Arte Sequencial e Enquadramento

Colaborador: Pedro Ribeiro Nogueira (@pedrossauro)

Para minha primeira contribuição pro Pipoca e Nanquim, vou falar exclusivamente do meu maior vício: quadrinhos. Futuras matérias sobre filmes virão, mas hoje quero compartilhar com os leitores uma coisa fantástica sobre o mundo dos gibis: O processo criativo!

Não há segredo: Todo mundo que lê quadrinhos já imaginou ter suas próprias idéias publicadas, sejam elas batalhas heróicas entre encapuzados dentro de collants, ou contos sombrios no estilo das pulp magazines. É uma constante entre os fãs de quadrinhos imaginarem suas próprias fantasias no papel, ou tô errado? Pelo menos comigo foi assim desde que peguei a minha primeira revista em formatinho do Demolidor lá no sítio em Nova Friburgo.

Mas quem já imaginou de verdade com seriam suas histórias? Existe uma diferença muito grande entre fantasiar com um personagem e suas aventuras a de fato sentar e pensar em como será a história. Isso acontece porque pensar em como vai ser uma história é pensar em linguagem e comunicação, andamento, ritmo, enquadramento e potencial de diversão dentro desses parâmetros todos. É trabalho duro!

Quando resolvi sentar a bunda na cadeira e fazer um trabalho consistente e bonito, descobri um desafio na criação: Diagramar. Como não sou profissional nem estudante de semiótica, marketing, design ou comunicação, não vou entrar na discussão aprofundadamente pra não acabar falando bobagem. Vou apenas direto ao ponto. Vejam a figura da recém-premiada história da Batwoman, desenhada por J.H. Williams III com roteiro de Greg Rucka.

O impacto dos traços espetaculares é percebido de imediato, mas a genialidade vai além. Me digam, vocês conseguem descrever exatamente como gostariam de ver essa cena, levando em consideração traço, sombras, expressão das personagens e enquadramento, caso só tivessem ela na imaginação? Pra início de conversa, a composição de quadros é toda diferente, mas reparem na simetria entre as cenas da vilã e da heroína.

Depois de ver a obra pronta talvez fique fácil descreve-la, mas quando ela está apenas na sua cabeça as coisas ficam realmente difíceis. E esse problema de como descrever suas idéias não é tudo. O que mais me impressiona é o processo imaginativo de conceber cenas completamente não ortodoxas, de ângulos inesperados, transformando os próprios quadros em desenhos, etc.

Alguns artistas são mesmo mestres em contas histórias integrando desenhos com texto, e às vezes alguns são capazes de dispensar os textos! Na cena que segue, vemos a Batwoman e a vilã Alice falando ao telefone.

Todo mundo já viu uma cena de personagens ao telefone divididos em quadros diferentes por um “raio”, pra demonstrar que estavam na mesma linha. Mas quem já viu uma cena como essa antes, onde o “raio” faz parte da composição de um único quadro e os rostos das personagens se alternam e se “completam”?

Vejamos outra arte de J.H. Williams III, desta vez para a revista mensal do Batman.

Perceberam como o título da revista está na sombra do morcego? Perceberam que além do preto e branco das cenas do fundo a única cor que aparece é o vermelho, talvez para expressar o clima violento que a cena retrata? Perceberam que apenas um dos quadros coloridos que sobrepõe a imagem em preto e branco faz parte da cena em preto e branco também? Talvez o artista quisesse dar destaque à discussão dos heróis ali. Notaram com os outros quadros coloridos seguem a sequência “comum” dos quadrinhos, ainda que no fundo ao invés de simples bordas, o artista preferiu demonstrar o “plano de fundo dos eventos” e não apenas o “papel de fundo”? Espetacular.

Outra cena de tirar o fôlego do artista é esta:

Realmente dispensa falas. A representação dos quadros em conjunto forma um morcego, e à frente destes uma mão com luva, representando o vilão misterioso que o Batman vinha enfrentando, o Luva Negra. Isso tudo com cena de ação frenética dentro dos quadros.

Pra mim foi fácil descrever o que está na cena já pronta, mas eu nunca seria capaz de descrever isso para um artista, caso eu fosse o roteirista e tivesse que explicar exatamente o que tinha imaginado. Eu nem seria ao menos capaz de imaginar uma cena assim! É ao mesmo tempo complexa, completa e inovadora.

Neste texto decidi me focar no Will III porque a arte dele vem constantemente me surpreendendo, mas eu poderia fazer um texto sobre Batman: A Piada Mortal e Watchmen do mesmo jeito. Ao invés de descrever todos os elementos que compõem o enquadramento espetacular dado por Alan Moore e seus colaboradores, Dave Gibbons e Brian Bolland, taí um trecho do primeiro volume para vocês mesmos tirarem suas conclusões e fazerem um exercício imaginativo.

No mais, algumas dicas especiais: Para aqueles dispostos (como eu) a se aventurarem na criação da arte seqüencial é muito útil ler Will Eisner, Alan Moore, Moebius e, se tiverem uma graninha guardada, a versão Definitiva de Sandman, que saiu recentemente pela Panini. Ao final das histórias tem uma cópia do roteiro escrito pelo Gaiman da edição Sonhos de Uma Noite de Verão junto com os esboços para os desenhos de Charles Vess. Uma lição fodástica!

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  1. Putz Pedro, que post excelente! O Pipoca e Nanquim está bem de colaboradores viu. Muito bom. J.H. Willians III é, na minha opinião, um dos melhores quadrinistas deste atual momento. Suas páginas de batman e batwoman são do cacete! Outro que também está mandando bem é Mike Deodato, que é muito criativo no modo como elabora as páginas. Outro que também fez um excelente trabalho em Batman foi Frank Quitely, que criava as onomatopéias usando elementos de ação da página. Muito bom.

    Parabéns pelo post e obrigado pela colaboração. Envie seus textos sempre!

  2. Poxa cara, que bom que gostou! Isso é porque eu adoro o Pipoca e Nanquim e adoro quadrinhos. Concordo sobre o Frank Quitely, adoro a arte do cara. Um dia farei um texto sobre os desenhistas que mais admiro, por que, sim, vou continuar colaborando! Adoro o trabalho de vocês, e adoro contribuir!

    Abraços a todos!

  3. Falando em arte sequencial e narrativa visual nos quadrinhos sempre vem a mente essa pagina do Frank Quitely http://img16.imageshack.us/i/supermangrandesastro… (All Star Superman #05 paginas 12-13) Onde ele coloca a visão lateral do prédio do presídio, e cada andar é um quadrinho, e até o corpo de Lex na escada(1º quadro) é completo pelas pernas do guarda(3º), e no final a coluna do meio que divide os quadros se torna a coluna da prisão onde um preso se apoia.

    Legal citar tb o capítulo de Watchemen (ja citado aki) "Terrivel Cimetría" que da muito assunto pra discutir, por isso mais sobre ele o pessoal pode encontrar no Pipoca e Nanquim 36 – Watchmen.

    Abrasss pessoal o/

  4. Parabéns pelo post e muito obrigado pela contribuição. Não estava a par do trabalho que Williams vinha desenvolvendo na Batmoça e fiquei instigado para ler.

    um abraço.

  5. Instigante. Interessante pensar em como construímos as coisas em nossas cabeças como 'quadros' ou como 'movimento' mas quase nunca imaginamos essa dimensão que faz tanta diferença para o resultado final da obra.

    Além disso, como o Pedro disse, é interessante notar como o enquadramento pode enriquecer o próprio roteiro da obra e tornar a leitra muito mais 'participativa' – no sentido de te levar a imaginar mais longe os quadros – e menos, como poderia dizer, contemplativa.

    Muito bom…

  6. Pedro

    Excelente post, até onde sei na maiorira dos casos o desenhista decide como vai ser a diagramação, inclusive vi uma entrevista do ivan reis que diz que ele colabora coma história justamente dessa maneira, na Blackest Night quando a história fica mais tensa ele usa mais widescreen, deixando as cenas mais claustrofóbicas, quando os vilões assumem as bordas ficam negras, etc.

    O único cara que eu saiba que não é desenhista e participa da diagramação é o alan moore, ele descreve tudo, tudo,tudo, inclusive na watchmen tem uma aula de hqs no meio da mini tem uma edição chamada alguma coisa simetria, a edição inteira é simétrica, com a pág central tendo a cena em um espelho dágua, sensacional

  7. Valeu Leonardo.

    Observando o roteiro de Sonhos de Uma Noite de Verão, de Sandman, vejo que o Gaiman também participa bastante na decisão de como vai ser a diagramação. Mas com certeza há mais espaço para as decisões do artista quando comparado ao Moore.