Os Leões de Bagdá – Se não leu, leia!

Colaboradora: Priscilla Viotto

Uma história emocionante onde os reis da savana decidem encontrar a liberdade.

No dia 20 de março de 2003, tropas norte-americanas avançavam no território iraquiano em meio a um conflito que durou 5 anos. Os soldados reuniam forças e marchavam em uma Bagdá deserta e devastada por uma das guerras mais sangrentas do Oriente Médio. Ambientes públicos eram saqueados, pessoas escondiam-se em suas casas protegendo o que ainda restavam de bens materiais e objetos de valor sentimental.

Dentre os atingidos, está o zoológico de Bagdá. Com um número grande de visitantes e sendo um dos maiores do Oriente, ele tornou-se um alvo fácil. Funcionários misturavam-se entre as tropas iraquianas que protegiam o local, mas após algum tempo, todos já haviam abandonado os quase 700 animais e deixado cerca de 35 deles serem saqueados ou se perderem em meio a tanta confusão; macacos, camelos, ursos, aves e o que mais pudesse ser vendido ou comido tinha seu destino certo na mão de saqueadores. Os animais ferozes eram menos interessantes, fosse pelo trabalho em capturá-los ou simplesmente por medo.

É neste cenário que um grupo de quatro leões foge do lugar, logo após o bombardeio norte-americano com aviões caça F-18 que detonou todas as grades e paredes que os separavam da cidade. Envolvido com essa história, Brian K. Vaughan, decidido a desenvolver uma HQ inovadora, utilizou as referências do mundo real e a imaginação para transformar esses leões anônimos em verdadeiras celebridades.

Com traços marcantes repleto de detalhes e tons de cores que reproduzem com perfeição o clima árido e as ruínas do Oriente Médio, essa obra emocionante e envolvente mostra uma dura realidade entre a ilusão e a batalha por ideais imaginários. A mistura dos medos e conflitos internos dos protagonistas permite que o escritor trabalhe personalidades diferentes para cada felino.

Cansados de viver em jaulas e alimentar-se com restos de carne jogados por seus tratadores, Zill, Safa, Noor e Ali, partem em busca de um lugar para chamar de lar, onde possam ser livres – mas eles não esperavam que o mundo lá fora fosse tão cruel, assustador e cheio de armadilhas.

Zill, o macho alfa do grupo, por conta do cativeiro se tornou acomodado, pregando o famoso “deixar a vida me levar”. Sempre muito indeciso, ele segue o curso dos acontecimentos da maneira mais prática possível. Já a fêmea Noor é a revolucionária, líder da jornada durante boa parte do enredo, ponto que mais influência a narrativa. Ela está sempre à frente das estratégias e planos de fuga, é a mente brilhante do grupo que busca a todo custo convencer os outros animais de que ser livre é a melhor opção.

Ali, por sua vez, é curioso, ingênuo, valente, emotivo e muito apegado a sua família. Enganam-se aqueles que pensam que ele é apenas um filhotinho inofensivo como Simba de O rei leão. Esse jovem felino tem sangue forte e sentimentos de um animal selvagem e impiedoso. Destemido e corajoso, encara sua jornada sem um pingo de medo (ou quase isso). Por ser muito sonhador, Ali acredita nas histórias da terra prometida, difundidas por outros animais companheiros de cativeiro e pregada por sua própria mãe. Mesmo sem conhecer o que espera, ele sonha com algo belo e grandioso. É a busca por um lugar feliz, a idealização, sem nem ao menos haverem referências concretas. A base de todos os leões vem de contos, lendas e memórias fracas de infância.

Safa é a velha anciã, batalhadora, guerreira, a única com lembranças reais de uma selva nada acolhedora. Por ser a mais velha do grupo, ela não acredita na tal liberdade ou qualquer outra coisa que não venha acompanhada de sofrimentos e responsabilidades. A todo instante tenta fazer com que o grupo retorne para o que acredita ser o lugar seguro.

” Posso ter alguns invernos a mais do que você, mas consigo enxergar o que está vindo ai mais claramente com meu olho bom do que você jamais poderia com os seus dois.” – Safa

Em determinados momentos da história temos maior contato com um desses personagens, que passa a ser o foco principal durante algumas páginas. Com a aproximação, os leitores adquirem maior intimidade e apego por cada um dos leões.

Um dos inimigos é o urso Jafer, que segundo o autor, também foi inspirado em uma história real. Uday Hussein, o filho do ditador Saddam Hussein, possuía no Palácio Republicano um urso como mascote – possivelmente hoje morto pelo exército americano.

A trama da HQ é inteiramente contada do ponto de vista animal e, como uma sutil representação, os leões saem de seu ambiente seguro e se deparam com um desconhecido. Toda a história é uma grande metáfora da guerra de verdade, ilustrando a introdução dos americanos nos conflitos de uma nação com costumes e crenças diferentes, a mesma mão que traz a destruição faz com que as pessoas do país sintam-se livres – como no caso desses animais.

A análise do conteúdo da obra mostra que, além dessa metáfora simples, temos também o grande impasse do povo das terras áridas, a religião, que também menciona uma terra prometida, ou a terra sagrada, um dos pináculos dessa obra. Não é apenas um lar, mas sim o encontro com algo grandioso e único, um ideal que subsiste apenas no sonho de cada um.

Cheia de emoção e muita maturidade, essa belíssima história em quadrinhos convida o leitor para uma reflexão profunda, onde as lições da vida de cada personagem ensinam como conduzir uma situação. Lembrando que não existe o caminho certo, mas sim o caminho onde a felicidade se encontra com a paz.

Ao final dessa HQ entendemos que nem sempre o sentimento de gratificação é o mais importante, muitas vezes o que realmente faz a diferença é trilhar um caminho, um destino que mantenha todos unidos. Uma ótima leitura para o final de semana, capaz de mexer com seus sentimentos, e uma excelente lição de vida para aqueles que acreditam que ser livre é a única opção de felicidade.

Os Leões de Bagdá

Editora: Panini

Autor: Brian K. Vaughan (roteiro) Niko Henrichon (arte)

Preço: R$19,90

Número de Páginas: 140

Ano de Lançamento: 2008

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  1. Uma das melhores Graphic Novels que já li, realmente a história é muito comovente e cativante, você quer durante toda a jornada de sobrevivência durante a invasão do Iraque todos tentem procurar um novo local para eles se sentirem seguros.

  2. Nossa faz tempo que não comento aqui U.u…
    Os desenhos e as cores são muito boas mesmo, quero poder adquirir pra ver o conteúdo.

  3. Eu tinha visto uma página só dessa história, que é aquela da girafa explodindo, mas como vi num site de humor, pensei que fosse uma tirinha isolada. Realmente a arte tá muito bonita! Parece ser bem interessante!

  4. Que legal, a história deve ser bem comovente. Nunca fui muito de me interar desse tipo de leitura, nesse estilo, mas o texto está muito bom e deixou bem claro o quanto pode ser uma leitura interessante.

  5. Vi há algum tempo no NSN.
    Bem que eu queria ler,
    mas já faz vários meses que procuro, mas não encontro em lugar algum.