Se não leu, leia: A Vida de Jonas

VidaDeJonas“O Brasil tem excelentes desenhistas, mas faltam escritores.”. É uma frase bem comum nos meios em que as publicações independentes e de editoras da casa giram. De fato, não chega a ser uma completa falácia. Dá pra dizer que a situação seja, talvez, um meio a meio. Mas como não poderia ser diferente, as coisas estão mudando.

Da lista de nomes de autores que já produziram trabalho de destaque na seara dos roteiros (Luciano Salles, Camilo Solano, Bruno Azevêdo, André Diniz e outros), Magno Costa entra para o time.

Costa já é responsável por outros trabalhos que valem a atenção, como Matinê e Oeste Vermelho, em parceria com seu irmão Marcelo, e Mary, da coleção Zug, publicado pela Balão Editorial. Nessas obras já provou o talento, especialmente em relação à narrativa visual das HQs.

Um bom escritor de quadrinhos não sabe apenas trabalhar os recursos linguísticos; deve saber contar visualmente sua história, façanha muitas vezes mais complexa do que o uso de palavras, mas que é executada com competência por Costa, e garante ao gibi um festival estético.

O autor escolheu uma forma curiosa de contar a história: os personagens são representados por bonecos estilo Vila Sésamo.

Essa opção é a carta na manga do gibi, e transmite uma sensação extremamente agradável e cativante em contraste ao pesado enredo. Só a capa já atesta o fato.

A HQ é sobre um alcoólatra que perdeu a mulher por causa do vício e agora se encontra num contexto de intensa batalha para manter-se sóbrio.

Uma história simples, mas que apoiada na linguagem visual proposta por Costa, se transforma num conto de forte carga emocional.

A vida de Jonas (tchã) é afetada basicamente  por três pessoas: Júlia, sua ex-mulher, com quem deseja reatar; Tony, o responsável pelo seu grupo de apoio no A.A.; e Mauro, o novo namorado de Júlia.

Já nos personagens refletem os recados visuais escolhidos pelo autor. Mauro com seus dentes sempre aparentes, mostrando que não é com cara com quem deve se mexer, e sua monocelha, que lhe atribui um aspecto enfezado o tempo todo. Já Tony tem uma cor azulada, pacífica, e seu óculos enormes asseguram-lhe um semblante paternal.

Na folha de rosto, logo abaixo do título do gibi, vemos a imagem realista de um coração, que se repetirá na página 15 em um painel próprio, e que serve tanto como prenúncio da banda da ex-esposa de Jonas, a Lonely Hearts, como para explicitar o foco emocional e frágil do enredo. O coração volta a aprecer em um painel só para ele na página 19, logo depois que Jones vê Júlia no palco.

Outro aspecto estilístico de destaque são as cores do irmão de Magno, Marcelo. Elas também são usadas como ferramenta para expressar o clima e a ambientação do estado de espírito do personagem. Não é um recurso novo, porém novamente a competência na execução pede destaque.

Talvez os momentos mais evidentes do uso da ferramente sejam no bar, quando Jonas vê a banda de Júlia, e as cores ganham um tom avermelhado (sim, como é de praxe em muitos bares, mas nada é coincidência) e principalmente no momento da recaída de Jonas. Ao passar a madrugada bebendo, ele volta para casa ao amanhecer. Em três belíssimos painéis o sol matinal se espalha pela cidade e chega ao apartamento de Jonas. Porém, do lado de dentro, a penumbra e as cores pálidas permanecem, e acompanhamos os quadros nos guiarem até o banheiro, onde Jonas está no chão bebendo um Jack Daniels, num painel horizontal centralizado na página. As partes superior e inferior da página estão em branco, outro recurso utilizado para representar o vazio na vida de do protagonista neste momento.

Tudo isso nos é apresentado através da narrativa cinematográfica de Costa, que mostra com eficiência os momentos de tensão vividos pelo protagonista na guerra diária para manter a mente ocupada e a bebida afastada.

Publicado pela Zarabatana, A Vida de Jonas é possivelmente o trabalho mais honesto de Costa. É um gibi emocional, mas sem ser brega, é intimista, mas sem ser xarope ou lento, é forte, mesmo para quem não tenha passado pela experiência do personagem, é otimista sem ser piegas.

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