Daytripper – Uma história sobre todas as mortes de um homem

Daytripper – Uma história sobre todas as mortes de um homem

Colaborador: Arthur Prado

No trato das grandes questões existenciais, distinguem-se pelo menos duas abordagens possíveis. A primeira é notadamente pessimista. Nela, a vida aparece como um caminho acidentado que leva a uma série sucessiva de fins ilusórios ou inalcançáveis, que desaparecem um a um, até um beco sem saída igualmente inútil — a morte. A segunda é otimista, mas não necessariamente ingênua. Nela, ainda que se reconheçam as dificuldades do caminho, uma ou outra de suas características dá origem a uma solução para o problema da falta de significado, curando com ela a náusea existencial. Daytripper adota essa segunda perspectiva.

Daytripper é uma história sobre a vida, a morte e aquilo que acontece quando as duas se encontram. Seu lirismo tênue, interpolado por cenas amargas e cruas, fá-lo oscilar delicadamente entre o real e o mágico, sem que fique claro, jamais, em qual dos dois a história verdadeiramente se passa. Talvez por isso, a obra, que ficou semanas no topo da New York Times Graphic Book Paperback Bestseller List, tenha sido chamada pela crítica americana de “realismo mágico”, o que inevitavelmente remete aos clássicos sul-americanos do gênero, como o 100 Anos de Solidão, de García Marques. Embora seja inegável essa relação, é dá literatura brasileira que o quadrinho parece sorver sua essência.

A primeira evidência que os autores Fábio Moon e Gabriel Bá nos dão a esse respeito é o nome do protagonista, Brás de Oliveira Domingos, tomado do Brás Cubas de Machado de Assis. Tantos são, aliás, os pontos de convergência entre o quadrinho e o romance machadiano que talvez se pudesse dizer que aquele é uma releitura deste. Em ambos, conta-se a história completa de um homem da elite brasileira, desde o nascimento, a partir de uma perspectiva extraterrena (de forma explícita no Memórias Póstumas e um pouco menos evidente em Daytripper), com ênfase em suas relações amorosas, sua família e seus amigos.

Mas, como releitura, a obra toma os elementos do romance em que se baseia e os submete a uma perspectiva nova. Isso reflete, provavelmente, a atualização da temática. Machado escreveu sua obra prima sob o signo das correntes filosóficas do final do século XIX; Moon e Bá, por outro lado, pertencem àquela geração de jovens urbanos que responde à enorme complexidade do mundo pós-moderno com um retorno à apreciação das coisas simples da vida — uma xícara de café tomada com um amigo, o cheiro do frango assado preparado pela avó na casa do sítio, um sorriso do filho, um amor descoberto de súbito. Por isso, se os elementos constitutivos de Daytripper vêm de Machado, seu coração vem, certamente, do lirismo cotidiano de Manuel Bandeira, cuja obra também compartilha com a dos gêmeos a preocupação com a morte.

E, se fosse possível, em uma frase simples, caracterizar o enredo do quadrinho, dir-se-ia que ele trata da morte, ou melhor, de todas as mortes de um homem. O mundo de Brás é intoxicado pela sombra da mortalidade. Em sua vida de jovem escritor de obituários, a morte é ubíqua. Ela pode chegar aos 33 anos, pela má direção de um caminhoneiro sonolento; aos 21, no fundo do mar, após um encontro com Yemanjá; aos 32, tomando uma cerveja no bar errado; aos 11, depois do primeiro beijo, empinando uma pipa muito perto dos fios elétricos. A cada morte sua, vemos uma vida completamente distinta de todas as outras, terminada quando ela parecia ter acabado de começar. Lemos essa morte anunciada em um obituário. No capítulo seguinte vemos como ela teria continuado, como outra angústia teria surgido e como, logo que resolvida, terminaria de novo. Vemos como, na verdade, são vários Brás que morrem.

*SPOILERS* (Pra ler, por sua conta e risco,  selecione com o mouse o texto a baixo)

Isso segue assim até a última morte de Brás de Oliveira Domingos. Nela, não há recomeço a ser interrompido por um acidente inesperado. Ele tem a opção de seguir vivendo, mas não precisa, pois contempla o próprio passado e se vê pronto, como o eu-lírico do poema de Bandeira:

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

Qual a solução para a mortalidade de Brás, e que dá um tom otimista a essa história? A aceitação da morte, assim como a dedicação da própria vida a um outro. É o que diz a carta recebida tardiamente, enviada por seu pai no dia em que ele morre, e em que nasce o filho de Brás:

This baby is the new master of your life. He is the sole reason for you existence. You’ll surrender your life to him, give him your heart and soul because you want him to be strong, to be brave enough to make all his decisions without you. So when he finally grows older, he won’t need you. That’s because you know one day you won’t be there for him anymore. Only when you accept that one day you’ll die can you let go and make the best out of life. And that’s the big secret. That’s the miracle.

Nesse sentido, Daytripper termina de modo oposto a As Memórias Póstumas de Brás Cubas, em cuja última frase, o protagonista, morto, anuncia que trouxe de sua vida uma última satisfação:

“Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

*FIM DOS SPOILERS*

Assim, uma das melhores graphic novels já feitas por brasileiros resolve e contraria um dos melhores romances já feitos por um brasileiro. Todas as mortes de Brás de Oliveira Domingos, diferentemente da morte única de Brás Cubas, nos dizem que a vida é única, curta, imprevisível e pode terminar a qualquer momento. A única solução que se apresenta ao maior dilema da humanidade, que ocupa a literatura de todas as civilizações desde Gilgamesh, é viver e amar.

 




10 thoughts on “Daytripper – Uma história sobre todas as mortes de um homem

  1. Daniel Lopes

    Caraca, essa foi uma das melhores resenhas que li aqui! Obrigado Arthur!

    Estou doido para ler Daytripper!
    Diego, a Panini anunciou que irá publicar aqui no Brasil, já está sendo traduzido.

    Abração!

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  2. André Craveir

    Resenha sensacional!

    Concordo com o Daniel Lopes, uma das melhores que eu também pude ler pelo site. E se já estava na dúvida em comprar a futura versão da Panini, creio que tomarei a alternativa positiva, depois deste texto.

    Gostei da arte também, algo bem onírico e parecer atender a proposta do roteiro. Vamos aguardar pelo material, pois.

    Abraços!

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  3. André Craveir

    E eu espero que esse colaborador, Arthur Prado, forneça novos e execelentes textos como esse pro site.

    Sempre bom ler um artigo embasado e de bom gosto.

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  4. Arthur Prado

    Olá!

    Fico muito feliz que tenham gostado da resenha e agradeço aos elogios. Um obrigado especial ao pessoal do blog, que abriu o espaço para que eu escrevesse aqui. Assim que eu tiver algo mais para publicar, mando para cá.

    Um abraço,
    Arthur.

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  5. Marília

    Estava lendo umas resenhas por aí e sem sombra de dúvidas a sua foi a que mais me cativou a ler realmente o quadrinho. Parabéns, você é um cara que definitivamente sabe escrever e que me fez querer ler essa hq. Escreva mais!!

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  6. André Henrique

    Acabei de ler a obra e resolvi caçar interpretações. Sei que a minha opinião poderia ser levada por alguma resenha, mas a primeira que encontrei foi e estou satisfeito, não vou procurar outras por enquanto. Muito bem escrita e sem atrapalhar a interpretação individual. Parabéns.

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  7. Lucas

    Só uma correção: o nome do protagonista é Brás de OLIVA Domingos, não Oliveira. Boa review.

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