Minha Estante #04- Octavio Aragão

Olá a todos!

Hoje vamos conhecer a invejável coleção do Octavio Aragão, um grande apaixonado por quadrinhos que decidiu estuda-los a sério e hoje dá aulas e organiza a Semana de Quadrinhos da UFRJ,  também escreve roteiros e está prestes a lançar a HQ, Para tudo se acabar na quarta-feira pela Editora Draco.

P&N: Olá, Octavio! Obrigado pela entrevista. Para começar nos conte um pouco sobre você, onde mora e o que faz?

Octavio: Nasci e moro no Rio de Janeiro e sou designer por formação. Depois de uma vida trabalhando em agências, estúdios e redações, descobri o óbvio, que gosto de pesquisar. Resultado? Virei acadêmico.

Você está prestes a publicar uma HQ né?! Parabéns! Como está sendo esse processo? Conta pra gente um pouco da história, só pra dar aquele gostinho.

Na verdade, está atrasado. Deveria ter feito isso há décadas, mas fico feliz que a oportunidade tenha aparecido agora, com uma editora pequena como a Draco dando força. A história é baseada num conto meu, Para Tudo Se Acabar Na Quarta-Feira, originalmente publicado em Portugal, e conta a história de um grupo de traficantes do Rio que, durante uma terça-feira gorda, se descobre envolvido numa guerra interdimensional. É ficção científica, mas num cenário de Cidade de Deus e Tropa de Elite. Os desenhos estão a encargo de Manoel Ricardo, um talentoso ilustrador capixaba, que até montou um blog com o andamento do projeto, o “Acabando a Quarta-feira“.

Quando você começou a se interessar por quadrinhos?

Hum… desde que nasci. O primeiro texto que recordo de ter lido mesmo, decifrando as frases, foi uma versão em quadrinhos do desenho Pinóquio, da Disney, uma publicação da Abril. Mas antes disso, o primeiro logotipo que recordo é o da revista do Mickey. Eu passava na rua, olhava para a banca de jornais e, ao ver o logo, gritava o nome do rato.

Você se lembra da primeira vez que se viu fascinado por uma HQ? Qual foi a história ou revista?

O primeiro Disney Especial, Os Bandidos, da Abril, em 1972. Fiquei ensandecido na época. Tinha de ter aquilo, mas meu pai achava o preço um absurdo. Acabei ganhando de presente do meu avô e foi a HQ preferida por um ano.

Quando aconteceu a mudança de leitor ocasional para colecionador inveterado?

Quando descobri, em 74, que estava comprando sistematicamente uma média de 10 revistas mensais. Ainda lembro delas: Mad, Sherlock Holmes (Ebal), A Patota, Crás!, e as séries da Marvel publicadas pela Bloch.  Um pouco depois veio o Gibi Semanal, que revolucionou meu gosto por HQs.

E quando decidiu realmente pesquisar sobre HQs?

Ah, isso foi bem mais tarde. Só no mestrado que decidi estudar HQs pelo viés acadêmico e fui procurar os estudiosos da área.

Em sua opinião, quais são os maiores pesquisadores de quadrinhos aqui no Brasil e os melhores livros produzidos nesse âmbito?

Os principais pesquisadores, para mim, são quatro: Waldomiro Vergueiro, Sonia Bibe Luyten, Moacy Cirne e Álvaro de Moya. Os livros teóricos que mais releio são Shazam!, Quadrinhos e Educação, Mangá: O Poder dos Quadrinhos Japoneses e Quadrinhos, Sedução e Paixão.

Agora a pergunta mais esperada dessa coluna. Quantas HQs você tem?

Por volta de 9 mil, contando tudo. Mais talvez, porque me desfaço de muitas.

Belo número! Já leu tudo ou tem algumas pendências?

Claro que tenho pendências. Já disse o Umberto Eco que uma biblioteca já lida tem pouca serventia.

Quais são os principais itens de sua coleção, séries e mini-séries completas, encadernados de luxo, edições raras, etc.

Ken Parker: La Saga di Lungo Fucile, 6 volumes, 280 pgs cada, capa dura, com toda a série; Sandman completo – 1ª edição da Globo, encadernada em capa dura, obedecendo aos volumes/arcos originais; Tintin da Record, capa dura, coleção completa, Asterix da Cedibra, capa dura; Hauteville House, BD steampunk belga, capa dura; Neverwhere, de Richard Corben, prelúdio para a série Den; Töpffer, edição francesa, em capa dura, com as obras completas desse que é considerado o primeiro quadrinista do mundo; Absolute Authority; Kingdom Come slipcase, autografado por Ross & Waid, edição limitada; Skechtbook de Will Eisner, autografado pelo próprio;  As Aventuras de Nho Quim e Zé Caipora em capa dura, autografada por Athos Eichler Cardoso, editor da obra;  Ás Inimigo, com dedicatória ilustrada por George Pratt; Universal War 1, BD belga, capa dura; dedicatória de Neil Gaiman em Sandman, O Livro Dos Sonhos etc, etc, etc…

Qual o item mais raro?

Não sei dizer. Nunca me preocupei com isso. O lado do colecionador maníaco não foi bem trabalhado. Creio que pode ser o Töpffer.

Como você adquire seus quadrinhos importados? Compra mais títulos lançados lá fora ou nacionais?

Foi-se o tempo em que eu ASSINAVA meu títulos americanos favoritos diretamente com a DC, Dark Horse, Image e Marvel. Hoje não faço mais isso.

Como você as guarda? E quais técnicas usa para conservá-los?

No início encapava tudo. Depois usei envelopes plásticos, mas isso vem mudando. Não tenho mais paciência e acabo não dando tanta atenção como antes. Creio que a tendência será trocar minhas revistas e brochuras por edições em capa dura.

Já fez alguma loucura para conseguir algum exemplar?

Sou muito metódico com essas coisas. Receio não ter nenhuma aventura emocionante para contar nessa seara. 🙂 Sempre que quis muito alguma publicação, esperava o $ chegar para comprar. Hoje então, depois do nascimento dos meninos, não cometo nenhuma extravagância.

Se você já tem a história que adora publicada em formatinho e ela é lançada em álbum de luxo, você a compra novamente? Depois vende a primeira ou fica com as duas?

Como disse antes, estou em processo de troca por edições encadernadas quando é possível, às vezes passo adiante a anterior.

Todo colecionador tem manias, seja para guardar, emprestar ou mesmo na hora de comprar, quais são as suas?

Não gosto de emprestar, não gosto que manuseiem minhas revistas e livros. Odeio os vincos nas lombadas. Às vezes leio as brochuras sem abrir completamente só para não marcar as laterais.

Octavio você tem alguma história triste envolvendo quadrinhos ou sua coleção?!

Quando guri, minha mãe fez várias “faxinas” em minha coleção. Mas o pior é que já fui obrigado a me livrar de boa parte da coleção de um dia para o outro. Rapaz, isso dói. Mas também é um exercício de desapego salutar. Faz bem à cabeça, acredite. Somos muito mais que nossas coleções e às vezes algumas coisas têm de ir para dar lugar a outras.

E uma muito feliz?

Quando mando encadernar uma coleção, adoro o momento de ver o resultado final. É como se a revista renascesse.

Em sua opinião, quais são os mais importantes quadrinistas do mundo?

Rapaz, pergunta difícil! Pra facilitar, vou focar nos vivos, porque se elencarmos os mortos, danou-se, não tem espaço.

Ilustradores: Ivo Milazzo, Goscinny, Don Rosa, Mike Allred, Milo Manara, Enki Bilal, Ryoichi Ikegami, Moebius, Ziraldo, Matt Wagner, Katsuhiro Otomo, Maurício de Souza, Robert Crumb, Bill Watterson, Joe Kubert, Goseki Kojima.

Roteiristas: Alan Moore, Joe Sacco, Stan Lee, Kazuo Koike, Grant Morrison, Lourenço Mutarelli, Giancarlo Berardi, Neil Gaiman, David Sim, André Diniz, Art Spiegelman.

Autógrafo de Kevin O´Neill

Autógrafo de Neil Gaiman

Autógrafo de Athos Eichler Cardoso, editor da obra

Kingdom Come slipcase, autografado por Ross & Waid

Autógrafos de George Pratt e Will Eisner

Quais são os 10 quadrinhos que todo ser humano deveria ler pelo menos uma vez na vida?

Maus, Asterix, Mafalda, Turma da Mônica, Palestina, Ken Parker, Lobo Solitário, A Festa dos Imortais, Spirit, Tintin.

E quais são os cinco que não merecem ser lidos por ninguém? Rs rs..

Youngblood, Spawn, uma coisa chamada Civilian Justice, Batman vs Spawn, por Miller e MacFarlane (e o Miller ainda afirmou que a história se passa no mesmo universo do clássico Dark Knight Returns!) e o gibi que o Tiririca mandou imprimir para sua campanha eleitoral.

Qual foi a última HQ que comprou e qual está nesse momento no seu criado mudo?

Foi o álbum Zap Comics, da Editora Conrad. No criado mudo tem um monte. Crise Final completa e Vingadores x Liga da Justiça completa.

Qual item é seu objeto de desejo, aquele que você sempre quis ter e ainda não conseguiu?

A coleção completa da Revista Illustrada de Angelo Agostini. Já passou da hora de alguém fazer uma republicação desse material antes que os últimos exemplares desapareçam.

Octavio, muito obrigado pela entrevista, e deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Gente, colecionar é bom, mas passar a chama adiante é melhor. Façam com que seus filhos, sobrinhos e parentes leiam as histórias e assim talvez a mídia que tanto gostamos sobreviva por mais cem anos.

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar para todo mundo sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e sentir aquela inveja boa. Então convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um email para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.