Sandman: Teatro Do Mistério – Se Não Leu, Leia!

No ano de 1993, graças ao sucesso de Sandman de Neil Gaiman, outro personagem com o mesmo nome ganhou revista própria pelo selo DC Vertigo. Apesar das comparações, esse novo Sandman não era outro senão Wesley Dodds, personagem da Era de Ouro da DC Comics, membro da Sociedade da Justiça original e que combatia o crime com uma pistola de gás.

Originalmente criado por Gardner Fox e Bert Christman, o personagem estreou na edição de Adventure Comics #40 em julho de 1939, “The Tarantula strikes back”, embora alguns historiadores acreditem que o personagem tenha aparecido duas semanas antes no New York World´s Fair, com uma estória creditada sob o pseudônimo de Larry Dean. Referenciado como um dos principais “homens do mistério”, Sandman extrapolou a tradição o conceito de personagens detetives de revistas pulp da época por causa de sua dupla identidade e dos apetrechos que utilizava no combate ao crime: uma extravagante vestimenta e uma arma de gás que adormecia os vilões, compelindo-os a contar a verdade. Nos anos seguintes, o personagem acabou ganhando um sidekick, Sandy, the Golden Boy, sobrinho de Dian Belmont.

O título sob o selo Vertigo, batizado de Sandman Mystery Theatre (SMT), era ambientado no final da década de 1930, antes que Dodds se tornasse um dos membros da Sociedade da Justiça original. Desnecessário dizer que a temática adulta não se deva apenas ao selo Vertigo estampado nas capas, mas também por seu conteúdo intenso, sem receio de discutir temas abrangentes e polêmicos. O título fomenta temas como racismo, anti-semitismo, crimes seriais, aborto, sexo, além de contextualizar um dos períodos mais obscuros da estória americana, sob a sombra da ameaça do nazismo que se alastrava pelo mundo e pela crise pós-1929 que ainda assustava todos os setores da economia mundial como uma infecção mal curada.

A sobriedade de Nova York retratada em SMT é de certa forma arrebatadora e nostálgica, vivenciada de forma pungente por seus moradores, numa cidade com vários quadros pitorescos estampados nos becos de cada rua e na obscuridade das vielas e bares. Compondo o retrato de uma sociedade em franca ascensão, Nova York é vista quase como um organismo vivo, repleto de formas e tons, muito distinta de qualquer outra cidade de então. A cidade das luzes e que nunca dorme, era também a terra das oportunidades, da liberdade e da justiça. O jeito americano de viver atraía como o olho de um furacão gente de todo o mundo.  Impossível não ver essa cidade transposta no lápis de Guy Davis sem lembrar dos filmes de época no embalo do ragtime, de uma matiné de cinema ou das batidas do trompete de um jazzista de cabaret . As suas ruas estreitas com tão poucos veículos automotores, a pouca poluição visual e sonora que começam a despontar ainda parecem tímidas diante da grandiosidade de uma cidade em constante crescimento. Muito diferente da cidade dos dias de hoje, a Nova York de Wesley Dodds é um casulo, pronto para revelar-se para o mundo como o símbolo de liberdade e justiça, tão apregoado pela sociedade americana de então.

Mesmo assim, como nos dias de hoje, os inimigos que permeiam o submundo de Nova York dos anos 30, nascem do seu próprio ventre, gerados pela fortuna e pela imoralidade de uma sociedade que ascende para o futuro, tentando esconder nos seus subterrâneos seus pecados e vícios mais sombrios. Deste caldo de vilipendias despontam vilões cujos princípios morais não conhecem os limites de sociedade em harmonia. Pelo contrário, se estendem como ramificações que irão vasculhar temas quase proibidos, explorando o que é vil, escondido e repudiado, frutos da deturpação social, por meios demais violentos e gratuitos.

Não por acaso alguns dos vilões que povoam o universo deste Sandman recebem nomes cuja mera menção causa repulsa e horror. Dessa inquietação, desfilam pelos recônditos da cidade o Tarântula, a Face, o Escorpião, a Vamp, o Carniceiro, Dr. Morte, o Python e tantos outros: a concepção física dos horrores de uma sociedade doente.

Toda a concepção do título, desde o inicio já preconizava uma fórmula acertada, tanto que durou 70 edições, uma edição anual e um especial, com vários encadernados. Se por um lado, o título caminhava na esteira de sucesso de Sandman de Gaiman, por outro, preconizava a ressurreição para os leitores modernos de um personagem dos anos 30 com roupagem nova. Sandman Mystery Theatre era sucesso de crítica, mas isso não era tudo, os escritores do título, principalmente Matt Wagner, já eram autores tarimbados do meio quadrinístico.

Para evitar ser comparado e taxado como mais um combatente ao crime como o Batman, SMT diferenciou-se pelo contexto histórico do enredo, com doses maciças de clima noir anos 30, maravilhosamente retratado por Guy Davis. Além disso, as aventuras desse herói mascarado seguiam um padrão um tanto incomum, pois cada arco de estória era auto contido, sempre se encerrando em quatro atos, como uma peça teatral, vindo daí o titulo original da série. É importante notar que quase todos os principais personagens ganhavam voz à medida que assumiam a narração, dando ao leitor a ligeira sensação de estar sempre lendo os pensamentos deles, não existindo a figura do narrador onisciente. Nesse ponto, outra característica interessante é que nem sempre o narrador-personagem das estórias eram os mesmos, por vezes variando entre Wesley, Dian e o detetive Burke. Assim, a ótima tônica da narrativa sempre era seguida de perto pelo leitor, que passa a figurar na estória também como onisciente e onipresente, um expectador de todo o desenrolar da trama, no entanto incapaz de qualquer intromissão. Assim, temos a narrativa quase sempre em primeira pessoa, contada sob o olhar dos personagens, que se torna por vezes o narrador, embora não tenha a onisciência de todo o desenrolar do enredo. Os diálogos curtos, evitando verborragia, se intercalavam entre a visão do narrador e a do personagem.

Se o enredo é um dos pontos fortes do título, seu quadro de personagens principais e de suporte não deixava por menos, que era tão rico e carismático que não deixava a narrativa ficar concentrada em apenas um personagem ou outro. A começar por Dian Belmond, a filha do promotor público da cidade de Nova York, Larry Belmont. Ela tinha em sua bagagem prêmios como escritora de romances de mistério e de ter atuado como uma detetive amadora em sua juventude. Jovem sagaz, de espírito aventureiro e inquieto, ela perscrutava pelas mais altas rodas sociais, destilando bons modos de etiqueta, sempre atenta para os mínimos fatos e curiosidades que pudessem desembocar num mistério, geralmente de cunho criminoso. Certa vez, em uma desses encontros sociais, conhece Wesley Dodds, milionário excêntrico, recluso de seu próprio mundo, mas que causa em Dian uma atração inteiramente inexplicável. Por causa de sua curiosidade aguçada, Dian acaba por se encontrar com o Sandman em uma de suas investigações, após o sumiço de uma de suas amigas, raptada pelo vilão Tarântula. Dian Belmont mostrou ser uma das protagonistas femininas mais interessantes a surgir nos quadrinhos de então, dado ao seu incessante cunho investigativo, sua aura carismática que seduzia o leitor. Impossível não torcer para que a personagem alcançasse êxito em suas empreitadas diurnas à caça de segredos, desvendando enigmas, e juntando peças de um quebra-cabeça que com certeza levariam à solução do problema.

Wesley Dodds, por sua vez, é um homem de negócios, de meia idade, soturno, de hábitos pouco sociais, com crises crônicas de insônia e melancolia, toda noite assombrado por imagens de sonhos recorrentes. Ao despertar de seu torpor ele tem a certeza de que algo vil ocorre nos submundos de Nova York, e que precisa ser solucionado. Uma espécie de intérprete dos sonhos. Seu relacionamento com Dian acaba por se tornar um interessante caso de opostos que se atraem. Dian acaba por protagonizar uma espécie de sidekick para o herói Sandman. Não foram poucas as vezes em que essas duas contrapartes interagiam na solução de algum mistério.

Os demais personagens de suporte da série caminham pela mesma estrada, alguns tão carismáticos quanto interessantes. É o caso do Detetive Burke na sua incansável caça ao herói mascarado, fadado ao fracasso na sua empreitada. Não é por acaso que certa altura da publicação eles terminam por se ajudarem mutuamente, pois embora ajam em lados opostos da sociedade, lutam pelo bem comum. Um deles é homem da lei e o outro um vigilante mascarado, ambos concorrem para o bem da sociedade: o combate ao crime. Mas nem por isso nos apiedamos de sua busca incessante pelo mascarado. Por vezes quase torcemos por seu sucesso, o que produz maior intensidade à narrativa, e momentos verdadeiramente cômicos.

Os personagens, mordomo Humphries e o promotor Belmont, completam o time de coadjuvantes desse teatro magnifico, repleto de magnitude e carisma onde ambos servem de pivô para o casal Wesley e Dian. Enquanto um é o suporte para as aventuras do herói mascarado à noite, por vezes fazendo o papel de fiel escudeiro, até mesmo acobertando seus triunfos e quedas, o outro é um eterno pai protetor, sempre preocupado com as desventuras desencadeadas pela sagacidade de sua filha, uma curiosa incurável.

A editoração do título ficou a cargo de Karen Berger, atual editora executiva da DC Vertigo nos Estados Unidos, e que foi a principal responsável por um dos maiores acertos de sucesso da editora americana: a vinda de escritores britânicos para o mercado norte americano no final dos anos 80 e a criação do selo Vertigo em 1993.

À medida que a série ganhava corpo e desenvoltura, naturalmente aparições especiais de outros personagens do universo DC foram inevitáveis, como o Homem Hora (SMT #29-32), Starman – Ted Knight (SMT #38-40), o Vingador Escarlate (SMT #43, 69, 70) e o Falcão Negro (SMT #45-48). Em algumas edições tivemos ainda menção a outros três heróis, Ted Grant, o Pantera original, Jim Corrigan, antes de se tornar o Espectro e Charles McNide, o Doutor Meia-noite. Wesley Dodds também apareceria na revista Starman de James Robinson (Starman V2 #20-23), desta vez já idoso acompanhado de Dian Belmond, nos dias atuais. Mais tarde, a DC Comics lançou ainda a minissérie Sleep of Reason, após o cancelamento do título Sandman Mystery Theatre, que abriu portas para um novo personagem substituir o manto do Sandman da Era de Ouro.

A arte do título nas mãos de Guy Davis recebeu também tratamento diferenciado. O artista redefiniu um pouco o visual do personagem, fazendo-o parecer mais baixo e mais rechonchudo que o habitual, alem de dar-lhe um par de óculos de aros redondos, que por vezes ficavam visíveis debaixo da máscara de gás que usava como o Sandman. O uniforme do personagem também ganhou um novo visual, e ao invés do terno verde, capa arroxeada, chapéu amarelo e máscara de gás de cor azul e amarelo, agora Sandman ganhava um visual mais arrojado, com tonalidades combinando o cinza, verde oliva e marrom, e ao invés de capa, o personagem usava um tipo de sobre-tudo. Assim as vestes coloridas dos anos dourados foram “modernizadas” para acentuar com o “mundo real” e a sensibilidade da temática adulta que o título requeria.

A arte de Guy Davis a princípio causa certa estranheza, com traços meio crus e com pouco delineamento. Vale lembrar que esse cartunista havia alcançado grande sucesso após seu trabalho na minissérie Baker Street pela editora Caliber, o que lhe rendeu indicação para trabalhar no título Sandman.

A série em si introduziu inúmeras mudanças ao personagem da Era de Ouro, mas se tratando de um título do selo DC Vertigo, não tinha vínculos diretos com a continuidade padrão da DC Comics. Apesar disso, muitas das mudanças são consideradas retcons na cronologia DC Comics, para ambientar melhor a série e o personagem para a visão de um público maduro. Uma das mais significativas mudanças recai sobre o próprio comportamento do herói, que deixa de ser um playboy socialite e passa a ser um homem de negócios taciturno, excêntrico e um tanto recluso. Alguns desses retcons são notários, como a menção de que o personagem Sandy Hawkins, o sidekick do Sandman original, não passava de um personagem de histórias em quadrinhos de uma revista lida por Dian Belmont. Outra diferença seria sobre a morte de Dian Belmond, que nesta versão da Vertigo, vive ao lado de Wesley Dodds até sua velhice. Na edição especial Sandman Midnight Theatre, em que Wesley encontra-se com Morpheus aprisionado, Neil Gaiman introduz um pequeno retcon sugere que a identidade escolhida por Wesley foi resultado da ausência de Sandman do Reino do Sonhar, e que Dodds então carregaria um aspecto dessa realidade mística, explicando assim seus sonhos proféticos.

Assim, Sandman Mystery Theatre apresentou para os leitores dos anos 90, um novo Sandman, que seguia o rastro do personagem de Gaiman, mas que se diferenciava por mostrar um vigilante e suas aventuras noturnas no incansável combate ao crime, fórmula que acabou acertando mão, com impressionantes resultados. Além disso, SMT juntamente com Starman de James Robinson provou que ainda conseguia carregar frescor e despertar o interesse tanto de novos quanto antigos leitores dos heróis pulps. Na esteira desses dois sucessos de qualidade e crítica, muitos outros heróis ganharam os holofotes da mídia quadrinistica, o que provocou uma verdadeira procura por outros títulos com temática retrô.

Por todos esses detalhes, Sandman Mystery Theatre é uma leitura prazerosa e apaixonante, digna dos fãs de literatura policial e de detetives, que misturada com um turbilhão de variados temas morais e sociais torna-se um verdadeiro deleite. No Brasil, infelizmente poucas edições foram publicadas. A extinta revista Vertigo da Editora Abril (1995) começou publicando os arcos O Tarântula, A Face e o Bruto, compreendendo às edições #1 a 12 original americanas. A editora Metal Pesado (1998) publicou o arco A Vamp (SMT #13 a 16) além da edição especial Sandman Teatro da Meia Noite, com o encontro entre os dois Sandmen. A Editora Tudo em Quadrinhos (1999) publicou os arcos O Escorpião (SMT #17 a 20) e Dr. Morte (SMT #21 a 24), e a edição Sandman Teatro do Mistério Especial, que contem a edição anual do personagem. Já a estória curta “Na cidade dos Sonhos” do original Vertigo Winter´s Edge #2 foi publicado pela Opera Graphica na edição Vertigo Inverno #2.

Sem sombras de dúvidas, Sandman Mystery Theatre é um material recomendadíssimo para todos os amantes do bom quadrinho, e que ainda carece de mais atenção das editoras brasileiras, afinal não faltam requisitos para elencar essa série como uma das mais gratas surpresas do universo DC Vertigo dos últimos tempos.

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Gilgamesh é um fã, leitor e colecionador de quadrinhos há mais de 20 anos, mora na região de Belo Horizonte, formou-se em Letras pela UFMG e descobriu nos quadrinhos um dos melhores prazeres da vida.  Já conseguiu guardar um acervo razoável de HQs e é fã incondicional do Demolidor e de todas as vertentes da DC/Vertigo.

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  1. Excelente e esclarecedor o seu artigo. Como fã de literatura noir, fiquei bastante empolgado com as descrições de personagens, narradores e espaços. Também sou estudante de Letras e sempre gostei muito de histórias em quadrinhos. Possuo também um acervo razoável em termos de quantidade, mas ainda faltam obras como essa para encorporá-lo. Imagino eu que seja muito difícil encontrar essas edições publicadas no Brasil, não?

    Um abraço.

    • Murilo, tudo bem? Realmente acho o SMT um ótimo material, principalmente pelo clima detetivesco noir, que muito aprecio, e pelo otimo desenrolar das tramas regradas pela cuástica decadencia moral da sociedade de época. Do material publicado no Brasil, acredito que os itens mais dificeis de encontrar com um preço justo sejam os arcos O Escorpião (SMT #17 a 20) e Dr. Morte (SMT #21 a 24). Mas conseguindo, creio que não irá se arrepender de te-las em sua coleção. Grande abraço.

  2. Ótima dica pra quem não conhece. No meu caso, acho que vou reler novamente. Material de altíssima qualidade!

    • Isso aí, Yuri!!!  Ótima pedida. Eu recentemente li todo o material que tenho! Pra quem não conhece o personagem, vale a pena dar uma chance! Grande abraço.

  3. outro texto bom e esclarecedor sobre esta série da vertigo, de que li alguns números. infelizmente só as séries mais conhecidas e que dão retorno comercial tem espaço no mercado nacional. um abraço, do amigo Cláudio.