Gravidade – Crítica

Gravidade - Pôster TeaserConfundido como uma ficção-científica, Gravidade, novo trabalho do cineasta mexicano Alfonso Cuáron (Filhos da Esperança), é na verdade um pesado drama sobre solidão e evolução, que se propõe a fazer um estudo de personagem bastante detalhado, mas que tem como pano de fundo o espaço sideral.

Inicialmente trazendo informações que soam até um pouco desnecessárias – “a vida no espaço é impossível” –, o roteiro (escrito pelo próprio Cuarón em parceria com seu filho, Jonas) mostra os astronautas Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock, incrivelmente competente) e Matt Kowalski (George Clooney, carismático como sempre) à deriva no espaço depois que um acidente destrói a estação onde eles estavam trabalhando.

A trama, em si, é simples, mas a abordagem do diretor não é: Cuarón utiliza o espaço como uma metáfora para a vida da protagonista. Apresentada inicialmente como uma pessoa introspectiva (que diz ser capaz de se acostumar com o silêncio daquele lugar), o roteiro aos poucos explora o passado da Dr. Ryan Stone, lidando lentamente com seus traumas e encontrando o seu lugar naquela história.

É interessante notar, por exemplo, como a realidade da personagem na Terra não era muito diferente da do espaço. Ainda que na Terra ela estivesse cercada de pessoas, a mesma afirma que seu momento favorito do dia era trancar-se no carro e retornar para casa (sozinha). Também é possível perceber que depois de uma experiência traumática, Ryan se fechou completamente para qualquer relacionamento humano – o que explica porque ela fica tão desconfortável com a presença falastrona de Clooney e porque se mostra tão a vontade quando ouve um latido pelo rádio.

Abordando de maneira primorosa a questão da solidão e do isolamento, Cuarón abusa de grandes planos gerais para ilustrar a mediocridade do ser humano em meio a um ambiente como aquele. O apuro estético do cineasta também merece destaque, em especial na cena inicial, um belo plano-sequência de quase 20 minutos de duração que chega a alternar câmeras subjetivas e objetivas de um jeito extremamento orgânico. Além disso, o diretor opta por não mostrar o rosto dos outros membros da expedição, o que indica a sua predisposição em manter o foco apenas nos dois protagonistas (e não é por acaso que eles são interpretados por rostos tão conhecidos como os de Sandra Bullock e George Clooney).

Tecnicamente Gravidade é impecável. Dos efeitos especiais realistas (James Camerondeclarou ser os melhores que ele já viu), à belíssima fotografia, que alterna entre tonalidades quentes (laranja) e frias (azul), passando pelo design de som extremamente eficiente, que utiliza o silêncio para criar um clima claustrofóbico (com ênfase na respiração ofegante da personagem); tudo funciona em função da narrativa, e nunca se sobrepondo a ela.

Atenção. O próximo parágrafo contém spoilers. Só leia se já tiver assistido ao longa.

Mas o que mais me surpreendeu no filme foi a maneira como ele aborda aquela que pra mim é sua temática principal: a evolução. Por mais que o momento em que Bullock se encolhe em posição fetal em um cenário que lembra um útero possa passar uma ideia de renascimento, eu entendo isso como um instante de proteção e segurança, que será seguido por um duro processo evolutivo (de enxergar seus defeitos e enfrentar seus medos). Para mim, a Dra. Ryan Stone não renasceu quando ela saiu daquele útero, pois isso significaria esquecer todos os seus problemas e traumas do passado (como a morte da filha). Ela evoluiu. Utilizou as adversidades ao seu favor, redescobriu a vontade de viver e, ao final, saiu da água (como os primeiros seres vivos do planeta) se arrastando com dificuldade, mas conseguiu se erguer, tornando-se assim uma pessoa muito mais forte do que era antes. E com isso, o seu processo evolutivo está finalizado. [FIM DO SPOILER]

Como eu disse antes, essa é a minha teoria a respeito do filme. Mas a grande vantagem do longa de Cuarón é que, seja qual for a sua interpretação, uma coisa é certa: Gravidade é um filmaço.

(Gravity – Drama – EUA/Inglaterra – 2013 – 90 min.)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Eric Michels, Basher Savage, Paul Sharma.

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  1. Só discordo de uma coisa: Gravity é FC sim. Não precisa ser numa galáxia distante ou no futuro para ser FC, ok? Agora vem os SPOILERS: achei incrível a cena final, quando a astronauta chega na terra, na beira do lago, e tenta ficar em pé. Nesse momento a camera está em plongê, como se a gravidade da Terra ganhasse a luta que trava com a personagem desde o começo. Ela ri e se levanta, vitoriosa. A camera assume um contra-plongê, a personagem é maior que a vida e sai caminhando. Puro cinema!!!!!!!!!

  2. Achei fraco, muito fraco. Essas historinhas de pessoas em situação limite já deram o que tinham que dar.
    Além das bizarrices, como a protagonista operar equipamentos em mandarim e na sorte!
    Espiritismo new wave pra lá de boçal… enfim na minha opinião no máx 5,5/10.

    Filmaço de Cuaron é Y tu mama tambien, road movie a lá Kerouac.

    Encha a burra de dinheiro hollywoddiano e volte a filmar no méxico Cuaron, esses filiminhos blockbuster não coadunam com sua inteligencia!