Entrevista com André Diniz, autor de O Quilombo Orum Aiê

Olá, pessoal!

Orgulhosamente apresentamos a vocês mais uma grande entrevista, batemos um papo com André Diniz, um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais, sua trajetória é uma aula de como produzir quadrinhos no Brasil, ele já fez zines, montou sua própria editora (Nona Arte), teve obras publicadas na Conrad e Record , ganhou (algumas vezes!) os principais prêmios nacionais, Troféu HQmix e Ângelo Agostini,  além de ser um tremendo roteirista, em seu mais recente lançamento O Quilombo Orum Aiê, André se aventurou no mundo da ilustração e fez isso de maneira fabulosa!

Então não perca tempo e leia essa baita entrevista!

P&N: Olá André! Como foi seu começo de carreira? De onde surgiu a decisão de roteirizar, desenhar e publicar quadrinhos?

André Diniz: Costumo dizer que nasci com o vírus dos quadrinhos. Nem sabia ler ainda e já desenhava as minhas HQs, e nunca pensei em fazer outra coisa. A minha faculdade foram os fanzines, lancei um atrás do outro lá por 94, 95. Depois, fui ensaiando passos mais profissionais até que em 2000 lancei a minha própria micro-editora, a Nona Arte, que foi como se fosse a minha pós-graduação.

Mas a auto-publicação não foi exatamente uma opção pra mim naquele período. E sou e sempre fui um autor, e pra falar a verdade, tenho horror a ter que lidar com gráficas ou esquematizar a distribuição de um livro. O meu negócio é a criação, e até por isso eu abri mão da “carreira” de editor independente quando o mercado brasileiro passou a permitir que alguém tenha uma produção permanente e profissional.

Quanto à criação em si, o principio de tudo pra mim é contar histórias. Isso fez com que, por muito tempo, eu me dedicasse muito mais aos roteiros do que ao desenho. Como eram muitas histórias pra contar e pouco tempo e – até então – pouca desenvoltura para desenhá-las em um nível profissional, concentrei-me nos roteiros e deixei os desenhos nas mãos de parceiros. Mas desde 2008, consegui domar o problema do tempo de desenhar as páginas de uma HQ, encontrei a minha voz graficamente e tomei gosto de vez em desenhar também. Só nesse ano, serão lançados ao menos dois álbuns com roteiros e desenhos meus, além de outro onde, pela primeira vez, desenhei o roteiro de outra pessoa.

Durante sua carreira você já fez zines, montou sua própria editora, já publicou em grandes editoras, disponibilizou HQ para download, é roteirista e também desenhista, ou seja, já experimentou de tudo um pouco. Como avalia o mercado de quadrinhos nacionais atualmente?

Há ainda muita coisa a se aprimorar e a ser corrigida, mas o fato é que passamos a ter os problemas de “gente grande”. Temos voz na mídia, temos editoras interessadas e os nossos livros vendem. Em alguns casos, até recebemos um dinheiro justo pelo nosso trabalho. Viramos a página quanto aos antigos problemas dos quadrinhos – “ninguém lê HQ nacional”, “as editoras não apostam em artistas brasileiros”, “todos acham que quadrinhos é coisa de criança” etc. Agora é lutar por consolidação do mercado, respeito e ética na relação entre autores e editoras, mecanismos mais claros de prestação de direitos autorais… Mas foi uma conquista passarmos a ter os mesmos problemas que os demais autores do mercado editorial.

Você não pretende colocar mais suas HQs para download?

Olha, acho que vou dizer aqui em primeira mão: em breve, breve mesmo, eu lanço um site com HQs online escritas e desenhadas por mim. Não serão HQs ocasionais, elas terão atualização frequente e uma linha específica que darão uma unidade a todas as HQs. Mas o formato é totalmente diferente do antigo site Nona Arte. Lá, eu digitalizava HQs que foram feitas para o papel e as disponibilizava para download em PDF, como uma espécie de biblioteca digital. Mas o que começou com prazer tornou-se um pesadelo para mim nos últimos tempos, pois eu não dava conta de lidar com centenas de autores e isso tomava muito do meu tempo de criação. Nesse novo site, as HQs, todas de minha autoria, serão curtas, pensadas para a leitura online.

O que é necessário para que a publicação de HQs no Brasil se torne uma indústria, como ocorre no resto do mundo?

Não sei se o único caminho para os quadrinhos é nos tornarmos uma indústria, se pegarmos como modelo o mercado americano ou japonês. Não acho que seja essa a nossa vocação. Acredito num casamento muito saudável de trabalhos mais autorais e trabalhos comerciais, sem uma padronização de mercado ou de estilos. Sinceramente, se eu for levar mais em conta o meu lado autoral do que o profissional, eu odiaria ser quadrinhista num mercado como o americano ou, principalmente, como o japonês, onde todo mundo pode ser criativo desde que faça exatamente isso ou aquilo.

Mas essa é sempre uma questão complexa e controversa. Vide o cinema nacional, por exemplo. Tínhamos o cinema já caminhando com a retomada. Aí veio a Globo Filmes e criou uma indústria de cinema no Brasil. Foi bom? Foi ruim? Em termos de empregos e de grana, foi ótimo. Mas pro cinema brasileiro como arte e para os cineastas como artistas foi um desastre. E, salvo um ou outro filme que mostre favelados e traficantes – sem nenhuma critica a Cidade de Deus e Tropa de Elite, dois ótimos filmes -, o cinema nacional, no nível em que está, jamais terá qualquer representatividade lá fora. Um sistema que abrace as duas vertentes, autoral e comercial, é muito mais saudável.

Você já lançou grandes HQs, como Fawcett, Subversivos, Chalaça, 7 Vidas, Ato 5 entre outras, qual delas foi a mais difícil tanto em termos de pesquisa e concepção quanto em termos de publicação?

E termos de pesquisa foi, disparado, O Quilombo Orum Aiê, que lancei ano passado pela Record. Até porque, além da pesquisa histórica que me tomou uns seis meses, foi com ela que abracei de vez a minha carreira de desenhista. Foi nesse trabalho que descobri a minha linguagem gráfica, que criei meu próprio método de produção e que incorporei ao meu trabalho – com dose extra nessa HQ – uma antiga paixão minha, que é a arte africana.

Já as mais difíceis para publicar foram Fawcett e Subversivos, pois foram as primeiras que publiquei pela Nona Arte, tratando sozinho de absolutamente todos os aspectos práticos – impressão, divulgação, distribuição – sendo que a minha experiência e o meu capital eram limitadíssimos.

7 Vidas, nesses aspectos, foi a mais fácil de todas. Isso porque a minha experiência com a chamada Terapia de Regressão às Vidas Passadas foi tão rica, tão interessante, que bastou que eu a transcrevesse à linguagem dos quadrinhos em forma de roteiro. Pro Antonio Eder, que foi quem a desenhou, o trabalho foi bem mais puxado. A publicação também foi facílima. Bastou comentar sobre ela na Conrad, editora pela qual eu já ti há lançado o Chalaça, que eles se interessaram de cara.


Como foi trabalhar ao junto com o mestre Flávio Colin?

Foi um privilegio enorme, e devo a ele muito da divulgação inicial que tive como autor. O roteiro de Fawcett, a HQ que fiz com Colin, foi muito elogiado, ganhou prêmios e tudo, mas a maior parte das pessoas leu a HQ por causa do Colin, eu não era um autor conhecido até então. O meu contato com ele foi pequeno, infelizmente. O curioso é que nós só nos conhecemos pessoalmente no dia em que fui a Teresópolis, onde ele morou na etapa final de sua vida, levando Fawcett já impressa.

O trabalho do Colin é a minha referência de uma arte brasileira legítima nos quadrinhos, sem nacionalismos ou estereótipos. Morreu há quase dez anos com mais de 70 anos de idade, e mesmo assim seu trabalho continua moderníssimo. Graficamente, é talvez o artista que mais me influenciou.

Se pudesse escolher qualquer artista (vivo ou morto) para desenhar uma de suas histórias, qual seria e por quê?

Colin de novo, por tudo o que eu acabei de dizer!

O Quilombo Orum Aiê (que, aliás, é sensacional, parabéns!)  diferente dos seus trabalhos anteriores você também ilustra e faz isso de com excelência, pegou gosto pela coisa? Tem novos projetos nesse âmbito?

A minha carreira já pode ser dividida em antes e depois do Quilombo Orum Aiê. Pode parecer estranho ao leitor, pois o livro acabou de sair e as minhas obras seguintes ainda não foram publicadas, mas nos bastidores o ritmo é outro. Tem obras minhas de 2008, 2009 e 2010 já prontas mas que só serão publicadas agora, por motivos diversos, e aí sim isso ficará mais evidente. Isso porque foi a partir do Quilombo Orum Aiê que me encontrei como desenhista, não só quanto ao desenho em si, mas também quanto ao meu processo de criação e execução de uma pagina de HQ. Cheguei à conclusão que o maior vilão para um autor de quadrinhos não é o mercado, não são as más editoras, não é a baixa remuneração. O nosso maior obstáculo é o tempo que se leva desenhando uma HQ. Se ganharmos X para desenhar uma HQ de 200 páginas, esse X é irrisório se formos levar três anos nos dedicando a esse único trabalho. Mas se essas mesmas páginas tomarem quatro meses de nossas vidas, esse valor X pode até ser bem interessante. Daí, juntando essa questão ao fato de que tenho diversas ideias rascunhadas que pretendo concretizar um dia, pesquisei ininterruptamente por três meses tudo o que poderia acelerar o meu trabalho, desde a organização do meu tempo, as ferramentas certas, formas que digam mais com menos traços… Até a questões aparentemente estapafúrdias, como a criação de ícones específicos para as pastas onde salvo meus trabalhos e a cor de cada um deles tiveram relevância. Estudei muito também a minha forma de criar, os meus obstáculos, se eu rendo melhor fazendo isso de manhã e aquilo de tarde ou vice-versa. O fato é que isso fez toda a diferença para mim e me possibilitou ter mais tempo para planejar, para escrever, para me aperfeiçoar e ao mesmo tempo, contraditoriamente, para produzir muito.

Quilombo Orum Aiê  foi selecionado para o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) isso significa um bom alívio financeiro?

Sem duvida! Não se pode fazer a fantasia de que com esse dinheiro eu vou comprar um apartamento ou que isso vá me sustentar por um ano inteiro, mas é uma ótima remuneração.

Quais sãos os quadrinhos que leu e pensou “Putz que obra! Queria ter escrito isso”

A minha memória anda uma coisa horrorosa, e com certeza eu vou me lembrar depois de várias outras HQs que eu devia ter citado aqui. Mas, entre as que me ocorrem agora, posso citar Maus, Buda, O Sistema, de Peter Kupper e os trabalhos do americano Eric Drooker.

Tem muito roteirista iniciante por ai que não sabe o que fazer para começar a publicar, qual a melhor dica que pode dar para eles?

Não dá pra querer começar do topo. Ainda via site Nona Arte, recebo muitos e-mails de autores que nunca publicaram nada e já querem começar com uma coleção de livros ou uma revista mensal. Quem quiser começar com quadrinhos, tem que ter humildade, publicar na internet, fazer uma edição independente, um fanzine, e conhecer seus leitores, ouvir criticas, ouvir mais criticas e ter a maturidade para avaliar quais procedem e quais não. Nenhum editor hoje quer descobrir talentos do nada, você vai ter que fazer o seu nome aparecer antes, mesmo que para um público seleto.

Quanto ao trabalho de criação do roteiro, ter uma cultura abrangente é o maior trunfo de um roteirista. Leia e assista de tudo, mas sem ser fã de nada. É ótimo conhecer aquele seriado que estreou no canal X, mas se você quiser assistir a cada episódio ao longo de sete anos, vai estar perdendo a chance de conhecer coisas novas que poderão somar ao seu trabalho. Leia todo o tipo de romances, de livros não-ficção e de quadrinhos. A diversidade é mais importante do que a quantidade. Da mesma forma, veja filmes de todos os gêneros e de todas as nacionalidades, espie as novelas, vá ao teatro, aos museus e as exposições. Leia sobre história, sobre psicologia, leia livro de etiquetas, de moda, leia tudo. Tudo fará você crescer como um autor. E isso inclui também as experiências de vida. Viaje, converse com pessoas de mundos diferentes, observe, pergunte, anote… Se você quer contar histórias, você precisa ter o que dizer aos seus leitores. Sinceramente, não acho que alguém que passe a vida lendo os mesmos quadrinhos e que esteja por dentro de todos os seriados tenha algo consistente a passar.

Muito obrigado pelo papo André! Por último deixe uma mensagem para os leitores do Pipoca e Nanquim

Caramba, já falei tanto que nem sei mais o que dizer… O que me resta é mandar um abraço forte, carinhoso e de coração a todos!

Para saber mais sobre os trabalhos do André Diniz acompanhem o site Nona Arte.

Siga-o no twitter: @adiniz9

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  1. Respeito muito a carreira do André, sempre lutando pra publicar seus quadrinhos e felizmente colhendo os louros.

    Parabéns pela entrevista!

  2. Sensacional entrevista! Parabéns André Diniz, adoro seus trabalhos e estou ansioso pelos próximos que anunciou. Sorte em seu novo site.

  3. Só agora tive tempo de ler essa bela entrevista.
    Nao conhecia a carreira do André, só tinha lido 7 vidas, que inclusive, é ótima.

    agora vou correr atrás do Quilombo Orum Aiê, essa arte me deixou encantada.

    Beijo