Ler Homem-Aranha Ultimate é como ver o filme perfeito do herói

A criação do Universo Ultimate é, pra mim, uma das melhores coisas que a Marvel fez desde os tempos de Stan Lee. Na entrada do segundo milênio, com a maioria de seus super-heróis beirando os 40 anos de existência, eles decidiram zerar a cronologia dos personagens e recriá-los em um universo à parte, com uma roupagem mais moderna, sem qualquer interferência nas demais histórias, que seguiram seu rumo normalmente.

O objetivo era angariar novos leitores. Dezenas de anos de cronologia afastavam pessoas em busca de uma leitura descompromissada. Qualquer revista tradicional da Marvel que parasse em suas mãos exigia um mínimo conhecimento prévio sobre as aventuras, caso contrário em algum momento você se sentiria boiando. Isso acontecia muito comigo, pois nunca segui fielmente as publicações mensais.

Foi uma jogada sensacional da Casa das Ideias! Não tenho dúvidas de que vários jovens aderiram aos quadrinhos de super-heróis depois disso. Muitos fãs de longa data inclusive consideram as histórias Ultimate melhores que as da linha 616 (como é conhecido o universo tradicional da Marvel). Alguns desses novos títulos ultrapassaram suas contrapartes principais nas vendas e se transformaram em grandes sucessos da editora.

Bem, não vem ao caso qual universo é o mais legal, o ponto é que as novas publicações trouxeram excelentes histórias. Em meio a todas elas se destacam o reboot de Mark Millar dos Vingadores (renomeado como Os Supremos) e do Homem-Aranha por Brian Michael Bendis, ambos nas listas de melhores quadrinhos da década publicadas aqui no Pipoca e Nanquim. Os Supremos é uma das HQs mais empolgantes que li nos últimos tempos, será eternamente lembrada, mas hoje vou me concentrar no novo Peter Parker.

Encontramos nos roteiros de Bendis toda a essência do Aranha da era Lee e Ditko. Os conflitos do personagem, o esforço em conciliar a carreira de herói com a vida comum, o cotidiano na escola e no trabalho, a convivência com tia May, as motivações, as piadas durante as lutas, tudo está lá, do jeitinho como os maiores admiradores do herói gostam de ver. Tudo como deve ser. Aventuras sem pretensão de ser mais do que divertidas, empolgantes número após número.

Da mesma forma que o escritor acertou nos elementos clássicos que manteve, também logrou êxito em suas mudanças, ou melhor, adaptações. Ele aproveitou com muita competência a vantagem que tinha perante os roteiristas do herói na linha normal: o conhecimento do cenário completo.

Pensem que, quando Stan Lee e todos os outros profissionais que já passaram pelo Aranha escreviam suas histórias, as coisas não eram pensadas muito a frente, as ideias apareciam conforme os meses passavam. Novos vilões e coadjuvantes eram inseridos todo momento. Muitas explicações para as mudanças na vida de Parker eram feitas de modo retroativo, com o roteirista atual buscando respeitar o que foi pensado pelos anteriores. Assim, a qualidade das HQs não é uma constante, varia a cada escritor.

Brian M. Bendis tinha uma visão do todo, acesso a tudo que já foi feito com o personagem, não precisava criar nada do zero, apenas adaptar, unir as pontas soltas, conceder mais coesão ao universo. Isso foi feito com maestria.

Peter não foi picado por uma aranha radioativa, mas sim por uma geneticamente modificada nos laboratórios das Indústrias Oscorp, de Norman Osborn. Herói e vilão estão ligados desde o princípio. Quando Norman descobre que foram seus experimentos que conferiram poderes especiais ao garoto, resolve injetar a química em si mesmo e se transforma no Duende Verde, bem diferente do tradicional que você conhece.

Dr. Octopus também adquiriu seus tentáculos em um acidente na Oscorp.

Na versão ultimate, o simbionte Venom não é uma criatura vinda do espaço, mas sim um antigo experimento dos pais de Parker e Eddie Brock, que se manifestou negativamente por ter sido interrompido pela morte de ambos. Isso mesmo, as famílias dos dois eram amigas no passado e trabalhavam juntas.

É legal demais ver como as coisas são amarradas e adaptadas. Mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, a ansiedade permanece. Você quer ver qual será a solução de Bendis para os fatos. É emocionante reviver o assassinato do tio Ben, as mortes do capitão Stacy e posteriormente de sua filha, Gwen, o romance de Peter e Mary Jane, a revelação de sua identidade para a tia May, as relações com Nick Fury e a Shield, o surgimento de vilões famosos, como Homem-Areia e Kraven, etc. Ele conseguiu até salvar a saga do clone, por incrível que pareça.

Como dito no título: é como ver um filme PERFEITO do aracnídeo. Você não se enfurece com as mudanças, pelo contrário, você simplesmente para e pensa “porque não fizeram desde o começo assim?”.

Aliás, lendo Homem-Aranha Millennium dá pra perceber que, na verdade, os fãs não são contra mudanças em seu personagem favorito, desde que sejam bem-feitas. Não dá pra engolir um Duende Verde com máscara mecânica estilo Power Rangers (lembram do primeiro filme?), mas ver Norman Osborn tendo que se picar com uma substância química para assumir sua aparência grotesca de vilão foi sensacional.

No começo eu torcia o nariz com o fato de Peter ser estudante do colegial novamente, mas sabe, até nisso a Marvel acertou, pois gera mais identidade com os novos leitores, sem atrapalhar a relação com as antigas gerações. Conseguimos aceitar até a Gwen Stacy “maloqueira” que anda de canivete, contribuiu muito para o papel da personagem e sua evolução na trama.

Ao lado de Brian Michael Bendis estava o desenhista Mark Bagley, que desenhou 111 edições. Juntos eles quebraram o recorde de equipe criativa que permaneceu mais tempo em um mesmo título, antes pertencente à Stan Lee e Jack Kirby, com Quarteto Fantástico. Temos que admitir que o cara as vezes entregava uns quadros meio grotescos. É compreensível, afinal a produção era pau pra toda obra, mas no geral sua arte é muito boa e deixou saudades.

Os traços da revista depois ficaram a encargo de Stuart Immonem (que lembra um pouco Mike Mignola), mas logo ele deu lugar a David LaFuente Garcia. Eu particularmente prefiro Bagley, acho o Peter Parker do terceiro muito infantil. Seu estilo não é ruim, é bem dinâmico na verdade. Ele concebe cenas de lutas ágeis, com rachuras e onomatopéias, os cenários são bonitos e talz, mas acho que exagera nos olhos da máscara e no cabelo dividido típico de moleque norte-americano. Ainda não me acostumei. Hoje em dia LaFuente reveza com uma mulher nas páginas de Ultimate Spider-Man, Sara Pichelli, excelente artista!

Peter Parker no traço de Stuart Immonen

No Brasil o universo Ultimate foi batizado de Millennium pela Panini (e anteriormente de Século 21, pela Abril) e os quadrinhos eram publicados na revista Marvel Millennium – Homem-Aranha, cancelada após 100 edições. Embora trouxesse o nome do amigão da vizinhança estampado na capa, todos os outros heróis se revezaram no mix, inclusive os Supremos.

Os números finais de Marvel Millennium trouxeram a saga Ultimatum, criada para reiniciar a linha Ultimate. Após 10 anos de publicação a nova linha passou a apresentar os mesmos problemas que a tradicional: surgiu uma cronologia complicada que afastava leitores, como no começo. A solução foi bolar um evento que mataria vários heróis e causasse um belo estrago no mundo. Depois da reconstrução, novas histórias seriam escritas, livres de influencias passadas.

O evento foi um baita de um lixo, mas cumpriu sua função. Hoje as histórias do Aranha continuam muito boas e atrai aqueles que não acompanharam do começo. No Brasil, a Panini resolveu manter o nome original do universo e lançou uma revista chamada Marvel Ultimate, com Homem-Aranha e outros heróis no mix. Pra mim essa é a melhor mensal da editora nas bancas, junto com Reinado Sombrio (*atualização: série já encerrada com 18 edições).

E está prestes a estrear no Brasil a fase com Miles Morales sob o manto do Aranha, que tem um início super legal também! A propósito, a própria morte de Peter Parker (sim, sua versão Ultimate já morreu lá nos EUA, vai dizer que não sabia?) foi um evento muito bem elaborado. Brian Michael Bendis não fez isso apenas para obter vendas, foi algo trabalhado por muito tempo até ser colocado em prática. A Marvel até chegou a pressioná-lo para adiantar a morte para coincidir com a eleição de Obama em 2008, já que o herói substituto também é negro, mas o autor bateu o pé e alegou que não mataria Peter até que a história que ele planejou contar estivesse concluída. Poder que somente um excelente roteirista consegue obter em uma editora.

Se você não leu esses quadrinhos, corre logo atrás, não sabe o que está perdendo. E você que não gosta de nada disso que eu falei, publique aí seu comentário, estou ansioso por ele.

E, claro, tudo sobre o Homem-Aranha, em suas duas versões, você encontra no livro do Pipoca e Nanquim Quadrinhos no Cinema Volume 2! Veja o preview!

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  1. Aeee, muito bom!

    Também acho que o Ultiverso foi a melhor sacada da Marvel em tempos.

    Nunca tive paciência para seguir mensalmente o universo 616, só comprava algumas separadas e de vez em quando.

    Aí descobri o Ultiverso e comecei a comprar e, realmente, é muito bom.
    E divertido!

    Bendis consegue dar o tom juvenil para as estórias sem ficar "juvenil debilóide".
    E ainda consegue.
    Mesmo quando alguma trama mais misteriosa toma conta da vida de Peter, ele consegue mesclar legal a vida heróica e a vida juvenil de Peter.

    Muito bom o post.

  2. Valeu Roquenrow! Mas cara,o Ultiverso é foda porque, além de trazer ótimas histórias, trouxe leitores novos né, isso é perfeito!
    Pena que vão matar o aranha…

  3. eu nunca li essa marvel millenium..
    mas com a chance de ler essa nova mensal 'ultimate', que começou a pouco, então não teria problemas com a cronologia, digo, por não ter lido as 100 edições anteriores?

    (em um futuro, não tão distante, pretendo ler as milleniums, mas sabe como é, por enquanto é mais facil começar com essa que tem poucas ainda rs)

  4. Fala chará, tudo bom?

    Cara, pode pegar Marvel Ultimate sem medo pra ler, dá pra acompanhar numa boa.

    Claro, uma citação ou outra das HQs passadas sempre acontece, mas nada que vai te deixar boiando. Manda ver e corre atrás!

    Só o que você tem que saber é que, após o Ultimatum, Peter Parker não trabalha mais no Clarim Diário, mas em um fast-food, e o J.J.Jamesom já não odeia mais tanto ele, pois testemunhou seu esforço pra salvar as pessoas no dia da grande onda que marcou o evento citado.

    Qualquer dúvida, estamos ae!

  5. opa, valeu cara!
    já encomendei os 4 primeiros numeros, só esperar chegar agora ;D

    acho que vou encomendar depois os encadernados do homem-aranha lá fora, acredito que vai sair mais em conta né?

    o supremos eu já li, por sorte consegui um capa dura antes de esgotar em todas as lojas ;D

  6. Não poderia de forma alguma deixar de postar um comentário nesse post.

    No começo do século eu acompanhava as histórias ultimates pelo site da Marvel, sem baixar. Direto no site.

    Pensava: nunca vão publicar isso!!

    E realmente não teve divulgação nenhuma pela abril.

    Mas como era frequentador assíduo das bancas, eis que, voltando do dentista (veja bem como o fato me marcou, lembro muito bem da ocasião, inclusive a banca na qual comprei), vejo lá um baita gibizão do Aranha. Folheando a revista ali mesmo na banca do parque, mesmo com o aviso de não folhear, eram as mesmas histórias que tanto gostava e que pensava nunca ter em mãos.

    Mas já quase 10 anos se passaram e agora querem matar o pequeno aranha!!

    Rogo para que seja apenas mais uma jogada para aumentar as vendas, pois como disse o Bruno "é a melhor quadrinho publicado pela marvel hj"

  7. a nova versao ultimate me fez a volta comprar hq , pena que durou pouco, coleciono gibis desde os meus seis anos de idade e olha que stou com 36

  8. me apaixonei pelo titulo.

    assim como stan e steve mostraram um heroi com quem os jovens se
    identificavam, brian e marck voltaram a mostrar um aranha com o qual os jovens de hj se identificam(pq eu me identfico com ele. tenho 17 anos.) com problemas reais(agora mais reais inda)e situações fantasticas misturadas com situações do cotidiano.

    com historias descompromissadas e reviravoltas impressionantes,bendis realmente surpreendeu e surpreende,pois ainda se mostra capaz de escrever o titulo com o msmo pique de antes. só sinto falta de bagley. naum vou mentir,naum gostava muito dele no começo das histórias, sua arte era péssima, mas com o tempo vi ki ele foi se aperfeiçoando e vi o quanto ele era bom e essencial pro titulo quando saiu. mas agora estou apostando em sara pichelli. sua arte er demais.

    exelcior!

  9. alguem aew sabe onde encontro scans do mrvel millennium:homem aranha?
    sou colecionador, mas enquanto naum encontro as edições a venda eu leio pelo pc. mas naum estou encontrando as edições disponiveis nos sites. logo agora ki ia ver o rencontro do peter com o norman. droga. por favor me ajudem. parei na edição 22.

  10. eu tbm coleciono desde ki me lembro por gente e acho ki naum conseguiria viver sem esse meu “vício” ki herdei do meu pai, ki desde cedo me trazia hqs.
    as vezes me vejo discutindo com ele sobre quadrinhos.um conflito de gerações. pois ele defende o tempo dele dizendo ki naum vaum sair mais historias tão boas quanto as ki ele lia e eu o meu tempo falando ki o nunca já chegou,pois lançaram a linha ulimate…
    kkkkkk

  11. Parabéns pelo texto Bruno! Compartilho aqui para meus colegas que estão começando a ler quadrinho, pois além de ser didático e informativo, ele anima a leitura.

    A menos de um ano li todas as edições em papel, corri atrás e comprei uma a uma das que faltavam na coleção (é fácil de achar, pelo menos em São Paulo). Vale muito a pena, resume alguns arcos clássicos de forma magistral, aproveita mal outras história e alguns personagens. Os puristas vão odiar, como sempre, mas comparado ao Aranha 616, o Ultimate te pega pelo carisma, pelo diálogo próximo daquele que temos com nossos pares hoje em dia.

    O ponto que mais me agrada no Universo Ultimate é a qualidade do crossover de personagens, pois enquanto Universo ele deve funcionar de maneira coesa. Quando o Aranha se encontra com os Supremos não há uma relação de respeito mútuo, ou um heróis intrínseco, quando muito esses heróis de primeiro escalão dão atenção a existência do Aranha ou suas qualidades.

    Falta agora falar do Quarteto Ultimate, penso que a qualidade das histórias está abaixo do esperado, ou mal compreendida. O roteiro extremamente cientificista, com digressões e termos técnicos, afastou alguns leitores. Mas caberia aquele grupo? A ficção científica nesse quadrinhos deveria ser “traduzida” ou adaptada para os leitores que não fazem parte daquele campo de conhecimento?

  12. As revistas ultimate são muito boas mesmo, a única coisa que não gosto dessa série dos aranha são os desenhos. Uma verdadeira bosta.