The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse – Se não leu, leia!

Mesmo depois de ter lido (e ouvido) várias críticas positivas sobre The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse (primeiro arco da série em questão lançado em formato encadernado no Brasil pela editora Devir), fiquei relutante em adquiri-lo e lê-lo, para depois, respectivamente, inserí-lo em minha coleção. Pensava que (admito certo preconceito e total ingnorância neste caso) por se tratar de uma HQ escrita por Gerard Way, vocalista da emo band My Chemical Romance, o resultado seria algo como um gibizinho clichê com apelo comercial do tipo que americano gosta. Nem o fato da série ser ilustrada pelo brazuca Gabriel Bá (Casanova, Daytripper) me apetecia (eu costumo dar atenção prioritária aos roteiros).

Engraçado (agora eu acho engraçado, mas na verdade é triste) como em momentos levianos de visão obtusa podemos ser levados a deixar de ter contato com excelentes materiais, e foi isso que quase me aconteceu.

Mas o destino nos prega peças, só pra deixar tudo mais saborosointeressante: um belo dia ao entrar em um site, dei de cara com o segundo volume encadernado da série, “Dallas”, que, devido a um erro de “sistema”“banco de dados” (a qual eu não tenho nada com isso), estava sendo vendido por R$0.00 (zero reais). Ahhh? Isso mesmo! Capa dura, “zerado” e sem pagar nada por ele. Jackpot!!!!

Como não sou totalmente pilantra, e tendo em mente que teria que ler o primeiro volume da série para, consequentemente, apreciar o segundo, fiz o serviço completo, incluindo-o juntamente com Suíte do Apocalipse e mais alguns itens.

Mesmo assim, depois de tê-los em mãos, ainda deixei ambos bem condicionados em minha coleção durante um tempão, esperando o dia que já tardava mas viria… E veio!

Numa bela noite daquelas de chegar em casa depois da labuta diária, fui desperto por um desejo alucinante de ler algo descompromissadoleve, e foi então que, decidindo finalmente apostar minhas fichasThe Umbrella Academy me veio à mente.

Nunca estive tão satisfeito em estar completamente enganado!


“Uma bomba psicodélica de talento e ideias. Os super-heróis do século 21 finalmente estão aqui…
– Grant Morrison, da introdução

Em um dia qualquer, “…sem nenhum aviso…”, um evento fantástico acontece: o nascimento de quarenta e três extraordinárias crianças de “…mulheres, na sua maioria solteiras, que não exibiam sinais de gravidez, em lugares aleatórios do mundo”. Destes bebês, sete são adotadas pelo mistérioso Sir Reginald HargreevesO Monóculo, para a formação da “Academia Guarda Chuva” (The Umbrella Academy), tendo como objetivo, um dia, salvar o mundo de ameaças desconhecidas.

“Eliminando suas identidades e escondendo as crianças do mundo, Sir Reginald deu uma entrevista coletiva à imprensa em Estocolmo, onde o repórter Cosímo de Lostrono, de Milão, perguntou: Por que o senhor adotou estas sete crianças? Ao que Hargreeves repondeu… Para salvar o mundo é claro. Então, o mundo perguntou… Do que? Eles não tiveram resposta. Pois foi a última vez que Sir Reginald e as crianças foram vistas. Até aquele dia… Até…”
– The Umbrella Academy

…Que somos reapresentados ao grupo enfrentando uma enlouquecida Torre Eiffel (O.o)dez anos depois dos acontecimentos relatados na introdução. Já podemos notar nesta pequena aventura as tensões de relacionamento presentes nessa peculiar “familia” – minúcias interessantes de se averiguar, pois contribuem para o restante da história, principalmente no que diz respeito à parte dramática da coisa.

E assim, saltamos novamente no tempo, vinte anos depois. Muita coisa mudou, inclusive com a não existência do grupo, com seus membros (pelo menos alguns ?) tendo seguido adiante em suas respectivas vidas. Mas, um fato irá uní-los (ou quase) novamente: o falecimento de Sir Reginald Greeves.

Aí que a história realmente começa!

“- Estou regendo uma suíte. A primeira do gênero. Parece que minha cadeira de primeiro violino ficou… Vaga. Eu gostaria que você fizesse um teste.
– E por queeu faria isso?
– Vingança.”
– do telefonema para Vanya Hargreeves (00.07)

Viajantes do tempo, cientistas malucos, macacos falantes, robos gigantes assassinos, uma orquestra maldita e sua, bomba atômica humana; são alguns exemplos do panteão bizarrocontido no enredo deste primeiro arco de The Umbrella Academy, e Gerald Way trabalha com todos estes elementos de maneira muito natural, causando inveja em muitos roteiristas tarimbados por aí, fazendo com que todo este aparente caos funcione de maneira criativa, servindo de argamassa para preencher as lacunas presentes na história, ligando momentos do passado oculto da equipe com os acontecimentos do presente.

“Irmãos e irmãs, ouçam-me…! Reúnam seus trompetes, seus violoncelos, suas harpas…! Emprestem-me suas vidase preparem-se para a morte… Pois esta noite vamos destruir a Umbrella Academy…! ….E amanha o Mundo…
– Violino Branco

Aliás, o autor mostra um surpreendente (por se tratar do seu primeiro trabalho) domínio narrativo, dando uma excelente dinâmica à seu texto ao progredir com a trama em diferentes épocas, deixando, de maneira propositalpontas soltas durante o processo: perguntas que são respondidas com o decorrer da leitura e outros elementos, que certamente servirão de combustível para o futuro da série – especialmente no que diz respeito ao personagem 00.05.

E não é só de aventuras surreais e vilões amalucados que a série é feita. O autor salpica sutilmente o roteiro a todo instante com pitadas mais dramáticas (um diálogo sarcástico ali, uma espetadinha provocativa aqui), aprofundando as caracteristícas da personalidade de cada personagem e principalmente entre seus pares, mostrando que estes “irmãos” nada convencionais possuem problemas comuns, assim como qualquer familia (e não se trata de um dramalhão super-heróico adolescente – alguem disse Smallville ai? O.o).

“…E não há nada que possa me dizer que eu queira escutar. Eu pensei que tinha uma irmã… Mas não tenho ninguém”.
– Kraken, Diego Hargreeves (00.02)

Um estilo europeu, meio vitoriano, é respirado durante a leitura da obra, devido aos traços econômicos, porém carregados de personalidade de Gabriel Bá e os belíssimos tons utilizados pelo colorista Dave Stewart (Hellboy); ambos perfeitos em suas funções, criando a projeção visual exata de que a obra necessita. A pegada estilizada do ilustrador, certas vezes até meio cartunesca, pode, num primeiro olhar, nos levar ao falso julgamento de que a obra é leve – algo como um desenho animado –, mas disso ela não tem nada. Cidades em chamas, explosões, corpos dilacerados, cabeças arrancadas, são dispostas em um verdadeiro apocalipse artístico.

Suíte do Apocalipse é mais do que uma boa HQ; é uma obra divertidissima, muito, mas muito boa mesmo! Qualquer semelhança com X-Men, na estrutura da família disfuncionalconflitos entre integrantes e seu mentor, é pura coincidência (na minha opinião), assim como qualquer referência à Liga ExtraordináriaHellboy ou Crônicas de Lankhmar ficam em campo“elogioso” – o autor é confesso fã de Grant Morrison, dizendo ter se inspirado em Doom Patrol para a criação de The Umbrella Academy.

“Finalmente, Umbrella Academy é importante porque ele é só um gibi onde contamos uma história – às vezes boba, outras engraçada, até inteligente – e que eventualmente irá chegar ao fim”.
– Gabriel Bá, da introdução

Exatamente por não almejar ser a “reinvenção da roda”, e sim uma ótima história recheada das referências afetivas daquilo que um dia Gerard Way leu e gostou e que possui um grande poder narrativo/criativo textualgráfico, é que The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse merece ser lida. Boa diversão!

The Umbrella Academy: Suíte do Apocalipse

Editora: Devir

Autores: Gerard Way (roteiro) Gabriel Bá (arte) Dave Stewart (cores)

Preço: R$34,00

Número de Páginas: 188

Lançamento: Setembro de 2009

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Willian Blackwell é leitor/colecionador de HQs e livros, apreciador de cinema e boa música. Autodidata, um espirito livre, adepto de um perspectivismo experimentalista com tendência a gostos bizarros e atividades grosseiras. Boa gente!

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  1. Eu também achei bem fraco. Talvez o problema esteja nas expectativas. Se eu não esperasse coisa alguma (como o William, que achava que seria uma merda), talvez me surpreendesse. Como fui na certeza de que era foda por causa da maioria dos reviews, me decepcionei.

  2. Li a revista na mesma vibe que o Willian, foi mesmo uma excelente surpresa! Até Gerard Way tem salvação.

  3. Então vamos lá.

    Do roteiro.

    Existe uma grande diferença entre deixar “pontas soltas” e “furos”. No meu modesto entender uma “ponta solta” pressupõe uma trama consistente e deve cumprir uma função na mesma. Não creio ser o caso da HQ em debate. O roteiro do Way é banal e chega a irritar as vezes, tamanho o descaso com que apresenta sequências que mal se conectam entre si. Dá a nítida impressão de que ele foi criando os personagens e depois pensando em maneiras de conectá-los. Em outras palavras, a contextualização deixou muito a desejar. Até percebi a tentativa do roteirista em dar uma base aos personagens, mas acaba soando raso, gratuito e “jogado” as pressas. Temos um “Bad Boy” e um líder nato e para completar o clichê, uma tensão entre eles. “Tensão” é modo de falar, visto que totalmente despida de qualquer empatia e não convence o leitor. A Rumor coitada, estou até agora tentando entender a razão dela estar na história…ah sim, lembrei! ! Não dava para passar sem uma mocinha ser salva para o líder nato. Já a passagem da irmã “perdida” para vilã chega a dar pena. E se a história precisava de uma sequência de ação, tome luta com robôs genéricos. Qual a razão da luta? Nada mais fácil, os robôs estão lá simplesmente porque a Umbrella se reuniu…nem mais nem menos. E assim somando soluções fáceis e clichês chega-se a um final que se pretende dramático, mas falha miseravelmente posto que o “drama” é algo que falta em toda a história. N 5 é o único personagem que desperta algum interesse, contrastando com as personas mal construída dos mais (sou o Kraken, tenho cara de mau uiuiui). Entrementes o roteiro tem um grande trunfo: Ele serve como alento a todo aquele que pretende um dia publicar história de sua autoria, pois atesta que não é preciso grandes inspirações, nem é necessário algo realmente empolgante, vc só precisa ser um astro do rock. Afinal, o próprio Way já admitiu que já havia tentado vender a ideia, mas só conseguiu de fato após ficar famoso. E o Grant Morrison ainda elogia esse pulha…

    Da arte.

    Gabriel Bá, na minha modesta opinião, perde para Fábio Moon em termos de talento. Gosto mais do Moon, sua arte é mais singular, mais elegante e característica. Por outro lado o Bá entregou uma arte  pouco inspirada, melhor dizendo, de inspiração muito nítida: Mike Mignola. Não há demérito em buscar inspiração em outro autor, mas isso também não conta pontos positivos a meu ver. É muito evidente, principalmente nas passagens do Space Boy. Não concordam? Bá e Moon foram selecionados para ilustrar Hellboy 1947 e não acho que isso tenha sido coincidência. O Bá tem talento e sabe fazer um traço com características próprias quando quer, mas em Umbrella ele preferiu emular o traço de outro artista, com resultados pouco satisfatórios.  Em todo caso, a arte, se não é um espetáculo, também não compromete, tirando um ou outro quadro simplificado demais.

    No mais, deixo uma perguntinha. Só vale para quem nunca usou o Google para procurar a resposta, nem vai usar agora: Qual o poder do Kraken afinal? Atirar facas? Dica: O poder é tão interessante e relevante quanto ele próprio.

    • André, será que neste caso ( sem querer ser prepotente, dizendo que foi isso que aconteceu no teu caso … desculpas desde já ) não foi você (como leitor) quem “esperou” informações de onde o autor camuflou as mesmas? Temos saltos cronológicos na história que omitem certas informações, mas elas “estão lá” (basta uma leitura atenta): como a viagem do nº05 ao futuro – explicada em Dallas). No entanto, concorda que algumas informações são relativamente desnecessárias para a trama? Exemplo: se existe a “treta” entre o Kraken (Wolverine) e o Spaceboy (Ciclope), ela não é de hoje – existe 30 anos de intervalo aí. Assim como existe um deles “morto” e uma carga de culpa presente em Spaceboy sobre o fato, mesmo que de maneira sutil, mas “está lá” (será que é por isso a treta com Kraken…ou será que é por causa da Rumor? – que tem um poder dos mais bacanas). Por sinal, eu achei isso O trunfo do roteirista e não um defeito – o fato dele ocultar certas informações – pois, talvez se a trama fosse explicadinha, toda mastigadinha, com linearidade aparente, sem “pedir” nada do leitor, aí sim, teriamos algo definitivamente clichê. Assim como existe uma diferença entre “pontas solta ” e “furos” (concordo plenamente), temos que entender que “sutilezas” poderm ser interpretadas como algo “sem profundidade”.

      “Entrementes o roteiro tem um grande trunfo: Ele serve como alento a todo
      aquele que pretende um dia publicar história de sua autoria, pois
      atesta que não é preciso grandes inspirações, nem é necessário algo
      realmente empolgante, vc só precisa ser um astro do rock.”

      Você gosta dos trabalhos de Quentin Tarantino?

  4. As opiniões giram sempre em torno da contextualização do momento em que
    temos contato com o material, no caso Umbrella Academy: Suíte do
    Apocalipse. Reparei que: teve o pessoal que leu esperando algo
    surpreedente ( como ela foi vendida em alguns reviews por aí ) fato que eu ignorei em primeiro momento, como comentei no texto. E teve o pessoal que foi ler esperando
    uma merda (como foi o meu caso quando tive contato com os mesmos
    reviews que o Callari citou) – tanto que só comprei por tudo o que
    aconteceu (como citei no texto). Mas, mesmo assim, não acho o material
    uma bela porcaria, tampouco algo revolucionário. Concordo com os
    aspectos da arte de Bá lambrarem um Mignola pré Hellboy (mais cores e
    menos sombras), sem fazer comparações com seu irmão (que não vem ao
    caso). No lance do roteiro, eu não vi tanta negatividade assim ( já li
    coisas bem piores e de muito mais nome), pelo contrário, o que eu vi é
    uma presunção petulante do autor – e digo isso de bom ton – em ocultar
    detalhes, sem se interessar pelo que o leitor quer naquele momento,
    deixando assim, a história fluir natuaralmente ( e isso fica mais explicito ainda no segundo encadernado, Dallas – qual já recomendo). Concordo
    também com o fato da HQ ter várias referências e momentos em que
    pensamos ” já vi isso antes “, mas, acho que o autor conseguiu pegar
    estas “referências” ou clichês ( arroz e feijão bem temperadinho também
    enche barriga ) e representar de uma maneira diferente, como se já
    conhecessemos tal coisa mas não de tal maneira. Continuo achando uma HQ muito divertida.

  5. Eu retiro a “porcaria”, admito que fui um tanto exagerado. Mas dificilmente a história em comento pode ser considerada mais que mediana, não alcançando nem de longe a pretensão do seu roteirista. Todas essas “pontas” que vc chama de sutilezas a meu ver foram empregadas de maneira excessiva e desajeitada. Primeiro há que ter conteúdo, ainda que apresentado de maneira não linear, para que uma trama não acabe se tornando uma sucessão aborrecida de buracos. Ao chegar na última página, sinceramente, eu não estava nenhum pouco interessado na origem do rancor entre Kraken e sua irmã, nem das desavenças com Space Boy. Sei que existe. Eu sei que o autor ocultou essas coisas de propósito, li atentamente, vi tudo que ele mostrou e tudo que ele ocultou. O problema está no que ele mostrou e como o fez, falhando ao despertar meu interesse na parte oculta. Já que falamos de Hellboy, me recordo da mini de estréia do personagem. Ali sim, o roteirista soube usar o jogo de “mostra/esconde” com maestria, jogo este estendido por toda a publicação do personagem e que não cansa nem entedia. Talvez o a falha do Way foi ter tentado explorar muitas sub tramas em um espaço pequeno, apostando com exagero no oculto e esquecendo de acrescentar interesse ao aparente. Ao fim e ao cabo, uma história que vive de promessas e não se justifica em si mesma.

    • Acho que vc esperou d+ da HQ heim André..rs..brincadeiras a parte. Entendo quando você qualifica como mediana, assim como eu disse no texto (resenha), não vi tantas pretensões do autor, e ainda não consigo enxergar os “buracos” que você cita como  verdadeiros BURACOS mesmo…mas é isso ai.. compreendo a sua opinião, e respeito ela acima de tudo. Percebo que é uma HQ que racha a opinião do pessoal mesmo. Tem uma galera que curtiu e outra que odiou…é meio ame-a ou deixe-a…rs

  6. Eu li e adorei! Estou doido para comprar o segundo arco, o Dallas. Excelente resenha, eu concordo com tudo e assino embaixo!

    • Eu gostei da história.Não fiquei super empolgado mas também não me decepcionei por completo. Acho que é uma publicação que tem potencial para ser muito boa ou muito ruim. Vai depender do desenrolar da história nos próximos títulos. É feita com uma série de elementos que já vimos por aí em diversas ocasiões, mas que no final produzem uma receita com gosto especial. 

  7. Enfim, embora tenho visto muuuitos comentários negativos, to aqui apenas para lembrar que The Umbrella Academy Apocalypse Suite ganhou o Eisner Awards em 2008 😉