Breaking Bad – Mais Viciante que Metanfetamina

O professor Walter White (Bryan Cranston) gosta de definir química como sendo o estudo das transformações: elétrons transformando o seu nível de energia, moléculas fazendo o mesmo com suas ligações… Elementos se unindo, se alterando dentro de um complexo – tudo numa constante, um eterno ciclo; soluções e dissoluções, ações e reações, atos e conseqüências; nascimento, crescimento e decomposição… transformação. Isso é química! Isso é vida!

“Reações Químicas envolvem transformações em dois níveis: Matéria e Energia. Quando a reação é gradual, a mudança na energia é discreta. Nem ao menos se percebe que a reação está ocorrendo. Por exemplo quando a ferrugem se fixa ao assoalho de um carro. Mas se a reação acontece rapidamente, diferentemente, substâncias inofensivas podem interagir de modo que gere uma enorme liberação de energia. Explosões são o resultado de reações químicas acontecendo quase que instantaneamente e os reagentes mais rápidos, ou seja explosivos (fulminato de mercúrio II [Hg(CNO)2] é um exemplo típico disso – o fluminato de mercúrio é um explosivo primário, muito sensível à fricção e ao impacto) que quanto mais brusca a mudança, mais violenta é a explosão.
– Walter White

Na eterna dança da vida, procuramos manter passos ensaiados – um processo controlado, sem muitas surpresas. Com o passar do tempo, essa reação gradual, sem muita liberação de energia, faz com que ferrugem se acumule nos tornando pessoas entorpecidas, convencidas de que tudo aquilo que temos e fazemos naquele momento é o que definitivamente somos capazes. Mas a vida não segue regras e o acaso pode entrar em ação: em um determinado momento, sem aviso prévio, nos deparamos com elementos catalisadores, que provocam uma enorme liberação de energia, uma explosão. A ironia disso tudo é que, geralmente, essa transformação sempre esteve dentro de nós, independente dos fatores que a causaram – ou você já não se sentiu, de repente, capaz de fazer algo que nunca imaginou conseguir?

Para Walter, este agente catalisador foi um diagnóstico médico. “Mas como isso é possivel?”, “Porque eu?”, ele se perguntava. Era apenas um senhor de meia idade, sem vícios e muito menos exageros; levava a vida dia após dia, sustentando sua esposa grávida e seu filho que sofre de paralisia cerebral. Começou com uma tosse que lhe incomodava e depois…Boom: um desmaio e o resultado, câncer pulmonar.

Durante a festa surpresa de seu aniversário de 50 anos, organizada por sua esposa, Skyler (Anna Gunn), e seu cunhado, o agente do DEA (Drug Enforcemente Administration) Hank Schrader (Dean Norris), White se surpreende ao saber da quantidade de dinheiro apreendida nas operações desse esquadrão no combate as drogas. Com pouco tempo de vida e a preocupação de não deixar uma condição financeira confortável para sua família, decide então tomar um caminho inesperado para solucionar seus problemas, tendo na figura de Jesse Pinkman (Aaron Paul) – seu ex-aluno que leva a vida vendendo drogas -, e nas suas habilidades naquilo em que é melhor, a química, a chance de colocar seu plano em prática: “cozinhar” e comercializar metanfetamina.

“Mas você entende deste négocio! E eu entendo de química!
Walter White para Jesse Pinkman

Se Walter possui sua série de agentes catalisadores, ele passa a ser o próprio propulsor de Jesse. Aparentemente bem intencionados, estes recém formados parceiros de crime vão sentir na pele a velha máxima que prega que “de boas intenções o inferno está cheio”, desencadeando uma reação de conseqüências irreparáveis para o universo que os cerca, uma verdadeira jornada de transformação, autoconhecimento e aceitação, desvelando as mentiras em seus entusiasmos e provando que para cada escolha existe uma renúncia.

O autor da série, Vince Gilligan (Arquivo X, Hancock), contou que Breaking Bad nasceu de uma brincadeira com um amigo, quando cogitou-se, em um momento de incerteza na carreira de escritor, viver a vida comercializando crystal meth a bordo de um furgão. Gilligan se diz surpreso pelo fato da série ainda estar no ar e fazendo sucesso, pois o tema foge totalmente dos padrões de TV.

“Eu penso o tempo todo sobre o quão incrível esta série ainda estar no ar, porque não é o que estamos acostumados a ver na televisão. Quando saimos para vender a ideia de uma série, somos treinados a tentar sempre vender aquilo que está fazendo sucesso. Somos treinados para não incomodar.”
Vince Gilligan

A natureza humana (demasiada humana) das personagens é um fator que fascina, chegando a causar arrepios, tamanha a identificação provocada. A verossimilhança deste universo acinzentado – oscilando em momentos de controle ou falta de, sem espaço para altruísmos – revela que, em determinadas situações, o ser humano é capaz de tudo em nome da sobrevivência. Os desesperados são colocados como sujeitos da história, aonde o herói pode ser um pobre miserável e o assassino não é o óbvio vilão, bons e maus andando de mãos dadas, fazendo parte da mesma equação. É normal se pegar levantando questionamentos do tipo “será que eu seria capaz disso?” ou “o que eu teria feito em seu lugar?”.

Mas não é só drama que sustenta o enredo: doses equilibradas de humor e pitadas de surrealidade também dão as caras. Vale destacar as inóspitas paisagens de Albuquerque, Novo México, onde se passa e é produzida a série: a aridez do cenário mescla com a natureza conflitante das personagens e seus atos, se tornando quase mais uma figura na trama. O desenrolar dela, aliás, é cadenciado – tudo bem encaixadinho, fazendo com que cada camada seja bem trabalhada e desenvolvida – flashbacks e eventuais narrativas entrecortadas pontuam perfeitamente o teor cíclico e conseqüencial da obra, não deixando buracos ou pontas soltas em sua estrutura.

A série estreou no dia 20 de Janeiro de 2008 pela rede AMC. Desde então, três temporadas já se passaram e muitos prêmios foram abocanhados. A expectativa pela volta da série – depois de um hiato de mais de um ano – é enorme, mas a espera está chegando ao fim: a quarta temporada estéia dia 17 de Julho de 2011 nos USA.

Eu não quero dizer muito, mas posso falar que vamos forçar a relação entre Walt e sua família e com seu parceiro Jesse até o limite e além. Quando perceberem, eles estarão mais no fundo do poço do que jamais imaginariam”.
– Vince Gilligan

Particularmente, estou contando nos dedos pela chegada desta data – e meu papel de parede não me deixa esquecer do fato. Recentemente revi todas as suas temporadas – e somente Sopranos havia merecido este feito anteriormente. Posso dizer, sem titubear, que BrBa (como é chamada pelos fans) é a melhor série atual e uma das melhores coisas que eu tive contato nos últimos tempos.

“Essa é uma jornada muito grande para Walter White. Ele não sabe o que está acontecendo em alguns momentos, e eu não queria estragar isso. Eu gosto de ler os scripts sem saber o que vai acontecer, da mesma forma do que ler um bom romance. Se fosse pra alguém me contar o que vai acontecer, eu ficaria desapontado. Eu não quero que eles me contem. Eu quero viver as experiências. Essa é a minha filosofia. Então eu honestamente não sei para onde essa quarta temporada vai”.
– Bryan Cranston ao ser questionado sobre a quarta temporada

Aqui vai um aviso: Breaking Bad não é ficção! É vida em estado bruto. Portanto, veja por conta e risco.

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Willian Blackwell é leitor/colecionador de HQs e livros, apreciador de cinema e boa música. Autodidata, um espirito livre, adepto de um perspectivismo experimentalista com tendência a gostos bizarros e atividades grosseiras. Boa gente!

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  1. BrBA é uma série espetacular!! Bryan Cranston é um ator mosntruoso, bom pra caramba.

    Valeu pelo texto, Willian! Essa realmente é uma das séries mais fodas que já assisti, estou seco pela quarta temporada.

  2. Voltando aqui nesse post só para dizer que, esta é uma das melhores séries de todos os tempos!

    E o final da 4ª tempoarda foi absolutamente FODÁSTICO!

    Valeu Daniel por indicá-la no vídeocast sobre drogas!

  3. Guys, eu ouço TODOS os podcasts lançados pelo PN. Acabei (ontem) de acabar de ver a 1ª temporada de Breaking Bad. Posso ouvir esse podcast sem prejudicar o que estou por assistir?! Sim, estou falando de spoilers…

    • Vixi Alessandro, acho que pode sim, tem pequenos spoilers, mas nada que estrague sua experiência, vai dar é mais vontade de assistir. A gente conta alguns personagens que irão entrar, falamos quais são os mais fodas, mas em momento algum entregamos o final de nenhuma temporada.

  4. irmão, teu post faz jus à série.. parabéns! e quanto a Breaking Bad, a fodastissidade da série só é explicada assistindo, me arrependo de ter relutado a assisti-la mas hoje anseio pela próxima temporada, que será muito bem vinda