Anacronismo nos Quadrinhos – Roteiros de Antigamente Avaliados por Leitores Modernos

Colaborador: Rui Santos Silva

Anacronismos. Quando julgamos uma obra de outra era com os conceitos (e preconceitos de hoje) temos um anacronismo.

Nos quadrinhos, a maioria dos leitores é contra os anacronismos. Quando pegamos qualquer livro da coleção Biblioteca Histórica Marvel, da Panini, o texto parece-me, em demasia, verborreico, floreado, excessivamente descritivo e cansativo, e a qualidade dos desenhos muitas vezes é inconstante.

Sempre haverá aqueles que dizem que não podemos descontextualizar a obra, arrancá-la do seu tempo. Dizem: se nos anos 60 aquela obra era genial, não se pode julgá-la pelos padrões de qualidade atuais.

Mas, poucos têm o mesmo raciocínio quando falamos de música ou de cinema, por exemplo. Nessas artes as pessoas julgam as obras pela sua sobrevivência no tempo.

Um filme bom há 40 anos continua a ser um filme bom nos dias de hoje – torna-se um clássico. Ninguém cultua ou se lembra de um filme antigo que era ruim (exceção óbvia de toda a obra cultuada de Ed Wood, tido como pior diretor de todos os tempos). Não nos recordamos de um péssimo filme feito 40 anos atrás classificando seus defeitos como consequência da época em que o mesmo foi filmado.

Na música, o mesmo acontece. Se a música permanecer entusiasmante e lembrada mesmo depois de transcorridos 20 anos desde seu lançamento, essa música é um legítimo sucesso. A durabilidade atesta a qualidade.

Nas duas artes citadas, o que define a sua qualidade é a resistência à passagem do tempo. Então eu pergunto: por que com os quadrinhos haveria de ser diferente?

Claro que eu valorizo a “ideia”, a inventividade em si. Lee, Kirby, Siegel, Shuster, Kane e muitos outros foram pioneiros, foram ousados, criativos e geniais. Criaram mitologias e popularizaram um mero genero literário, transformando-o numa mídia diferente do “clássico livro”.

Mas, o que sobra depois disso?

Eu li recentemente o titulo Arquivo DC – Liga da Justiça. A ideia de reunir os principais heróis em uma equipa foi boa e os desenhos até são do meu agrado. Mas, as histórias são incrivelmente chatas. Os textos longos que descrevem extamente o que está desenhado são insuportáveis. A narrativa maniqueísta por si só é idiota e insanamente repetitiva de uma história para outra. Os recordatórios, as descrições – tudo isso é uma tortura.

Claro, eu tento pensar que tudo começou ali. Que hoje muitos dos escritores que aprecio bebem dessa fonte em busca de suas ideias. Criam histórias maravilhosas baseadas em conceitos antigos. O roteirista Geoff Johns é mestre nisso. Brad Meltzer e sua maravilhosa passagem pela Liga também se baseou no apelo da nostalgia.

Sei que muitos não concordarão comigo (nomeadamente os respeitáveis anfitriões deste site), mas, particularmente, eu não sinto nenhuma falta das coleções que a Panini aparentemente descontinou, como Biblioteca Histórica Marvel e Crónicas ou Biblioteca DC.

Essas histórias, bem como muito do material das eras de Prata e de Ouro, simplesmente não sobreviveram ao teste do tempo. Mesmo que elas tenham sido empolgantes na altura de sua primeira publicação, hoje não mais o são. Basicamente, eu prefiro que a Panini invista em edições contemporâneas do que na republicação de HQs ultrapassada. Veja bem, não nego a importância histórica das mesmas enquanto criação de conceitos e gênese de toda a indústria de quadrinhos que conhecemos hoje, eu apenas não consigo sentir prazer em tais leituras. Por mim, esse material poderia ser conservado e editado apenas digitalmente.

A questão é que acredito que uma boa obra será sempre uma boa obra. O fato de ela pertencer à determinada época e de possuir características intrínsecas de seu período, que nos tempos modernos nos parecem datadas, não pode comprometer a qualidade do material, isso seria um sinal de que ela não é mais relevante.

Na verdade, os mesmos argumentos utilizados para defender esses comics antigos poderiam servir para defender revistas mais recentes. Youngblood, da editora norte-americana Image, por exemplo, poderiamos dizer que essa obra é símbolo de uma época, que os seus textos e desenhos são frutos de características que marcaram toda uma década e fizeram escola. Tudo isso é verdade, mas não significa que a série fosse necessariamente  boa. Youngblood era, continua sendo e nunca deixará de ser um tremendo lixo. Muitas das pessoas que gostavam dessa revista no tempo de sua publicação hoje a julgam com desdém. Ou seja, a obra não sobreviveu ao tempo.

Eu também sou uma cria dos anos 1990. Também comprei porcarias como Cyberforce e Strykeforce. Sim, eu já tive dezasseis anos. Mas, os leitores evoluem e tornam-se exigentes. Se isso vale para esses títulos, porque não para os anteriores?

Então, em que pé ficamos? Nem tanto ao mar nem tanto a terra. Se, por um lado, devemos levar em consideração e respeitar as características da época em que uma obra é lançada, por outro não devemos deixar que isso nos tolde o julgamento. Respeitar o passado e o gosto pessoal de cada um, mas manter o olhar crítico.

Talvez, as melhores obras sejam as que estão à frente do seu tempo (como Watchmen e Cavaleiro das Trevas) e não as que apenas espelham a realidade de seu tempo. O tempo passa e os conceitos que tínhamos como seguramente “cool”, parecem-nos, mais tarde, tolos e ingénuos. Por outro lado, “brand new is retro”…

Enfim, começo a entender melhor os problemas histórico-cronológicos da DC. Afinal, lidar com o tempo não é fácil.

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  1. Boa tarde Rui.

    Em primeiro lugar parabenizá-lo pelo texto, independente de se concordar ou não, é impossível negar que os argumentos foram bem feitos e muito bem colocados. Em relação ao texto, aliás, como historiador ratifico, todas as obras são fruto de seu tempo e mantém marcas claras desse momento. Assim, entramos em dois pontos, a questão da mídia e de referências. A mídia no sentido de que cinema e música são diferentes e acaba por gerar efeitos diversos nas pessoas. E, em relação ao cinema, o culto a bons filmes antigos é para poucos, muitas pessoas sentem falta da tecnologia atual e não assistem produções do passado. E em relação as referências, uma obra pode ser vista como fruto de uma época, ao passo que outra pode ser classificada como um clássico em qualque momento em que se leia, como você bem exemplificou. Logo, acho que as HQs, como o cinema são bem parecidos: os clássicos ficam e os datados são lidos ou vistos como símbolo de uma época e não como algo que tenha que ser tratado como grande obra.

    • Sim… mas é pena que muitos dos verdadeiros clássicos, do cinema ou HQ’s, não sejam referenciados como tal e caiam no esquecimento. Também acho interessante aquelas pessoas que gostam de encher o peito para lançar o falso lugar comum de que tudo o que é lixo o tempo não perdoa e a qualidade vingará sempre. Britney spears, Jerry Brucheimer ou Rob Liefield são as provas vivas do poder do lixo e de como se bem alimentado, pode durar anos. Sempre existirá mau gosto e toda gente terá o seu lado Kitch. Quantos nós já não gostaram de uma música, de um filme ou de um comic detonado pela maioria popular ou pela crítica? gosto e opinião é diferente para todos e deviamos celebrar mais isso.

  2. =

    Muito bem…

    Concordo tanto com Rui quanto com Douglas
    nesse ponto de não se “julgar” ou “classificar” as HQ’s só por serem classicas.
    Mas bem, nem com todos é assim…dependendo da situação
    vc até apanha se falar mal de alguma dessas clássicas histórias.

    Mas bem… no fim, tem-se que respeitar
    mas não necessariamente enaltecer essas obras.

    • Exatamente. “vc até apanha se falar mal de alguma dessas clássicas histórias”. Porque as pessoas acham que o gosto deveria ser padronizado? Eu adoro Watchmen mas se alguem odeia poque deveria sentir vergonha? se expor os seus argumentos de forma válida, gosto e opinião diferentes têm de ser respeitadas. Mesmo que a custo.

  3. Ótimo post, tocou numa ferida complicada, e muito pouco abordada.

    Concordo com grande parte do que foi escrito, acho um pouco custoso ler essas edições, muitos textos, travados. Porém saboreamos de um gosto muito especial ao ver como as coisas aconteciam, como o roteiro era desenvolvido, e a dúvida se eles conseguiriam manter a qualidade na edição posterior. Os desenhistas merecem nosso reconhecimento, faziam várias edições por mês com uma qualidade que dificilmente achamos hj em dia.

    Enfim, é difícil conseguir analisar friamente, eu ainda acho as edições boas apesar dos pesares! rs

    Mais uma vez parabéns pelo tema!

  4. excelente artigo, concordo com tudo que foi dito, deveriam haver mais posts sobre isso, na minha opinião o pior inimigo das hqs e o maltido saudosismo, aquele papo de na minha epoca as historias prestavam ja encheu o saco a muito tempo, HQS consideradas classicas merecem respeito mas ninguem tem a obrigação de gostar, particularmente nunca achei STAN LEE um genio e detesto a arte do JACK KIRBY, reconheço a importancia dos 2, mas não tenho a obrigação de morrer de amor por ambos, tem muita HQ boa que ta de pau em varias classicas mas que não recebem o devido valor.

    • Eu adoro os desenhos do Kirby mas porque você não pode detestar? eu detesto mais a padronização do gosto e da opinião. Isso é que é um absurdo. Eu gosto de Watchmen mas voce não acha estranho em tantos milhoes de leitores em tantos anos, aparentemente nunca aparecer ninguém que não goste? eu acho isso no minimo estranho mesmo, se tratando de uma obra prima (na minha pessoal opinião) . Os leitores deveriam ler artigos como o que eu escrevi e PENSAR PELA PRÓPRIA CABEÇA. Francamente acho que está na hora de os leitores assumirem mais as suas opiniões de frente e menos seguirem pela cartilha de supostos fazedores de opinião. Você não acha o Lee um Genio? eu não concordo inteiramente consigo mas defendo o direito a voce se exprimir. Exprimir Alto.

  5. Parabéns pelo texto!
    Concordo em gênero, número e grau. Não consigo ler essas coisas, se é ruim, é ruim e pronto.

    • Mas Renan, se é ruim e pronto, como é que a industria dos quadrinhos sobreviveu a essa época?

      • Lucas, não digo que sempre foi ruim, mas hoje em dia é ruim. Assim como foi citado no texto, alguns filmes que eram bons em décadas passadas hoje já não convencem, não funcionam mais.

        Pessoalmente não consigo ler HQs muito antigas e gostar, e já tentei bastante. Respeito quem consegue se colocar no contexto do período em que foi escrito e apreciar a obra, mas eu não consigo.

  6. Não se trata de ser ruim, apesar de respeitar a opinião de vocês, a questão é que se trata de um estilo datado e de uma forma de produzir HQs que não mais vigora. Os motivos ou os pontos positivos ou negativos trata-se de uma outra conversa, mas o importante é analisar a forma e ligá-la o momento de produção.

  7. Bem, discordo completamente do texto e acho inclusive que o Rui cometeu um erro ao começar o pensamento dizendo que filmes clássicos sobrevivem ao tempo e continuam tão bons quanto há 40 anos atrás. Se isso fosse verdade não teríamos tantos remakes de filmes dos anos 70, 80 e 90. Claro que existem outras (muitas) questões envolvidas, mas é como o Douglas disse aí em cima. Não é todo mundo que cultua os filmes antigos, arrisco a dizer que a maioria prefere mesmo produções atuais. Na música, isso é menos perceptível, mas não é incomum encontrar alguém que acha que Beatles e Rolling Stones são “bandas de velho”. Minha opinião é que qualquer limitação desse tipo é ruim e não entendo como uma obra pode envelhecer a ponto de ser considerada boa por toda uma geração só para depois “ficar ruim”. Claro que ninguém tem a obrigação de gostar, mas é importante saber analisar essas obras sem o mesmo olhar de quem lê um quadrinho atual, senão o melhor seria sempre a obra mais recente, entre outras coisas porque os quadrinistas atuais, quando vão fazer uma revista, sempre vão usar de conceitos e/ou elementos antigos, de coisas que eles já viram em outras histórias, por mais original que sua obra seja. Se o quadrinho novo vai ser melhor que o antigo são outros quinhentos, mas acho que é por aí. Particularmente, nunca li muita coisa antiga da DC, mas adoro as histórias clássicas da Marvel, na verdade gosto bem mais desses clássicos da Marvel do que das histórias atuais (recentemente li Os Supremos e achei bem mais ou menos, isso de uma história que diziam ser a melhor coisa já feita com Os Vingadores) mesmo sabendo que se o cara fizesse um negócio desses hoje em dia eu não ia gostar e provavelmente ia atribuir a ela todos os adjetivos que o Rui usou pra definir essas histórias antigas. Queria muito saber da opinião do Bruno, do Alexandre e do Daniel. Acho que essa discussão é massa e rende até um podcast.

    • A razão para termos tantos remakes e reboots em hollywood é só uma: falta de criatividade. como já não têm ideias originais, reformatam e vendem o mesmo produto duas vezes. E claro que a maioria prefere produções atuais. A maioria vive naturalmente no seu tempo. Eu não sou diferente. Posso gostar de coisas de outras décadas, mas este também é o meu momento e claro que me identifico mais com a minha realidade. Não posso ter culpa de viver no presente.

  8. Bem, os quadrinhos do Stan Lee podem parecer pueris, mas, no decorrer da década de 60, até quando ele deixou os títulos, década de 70, ele deu uma ‘esquentada’.

    De minha parte, não acredito em ‘progresso’ na cultura, e acho que, sim, toda obra é datada, e as superestimadas Cavaleiro das Trevas e Watchmen, além de não serem grandes coisas, para mim, são bananeiras que já deram cacho. Os Xmen do Morrison estão aí para não me deixarem mentir.

    Acho que seria bom as HQs tomarem um rumo no sentido do divertimento, sim. Querer tornar algo que não é sério em algo sério demais é complexo de vira latas. Você está assumindo que o que faz e o que gosta é inferior, e deseja torná-lo outra coisa. Agora, o Flash Gordon, o Tarzan e o Príncipe Valente que marcaram a cultura pop no século XX foram obras extremamente simples. E o Homem Aranha que marcou o imaginário adolescente nos anos 60 foi o do Stan Lee e Steve Dikto, que eu, particularmente, acho demais. O Capitão que marcou foi o do Lee e Kirby, na década de 60. O Quarteto, idem.

    Acredito que o problema não são as histórias datadas. O problema é a noção de cronologia, que publica histórias desses personagens ad aeternum, e cria uma noção de ‘evolução’ e na abordagem desses personagens. Acho que uma solução seria suas continuidades terem início, meio e fim. Não deveriam continuar Liga, Batman, Quarteto, essas coisas. Deveriam criar outras coisas.

  9. Possivelmente a diferença das hq’s em relação a outras artes quanto ao “efeito anacrônico” tenha relação com o público-alvo para o qual foi pensada a obra; quem teve a oportunidade de ler algum gekiga da década de 1970, percebe que não existe este efeito.

  10. Prezado Rui Santos. Discordo de vc. A sua análise, entendo eu, não confere, simplesmente porque vc não aborda a MARVEL nos anos 1960, que sabemos, foi o marco decisivo na reinvenção dos quadrinhos e, por isso, é consirada um marco na cultura pop e em consequencia na literatura mundial. Consta do seu artigo, quanto a mencionada editora, apenas menciona que: “o texto parece-me, em demasia, verborreico, floreado, excessivamente descritivo e cansativo, e a qualidade dos desenhos muitas vezes é inconstante”. Acontece que até hoje apenas vimos publicados os primeiros volumes dessa coleção que marcam exatamente o início da obra de Stan Lee + Jack kirby e seu séquito de inventivos desenhistas, assim se vc tiver a oportunidade de acompanhar a série, verá que rapidamente aqueles conceitos ainda um tanto ingênuos no começo, logo se transmutarão para tramas consitentes e bem escritas, dentro do contesto dos quadrinhos. Estou lendo exante o FF OMNIBUS (Quarteto Fantástico) que reúne as 50 primeiras ediçõões num calhamaço de 581 pág, e a evolução é gritante. Isso sem mencionar os INUMANOS, GALACTUS, DEMOLIDOR, PANTERA NEGRA, HOMEM ARANHA, HOMEM DE FERRO o resurgimento do Capitão América. Temos tramas e sub tramas bem delineadas, Namor se interessanto pela Mulher Invisível. Thor a divindade imersa nas agruras do mundo terreno, e todos esses dilemas que tanto marcaram essa época, enveolvendo os superseres, até então monodimensionais, exatamente como vc relata nas tramas da DC, aí eu concordo contigo. O erro está ou estaria em generalizar jogando Marvel e DC no mesmo balaio. AS tramas da DC e até o desenho, se continuassem, imagino que levariam essa mídia ao completo declíneo. Aliás os editores da DC logo perceberam o quanto estavam ficando defasados em relação a Cadade Idéias e correram atrás do prejuízo. Assim, eu, me filiando com motivos ao que corre por aí no meio nerdístico, avalio que o início da era Marvel dos quadrihnos é sim um marco e prenche todos os requisitos que vc reclama para serem vistas hoje como SOBREVIVENTES AO TEMPO, e mais, inculcadoras de um nomo métido e estilo na linguagem dos quadrinhos como obra de arte e literatura. Depois, como vc também menciona, a coisa não manteve a mesma qualidade…mas é comum…é assim que eu entendo. Dê-lhe Anacronismo… Ok?

  11. “Talvez, as melhores obras sejam as que estão à frente do seu tempo (como Watchmen e Cavaleiro das Trevas)”. Ótima frase. Concordo que muitos clássicos parecem massantes hoje, mas eu por exemplo tenho um grande prazer em lê-los, primeiro porque gosto de conhecer melhor sobre o personagem em questão e segundo porque gosto de ver a evolução da narrativa e dos desenhos. Porém, se você me perguntar se eu gostaria de ler uma obra do grupo “Biblioteca Histórica Marvel” com os desenhos e narrativa originais, ou uma totalmente adaptada ao nosso dia-a-dia, eu certamente escolherei a atual.

  12. Os quadrinhos citados no seu artigo pertencem a uma época em que devemos analisar os quadrinhos como linguagem em formação, notadamente, o quadrinho de super-heroi. Quando vemos por essa ótica, e analisando o contexto histórico e as condições de trabalho em que essas obras foram feitas (maravilhosamente descritos por Michael Chabon e Gerard Jones em obras literárias), vê-se que existiam doses iguais de picaretagem, inocencia e criatividade. Era a época em que uma criança poderia, com apenas dez centavos de dolar, comprar um gibi. Era uma época em que homens com colante e superpoderes exóticos começavam a serem compreendidos por uma audiência que, antes, só tinha Tarzan, Flash Gordon, Fantasma. Homens comuns, porém extraordinários. Super-heróis, por outro lado, eram aquilo que Grant Morrison pontou muito bem como sendo o mais próximo que nos temos dos mitos dos deuses. Temos que analisar esses quadrinhos como linguagem em formação, nomenclatura de uma gramática nova, os quadrinhos, que tinham pouco mais de 40, 50 anos (da forma como conhecemos hoje). Era a época que as revistas de super-herois estavam começando! Tudo era novidade.
    A música, as artes, o cinema já tinham uma linguagem consolidada. A música, assim como as artes, tinham já séculos de formação lingüística. O cinema, já tinha um tempinho a mais que os quadrinhos. Sua estética não precisava ser explicada, já era conhecida. Ninguém mais ficava assustado quando via um trem chegando na estação em um filme (lembrando o primeiro filme feito da maneira moderna, por August Lumière e lembrando a paródia hilária de Abe Simpson, no desenho dos Simpsons).
    A expressão “Olha lá no céu” ainda tinha seu fascínio para a molecada (e adultos, por que não) da época.
    A Panini está mais do que certa em resgatar essa época. Precisamos lembrar sempre como tudo começou para não esquecer de como era feito e não repetir os erros do passado. Ou produzir coisas como o citado Youngblood, valha-me deus!

  13. Parabéns pelo texto, muito bem construído.

    Esse ponto é bastante delicado. Se, por um lado, algumas hqs da Era de Prata eram maçantes, não podemos ignorar pérolas como Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Denny O’Neil e do mestre Neal Adams.
    Todas as épocas possuem clássico e lixo. É fato.
    Mesmo na horrenda era Image, temos oásis como Preacher, Reino do Amanhã e Marvels.

    • E mesmo dentro da propria Image. A wildstorm lançou muita coisa boa, por exemplo. Se calhar bem medidos, os anos 1990 não foram assim tão horrendos. Afinal quadrinhos não são só Homem Aranha, X-men e Superman.

  14. Concordo com quase tudo. Quem pegar numa obra do Will Eisner ou do Robert Crumb vê que a qualidade não tem época.
    Só não concordo num aspecto.
    As edições referidas, as Bibliotecas históricas, as Crónicas da Dc tinham um público alvo diferente do actual. As revistas eram criadas para as crianças e jovens adultos, mais ou menos dos 5 aos 15/16 anos. Agora já não é bem assim. Se uma criança de 8 anos pegar numa história actual do Homem-Aranha e, por exemplo, ler a “Caçada Sinistra” descobre um herói bem diferente do desenho animado do domingo de manhã. Isto sem falar de outros títulos destinados a adolescentes, Homem-de ferro, Quarteto Fantástico, Batman, etc.
    Concordo com o que era bom 40 anos atrás continua bom agora, mas neste caso, no caso dos super-heróis, houve um “amadurecimento” por assim dizer. O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram o sucesso que foram porque, além de serem boas histórias, apelavam a um público mais adulto.
    No caso das Bibliotecas e Crónicas, temos mesmo de contextualizar.

  15. Comprei várias edições da biblioteca histórica Marvel, realmente não consigo ler nenhuma. Tudo que consigo curtir são os desenhos. A maioria pelo Jack Kirby. Os desenhos dele são bem artesanais e acho isso incrível.

  16. Na minha opinião, uma das melhores coisas escritas para quadrinhos é toda a fase da morte de gwen Stacy… q ja tem 40 anos. E nso ultimos anos a melhor foi Ultimates… incluido aeh a minisserie pasadelo supremo, e a fase de batman com jim lee, all star superman e red son. o q eu acho é q as linhas regulares hj estao muito ruins em roteiro, mas no passado nao existia estas histórias pontuais que existem hj em dia… entao fica na media.

    • Paulo, se voce der uma pesquisada na net verificará que a mini Pesadelo Supremo (bem como muita coisa do Ultiverso) teve pessimas críticas. No entanto você curtiu. Acho que no fim, o gosto pessoal de cada um é bem variável entre os leitores que são honestos na sua opinião e não reproduzem, apenas os gostos de alguém, que leram num site.

  17. Eu amo ler histórias antigas. Ela são sim, pesadas, muito texto desnecessário. O roteirista explicando aquilo que tá ali na sua cara no quadrinho e coisa tal. Mas de qualquer forma, gasto boa parte de meu tempo lendo histórias clássicas, porque elas me divertem e acho super-legal ver essas coisas mais vintage. Sou assim com tudo. Vez ou outra vou em sebos atrás daqueles formatinhos da abril.
    De qualquer forma, respeito sua opinião.

    http://www.mutiverso.com

  18. Sua crítica é interessante, porém acho que você comete alguns esquecimentos e generalizações:
    – O que dizer do material de horror/terror publicado nso anos 50/60 em Tales Of Krypta? Podem estar anacrônicos, mas são soberbos em termos de narrativa, desenhos, argumento etc.
    – Toda a fase do Quarteto Fantástico escrita por Stan Lee é muito boa! E os X-Men de Roy Thomas, com desenhos de Adams?
    – Nick Fury e o Capitão América de Steranko;
    – E o Spirit de Will Eisner?
    – E o Flash Gordon de Alex Raymond?

    Poderia citar outros exemplos. Mas o mais importante aqui é reslatar que seu texto levanta uma boa discussão.