Pop Art e os Quadrinhos

Colaboradora: Marília Toledo

Recentemente foram roubadas de um apartamento em Manhattan dez obras de arte de Andy Warhol e duas obras de Lichtenstein, outro aclamado artista da Pop Art, que baseia grande parte de sua produção nos quadrinhos. Pensando a respeito da intensa valorização das obras Pop e ao mesmo tempo da ascensão cultural de gênero dos quadrinhos que vem acontecendo nos últimos 20 anos, eu, que gosto muito de ambos, achei que valia pena escrever um pequeno post relacionando estas duas expressões artísticas do século XX que são muito próximas e também muito distintas.

A arte pop surgiu depois da II Guerra Mundial, quando grandes questionamentos começavam a aparecer a respeito da arte moderna: a tecnologia, que certas vanguardas artísticas defendiam como salvação da humanidade, tinha resultado numa matança inimaginável, a indústria que todos acreditavam que era algo unicamente benéfico produziu muito mais armas do que qualquer outra coisa. Outra crítica muito forte que existia em relação à arte moderna é que ela era muito elitista e se tornou algo tão sofisticado e erudito que acabou por se distanciar das pessoas comuns, que não a entendiam muito bem, além de serem muito caras e valorizadas a ponto de serem vistas apenas em coleções particulares, assim a maioria das pessoas não tinha sequer acesso a ela.

Os artistas então passaram a olhar com mais atenção para a cultura pop que atingia quase a totalidadedo mundo no auge da década de 60: o cinema hollywoodiano era visto em todos os lugares, todo mundo ouvia rock n’ roll e todo moleque lia Superman. Andy Warhol e Roy Lichtenstein passaram então a produzir gravuras de grandes símbolos, reconhecíveis em qualquer lugar, fáceis de serem entendidos rapidamente e capazes de serem copiadas e reproduzidas infinitamente, características estas que poderiam, muito bem, definir uma história em quadrinhos da época.

Os quadrinhos mais comerciais que eram conhecidos até então eram basicamente formados pela junção de desenhos estilizados e simples, que criavam personagens icônicos e grandes símbolos, com cores primárias, e em sua maioria tinham diálogos nada complexos e roteiros meio bobos. Eram, portanto um prato cheio para os artistas que queiram falar às multidões sobre essa nova face da arte, que agora podia ser copiada sem perder seu valor, a cultura de massa que podia ser comprada por quase todos.

Assim a pop art fala muito da capacidade de reproduzir as grandes obras e queria discutir se isso tirava ou não o valor da arte. Pra entender melhor é só pensar que antes da fotografia, ver uma grande obra de arte só era possível no museu, pouquíssimas pessoas tinham conhecimento das aclamadas pinturas e esculturas, a obra possuía uma “aura” única. Os ícones da cultura de massa, ao contrário, representavam a expansão máxima do acesso à produção artística da época e cabia aos artistas descobrirem como lidar com esta nova possibilidade.

Desta forma, quando Warhol faz um quadro do Superman ele está afirmando a arte enquanto reprodutível e transformando em arte uma figura que sequer foi criada por ele, ou seja, ele usa a reprodutibilidade enquanto meio de produzir arte. Lichtenstein, também, coloca no museu aquilo que é vendido por centavos em qualquer banca de jornal, não tanto pelo valor artístico do quadrinho propriamente, mas por aquilo que ele representa, e para estes artistas ele representava a sociedade de consumo.

Resumindo, longe de ser um elogio aos quadrinhos, a pop art utiliza-se deles para elaborar uma visão crítica de um mundo que começava a se mostrar dominado pelo consumo, onde tudo é vendido como arte e onde cultura se tornou algo voltado para as grandes massas e não para as elites.

E pelo jeito deu certo a estratégia de valorizar a cultura de massa pela arte, já que esses quadros roubados são estimados em cerca de US$85.000 cada…

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  1. A Pop Art vem no embalo da pós-guerra. Era um resultado natural da propaganda no período entre guerras (aqueles pôsteres belíssimos (esteticamente falando, claro) do nazismo, comunismo e dos EUA. Com a vitória americana e consequentemente a ascensão do país, fez-se necessário aquela estilo de propaganda que conhecemos como "American Way of Life" nos anos 50, isto é, suplantar a imagem belicosa (através de nova estética) do período de guerras. Auto-afirmação de valores americanos para o mundo. Quadrinhos, cinema e música eram a vanguarda da "dominação" cultural do mundo sob a ótica americana. A POP ART arte resultou desse excesso. Dessa adoração de coisas que seriam usuais, mas que ganharam aura de ícones.
    O Warhol era um dos raros artistas que não se negava a dizer que adorava dinheiro. Para ele a repetição mecânica da arte era uma maneira de se auto-sustentar além de poder financiar idéias próprias (a Factory em NY é um exemplo, o Velvet Underground tb).
    Tive oportunidade de ver quadros originais do Warhol. Fiquei maravilhado. Não importa o quão simples era "arte" dele.
    Muito bom o seu texto. Raro encontrar conteúdo/analogias do tipo em sites de quadrinhos. Parabéns. 🙂

  2. Muito obrigada Marcelo!
    Eu sou também uma grande entusiasta da obra do Warhol, acho fantástica essa proposta de um anti-hermetismo da arte, uma aproximação e até mesmo fusão do erudito com o popular. Esse tipo de coisa acabou se banalizando depois da década de 60 e a arte que criticava o consumismo foi, por fim, mercantilizada e consumida, conforme o esperado…mas surgiram muitas coisas excelentes antes disso acontecer e todo o movimento de revisão da cultura de massa rendeu frutos em todas as artes. Até mesmo na arquitetura (sou estudante de arquitetura e urbanismo) houveram movimentos que se pautaram, por exemplo, nos edifícios de Las Vegas, com seu letreiros e neons…não posso dizer que gosto do resultado, mas em teoria é muito legal…rs

    Mas valeu pelo comentário e eu curti seu blog, achei muito bons seus posts!

  3. Ao contrário do que muita gente pensava, quadrinhos é realmente arte.
    O que me fascina na arte é essa miscelânea de conceitos, estilos e doideiras do tipo. A migração de uma inspira a outra e isso vai movimentando a Roda da cultura.
    Espero por mais posts com abordagens similares para análises do tipo por aqui. 🙂

    Ps: Obrigado pelas palavras sobre meu blog. Fico feliz. Tento fazer o melhor por lá. Sinta-se bem vinda. 🙂

  4. Poxa. Fiquei surpreso ao ver que vocês não mencionaram dois marcos para a Pop Art, as graphics novels “The Adventures of Jodelle” e “Pravda La Survireuse”, ambos de autoria de Guy Peellaert (primeiro artista à misturar pop art com quadrinhos).

  5. ñ conseguir assistir o Mártires em português e ñ conseguir assistir Alta Tensão em nenhum site aqui na net .
    Me indiquem sites ?