O Eternauta – Se Não Leu, Leia!

Colaborador: André Ornelas (Marshall)

O verdadeiro herói de O Eternauta é um herói coletivo, um grupo humano. Isso reflete, embora sem premeditação, meu sentimento íntimo, o único herói válido é o herói “em grupo”, nunca o herói individual, o herói solitário” – do prefácio de Héctor G. Oesterheld.

Sinopse: Buenos Aires, 1957. Germán, um roteirista de quadrinhos trabalhando tarde da noite recebe uma inesperada visita na solidão do seu escritório. Um ser humano se materializa na cadeira vazia a sua frente e se apresenta como “O Etenauta”,  passando a narrar a sequência de eventos que o conduziu até aquele momento e o fez um náufrago a deriva no tempo.

O Eternauta é comumente citado como a obra prima do roteirista argentino Hector G. Oesterheld (“G” de Gérman), que por sua vez é lembrado como um dos mais prolíficos e talentosos roteiristas de todos os tempos, criador de personagens importantes como Sargento Kirk (desenhos de Hugo Pratt), Ernie Pike (com Solano López/Hugo Pratt) e Mort Cinder (com Alberto Breccia). Infelizmente, excetuando-se algumas histórias esparsas dos personagens Nekrodamus e Lanaka publicadas da extinta revista Spektro no início dos anos 80, praticamente toda a obra de Oesterheld permanece inédita no Brasil.

Assim sendo, a publicação de O Eternauta pela Editora Martins Fontes assume a importante missão de apresentar o autor a um grande número de leitores brasileiros, entre os quais me incluo. É preciso então que se diga, a edição cumpre bem seu encargo, trazendo os importantes prefácios de Oesterheld e Solano López, além de um propício texto introdutório de Paulo Ramos redator do Blog dos Quadrinhos e autor dos livros Revolução do Gibi – A Nova Cara dos Quadrinhos no BrasilBienvenido: Um Passeio Pelos Quadrinhos Argentinos, entre outros.

Quanto ao formato, a editora optou pelo original argentino com páginas horizontais ao invés da versão adaptada lançada na Europa, que adotou um formato verticalizado, utilizando do recurso de corte e remontagem dos quadros. O único senão fica por conta da capa de composição pouco atrativa e algo tímida.

Edição argentina menor que a brasileira, com capa mais inspirada.

Publicado originalmente na forma de fascículos em um semanário chamado Hora Cero, entre 1957 e 1959, pela editora Frontera – fundada pelo próprio Oesterheld – O Eternauta é uma obra de fôlego, compreendendo 360 páginas densas que combinam texto arrebatador e imagens de uma expressividade incomum.

O roteiro de Oesterheld revela um domínio extraordinário de forma e conteúdo, combinando perfeitamente diálogos exatos e caixas de texto para formar uma narrativa coesa, densa e instigante, muito a frente de seu tempo. Em seu prefácio, o escritor informa que a história foi sendo criada à medida que a ia ganhando corpo, mas não é esta a impressão que se tem no correr da leitura. A exemplo, atentem para as palavras que abrem a trama “Fazia frio, mas as vezes gosto de trabalhar com a janela aberta; olhar as estrelas relaxa e acalma…”; possuidoras de um significado que só será compreendido ao final da trama.

Revolucionária em sua abordagem adulta e extensa além dos padrões de sua época, O Eternauta não encontra paralelo fácil nos quadrinhos dos anos 50, seja na Europa, onde a produção de René Goscinny já se destacava, seja nos Estados Unidos, onde vicejava o infame CCA (Comic Code Authority).

O Eternauta pode ser definido como uma “ficção científica realista”, expressão aplicada pelo desenhista Solana López em suas prévias com Oesterheld. Distanciando-se dos aberrantes mundos ficcionais retratados por Alex Raymond, que já nas primeiras páginas do seu Flash Gordon arranca o protagonista do lugar comum arremessando-o aos confins do cosmo, aproxima-se mais do estilo de H. G. Wells em A Guerra dos Mundos, introduzindo o elemento fantástico num tempo e local vivenciados pelo leitor.

Embora não prescinda de elementos fantásticos, estes não são, de modo algum, o foco da história. Ainda que o próprio Eternauta se defina como um “viajante do tempo”, seu relato não destaca peripécias e descrições pseudocientíficas, concentrando-se na fatalidade que se abateu sobre seu mundo e na sua luta para compreender, resistir e enfrentá-la, não como herói, mas como sobrevivente, juntamente com seus companheiros de jornada. Verdadeiras apologias ao espírito de grupo e às virtudes comunitárias, as falas de Juan Salvo deixam transparecer claramente a ideologia do autor, exaltando as virtudes características de cada indivíduo como inteligência, nobreza de espírito e coragem, mas, sobretudo, a união de todas elas na busca do grande bem comum, a liberdade, ainda que em detrimento do maior bem individual, a própria vida.

A crítica ao capitalismo evidencia-se na fala de um dos “inimigos”: “Pena os homens só darem valor ao que é raro…não apreciam o que existe em abundância…para vocês mais vale um pedaço de ouro bruto  não trabalhado do que uma folha de árvore ou a pena de um pássaro“.

A bem da verdade, o viés político da obra é bastante claro, embora não chegue a ofuscar e se sobrepor a narrativa, o que resultaria em uma peça de propaganda e não num belo romance gráfico, como é o caso.

A arte de Solano López é um componente imprescindível da trama e faz com que o próprio termo “romance gráfico” soe mais que apropriado. Expressivo ao extremo, abusando da espessura do traço, López entrega quadros viscerais que revelam à sensibilidade do leitor detalhes que o texto não conseguiria alcançar. Suas figuras humanas parecem quase respirar, e suas experiências emocionais,  seus medos e suas virtudes são traduzidos com maestria pelo lápis do artista em cada gota de suor, ruga e marca de expressão, bocas e olhares assustadoramente reais que prendem a atenção do leitor.

 Graças à maestria de López, pude reparar em um pequeno detalhe que merece ser destacado. Na página 30 há um quadro contendo o rosto de Helena, esposa de Juan, carregado de expressão. Esta mesma imagem é repetida na página 348, apenas com um corte de quadro diferente. Não fosse pela expressividade da imagem, dificilmente se notaria este pequeno “deslize” do desenhista. Ou seria proposital?

Em O Eternauta, Solano López demonstra uma técnica chamada “chiaroscuro” termo de origem italiana, derivado da junção de chiaro ( luminoso) e oscuro (obscuro, escuro). Expressão antiga que remonta ao século XV que serve para designar o uso de contrastes, jogos de luz e sombra que expressam volume e/ou dramaticidade. Outros expoentes dessa técnica nos quadrinhos são Alberto Breccia, nascido no Uruguai e criado na Argentina,  faz a segunda versão do O Eternauta e o espanhol Carlos Carlos Ezquerra, co-criador e primeiro desenhista do Juiz Dreed.

Arte de Alberto Breccia.

O Eternauta é uma obra de vanguarda, e mesmo decorrido meio século de sua primeira aparição, ainda guarda um brilho ímpar, próprio das obras que atravessam o tempo quase incólumes. A bem da verdade, quase se pode crer que se trata realmente de um relato de um viajante de outra era, incidentalmente inserido em um tempo antes do seu.

Fica a torcida para que a Editora Martins Fontes, pelo seu novo selo Martins, publique também O Eternauta 2 bem como outras obras do currículo de Oesterheld e de outros mestres do quadrinho argentino.

– nota: Héctor German Oesterheld era ativista político. Ele desapareceu no final de 1977, vítima de uma armadilha perpetrada por agentes a serviço dos órgãos de segurança da junta militar que governou a Argentina de 1976 a 1983. Suas quatro filhas também sumiram sem deixar vestígios, duas delas estavam grávidas. Não se sabe o destino das crianças.

Solano López faleceu no dia 12 de agosto de 2011, vítima de hemorragia cerebral, aos 83 anos de idade.

Solano López

Para mais informações sobre quadrinhos argentinos e seus autores, recomenda-se o livro Bienvenido: Um Passeio Pelos Quadrinhos Argentinos, de Paulo Ramos.

Agradecimentos especiais a Pedro “Hunter” Bouça e Fabiano Barroso pelaa atenção dispensada e conhecimentos derramados

O Eternauta
360 páginas
2011
R$ 69.80
Prefácio: Paulo Ramos
Tradução: Goldoni, Rubia Prates
Acabamento: brochura
Formato: 28 x 22 x 2 


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André Ornelas (Marshall) é um amante das Histórias em Quadrinhos. Colecionador, leitor ávido, nostálgico e ranzinza, tem apreço especial pelos clássicos. Se sente a vontade em sebos e cultiva grande interesse pela história das Histórias em Quadrinhos. Dono de um senso de humor corrosivo, suas opiniões costumam ser firmes e contundentes. É redator do site www.area171.com.br e seu personagem preferido é o Capitão Marvel.

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  1. Assino embaixo André.
    O Eternauta tem lugar garantido na minha lista das 10 melhores hqs de todos os tempos, é uma aula de suspense passo a passo deixando o leitor roendo as unhas de ansiedade. Li em scan e assim que saiu esse volume da Martins Fontes já comprei pra reler sempre.

  2. Mais um criador e profissional talentoso perdido para os regimes ditatorias sulamericanos. Fico pensando como essa gente estaria produzindo e movimentando o cenário cultural e político… Eternauta está na minha wishlist ficção científica!

  3. Esta HQ foi a melhor que já li, sem dúvida. Caiu em minhas mãos(emprestada por um amigo) uma edição em espanhol, com capa dura, luxuosa e muito bem acabada, publicada no Uruguai em 2010. Marcou profundamente minha visão em relação aos quadrinhos. Me lembro que levei umas três semanas lendo-a e aonde eu ia, o livro ia comigo. Agora que saiu a versão em português e depois de ler uma resenha que descreve com perfeição essa obra de arte, só me resta comprá-la. HQ recomendadíssima!!!!!!