O Mágico de Oz e a Economia dos EUA

Conforme prometido no videocast sobre fábulas, estou escrevendo um post sobre a relação que a famosa obra O Mágico de Oz tem com a economia dos EUA. Porém, antes de explicar exatamente as intenções do escritor L. Frank Baum em seu livro, é preciso que você entenda algumas coisas sobre o momento que o país vivia.

Na segunda metade do século XIX, os fazendeiros americanos do oeste (que na época havia sido recentemente desbravado), tinham um enorme débito com os banqueiros do leste. Isso aconteceu em parte por causa dos empréstimos concedidos justamente durante esse período de desbravamento, mas principalmente, como resultado da revolução tecnológica que ocorreu na época, e simplesmente arrebatou o setor agricultor. Estou falando do surgimento de colheitadeiras mecânicas e máquinas de debulhar, de uma série de equipamentos caros que aumentaram significativamente a produção, o que, por sua vez, gerou uma queda fenomenal dos preços dos produtos (afinal a oferta aumentou).

Para encurtar a história, basta dizer que os agricultores do oeste estavam recebendo menos dinheiro pelas colheitas, mas tinham que pagar os altos empréstimos feitos para comprar o novo equipamento.

Por terem o rabo preso com os banqueiros, grande parte dos agricultores começou a ser pressionada para dar apoio a políticos que defendiam a ideia de mudar os Estados Unidos de um sistema padrão-ouro para um sistema padrão bi-metal, (no caso, ouro e prata). Só para esclarecer quem não entendeu nada, no passado a quantidade de dinheiro que um país tinha era medida pela sua quantidade de ouro. O ouro funcionava como uma espécie de “seguro” para manter a economia do país nas rédeas. Um país jamais podia produzir mais dinheiro do que seu equivalente em ouro, sob os riscos de gerar uma enorme inflação.

Um dos principais políticos que queriam a mudança do padrão era o senador Willian Jennings Bryant, duas vezes candidato à presidência dos EUA. Ele queria que o governo pudesse produzir mais moeda do que sua quantidade de ouro, e esta luta política começou a tomar um enorme corpo. De um lado os agricultores do oeste dando apoio aos políticos e do outro, os banqueiros do leste.

Eventualmente, os banqueiros do leste ganharam a briga e os EUA mantiveram apenas o padrão ouro. Os anos passaram e essa briga foi esquecida, mas em 1964, um professor chamado Henry Littlefield lançou uma tese maravilhosa.

Para ele, o livro O Maravilhoso Mágico de OZ era um trabalho político, uma alegoria, feito com a intenção de dar apoio aos fazendeiros e seu desejo de ver a economia mudada. Esse movimento ficou conhecido como Movimento Populista.

Vamos aos personagens e sua representatividade:

Dorothy é uma jovem fazendeira do Kansas que representa a população rural dos Estados Unidos;

O Homem de Lata representa os trabalhadores das cidades;

O Leão Covarde é próprio Willian Jennings Bryant, um líder com potencial, mas que simplesmente não era forte o suficiente;

O Espantalho representava os agricultores americanos.

Vamos às alegorias:

Os quatro viajam para o leste pela estrada de tijolos amarelos (estrada de ouro?);

Eles querem ver o Mágico de Oz, que nada mais é do que os perversos banqueiros do leste;

Oz é apenas a abreviação da palavra inglesa ounce (onça), como em onças de ouro.

Dorothy e seus companheiros mostram que o Mágico era na verdade uma grande fraude. Em outras palavras, o padrão ouro era uma fraude.

O Espantalho torna-se inteligente;

O Leão recupera sua coragem;

O Homem de Lata não vai mais enferrujar – uma alegoria para não haver mais desemprego;

E no livro, Dorothy volta para o Kansas graças a seus sapatos de prata (percebem a relação? A prata pisando sobre o ouro, que era a estrada de tijolos dourados?), mas esse fato acabou sendo esquecido pela população por que no filme, que tornou-se bem mais famoso, os produtores mudaram os sapatos de prata para rubis.

Há diversas interpretações para a obra, destacando-a de ser apenas um livro infantil – e esta seguramente é a que mais gosto.

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  1. Muito interessante, gostei mais dessa interpretação também. Parabéns pelo post!

    Uma outra curiosidade que envolve 'O Mágico de Oz', essa a maioria deve conhecer, é a lenda de que o álbum 'Dark Side Of The Moon' do Pink Floyd foi inspirado no filme.

    Vocês podem conferir o vídeo aqui:

    . Vale a pena!

  2. Fala, Pipoqueiros. Beleza? Rapaz, que coincidência. Justo no dia em que assisti o Pipoca e Nanquim: Fantasia e vcs falaram sobre o Mágico de Oz, naquela mesma noite fui assistir ao filme sincronizado com o Dark Side of the Moon. Caras, nunca pensei que teria a oportunidade de ver O Mágico de Oz no cinema. Foi uma das experiências cinematográficas mais ricas que já tive.

  3. Cara, esse filme, na minha opinião, é o mais misterioso de todos. Eu já dediquei noites pesquisando interpretações, muitas me assustaram, como aquelas sobre os ILLUMINATI, ou satânismo. Mesmo essa sua interpretação sendo muito legal, nao deixo de acreditar no simbolismo presente nessa obra. E sobre a sincronização com o disco do Pink Floyd, acho que não é mera coicidência. Obs:No filme 2001: Uma odisséia no espaço, certo disco também tem sincronia semelhante, no último capitulo do filme.