Se não leu, leia: O Lobisomem/A Múmia

O selo Cachalote, de Rafael Coutinho, iniciou no ano passado a publicação da Coleção Franca, que traz trabalhos de artistas como Pedro Franz (Cavalos Mortos Permanecem no Acostamento) e Marcelo D´Salete (Risco). Uma das publicações mais recentes e que merece destaque é O Lobisomem/A Múmia, de Eduardo Belga.

É uma HQ esteticamente deslumbrante, um passo firme na promessa que imediatamente o autor se tornou. Porém, ela possui uma característica muito mais importante do que sua qualidade gráfica: a coragem.

O Lobisomem/A Múmia foge dos padrões tranquilos, estáticos e confortáveis que parecem ter agarrado com força inúmeras publicações nacionais. Não há dúvidas que há muitas publicações sendo disseminadas no momento, o que é ótimo e deve acontecer cada vez mais, além de possuirmos excelentes artistas (em matéria de roteiro, possuímos alguns realmente bons, mas a maioria ainda precisa trabalhar e desenvolver esse aspecto), mas grande parte das obras acomodou-se com o grau de facilidade das publicações (a magia do Catarse e o barateio do procedimento gráfico) e constantes elogios que acontecem simplesmente porque “não se fala mal da produção nacional.” Em pouco tempo, criou-se um mito que tenta impedir que determinadas obras sejam justamente criticadas, e quem o faz torna-se imediatamente “inimigo” das publicações nacionais. Essa comodidade põe em risco a qualidade dos roteiros e vai contra um dos maiores preceitos de qualquer manifestação artística: a ousadia.

O gibi possui duas histórias (O Lobisomem e A Múmia). Ambas possuem sua conclusão no miolo do gibi (quando uma termina, o leitor encontra o final da outra de cabeça para baixo, o que faz com que seja necessário virar o gibi de cabeça para baixo e começar a história seguinte pelo verso do quadrinho).

Lobisomem é um poema escatológico, sincero e agressivo, no qual o autor se coloca no papel de cão e cadela, porém, apenas os hábitos e padrões comportamentais, pois se representa, na arte, como humano, o que gera uma bizarrice estética deveras ousada e interessante. Além disso, a sugestão de gêneros misturados (vez ele é o cão, outra é a cadela) traduz um comentário sobre a natureza animalesca da sexualidade e da violência sexual sofrida pela fêmea, seguida pelo abandono e, por fim, a morte.

Em A Múmia, o autor mumifica um cadáver, coloca a foto de uma mulher para simular o rosto, e comete um ato de necrofilia. As ilustrações são igualmente deslumbrantes, porém a história serve em especial como um exercício de estética e de narrativa.

A HQ é embalada por lindíssimas imagens, quase como um livro ilustrado, e é completamente desprovida de vergonha e de senso do ridículo. O autor não se importa em se colocar em posições humilhantes, que causariam estranheza e incômodo profundo nos mais conservadores. Pelo contrário, ele escancara as portas das possibilidades e das soluções estéticas e dá a cara a tapa, o que torna transparente o quão pouco se importa em ser tragável simplesmente para agradar. Essas são características de um artista que propõe, sem medo, desafiar os padrões estabelecidos pela ordem vigente.

Infelizmente, a Coleção Franca possui sérios problemas comerciais (não há nome do autor e nem da obra na folha de rosto, e os lançamentos são sempre uma surpresa, sem a devida e merecida divulgação). Fora isso, merece salientado que a bravura de Eduardo Belga deve servir de exemplo para futuros e atuais autores que desejam publicar uma obra de destaque. Obrigado por cagar para o padrão, Belga.

Você pode adquirir O Lobisomem/A Múmica e outras publicações da Coleção Franca em lojas especializadas, como a Comix.

E também pode conferir os trabalhos do artista no flickr e no site.

10993120_826983514007167_5069005130476389313_nbelga9belga3

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *