O erro de Kubrick

“De Olhos Bem Fechados” possui algumas cenas fantásticas, a música é excepcional, a direção de arte, deliberadamente grandiloqüente e cafona, é interessante. Tom Cruise está irrepreensível, no que talvez seja sua melhor atuação. Diversos coadjuvantes brilham. Por tudo isso, “De Olhos Bem Fechados” poderia ser considerado apenas um bom ou ótimo filme, se não tivesse sido dirigido por um mestre. Sendo o filme-testamento de Stanley Kubrick, é decepcionante.

Kubrick planejava adaptar “Breve Romance de Sonho”, de Arthur Schnitzler, desde 1968, ano em que usou o nome do jornalista Jay Cocks para comprar os direitos sobre a obra. Não retomou o projeto até 1994, quando convidou o escritor Frederic Raphael para co-roteirizar o trabalho com ele. A saga do difícil relacionamento criativo da dupla foi registrada no livro “De Olhos Bem Abertos”, lançado no Brasil pela Geração Editorial, escrito por Raphael. Ao longo dos anos foram escritas dezenas de versões do texto, até o início da produção, em março de 1996. As filmagens se estenderam até junho de 1998. Segundo a versão oficial, o filme estava finalizado quando Kubrick faleceu, vítima de um ataque cardíaco enquanto dormia, em 07 de março de 1999. A produtora Warner, e Tom Cruise, garantem que não mexeram em nada. Não acredito em nenhuma das afirmações.

Primeiro porque o nome de Cruise aparece primeiro nos créditos. Algo impensável estando o diretor vivo. Ademais, é nítido que “De Olhos Bem Fechados”, para qualquer espectador atento e conhecedor do estilo de Kubrick, é um esboço. O tom geral está ali, mas falta aparar arestas. O filme é repleto de tempos mortos, sendo que Kubrick sempre foi um exímio editor. Em seus trabalhos nada é gratuito. Nem mesmo as cenas de silêncio espacial ou a longa seqüência do túnel de luz em “2001 – Uma Odisséia no Espaço” carecem de sentido dramático. Em “De Olhos Bem Fechados” abundam falas do tipo que Umberto Eco chama de “diálogos de empreitada”, aqueles onde os personagens tagarelam sobre banalidades, sem sair do lugar ou acrescentar densidade à trama. Conversam sobre o tempo, conversam sobre uma festa etc, etc, etc. Palavras, palavras, palavras. Exemplar é o encontro final entre os personagens de Cruise e Sydney Pollack. Dura quatorze minutos de verborragia maçante e sub-reptícia. Salvo um imenso engano, pelo menos metade desse tempo teria sido cortado numa possível versão final.

Em todo caso, não acredito que o filme pudesse ser salvo. Não pela transposição da narrativa da Viena do final do século XIX para a Nova Iorque contemporânea. Tampouco pela ocultação da origem judaica do protagonista, o médico Fredolin, transformado no WASP Bill Harford. Tudo isso é aceitável, o problema é que Kubrick optou por explicar demais. “Breve Romance de Sonho” é um livro sobre dúvidas. Sua trama é um jogo de espelhos, onde o real e o imaginário se fundem, nada é explicito. Pode ser um delírio, uma brincadeira cruel, ou a pura realidade, que às vezes é mais estranha que a ficção. No filme as explicações soam mal alinhavadas. Não há mistério, há confusão.

Por estranho que possa parecer em se tratando de um perfeccionismo que repetia tomadas centenas de vezes se achasse necessário, a mise-em-scène é falha. Não há linha definida nas atuações. Variam de modo esquizofrênico entre exageradas e naturalistas. Nem mesmo Nicole Kidman, na média uma atriz mais competente que o ex-marido, se salva: hora é Brecht, hora é Stanislavski, hora é Método. Sua personagem, Alice, é insossa. Pretende-se que seja uma mulher profunda e complexa, destilando revelações sobre desejos femininos em sonhos intrincados, quando na realidade é apenas monótona e imatura. Em palavras mais diretas: uma chorona insuportável. Culpa de Kidman, do roteiro ou da direção, não sei.

Mas o fato é que Kubrick pesou a mão. Orquestrou artificialmente uma série de seqüências visando fazer Bill Harford evoluir na trama. Três exemplos: ele entra no bar exatamente quando seu amigo pianista, Nick Nightingale, termina sua apresentação, possibilitando um diálogo. Logo depois, devidamente mascarado, Harford chega à mansão justamente no auge da cerimônia.  Um minuto a mais e perderia seu contato, uma linda mulher que parece saber quem ele é, mesmo sem ter sido alertada por ninguém, uma vez que estava participando do ritual.  Mais adiante, ele compra um jornal por acaso e por acaso abre a página que deveria abrir para saber onde deve estar na próxima cena. O universo conspira para que o ocupado médico não perca tempo.

Contudo, o pior são os diálogos em eco. Constantemente, quando um personagem faz uma pergunta, seu interlocutor repete a pergunta para si mesmo. Exemplo: na cena onde Harford recebe um telefonema de Alice pelo celular, uma jovem prostituta que o acompanha pergunta: “você precisa ir?”. Ele não responde de imediato, murmura: “se eu preciso ir?”.  Se apenas Harford tivesse esse hábito poderia ser considerado uma idiossincrasia, mas não, os diálogos em eco se espalham por todo o elenco. Inapelavelmente, mais farpas de roteiro e direção.

“De Olhos Bem Fechados” foi fracasso de público e crítica no lançamento. Mas o fato é que nem sempre Kubrick foi compreendido de imediato. Seu filme “O Iluminado” rendeu-lhe uma indicação ao troféu Framboesa de Ouro de pior diretor do ano de 1980. Reavaliado, hoje disputa com “O Exorcista” o trono entre os filmes de terror. Porém, tendo se passado mais de uma década, seu filme-testamento não mudou de status, não se tornou um clássico. Talvez seja um Cult, mais pelo pedigree do que por suas qualidades específicas. Não é muito lembrado nem mesmo enquanto ponto alto nas carreiras de Cruise e Kidman.

Desde que se tornou um cineasta de primeiro escalão, Kubrick acostumou-se a dividir gêneros. Seus poucos filmes, tanto pela qualidade técnica quanto pelo ponto de vista sempre inusitado, eram de tal modo trabalhados que, fatalmente, tornavam-se marcos. Kubrick não aceitava menos. Tanto que retirou de circulação seu primeiro longa-metragem, “Fear and Desire”, de 1953, por considerá-lo uma simples experiência amadora.  Se “A Morte Passou Por Perto” e “O Grande Golpe” serviram para lhe dar experiência, “Lolita” é reconhecido como uma obra de arte. “Spartacus” é apontado como um dos melhores épicos de sandálias da história do cinema, sem precisar apelar para um pano de fundo cristão. “Dr. Fantástico” é a maior comédia de humor negro já realizada. “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica” são obras de referência na ficção científica. “Glória Feita de Sangue” e “Nascido Para Matar”, embora o segundo tenha tido seu impacto minimizado pelo lançamento anterior de “Platoon”, são pérolas no gênero Filme de Guerra. “Barry Lyndon” divide opiniões, mas é, inegavelmente, um colosso técnico e um dos filmes mais bem fotografados de todos os tempos. Nessa galeria de triunfos, “De Olhos Bem Fechados” fica no limbo. Recebeu alguns estudos centrados em sua perspectiva da teoria psicanalítica freudiana, mas nada que o resgate.

O mais provável é que não exista nada para ser resgatado. Se Kubrick tivesse tido menores pretensões ao delinear a proposta artística de “De Olhos Bem Fechados” seria possível considerá-lo um filme de arte vanguardista, convertendo seus defeitos em qualidades, mas essa seria uma manobra farsesca e intelectualmente desonesta. O investimento, em tempo e em dinheiro, foi altíssimo. Kubrick, que sempre filmou para multidões, queria um blockbuster. A Warner esperava um blockbuster.  A escalação do casal queridinho da América não foi por acaso. O fracasso comercial potencializou as deficiências artísticas. Nem mesmo o sorriso de Cruise e a beleza de Kidman puderam salvar a obra na qual trabalharam exaustivamente por dois anos. Comenta-se em Hollywood que o desgastante processo de filmagem pelo qual passaram teve peso no fim do casamento. Outra lenda kubrickiana.

“De Olhos Bem Fechados” foi o único filme de Kubrick que assisti no cinema. Ainda era uma criança quando do lançamento do filme anterior, “Nascido Para Matar”, em 1987. Descobri-o na adolescência e fiquei estupefato. Algumas das principais passagens de meu romance, “Hirudo Medicinallis – Ou Carta Aberta de um Vampiro de Brinquedo ao Espectro de Orson Welles”, se passam em uma sala de cinema chamada Cinematografo Kubrick. Por tudo isso, àquela sessão deveria ser um acontecimento pessoal inesquecível. Em certo sentido foi. Mesmo admirando-o imensamente, não poderia fechar os olhos para àquilo que tinha acabado de assistir. Seria uma traição ao legado do próprio Kubrick, que, com sua coleção de obras-primas, ajudou-me a aprender a assistir filmes de olhos bem abertos.

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  1. Ademir, discordo redondamente de seu posicionamento. Considero De Olhos Bem Fechados uma obra prima que desvendou, como poucas, o paradoxo do casamento e, em última instância, do relacionamento humano. Há certos exageros típicos de um diretor idoso e que havia perdido a consonância junto ao público e as gerações mais recentes; há a gratuidade de certas cenas envolvendo Nikole Kidman (mas isso fazia parte da proposta desde o início); mas acho que os permenores não diminuem a obra como um todo. O filme desvenda a ironia máxima da relação a dois: não conseguimos ser nós mesmos, mas vestimos máscaras que nos ajudam a viver as intempéries da vida (emocional / profissional). Kidman vivia com a idelaização de seu marido e vice-versa (a cena em que ela está dormindo com a máscara de Cruise é genial). Cruise vivia com a imagem que tinah da esposa que se rompe com a revelação dos sonhos dela, mas, mais do que isso, ele vivia com a imagem que tinha de si: médico, bem sucedido, seguro de seu lugar no mundo; que se rompe quando ele se dá conta de que tudo que erguera em torno de si era uma casca, um verniz para suprir suas inseguranças.

    Bem, não quero me alongar aqui, pois isso é só um comentário, mas reveja com carinho o filme, pensando no matrimônio e como não nos casamos com outras pessoas, e sim na imagem que temos de outras pessoas – e como as grandes brigas que qualquer relação tem são por que queremos adequar as pessoas à imagem criada.

    Grande abraço.

    • Concordo com seu comentário plenamente, Alexandre. Para mim, a relação de falsidade e incompreensão do relacionamento conjugal são o foco do filme. Fiquei surpreso com a opinião do Ademir, embora saiba que este filme divide opiniões até mesmo para os fãs do diretor. Considero este filme de grandíssimo valor, sem ser puxa-saco, e muito superior à milhares de filmes que vemos por aí. Talvez, para explicar a opinião do desgosto do Ademir, entendamos que a expectativa sobre uma obra de Kubrick colocaria o próprio diretor num patamar de responsabilidade muito grande, diante de suas marcantes obras anteriores. Se De Olhos Bem Fechados surgisse de repente, num festival qualquer e sem expectativas, talvez a crítica tivesse mesmo outros olhos para essa obra.
      Abraço.
      Marco.

  2. Falando como um leigo sobre o filme, acredito que entre todos os filmes de Kubrick ele é o que tem menos destaque, contudo ainda acho uma obra de gande valor por explorar o matrimônio e sua relação com o ambiente exteno, acho que o filme “Beleza Americana” tenta (de maneira mais didática e sutíl) explorar o mesmo conceito mais visto com olhos diferentes,(o do diretor no caso).

  3. Falar que Spartacus é um dos melhores filmes épicos é no mínimo dar atestado de desconhecer filmes épicos. Spartacus não chega aos pés de El Cid, A Queda do Império Romano, Quo Vadis só pra citar 3 dos pesos-médios. Se for pra citar os pesos pesados então Spartacus mostra toda suas deficiências de roteiro, estética, atuações e direção. Spartacus é um marco da pretensão e um fracasso enquanto épico. Só Kubricketes apaixonadas acham Spartacus bom, qualquer um com bom senso sabe que ele está longe de ser clássico e se vende muito mais pela “marca” kubrick do que pelas suas qualidades. Até pq ele não tem qualidades.No mais concordo com tudo que o Alexandre Calari escreveu aqui embaixo.

    • “Kubricketes”? Pôxa, já inventaram até mesmo esse termo? Por que será que gostam tanto de atacar o que é bom? Estranho…

      • Kubrick
        era mestre mas até os mestres têm um parcela de lixos em suas carreiras. Spartacus e Full Metal jacket eu classifico como “quase inassistíveis” de tão pretensos e fracos se comparao a seus pares (épicos/filmes de guerra). Inventei o termo kubricketes por não concordar com o deslumbramento que existe na “marca” Kubrick. Ele tem obras primas e filmes excelentes, mas força a amizade dizer que Spartacus e Nascido Para Matar tenham alguma qualidade fora o esmero técnico.

        • Pôxa… e eu que pensei que todo amante de cinema gostasse de Nascido para matar!!! Toda vez que me lembro do “Punheta” me acabo de sorrir, até hoje. E o final do filme, para mim, é um dos melhores do cinema.

  4. Ainda não encontrei esse “erro” de Kubrick, no filme. O texto deste artigo é legal; bem escrito e invocando vários momentos interessantes da película. Mas o que, pelo autor do artigo, é apontado como “erro”, para mim, não o é. “De olhos bem fechados” não é um dos grandes trabalho de Kubrick, claro. Mas é um ótimo filme. Ainda mais diante do lixo estampado diariamente nas salas dos cinemas.

  5. Também acho Spartacus um atropela na carreira de Kubrick, Paulo. Na verdade, não é um filme ruim, mas se o próprio Kubirck diz que ele foi feito por grana, então quem sou eu para discordar…

    • Cara virei fã do seu site. Pô Alexandre vc tá de parabéns!! Quanto ao Spartacus sou obrigado a discordar, considero um lixo pretenso. Kubrick era mestre mas até os mestres têm um parcela de lixos em suas carreiras. Spartacus e Full Metal jackete eu classifico como “quase inassistíveis” de tão pretensos e fracos se comparao a seus pares (épicos/filmes de guerra).

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