Moby Dick – Revisitando um Clássico

“Chamai-me Ishmael!”

A emblemática primeira linha do romance Moby Dick é uma das mais famosas aberturas da literatura mundial de todos os tempos. Sua simplicidade absurda, temperada com um grau de mistério e tensão, dá o tom do que virá a ser o conjunto desta espetacular narrativa.

Escrita por Herman Melville (um ex-marujo da marinha mercante norte-americana) em 1851, o romance Moby Dick foi recebido com muito pouco entusiasmo por público e crítica quando do momento de seu lançamento. Hoje, mais de um século depois, a obra é comumente chamada de “A Grande Novela Americana” e, tendo rompido com as fronteiras de seu país, é considerada quase unanimemente um dos principais representantes da literatura mundial. A despeito da critica especializada e dos leitores da segunda metade do século 19 (ainda impregnados com as formas estabelecidas pelo Período Romântico) não terem captado a complexidade e a beleza do texto, hoje o livro conseguiu um feito impressionante: não é apenas um referencial dentro do meio acadêmico, como também se tornou um vultoso representante da cultura pop, uma vez que é difícil encontrar alguém que não tenha ao menos escutado falar da famosa cachalote branca.

A história da busca pela baleia envolve o leitor em uma aura de mistério e sedução e, instigados por ela, pelo desconhecido representado na figura do oceano – aquele tapete azul que parece infinito – queremos saber mais e mais. Saber, por exemplo, que por mais improvável que pareça, a obra prima de Herman Melville foi baseada em uma história real cujos sórdidos detalhes são capazes de fazer gelar a alma do mais corajoso dos homens. Essa história é relatada em detalhes no arrepiante No Coração do Mar, de Nathaniel Philbrick, e nos lembra da bravura do ser humano mediante uma situação extraordinária em contrapartida à sua impotência em face de uma força da natureza amplamente superior à sua. Um relato de terror que impressiona pela acurácia com que é contado e principalmente pelo seu teor, que encontra a expressão máxima nas decisões que os personagens precisam tomar para continuarem vivos. Em uma palavra: canibalismo!

É sempre interessante perceber como um texto consagrado mundialmente se relaciona com outras linguagens. Adaptações costumam ser uma forma de expressão artística que agrada o público em geral e, em verdade, são em grande parte responsáveis pela popularização de muitas grandes obras. Ao longo dos anos, o romance foi adaptado para o cinema, rádio, teatro e televisão. Motivou o maior quadrinhista da história, Will Eisner, a recriá-lo em quadrinhos e essa foi apenas uma das várias adaptações que a obra teve nesse meio. No mundo da música, diversos artistas dedicaram-se a escrever canções baseadas nessa envolvente narrativa. Orson Wells encenou no teatro uma versão de Moby Dick em 1955 que, apesar de ter sido filmada, é considerada hoje uma obra perdida. Gregory Peck elevou a atuação a outro nível em sua época, ao desempenhar o papel do Capitão Ahab em um filme do diretor John Huston, de 1956. Bandas de rock como Demons and Wizards basearam canções de seus álbuns no texto original e a famosa empresa Hanna-Barbera produziu um desenho de sucesso em 1967, que foi exibido nos EUA pela rede CBS. O artista de música eletrônica Richard Melville Hall, que goza de um parentesco com o autor do livro, adotou o nome artístico “Moby”, tanto pela referência, quanto pela homenagem.

Moby Dick não é uma obra de aventura, mas sim uma jornada complexa que aborda temas de natureza distinta, como metafísica e psicologia. É uma obra realista que descreve em detalhes a dura vida do homem do mar, as embarcações, a pesca e as relações que os embrutecidos marujos travavam entre si. É o registro do comportamento de uma época de valores tão distantes dos nossos, mas é também algo que vai além disso tudo. Os símbolos e metáforas do texto contrastam com sua linguagem estilizada, o que envolve o leitor numa espiral que ora ascende, ora decai, tal qual à obsessão do próprio Capitão Ahab.

Ah, o capitão… Como não se emocionar com o momento em que o imponente capitão aparece pela primeira vez no convés? Não deve o público moderno ter a oportunidade de travar contato com tão impressionante descrição? Esta magnífica narrativa precisa ser apresentada para todos aqueles que a ela ainda não tiveram acesso à força selvagem que o texto original de Moby Dick traz em si, convidando o público a se aventurar no mundo singular do navio Pequod, sendo guiado pelo jovem marujo Ishmael em sua jornada de descobrimento e amadurecimento. O livro, por ocasião de quem o lê, provoca e instiga, faz pensar e informa, sensibiliza e inquieta. Enfim, proporciona as mais contrastantes sensações e é leitura obrigatória a qualquer pessoa que se considere fã de boa literatura.

“Chamai-me Ishmael. Há alguns anos – quantos precisamente não vêm ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de regular a circulação do sangue”.

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Assista o videocast em que indicamos a leitura de Moby Dick.


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  1. Texto maravilhoso, adoro esse livro.

    Comprei-o recentemente em dois volumes, capa dura em tecido azulado, que a editora Abril lançou nas bancas. É sempre bom reler uma aventura desse naipe, quando o desconhecido era ingrediente certo para a imaginação mergulhar fundo – literalmente, nesse caso.

    Só gostaria de ter alguma edição com gravuras de páginas inteiras, espalhadas na narrativa. Quem sabe um dia?

    • Putz André, minha versão também é antiga, em dois volumes capa dura, mas ela vem com as imagens oficiais de Rockwell Kent. Ele foi o grande responsável pelo livro ter se tornado um sucesso, pois ilustrou uma reedição que esgotou várias tiragens e, eventualmente, fez a obra cair no gosto do público.

  2. Essa disseminação da baleia albina na cultura pop que me motivou a ler a obra alguns anos atrás, quando eu tinha apenas 15/16 anos. Infelizmente minha leitura não era veloz suficiente e muito menos tinha tal capacidade (como hoje) de captar as entrelinhas. E outro detalhe, a única versão disponível na biblioteca da escola era essa http://www.skoob.com.br/edicao/35372/, de 1972, com português arcaico (ph = f e coisas do tipo). Enfim, a motivação me levou a enfrentar as dificuldades e hoje eu sou o único dentro do meu circulo que conhece tantos detalhes sobre a pesca da baleia (muito útil haeihaeaei).
    Essa descrição da entrada do Capitão em cena é épica, verdade.

    Agora, ano passado o Deni Glover lançou um filme baseado na obra, mas em vez de baleias, são dragões. Vale a pena conferir se você é fã do personagem mais GORDO e querido da literatura, senão, deixe passar (filme ruinzinho).

    ótimo texto Alexandre.

    • Cássio, eu vi o trailer desse filme e até fiquei curioso, mas o medo da tosqueira acabou prevalecendo. Bom que não perdi meu tempo. Esses dias me deparei com 2010: Moby Dick. Quase baixei, mas antes resolvi assistir ao trailer também. Ufa, escapei de outra boa. Nesse novo filme a baleia é 3 vezes maior e é caçada por um submarino. Ishmael foi substituído por uma mulher, interpretada pela loirinha que era companheira da Xena.

  3. Muito boa esta matéria. Nunca li o livro mas já li diversas releituras da obra em quadrinhos (Eisner, Aspiri, Sienkewics), bem como em outras midias como tv ou cinema. Já assisti também  ao filme dos anos 50, que achei magnífico e me surpreendeu bastante pela qualidade da produção. Ví também uma mini-série que passou na tv um tempo atrás.  Realmente é uma história fantástica e cativante.