Tanatose – Conto

TANATOSE, ou O Caso dos Nove de Bombaim

Relatório do Dr. Gupta.

14 de março

Fui designado pelo governo para pesquisar um caso em Bombaim. Cheguei a Bombaim na sexta passada e tive acesso ao histórico do paciente. Sanjaya Singh, 19 anos, aproximadamente 69 kg. As fotos e relatório do rapaz apresentam um perfil saudável, exceto pelo hábito do tabagismo e um histórico de hipertensão. Nada cuja influência pudesse determinar um comportamento anômalo.

Os relatórios psiquiátricos são inconclusivos e vagos. O diagnóstico de demência parte muito mais de uma observação superficial do que de uma análise médica. O canibalismo praticado pelo caso estudado é deveras estranho. Não há qualquer ligação de Singh com seitas religiosas que utilizassem dessa prática asquerosa.

Amanhã terei o primeiro contato com o paciente e uma reunião com o grupo de médicos responsáveis. Pretendo, como chefe da equipe, designar novos psiquiatras e psicólogos para o caso.

15 de março

Designei 3 médicos psiquiatras e 2 psicólogos para tratar do caso. Reuni-me com a equipe e discutimos os detalhes importantes, traçamos diagnósticos possíveis e descartamos os improváveis. Após o horário de almoço sentarei com os hemogramas e finalmente poderei examinar Sanjaya.

19h00min. Estou cansado. Os relatórios inconclusivos e o labirinto de diagnósticos dos demais médicos não são à toa. A atual condição de saúde de Sanjaya me assusta. O pulso é baixíssimo. Qualquer pessoa nestas condições estaria desacordada. Mas Sanjaya estava desperto, respondia eventuais perguntas e vez ou outra era tomado por um acesso agressivo. A perda de consciência é constante, e quando em vigília parece não conseguir pensar direito. As tomografias também mostram uma atividade cerebral semelhante à de uma pessoa desmaiada. As mucosas do paciente estão secas e cheias de feridas. Os olhos são vidrados e pouco ele pisca. O paciente rejeita qualquer comida, aceitando apenas água. Entretanto, ele não consegue engoli-la, em um quadro clínico (neste aspecto) semelhante à hidrofobia. Apesar das mucosas extremamente secas e cobertas de feridas, a pele do paciente começa a apresentar uma fina camada oleosa. Uma espécie de secreção com cheiro forte. Uma amostra do tecido foi tomada para análises.

16 de março

Resolvi acompanhar mais diretamente o caso de Sanjaya. Estamos diante de algo completamente novo e desafiador. Minha equipe cunhou o termo Tanatose para se referir ao estado clínico de Sanjaya. Tanatos – deus da morte em grego. Este nome, apesar de lúgubre, representa boa parte das condições de saúde de Sanjaya. É assustador, mesmo para médicos experientes como os da equipe. Resolvi então acompanhar diariamente o caso. Às 06h07min da manhã recebi um telefonema do hospital. O paciente havia se livrado das amarras e corrido em direção a um dos enfermeiros. Muita sorte não ter se repetido a tragédia dos nove de Bombaim, que foram brutalmente canibalizados por Sanjaya. Quando cheguei hoje cedo ao hospital, ele estava agrilhoado, amordaçado e vigiado. Pareceu-me um exagero, mas nunca se sabe. Os exames de sangue conseguiram isolar um elemento estranho na corrente sanguínea. Não possui estrutura de DNA ou RNA que conhecemos, mas comporta-se exatamente como um vírus. 12 horas depois o vírus havia se transformado. 12 horas! Três dias em contato com o caso e já me deparo com um quebra cabeças insolúvel…

A pele de Sanjaya apresenta uma acelerada decomposição. A cobertura oleosa com cheiro forte começou a apresentar pústulas. O fluxo sanguíneo está fraquíssimo.

Uma pequena ferida na boca do paciente se alastrou por toda a língua. Suspeito que Sanjaya estivesse tentando devorar a própria língua. Apesar do estado de saúde extremamente frágil, o paciente demonstra uma força impressionante.

23 de Março

Na última semana o estado de Sanjaya estabilizou-se relativamente. Isto de forma alguma é uma coisa boa. Não dormiu, tendo desmaiado duas vezes na semana no período total de 06:23 horas. A agressividade intensificou-se e tive que afastar a equipe. Um enfermeiro foi atacado no acesso furioso de Sanjaya durante a madrugada de sábado. Sanjaya mordeu a parte lateral da coxa em proximidade ao joelho do enfermeiro (ver anexo), uma necrose alastrou-se pela região da mordida, ao que não restou outra medida senão a amputação imediata. A epiderme de Sanjaya está em estado de decomposição avançado, os pelos começaram a cair, a pulsação sanguínea é praticamente nula. As mucosas de todo o corpo estão ressecadas e cheias de feridas. As unhas todas caíram. O estado do rapaz pode ser descrito em três etapas:

1 – quando em abstinência – deus me perdoe – de sangue e carne, a agressividade se intensifica muito, a força e agilidade tornam-se incríveis e o paciente perde toda capacidade de raciocínio.

2 – após satisfazer o seu estado de abstinência, um profundo cansaço se abate sobre o paciente. Permanece incapaz de raciocínio lógico.

3 – ainda “alimentado”, o paciente passa por um período de vigília, quando apresenta uma limitadíssima capacidade de raciocínio. É como um cão furioso no máximo. Compreende alguns comandos, mas permanece em estado agressivo.

Os estudos irão prosseguir. Temo que não mais poderei continuar com os diários, já que os exames, observação e tratamentos têm tomado a maior parte de meu tempo. Os relatórios, entretanto, poderão resumir o estado de Sanjaya. É um caso delicado, assustador e extremamente perigoso. A possibilidade de uma cura ou tratamento está muito distante de nossa realidade ainda, mas não descansaremos enquanto esta moléstia não tiver um caminho para o tratamento médico apontado.

Por Pedro Ribeiro Nogueira

___________________________________________________________________________________________

Pedro Ribeiro Nogueira (@Pedro_RNogueira) é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.Pedro Ribeiro Nogueira é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Escrevi esse conto ha tempos. Nunca terminei… Mas achei legal ao relê-lo, e com o hype DO MEGA FODA livro do Alexandre, achei bacana passar aqui no P&N a parte que escrevi. Zumbis sempre divertem. Espero que gostem, apesar de ser um texto antigo e sem mto trabalho.

    Abraços