dookan. As razões pessoais também contam. Com Anakin não foi diferente. Na Sagrada Trilogia somos levados a imaginar que tudo se deu em função de sua sede de poder. Nada mais errado. Pura maledicência. Em A Vingança dos Sith descobrimos que a queda aconteceu (suspirem!) por ele amar demais. Anakin, em seus pesadelos, previu a morte da esposa. Padmé está grávida. O mesmo aconteceu às vésperas da morte de sua mãe. Não deixará a desgraça se repetir. Quer salvar sua família a todo custo, mudar o destino. Acredita que de posse do segredo prometido por Palpatine pode fazer isto. Cheio de boas intenções abraça o Lado Negro da Força. É rebatizado como Darth Vader (o sentido e a origem do nome não são explicados). Os olhos vermelhos sublinham a mudança.

Começa um banho de sangue. Primeiro Vader ajuda Palpatine a assassinar Mace Windu. Em seguida parte para o Templo Jedi, onde massacra alguns ex-confrades e dezenas de crianças, aprendizes padawans. Pouco depois parte para Mustafar, um planeta vulcânico, com a missão de eliminar os líderes separatistas que, mancomunados com Darth Sidious, fizeram eclodir a Guerra dos Clones. A traição garante ao Supremo Chancelar o estado de emergência que o eleva a condição de Imperador. A República foi derrubada. Os jedis são declarados inimigos do novo regime e eliminados. Alguns poucos conseguem fugir e se esconder. Vader foi um peão neste jogo.

Resta um confronto final. Entre Darth Vader e Obi-wan Kenobi, interpretado dessa vez pelo hábil espadachim Ewan McGregor. Nada de lentidão. São dois guerreiros no auge do poder. O combate é violentíssimo, as raias do exagero, repleto de golpes improváveis e saltos impossíveis. O cenário são os rios de lava de Mustafar. Em princípio é um confronto desigual, o discípulo é muito mais poderoso do que seu ex-mentor. Mas Kenobi é experiente: já derrotou o temido caçador de recompensas Jango Fett, o líder separatista general Grievous e até mesmo um lord sith, Darth Maul, antigo aprendiz de Darth Sidious. O duelo se prolonga. Essa parece ser a estratégia de Kenobi. Dá certo. Novamente o excesso de confiança de Darth Vader é sua perdição. Um ataque mal planejado lhe custa as duas pernas e o braço esquerdo, decepados pelo sabre de luz do adversário.

Incapaz de dar o golpe de misericórdia, o mestre abandona às portas da morte o discípulo rebelde. Sem poder se mexer, o corpo de Vader é queimado pelo calor abrasador da lava. Salva-o a chegada de Palpatine. Está quase irreconhecível. O novo Imperador recolhe o moribundo e, em um doloroso tratamento médico, o reanima, encerrando-o em sua armadura mantenedora de vida. Para garantir seu desligamento de seus antigos laços afetivos, o Imperador lhe diz que sua esposa e seus filhos estão mortos. Trata-se de uma meia verdade. Padmé faleceu no parto, mas os recém-nascidos Luke e Leia resistiram e foram escondidos por Kenobi (o que significa que Leia é dotada de extraordinária memória, uma vez que afirmou ter lembranças da mãe). Vader acredita no pior. Fracassou com sua mãe, fracassou com sua esposa, fracassou com seus filhos.

Para além das cicatrizes psicológicas, as físicas jamais se fecharam. Darth Vader nunca se recuperou dos ferimentos desse combate. Ficou incapacitado de evoluir, desenvolver seus poderes, tornar-se o sith super-poderoso que potencialmente poderia ser. Reduziu-se a uma sombra de si mesmo. Uma sombra amargurada, que jamais recuperaria seu orgulho. Quem bate esquece, quem apanha jamais. A derrota para Kenobi nunca foi esquecida ou superada. Esse assunto não é tratado nos filmes, mas podemos deduzir que sua condição delicada de saúde o fez perder inclusive sua posição como segundo na hierarquia do Império, para Moff Tarkin. O que equivale dizer que Darth Vader foi rebaixado.

A rigor, como procurei demonstrar, a fama do personagem, e seu alcance enquanto ícone do mal, foi cimentada por um único filme: O Império Contra-ataca. Um dentre seis. Nos outros, na maior parte das vezes, Darth Vader é mero fantoche nas mãos de poderosos ou do redemoinho do destino.

Segundo as especulações de bastidores esta instabilidade do perfil do personagem deu-se em grande parte devido às diferenças criativas entre George Lucas e seu produtor Gary Kurtz, o maior responsável pela logística de O Império Contra-ataca. Disposto a fazer um conto de fadas espacial, com final feliz obrigatório, o todo poderoso Lucas afastou Kurtz de O Retorno do Jedi. Graças a esta questionável decisão corporativa a carreira de Vader como vilão de primeira grandeza foi abortada. O Imperador é promovido à principal representante do mal em Star Wars. Dos males o menor, o que certamente representou uma opção artística equivocada não se converteu em perda financeira. Em Hollywood, na maior parte das vezes, é isso que define um sucesso.

Mas, sejamos justos, o problema não foi o projeto, foi sua execução. Não é despropositado considerar que o rumo escolhido pretendia acrescentar densidade psicológica a Darth Vader. Apresentar suas motivações, aproximando-o do mito do Fausto. Não o Fausto de Marlowe, e sim o Fausto de Goethe. Um herói trágico que cai, mas se redime. Maldade gratuita raramente se sustenta. A rara exceção talvez seja o Iago de Otelo, de Shakespeare. Via de regra, é preciso substância, humanizar o personagem. Certamente as intenções foram boas. Porém, como diz o sábio ditado jedi, o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções. O saldo final decepciona porque sabemos que sequer poderemos encontrar o dito maior vilão de todos os tempos queimando nos quintos deste mesmo inferno. Como respeitar um escroque que termina a história com asinhas de anjo?

O que, aliás, nos coloca diante de uma série de graves questões: bastou o arrependimento? Até que ponto sua redenção é aceitável? No circulo familiar, sim, mas também na esfera pública? Darth Vader, um reconhecido psicopata sádico e amoral, viu-se subitamente limpo de toda sua vida de crimes unicamente porque retornou ao lado bom da Força? E as criaturas que matou? E os planetas que explodiu? Serão esquecidos? E quanto à justiça? Ele não deveria ser julgado em um tribunal interestelar, acusado de praticar terrorismo de Estado, como na Terra aconteceu com Saddam Hussein e Slobodan Milosevic? Escolheu a morte, como forma de escapar da pena e do achincalhe público, como na Terra fez Hitler? Os conceitos de Lado Bom e Lado Negro da Força, tendo origem religiosa, seriam aceitos em juízo? Sua memória será honrada pela nova ordem governamental estabelecida por seus filhos, Luke e Leia? Darth Vader / Anakin Skywalker será elevado à condição de herói, somente porque matou o Imperador? Mas não foi um ato passional? Ou melhor, não foi um crime de lesa majestade? Existe justiça nesta galáxia muito, muito distante???!!!

Em um julgamento isento a única estratégia possível de defesa seria uma alegação de insanidade. Insanidade temporária. Durou quase três décadas. Não há mais nada a fazer. O fato é que Anakin Skywalker falhou em quase tudo, inclusive em ser Darth Vader. Não basta ser bom para ser mal.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

Reboot do Universo DC – Uma análise

Recentemente a editora DC Comics anunciou que iria reiniciar toda a cronologia de seu universo (de novo), com a justificativa de angariar novos leitores. A reformulação ocorrerá após o término da saga Flahspoint, e está prevista para setembro. A editora anunciou uma revisão completa nos uniformes dos heróis com designs modernos de Jim Lee, que capitaneia a empreitada ao lado do consagrado roteirista Geoff Johns, e também mudanças palpáveis na temática.

Bem, o anúncio pegou os fãs de surpresa e a comoção negativa foi tão grande que me leva a questionar se a editora realmente terá coragem de levar em frente essa ideia – pela menos da forma como foi anunciada.

Aparentemente, os heróis serão rejuvenescidos. Os anúncios oficiais da editora indicam que a cronologia não será zerada (como em Crise Nas Infinitas Terras), mas adaptada. A única coisa que será zerada é a numeração das revistas, mas os fãs temem que as alterações sejam demasiado radicais.

Sem entrar no mérito da qualidade das histórias – pois sequer vimos os resultados, portanto uma análise coerente carece de sustentação – gostaria de discutir a postura da editora e, desta forma, discutir o mercado editorial norte-americano de uma forma geral.

Que o mercado está em retração, todos sabem. Apesar de ter se estabilizado e recuperado da crise monumental que o abalou durante os anos de 1990, é notório que jamais o mercado de HQs conseguirá o mesmo destaque e visibilidade que teve na Era de Ouro, quando as tiragens ultrapassavam a casa dos milhões (isso em uma época em que havia bem menos gente no mundo).  A grande preocupação das editoras hoje é como atrair novos leitores – pois é notório que os jovens consomem filmes, videogames, desenhos animados, bonequinhos, porém ficam longe dos quadrinhos. De acordo com as editoras, isso se deve ao fato de que ao dar de encontro com décadas de cronologia, os leitores potenciais desistem de acompanhar seus personagens, desanimados com o montante de informação que precisam absorver.

A solução encontrada? Reformular!

O que as editoras não entenderam até o momento é que não são as reformulações (ou reboots, termo usado nos EUA), que atraem novos leitores, mas simplesmente boas histórias. Não faz muito tempo que Crise de Identidade, uma aventura espetacular, foi sucesso de público e crítica – e era uma aventura fechada, sem grandes ramificações, que não dependia de conhecimento prévio para ser compreendida. Qualquer leitor novo que começasse sua leitura por aquela aventura seria arrebatado por sua qualidade e pela fácil compreensão, mesmo a história contando com coadjuvantes desconhecidos do público em geral.

Tudo indicava que a editora iria seguir essa linha de publicação, mas logo depois começaram as infindáveis e confusas outras Crises, que foram jogando a reputação da DC na lama. Para cada boa história do Lanterna Verde, por exemplo, tínhamos uma dúzia de outras que não  atendiam às expectativas dos leitores. Personagens carismáticos como Novos Titãs, liga da Justiça, Mulher Maravilha e Superman passavam por fases terríveis, e empreitadas editoriais como a minissérie 52 não ajudaram em nada.

Já faz um bom tempo que afirmo que a cronologia deveria simplesmente ser abolida. Não me refiro a deixar tudo um samba do crioulo doido, um determinado grau de continuidade precisa ser mantido, porém todos esses detalhes circunspectos, minúcias, e confusões que foram se acumulando, deveriam ser simplesmente ignorados.

Por exemplo, já imaginou se quando Garth Ennis assumiu o Justiceiro, ele tivesse se preocupado com a cronologia do personagem? Que tal seria explicar o Justiceiro-Anjo? Personagens da Pré-Era de Ouro jamais se preocuparam com cronologia, como Fantasma e Mandrake. Existia uma continuidade básica e que era respeitada por todos escritores, mas a vida deles jamais se tornou aquela loucura indecifrável que é a vida dos X-Men, por exemplo, da qual não se entende praticamente nada.

A criação de um universo novo pode atrair alguns leitores, é verdade, foi o caso do Universo Ultimate – sucesso de público – porém o mais curioso é que após um período de histórias, esse próprio universo adquiriu cronologia própria (e confusa) e acabou sendo zerado. Fora isso, qual foi realmente o percentual de novos leitores? Talvez 15%? Ainda que fosse 50! Será que a criação de um novo universo é a tábua de salvação para o mercado editorial das HQs norte-americanas?

Decididamente não.

Quero levantar alguns pontos aqui.

Ao se preocupar com angariar novos leitores e deixar de lado os que já são fieis, o que a DC está fazendo é simplesmente dizer que não se importa com quem a prestigia. Por exemplo, imagine que o Batman seja lido por 15.000 leitores no mundo (um número hipotético). Com esse reboot, a editora está dizendo nas entrelinhas que esses 15.000 leitores não são importantes – o que importa são os 18.000 que querem conseguir. Dessa forma, fidelização não parece ser um fator decisivo – e esse pensamento é uma falha grave em qualquer empresa.

Por exemplo, imagine que a Danone venda 15.000 Danoninhos  por mês. Esses clientes gostam do sabor do iogurte, por isso o compram. Mas de uma hora para outra, a empresa resolve mudar completamente todos os sabores, com a justificativa de angariar novos clientes. Ou seja, quem compra mensalmente o iogurte e prestigia a empresa (em alguns casos há anos), as pessoas que tem carinho por ela e a ajudaram a crescer; essas pessoas estão sendo completamente descartadas – em prol da aquisição de novos clientes. Isso é um enorme desrespeito com o consumidor. Por isso que as empresas em geral, antes de tomarem uma atitude radical como uma mudança de sabor, fazem milhares e milhares de pesquisas, para escutar a opinião do público – e tomarem, assim, uma decisão embasada.

Ninguém simplesmente muda seu produto – a cara do produto, o sabor, a forma à qual todos estão acostumados – ao seu bel prazer, correndo o risco de enfurecer o consumidor.

Mas por algum motivo, o fã, que tem uma relação passional com seus personagens, é muito mais paciencioso que os consumidores em geral. Se o consumidor não gostar do novo sabor do Danoninho, ele simplesmente compra um iogurte de outra marca. Infelizmente, não existe outro Batman, ou outro Superman – apesar de existirem produtos similares.

Por mais que haja uma competição entre editoras, cada personagem é único – e essa singularidade faz com que as editoras sintam-se no direito de tomarem as decisões que bem entendem. Mas isso não está certo, e o que os editores estão perdendo de vista é que ninguém prevê o amanhã – e decididamente quando Fantasma e Tarzan vendiam 1 milhão de exemplares há 40 anos atrás, ninguém esperava que eles perdessem sua conectividade com o público. Mas essas coisas acontecem – e a função do editor é prevenir que algo assim aconteça, mantendo o interesse do público vivo. E a única maneira de se fazer isso é com boas histórias, nem mais, nem menos.

Turok, por exemplo, tornou-se um astro do videogame – porém seus gibis não vendem nem um quinto do que vendiam na década de 60 e 70. Portanto, a exposição do herói em outra mídia não é garantia de vendagem nos quadrinhos. Hoje, por mais que uma linguagem sustente a outra, cada qual precisa ter seu próprio apoio, sua própria independência e capacidade de se manter, sem depender de intervenções externas.

Um bom exemplo recente do uso da continuidade independente da cronologia é a série de Jonah Hex, que com a política de trabalhar histórias curtas e de qualidade em detrimento a longas sagas, obteve um êxito raro: manter a consistência e sucesso de crítica e público em uma época em que revistas de faroeste estão absolutamente fora de moda e sem credibilidade. Isso prova que qualquer gênero pode subsistir e prosperar; basta que seu criador saiba o que está fazendo. Essa é a mensagem que todas editoras deveriam incorporar e, no meu entendimento, não é algo assim tão difícil de ser feito.

Leia mais sobre o assunto nesse post da coluna Café com Quadrinhos.
Confira também a resenha de Justice League #01 que inaugurou a nova DC Comics.