A Segunda Queda de Lúcifer

“O Demônio tem

mãos macias

hálito perfumado

e voz melíflua.

De outro modo

como seduziria alguém?”

jjLeandro, em Quase Ave

O Príncipe das Trevas é um fracote. Cheguei a essa conclusão. Para confirmar isto basta olhar ao redor. Se ligar a televisão pode ver um monte de ex-serventes de pedreiro transformados em pastores insultando e expulsando diabos mil de pessoas que ainda são serventes de pedreiro. Repetem a performance no rádio, acrescendo mais berros para suprir a falta das imagens. Se prestar um pouco de atenção nos discos de heavy metal que o filho adolescente de seu vizinho escuta no último volume vai constatar que aparentemente todas as bandas firmaram pactos com o Tinhoso (sem esquecer que existem exceções, os inclassificáveis Metaleiros do Senhor, uma espécie de Atletas de Cristo da cena rock). Roqueiros cabeludos são os faustos pós-modernos. No cinema a situação é ainda mais grave. Ao invés das produções mambembes dos tais programas de TV e rádio, são torrados milhões e milhões de dólares em filmes tecnicamente irrepreensíveis, realizados pelos melhores profissionais da área, para fazer o Chifrudo fazer papel de palhaço.

Ultimamente o Capeta virou saco de pancadas de astros de Hollywood. Basta puxar pela memória. Na irregular trilogia A Profecia, que começou muito bem, o Rabudo tem um final patético. O Diabo com rabo-de-cavalo de Jack Nicholson, em As Bruxas de Eastwick, leva uma sova histórica do trio de feiticeiras do título. Até a chacrete da Cher bate sem dó. O genial Al Pacino se transformou em um careteiro da pior espécie em Advogado do Diabo, incapaz de ludibriar Keanu Reeves. O seu Michael Corleone, que interpretou na série O Poderoso Chefão, provou ser muito mais esperto, frio e interessante do que Belzebu. Até mesmo no bom Hellraiser – Renascido do Inferno, um batalhão de demônios Cenobitas não conseguiu sequer alcançar a apavorada mocinha da fita em sua desabalada correria final. Mais recentemente Arnold Schwarzenegger, numa fase em que o bom senso o mandaria para uma clínica geriátrica e não para uma missão em que devesse salvar o mundo, deu uns bons tabefes no Senhor das Moscas, em Fim dos Dias. Mas tudo bem, idoso ou não, o governador da Califórnia sempre será um inimigo duro. Perder para ele não é vergonha. Dose para elefante é apanhar do espertinho Eddie Murphy no exagerado O Rapto do Menino Dourado. E por aí vai: são centenas de outros títulos. A maioria lixo classe B. Não há espaço no inferno para tanta humilhação.

Vai-se longe o tempo em que Satanás tinha classe. E nem me refiro a clássicos da literatura universal como Paraíso Perdido ou os Faustos de Marlowe, Goethe ou Thomas Mann. Nem é preciso pedir tanto. Basta lembrar de O Bebê de Rosemary, de 1968, que de tão forte acabou fomentando no ano seguinte o assassinato real da esposa do diretor, Roman Polanski, a atriz Sharon Tate, por um grupo de satanistas loucos liderados por Charles Manson. Ou ainda do primeiro O Exorcista, de 1973, uma pérola do horror que gerou até agora quatro continuações horrorosas. Não neguemos que o Anjo Caído feito por Viggo Mortensen, em Anjos Rebeldes, tem lá seu estilo. Mas, em se tratando de encarnações cinematográficas do Old Man, O Velho, como é chamado na Escócia, nenhuma supera a composição de Robert De Niro em Coração Satânico, que Alan Parker dirigiu em 1987. Se existe um Demo, é Ele. Ali nos temos um Lúcifer (o personagem de De Niro é apresentado como um milionário excêntrico chamado Louis Cypher) digno da frase que Shakespeare imortalizou em Rei Lear: “The Prince of Darkness is a gentleman”, ou seja: “O Príncipe das Trevas é um cavalheiro”. E, que os crentes em Deus não se enganem, Ele precisa ser. Caso contrário a visão dualista de mundo, equivocadamente entranhada no que se pode chamar de cristianismo popular, fica seriamente comprometida. Afinal, que méritos haveria para a turma do “bem” se seu adversário, a essência do “mal”, for um mero idiota com chifres e rabo?

Robert De Niro no papel de Lúcifer, insuperável!

Provavelmente, os produtores e o diretor do longa-metragem Constantine não concordariam. Hollywood mais uma vez fez do Macaco de Deus um coadjuvante sem brilho. Neste filme combater as forças das trevas é um mero trabalho de meio-expediente e o próprio Cão não passa de uma mistura caricaturesca de pai-de-santo com o Cascão: é sujo, ignorante e mesmo quando ganha faz papel de bobo. É uma criatura tão pouco expressiva que parece que sua maior dor de cabeça é um simples mortal metido a macumbeiro chamado John Constantine, interpretado pelo especialista em ludibriar o Maligno (vide Advogado do Diabo), Keanu Reeves. Ao longo de duas horas de filme, John Constantine, com uma facilidade incrível, exorciza e explode demônios menores, passeia pelo inferno como quem vai ao shopping, frustra os planos do Anticristo, engana o Beiçudo em pessoa e ainda por cima o manda tomar naquele lugar. Não tem o menor respeito nem por seus poderes, que deveriam ser grandes, nem por sua astúcia, que deveria ser incomparável, ou mesmo por sua idade, que deve de ser contada em milhões de anos. Enfim, em Constantine, Ele é um zero a esquerda. No máximo uma artimanha de roteiro para dar brilho às aventuras do herói.

E até aí temos um problema. Isto porque o John Constantine de Keanu Reeves nem de longe lembra o “verdadeiro” John Constantine, protagonista da série de revistas em quadrinhos para adultos Hellblazer, criado por Alan Moore. E não me refiro ao fato de que o ator é americano e moreno, diferentemente do personagem que é inglês e louro (um tipo de Sting decadente), como boa parte dos fás acertadamente tem reclamado. Não, estas mudanças são apenas mais um exemplo do quanto às engrenagens da indústria do cinema podem desfigurar uma ótima matéria-base, visando garantir alguns dólares a mais no mercado estadunidense, ignorando o resto do mundo. A questão aqui é que o John Constantine dos quadrinhos é um cínico fumante inveterado, dono de um código de ética bastante maleável, que não o impede de ser capaz dos maiores sacrifícios pela família que lhe restou e por alguns de seus poucos amigos. É amoral, beberrão, maltrapilho, descarnado, despenteado, mal-cheiroso e ainda assim, por incrível que pareça, contrabalançando tudo, mantêm certa fleuma britânica, visível principalmente através de seu senso de humor negríssimo. Disto tudo Reeves só manteve um detalhe: o de fumante inveterado. E, como se sabe, no cinema e no teatro, o cigarro é conhecido como a mais obvia “muleta” dramática conhecida. Se o ator não consegue dar profundidade a um personagem, faz dele um fumante: pelo menos as mãos vão estas ocupadas. Neste caso específico, Reeves não interpreta: usa seu já lendário conjunto charme-beleza-carisma no piloto automático. Parece ser o suficiente para a maioria na platéia.

De forma inexplicável, Reeves e o diretor do filme, o estreante Francis Lawrence, fizeram do bom-canalha John Constantine um mauricinho superficial. Está sempre tristinho, coitado. Pede pena da platéia, pois apesar de ser um pouco rude é um bom-samaritano nato. Quer salvar o mundo todo, e não apenas a si mesmo e a seus eleitos como sua versão “adulta” dos quadrinhos. É um típico herói de cinema, igual a muitos outros. Essa inversão é tão evidente, que pode ser notada até mesmo na relação de John Constantine com suas roupas. Em Hellblazer ele esta sempre vestindo o mesmo sobretudo surrado. No filme o engomado Reeves reclama quando um de seus aliados, um feiticeiro negro chamado papa Meia-Noite, estraga sua camisa branquíssima, lavada com sabão Omo Alvejante, resmungando que é “uma camisa de 200 dólares”. O “verdadeiro” Constantine gastaria este dinheiro comprando cigarros sem filtro, apesar de estar com câncer no pulmão.

Aliás, a história do filme é uma pasteurização da saga Hábitos Perigosos, onde John Constantine descobre que de tanto fumar desenvolveu câncer. Desesperado, mas com um plano na cabeça, vende sua alma para três entidades demoníacas diferentes, na tentativa de salvar sua pele. Consegue, pois sua morte deflagraria uma guerra no inferno pela posse de sua alma. O que levaria o Céu à vitória. Sem escolha, um dos demônios o cura (da forma mais dolorosa possível) e Constantine se torna o “homem que não pode morrer”. Garanto: trata-se de uma história sutil e engenhosa. Aposta mais na sugestão do que no terror explícito. O contrário de sua versão em celulóide. Nela o enredo é o que menos importa. Toda sutileza foi substituída por pirotecnia. Diferente dos quadrinhos, o filme é visual, não intelectual. Os quadrinhos são para adultos, o filme para adolescentes.

Só isto explica o fato de que no cinema um doente terminal pula, luta e corre como se fosse um atleta disputando uma final nos jogos olímpicos. No terceiro terço do longa, Reeves transforma seu personagem em uma espécie de misto de Rambo com Caça-fantasmas. Com o detalhe de que não usa aquelas impagáveis mochilas com feixes de prótons e sim uma ridícula metralhadora em forma de cruz. Esta arma excêntrica, somada a presença desperdiçada da Lança do Destino (a lança que o São Longuinho dos três pulinhos teria usado para perfurar o corpo de Jesus de Nazaré durante a crucificação) e de uma drag queen que garante ser o arcanjo Gabriel, transformam o final de Constantine em um festival de luzes e sons. Toda verossimilhança (notem que nem mesmo usei a palavra lógica) é jogada fora e passa a valer a “lei do efeito especial mais forte”. São explosões para todos os lados. Sobra até para o Mastema.

A entrada em cena do Maldito é até interessante, mas logo se torna patética. O Tentador, conforme Francis Lawrence o imaginou, lembra um comediante do segundo time do Zorra Total. Fica o tempo todo fazendo caretas e não tem a menor graça. Neste momento cabe uma pergunta: por que nosso tempo desenvolveu este fetiche em ridicularizar o Príncipe Deste Mundo? Por que insistimos em fazer o ex-Mais Belo dos Anjos cair pela segunda vez?

Em Constantine, o príncipe das trevas é um zero a esquerda.

É estranho, porque apesar de vivermos em uma época extremamente técnica o misticismo ainda é muito forte. Não são poucas as pessoas que acreditam com convicção em reencarnação, fantasmas, demônios, discos voadores, magia, vampiros, lobisomens, duendes, fadas, saci, cuca, poder dos cristais e outras irracionalidades. Até mesmo a crença em Deus, tal qual é mais difundida, pode ser incluída nesta equação. O cristianismo é uma religião extremamente mística: vinho vira sangue, pão vira carne, virgens concebem bebês, gente ressuscita, gente é arrebatada ao céu etc, etc e etc. Em meio a esta imensa série de elementos, a figura do Pai da Mentira é uma das mais fortes. De amigo intimo de Deus no Antigo Testamento passou a ser o Inimigo no Novo.

E Ele sempre foi mais próximo do homem do que o Criador. Da Idade Média até hoje (Nova Idade Média?), tendo em vista a vasta literatura sobre o assunto, não restam dúvidas de que a maior parte dos crentes considera muito mais fácil receberem uma visita tentadora do Arrenegado do que ter uma visão divina. Ambas seriam, cada qual a seu modo, aterrorizantes. Então, dos males o menor; aliás, dos males o Maior. O consciente coletivo ocidental se acostumou a conviver com o Dito Cujo e, por conseguinte, desenvolveu formas de imaginar que pode vencê-lo. As famosas visões de Santo Antônio representam o símbolo máximo desta filosofia. E não podemos ignorar que, diferente do maluco beleza São Francisco, Santo Antônio era um intelectual. Um homem de fé, um homem abnegado, mas também um homem muito culto, conhecedor das coisas deste mundo. Não por acaso foi entre os franciscanos pós-reforma da Regra que surgiu filósofos “investigadores do livro da natureza” como Roger Bacon e Occan. Por fim, àqueles que pregam que a raça humana possui uma tendência natural para o mal deveriam ler ou reler o maravilhoso conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis. Não há tendências, só existe o Jogo: a eterna contradição humana.

E neste Jogo sem regras claras, como em todos, existem os craques (o “verdadeiro” Constantine seria um deles) e os pernas-de-pau, a maioria.  Deus é um juiz distante e silencioso. E Satã? Depende. Mais importante do que sua presença real e a crença de que ela existe. Sobretudo porque, oficialmente, Ele nem joga. Desde Tomás de Aquino e sua Suma Teológica até os avanços recentes da psicologia a tendência dominante dentre os teólogos sérios tem sido minimizar cada vez mais sua influência ou mesmo sua existência. Hoje, até o milenar ritual dos exorcismos foi proibido pela Igreja Católica (apesar do papa “medieval” João Paulo II já ter feito pessoalmente pelo menos um). Agora, vai tentar explicar isto para o servente de pedreiro que se sente feliz em ter o Eblis extraído de seu corpo via-satélite pelo colega que subiu na vida! Muito difícil! Pior ainda é explicar para os pseudo-cultos que abanam bíblias no ar como se fossem enciclopédias. Neste caso é pior: não é difícil, é quase impossível!

De minha parte só sei de uma coisa: a tal máxima de que o maior truque do Demônio foi fazer com que a humanidade não acreditasse que Ele existe, não passa de bobagem. Se Ele de fato existisse, com certeza perderia a paciência e subiria à superfície para acabar com a bandalheira que andam fazendo com seu(s) Nome(s).

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]