Mas Ele Diz que Me Ama – Se não leu, leia!

Colaborador: Gustavo Trevisolli

Talvez um dos mais importantes lançamentos da Ediouro em quadrinhos, a graphic novel “Mas ele diz que me ama” (originalmente chamada Dragonslippers) já saiu no Brasil há alguns anos, se não me engano em 2006, e ainda podemos encontrá-la a venda no site da Ediouro e em algumas livrarias.

Na história autobiográfica, Rosalind B. Penfold é dona de sua própria agência de marketing, ela tem seus 35 anos de idade e é solteira, quando se envolve com um homem um pouco mais velho, pai de três filhos, chamado Brian. Nos primeiros meses a relação é um “conto de fadas”, mas aos poucos Brian se revela ciumento, irracional e violento, com um comportamento tipicamente bipolar.Ros se pergunta todos os dias sobre o que há de errado com ela, ao invés de avaliar o que há de errado com seu parceiro, e isso se torna o dilema de sua vida.

Os desenhos são simples, mas de impacto, com expressões que transmitem claramente os sentimentos dos personagens para o leitor. A autora (anônima, pois Rosalind é um pseudônimo) pinta Brian como alguém totalmente insuportável, o que leva a crer não se tratar do retrato de apenas um parceiro de uma de suas relações, e sim de várias, fazendo dele um amálgama de um homem machista e misógino. Claro, pode ser mesmo apenas um homem na vida de Rosalind, mas é difícil acreditar que ela não o tenha denunciado ao flagrá-lo tentando abusar da filha, ou que não o tenha abandonado nas duas vezes em quase descobriu traída. Por isso, acredito que a autora uniu vários casos de violência e abusos domésticos em uma única história. Estando o palpite certo ou errado, isso não diminui a importância da obra, que mostra as agressões do ponto de vista de quem sofre.

Ros diz no início da HQ que mantinha um diário, e que desenhava quando não conseguia escrever, isso é expresso nos momentos de conflito entre o casal quando as linhas ficam tremulas. Cabe ressaltar também as belas noções de profundidade e todo o drama transmitidos pelos desenhos de Ros, mesmo sendo bem amadores (ela não é desenhista profissional, apenas escolheu esse meio para contar sua história). Justamente por serem feitos como desabafo em momentos de muita dor, seus desenhos fizeram com que eu sentisse uma emoção jamais antes sentida em qualquer outro quadrinho que já li.

Quando escrevia este texto, em dezembro, me deparei com o fato de que dia 06 desse mês é o dia mundial da mobilização dos homens pelo fim da violência contra as mulheres, então decidi que seria uma boa terminar o review e enviar para o Pipoca e Nanquim. Essa data ficou marcada quando, em 1989, um jovem entrou armado em uma faculdade de Montreal, Canadá, e ordenou que todos os 48 homens de um curso de engenharia se retirassem e deixassem apenas as mulheres na sala, e matou as 14 jovens estudantes, sob alegações de que as mulheres estavam roubando uma profissão tipicamente masculina. O assassino se chamava Marc Lepine, você pode encontrar mais sobre o caso no Google.

A autora criou o site “Friends of Rosalind”, com intuito de coletar testemunhos de mulheres que sofreram abusos do parceiro. A página também mostra os lugares onde podemos adquirir seu livro, links para sites de ajuda a vítimas de agressão e também um tutorial de como perceber se você está sofrendo algum tipo de abuso no relacionamento. Clique aqui para ver o site.

Diferente do que a maioria dos homens pensa, a violência doméstica acontece em muitos lares. Seja ela de nível físico, psicológico ou verbal. Após muitos anos como leitor de quadrinhos percebi como algumas obras de certa forma mostravam em seu enredo o machismo e a misoginia, então fui à busca de outras HQs que mostrassem o outro lado da moeda, especialmente as escritas por mulheres, e encontrei graphic novels maravilhosas, como Persépolis, Lucille, Júlia, e agora este belo Mas ele diz que me ama.

Fico feliz de ainda encontrarmos esse livro a venda, pois acho que ele é mais do que apenas uma obra em quadrinhos, e também o ponto de partida que pode vir a encorajar muitas mulheres a perder o medo de denunciar seu parceiro violento.

Falando nisso, vocês sabiam que a atriz americana Geena Davis (de Thelma e Louise) fundou um centro de estudos, chamado instituto chamado Instituto Geena Davis de Gênero e Mídia, para analisar a sub-representação de mulheres no cinema para toda a família? De mais de 5000 filmes analisados, cerca de 71% eram machistas. Isso não é tão espantoso de se imaginar, já que em Hollywood 93% dos diretores são homens, 87% são roteiristas e 80% produtores. Se uma roteirista for mulher, as chances de termos uma personagem feminina forte é grande, não?

Digo isso tudo porque me lembrei de algo chamado bechdeltest.com, um site para avaliação de filmes, criado por uma cartunista feminista e lésbica. Nele, só são aprovados filmes que seguem três regras simples: 1) Que o filme tenha pelo menos duas mulheres, 2) Que elas conversem entre si e 3) que as conversas não sejam sobre homens. Simples, não? Pois bem, mas triste perceber que obras como O Poderoso Chefão, Caçadores da Arca Perdida, Transpoitting, Pulp Fiction e Curtindo a Vida Adoidado não passariam no teste e teríamos inúmeras comédias românticas medianas como os melhores filmes para mulheres, mas não deixa de ser uma análise interessante. Podia surgir um site assim para avaliar quadrinhos, não? Os sugeridos anteriormente certamente passariam.

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  1. Bom, amigo! Se o assunto não te agrada há sempre os outros milhares de titulos de herois por aí!

    • Papo furado são os comentários ao final, isso que eu quis dizer. Gosto de todos os gêneros de quadrinhos, inclusive de heróis (como você falou). Só que, da mesma forma que uma “escritora-lésbica-feminista” pode se expressar acerca do que acha sobre aspectos da vida que a cerca, bem como ter seus “pensamentos” transcritos na resenha acima, também expresso meu ponto de vista acerca dessa forma vazia e boba de discurso, como fiz acima. Afinal, cada texto possui espaço para comentários. Apenas estou fazendo o meu. Faz parte…

  2. Mas isso não é problema, como eu mesmo disse existe ótimos filmes que fogem desse padrão estabelecido, mas diferente do que apenas o comentário “papo furado” existe ai um fundamento no que a cartunista disse. 

    • Pra quê se perder tanto em “tertúlia” desnecessária, quando podemos apontar algo pelo que realmente é, de forma simples, objetiva e direta… em suma: mero “papo furado”?

  3. Ótima resenha!
    Para alguns, “papo furado” compreende assuntos que não giram ao redor do seu umbigo, ou ainda pior, que estão muito próximos e são forçadamente ignorados.
    Não consigo entender aqueles que dizem gostar de ler/ver/ouvir histórias, e não têm a capacidade de se colocar na posição de quem a conta, de se sensibilizar…
    O que visivelmente não é o teu caso, Gustavo. Obrigada por compartilhar tuas experiências!