King Kong: O Primeiro Rei do Cinema

Paulo Francis costumava afirmar que o intelectual é, por definição, um elitista. Ao longo das últimas décadas surgiu um estranho novo tipo de intelectual: o apreciador do chamado “cinema artístico”, também conhecido como cinéfilo. Via de rega, cinéfilos e fãs de cinema são considerados espécimes diferentes. O fã de cinema é o individuo que, basicamente, procura apenas diversão descompromissada no audiovisual. Não lhe interessa buscar significados profundos no que assiste. Em literatura, seria o equivalente ao leitor de best-sellers de fórmula. A cinefilia é algo totalmente diverso. Parte do pressuposto de que determinados filmes são objetos artísticos e filosóficos realizados por pensadores profundos que, eventualmente, atuam como cineastas. Portanto, devem ser analisados, categorizados e, até mesmo, cultuados. Orgulhosamente, o cinéfilo considera-se membro da nata cultural, junto com apreciadores de música erudita, jazz e leitores de Shakespeare. Com notáveis exceções, costumam desdenhar de filmes abertamente comerciais, realizados para agradar ao grande público, por meio de recursos dramáticos e técnicos simplistas ou espetaculosos. Separam o que consideram “cinema sério” do “cinema não serio” de forma estanque.

Não compartilho dessa visão em branco e preto. A realidade, como se sabe, é feita de tons de cinza. Prova disso é o tempo ter convertido melodramas popularescos como …E o Vento Levou e Casablanca em clássicos eruditos.

Roger Ebert, crítico de cinema vencedor do Prêmio Pulitzer, escreveu que “nos bons dias eu considero Cidadão Kane o filme mais influente da era do som, porém, nos maus, acho que é King Kong”. Ao contrário do que possa parecer, Ebert é um grande admirador de King Kong. O que defende é que, enquanto a obra-prima de Orson Welles estabeleceu as bases do moderno drama cinematográfico sofisticado, a aventura do primata gigante inaugurou a era do cinema espetáculo, das bilheterias milionárias, da corrida tecnológica etc. O conceito de filme-evento existe desde O Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith, mas foi somente com King Kong que tornou-se hegemônico. Sem ele não existiria Guerra nas Estrelas, O Senhor dos Anéis, Alien, O Exterminador do Futuro ou mesmo a atual onda de filmes baseados em quadrinhos. Não se pode negar que tenham qualidade. Guerra nas Estrelas concorreu ao Oscar de melhor filme. O Senhor dos Anéis venceu. Alien e o Exterminador são clássicos da ficção-científica. Em meio ao lixo reinante no gênero super-heróis há Superman – o filme, Cavaleiro das Trevas ou O Homem de Ferro, dentre outras pérolas. Arrisco afirmar que até mesmo dramas calcados na grandiosidade visual como Ben-Hur, Titanic e Forest Gump guardam mais parentesco com Kong do que com Kane.

Mas, afinal, o que King Kong tem de tão especial? Não há uma resposta simples. Seus revolucionários efeitos especiais, hoje, estão anacrônicos. Os pêlos dançando freneticamente, em função da manipulação dos técnicos em stopmotion, ganharam contornos cômicos. Os personagens humanos são bidimensionais. Os diálogos rasos. A inovadora trilha sonora de Max Steiner, em muitos momentos, lembra música de desenhos animados da Disney. O roteiro é cheio de furos (afinal, quem iria se importar com um primata crescido em uma ilha cheia de dinossauros?!). O fato é que o filme envelheceu. É uma peça de museu. Mas, enfim, ninguém pode ir a um museu e afirmar que o 14-Bis não é importantíssimo. Com aquela engenhoca de lona e bambu aprendemos a voar.

Há duas interpretações básicas para King Kong. A primeira trata da queda da Fera, encantada pela beleza da Bela. A segunda, um pouco mais sutil, trata da destruição da criatura selvagem pelo mundo civilizado. Creio que as duas são igualmente corretas e igualmente simplistas. O King Kong de 1933 deve ser interpretado à luz de sua imensa influência. E em nenhum lugar ela é mais explicita do que em suas refilmagens. Elas mostram, para o bem e para o mal, a evolução do cinema de entretenimento ao longo dos séculos XX e XXI. A primeira, de 1976, dirigida por John Guillermin, atualizou a história. Substituiu a equipe de filmagem por uma expedição de uma companhia petrolífera. Trocou o Empire State pelas Torres Gêmeas, parar ter a empolgante cena de Kong pulando de uma para outra. Por seu papel de naufraga, Jessica Lange tornou-se uma estrela. A criatura foi encarnada pelo maquiador Rick Baker vestindo uma fantasia de pelúcia. A segunda refilmagem, de 2005, de Peter Jackson, é um filme de época. Passa-se na década de 1930, durante a Depressão, numa clara homenagem ao Kong original. Naomi Watts interpreta a Bela. Jack Black faz de seu Carl Denham, cineasta líder da expedição, um Orson Welles paspalho. Usando alta tecnologia digital, o mímico e ator Andy Serkis encarnou a Fera. Contudo, é na indefinida figura do mocinho do (s)  filme (s) que encontramos a chave interpretativa do conjunto.

Em 1933, o herói, John Driscoll, é um marinheiro chauvinista e grosseiro, interpretado pelo canastrão Bruce Cabot. Não gosta de Kong. Não tem escrúpulos em participar de sua exibição pública, ao lado de Ann Darrow, feita por Fay Wray. O amor de Kong não é correspondido. Sequestrada pelo bestial primata, a Bela não é acometida da famigerada Síndrome de Estocolmo. Não se afeiçoou a seu algoz. Deseja ardentemente ser resgatada e não se importa com o destino trágico de Kong. Gritando incessantemente, só espera que o “pesadelo” acabe. Ao fim de tudo, Denham, o descobridor da “8º Maravilha do Mundo”, apesar da trilha de destruição e morte, não parece ter sua imagem arranhada. Tampouco, extinguir um espécime raríssimo provocou alvoroço.

Em 1976, John Driscoll é um fotógrafo hippie interpretado por um cabeludo e barbudo Jeff Bridges. Em tempos de florescimento dos ideais ecológicos, essa encarnação de Driscoll é um defensor de Kong, mesmo contra a vontade do próprio. Compreende seu drama de criatura selvagem ameaçada pela civilização ainda mais selvagem. Acha revoltante sua exibição pública. Aqui, Ann Darrow participa do espetáculo mais por ingenuidade do que por ganância. Afeiçoou-se verdadeiramente à criatura. No topo das Torres Gêmeas, tenta protegê-lo dos aviões de combate, fazendo-se de escudo humano. A morte de Kong não é suficiente para impedir que Denham, representante da companhia de petróleo, para alegria de Driscoll, caia em desgraça.

Na versão de 2005, Driscoll, interpretado por Adrien Brody, transforma-se em um dramaturgo contratado como roteirista do filme que Denham pretende realizar na Ilha da Caveira, em uma viagem sem capital, planejamento ou destino certo. É um misto dos dois Driscoll anteriores. Nem tão rude, nem tão politicamente correto. A nova Ann, sim, torna-se uma idealista. Apesar da carreira em baixa, recusa-se a participar do espetáculo onde Kong seria exibido às platéias de Nova Iorque. Driscoll apóia sua desistência, assim como apóia seu desejo de proteger Kong. A morte da criatura é um duro golpe para o casal. E também para o jovem cineasta Denham, que vê sua carreira arruinada diante da trilha de destruição pela qual, em última estância, foi o responsável.

O que podemos concluir dessas pequenas, porém significativas modificações? Primeiro que tem sido uma tendência do cinema espetáculo esvaziar-se de conteúdo em prol do apuro técnico. Com raras exceções, estão cada vez mais politicamente corretos e inverossímeis. A violência é crescente. O humor está se infantilizando. A trilha sonora está cada vez mais alta.

Um filme-evento sempre parte de um conceito vago: gorila gigante ataca Nova Iorque, arqueólogo procura relíquias sagradas, tubarão branco ataca pessoas em praia, robôs alienígenas se transformam em automóveis, espião galã salva mundo dos planos de um vilão megalomaníaco etc, etc, etc. O que pode transformá-lo em um bom ou mau filme é o que os roteiristas e o diretor incorporam à ideia inicial ao longo do processo de produção. Nem sempre a receita funciona, como ficou constatado em bobagens como O Filho de Kong, Kong versus Godzilla e O Poderoso Joe, descartáveis continuações e imitações do clássico de 1933.

Clássico?! Afinal, sendo o primeiro filme-evento, King Kong é para cinéfilos ou para fãs de cinema? Creio que tendo sido feito para os primeiros, com o tempo foi adotado pelos segundos. Assim como os citados …E o Vento Levou e Casablanca. Além de O Crepúsculo dos Deuses, O Leopardo, Lawrence da Arábia e, acreditem, até mesmo Cidadão Kane.

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Ademir Luiz é doutor em História, professor da UEG e autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]