J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga – Se não leu, leia!

Colaborador: Gustavo Trevisolli

Aventuras de uma Criminóloga.

Meu interesse por J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga, revista em quadrinhos, do universo Bonelli (o mesmo de Tex, Mágico Vento, Zagor) é explicado pelo fato de eu ser um grande fã da psicologia criminal, sempre gostei de ler sobre o assunto, estudar assassinos, a motivação pela violência e a origem da loucura que acompanha grande parte dos assassinos seriais e criminosos, dentre minha leitura recomendada está Enciclopédia do Serial Killer, Serial Killers Made in Brazil, Serial Killer Louco ou Cruel? E Mentes Criminosas, também nas obras ficcionais com o Criminólogo (e não detetive) Hercule Poirot, Sherlock Holmes, algumas histórias de Edgar Allan Poe, e para pular para algo mais recente, Os Homens que não Amavam as Mulheres, trilogia Millennium do Sueco Stieg Larsson.

Muitas faces conhecidas.

Às vezes, ao ler Julia, me sinto como se estivesse assistindo a um filme desses antigos, no qual temos um almagama de vários atores de épocas diferentes, e coisa sutis como, por exemplo, o velho Ford que a Julia dirigi só alimenta este sentimento.

Julia não tem origem em nenhuma série ou filme, mas a influência de atores e atrizes no aspecto físico dos personagens é visível. Temos, por exemplo, uma incrível semelhança da Audrey Hepburn para Julia, uma Whoopi Goldberg como sua governanta, um John Malkovich como tenente da policia, e por aí vai… Enfim, é vasto o time de “atores” emprestando o rosto para os personagens do fumetti, criada por Giancarlo Berardi, ilustre criador também de outro personagem marcante: Ken Parker, ambos da Sergio Bonelli Editore. Enquanto Ken Parker ainda seguiu a linha bem conhecida na editora de cowboys, Julia parte para os tempos atuais, na qual o personagem do titulo é uma professora de criminologia e prestadora de serviços para a polícia de Garden City, muito perspicaz e inteligente.

Cada edição traz uma historia fechada, com 134 páginas, formato pequeno e em preto e branco, um acabamento eternizado pela Mythos e outras editoras principalmente nos anos 80 e 90. Independente do formato, o que mais chama atenção em suas historias é o intricado roteiro de Giancarlo Berardi. A cada edição ele consegue mostrar o cotidiano de Julia sem cair na mesmice, sem apelar, sem enrolar e sempre surpreendendo, pois ela, além de ser uma criminóloga, não cabe apenas a assassinos seriais, mas sim a tudo que envolve sua profissão, como solucionar todo tipo de crimes: assaltos, sequestros, máfia, pessoas que apenas resolvem desaparecer e deixar a família. Em uma das melhores histórias lançadas até aqui, flertando com o sobrenatural, Julia enfrenta xamãs em sua forma física e espiritual.

Todo preparo de Berardi.

Em entrevista ao Universo HQGiancarlo Berardi disse que anos antes da personagem ser publicada, já havia começado a tecer as características essenciais dela no papel: “Frequentava cursos de criminologia, lia muitos livros teóricos e fictícios, cursos de análise comportamental, filmes, documentários, etc”.

Apenas após cerca de quatro anos estudando para se tornar um expert no assunto que chegou a primeira edição da personagem, que apesar de ser uma trama semifechada, a história de uma serial killer se arrastaria por três edições, porém não essa ou raras exceções as edições são fechadas, o número de páginas, maior que as da tradicional Tex, é explicado pelo escritor por não conseguir colocar todas as suas ideias em apenas cento e poucas páginas.

Agora, sobre o falado de todo o estudo que teve para criar a personagem e seu universo o mais convincente e real possível, também é de reparar todo o estudo para cada edição individual. As aventuras que contém um tema específico demonstram um agudo estudo sobre o assunto em questão, dados reportados pela protagonista, sobre aborto, estupro e pedofilia são reais. Os aspectos psicológicos do criminoso diversas vezes são expostos, nos quadrinhos, as explicações para o que leva um assassino a cometer suas atrocidades se encaixam perfeitamente com casos da vida real.

Passando por cima de ser apenas um fumetti, a personagem e seus coadjuvantes estão cada vez mais destacados por discussões acima de aspectos culturais, acima do racismo, do machismo, assuntos pouco debatidos pelos quadrinhos que encontramos em todas as bancas. Julia, por exemplo, é uma mulher independente, solteira, que está envelhecendo sozinha, mas nunca se deixou levar por qualquer homem. Madura e inteligente driblou todos que lhe tentaram domar. Eu a considero uma feminista, e isso também tem seu lado interessante, pois o fumetti é uma das únicas publicações da Bonelli que atrai leitores do sexo feminino. Julia conseguiu feito semelhante ao de Sandman, Maus e Persépolis (dentre outros), despertar interesse por quadrinhos em pessoas que jamais pensaram em procurá-los para ler.

O Cancelamento e ressurgimento da série.

O grande barato é poder continuar acompanhando as aventuras de Julia Kendall graças a Mythos, que publica mensalmente suas histórias, sempre no dia 1 de todo mês. Mas, isso quase foi mudado, pois a revista chegou a ser oficialmente cancelada e, graças a nós, fãs declarados da personagem, que fizemos campanhas, enviamos e-mails e lutamos pela publicação, a vida útil da personagem foi prolongada por mais algumas revistas até anularem finalmente o cancelamento do título.

Hoje, vejo Julia em bancas que nunca antes tinha visto. Lembro-me de que quando mudei para o Rio de Janeiro era um título raro, só em duas bancas no centro encontrava a revista, agora até no meu bairro (Méier) é possível achar os lançamentos. Principalmente depois que ela ganhou um prêmio HQMIX (o mais conhecido do país) Publicação de Aventura/Terror/Ficção de 2010. Sendo assim, seria uma injustiça, um absurdo sem tamanho, se a revista fosse simplesmente “cancelada” e jogada no limbo das ótimas publicações europeias que sempre ficam de fora do país, enquanto todos os meses as bancas ficam empanturradas de quadrinhos da Marvel ou DC, cada vez mais fracos e apelativos.

Muitas pessoas dizem que o certo é que o titulo seja cancelado, como por exemplo, este texto do site dos Melhores do Mundo. Gostaria de registrar que concordo apenas em partes com o argumento dele. A revista J. Kendall é cara, sim, por ter 132 páginas, em tamanho pequeno e ser em preto e branco. Em contrapartida com os ótimos textos e desenhos, as edições são, em termos de capricho gráfico e editorial, muito porcas. Normalmente eu não reclamaria sobre isso, mas peguemos uma edição recente (não me lembro exatamente qual), em que uma frase é repetida algumas vezes na mesma página (erro gravíssimo) e algumas editorações mal feitas. Mas, isso não é nem de perto um “argumento” para pedir pelo fim da revista. Sendo propriedade da Bonelli, a Mythos detém os direitos e é a única que pode publicar, por isso chega a ser um enfraquecimento no artigo citado sugerir tal tolice. Sem dúvida nenhuma a série merece um tratamento melhor, sem erros e com acabamento gráfico melhor, é por isso que devemos lutar, não pelo cancelamento. Culpar o título pela má vontade de alguns editores não ajuda em nada a manter sua continuidade.

Por isso, continuo meu monólogo: compre J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga. Compre para você e, se puder, compre para algum amigo que se interesse por quadrinhos ou cultura em geral, ele vai gostar. No site da Comix você encontra várias edições de Julia. Só assim essa excelente HQ vai continuar e poder contar com um tratamento digno. Quem sabe não teremos as histórias desde o inicio republicadas em edições especiais encadernadas, como temos em Tex? Seria muito interessante.

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  1. Já faz um tempo que eu defendo que Julia Kendall é a melhor série continuada da atualidade. Todo mundo deveria ler essa obra prima. Parabéns pelo texto.

    • Totalmente com o Ale, J Kendall é das melhores HQ atualmente, inteligente, bem escrita, desenhada, personagens interessantes, uma gibi “show de bola”.
      Recomendadíssimo.

      • Das HQs seriadas, eu não tenho a menor dúvida. Uma edição ruim da Julia está vários níveis acima de uma edição de algum super-herói da marvel. Quero dizer, acabei de mentir agora: nunca li uma história nem mais ou menos dela.

  2. Já tinha escutado sobre essa série, mas não tinha muita curiosidade sobre ele..
    Vou procurar alguns para ler no sebo, pois esse texto despertou minha curiosidade.
    Parabéns cara!

  3. Depois que fiquei “orfão” de Ken Parker, descobri quase por acaso a revista Júlia Kendall nas bancas. Agora estou viciado em suas estórias que considero o que há de melhor em matéria de quadrinhos na atualidade.È bom demais!!! Recomendo a todos que desejam ler algo de qualidade acima da média. Só lembrando:o autor de Júlia é o mesmo do saudoso Ken Parker, Giancarlo Berardi. Faltou só o traço do Milazzo!

  4. Sou apaixonada por esse HQ incrível que é Julia; As aventuras de uma criminóloga!!! Conheci a HQ porque meu irmão coleciona quadrinhos, mas nenhum deles nunca me interessou,( sou uma menina, e a maioria das revistas do meu irmão são os tais mangás e marvel)mas um dia ele chegou com a edição 69( logo a que a Myrna volta- antagonista principal da Julia). Simplesmente não posso deixar de colecionar!!! Sou feminista de carteirinha e concordo com o autor ao citar essa característica em Julia, eu admiro muito essa personagem!!! Recomendo a todos, e concordo com os comentários cem por cento, ao dizerem que não há, na atualidade, quadrinhos com a qualidade de Julia Kendall!!!

  5. Feliz 2014 a todos, sou um fã incondicional de quadrinhos , na minha coleção já tive mais de 1000 exemplares de todos os estilos e tipos de revistas, hoje com 42 anos, procuro ler revistas com histórias mais “pé no chão” (realistas), por isso comecei a colecionar o ótimo MÁGICO VENTO, hoje estou com uma 80 edições , e com certeza vou completar minha coleção, mas já visando o futuro, comecei a comprar a revista J Kendall Aventuras de uma criminologa, a principio, por curiosidade pois encontrei num Sebo algumas edições a “pífios” R$ 1,50 cada, na mesma hora adquiri 08 edições, e hoje ao procurar revistas nos sebos a primeira opção é Mágico Vento a segunda é J Kendall, pois suas aventuras são muito viciantes, e a qualidade dos desenhos são fantásticos, realmente uma revista prá lá de especial, recomendo a todos. Um grande abraço.

  6. A ultima edição que eu li analisei por uma perspectiva diferente. Imaginei a situação difícil do assassino após a realização do crime. Alguém em busca de redenção, mas dessa vez quem está na enrascada é não um completo desconhecido, mas sim alguém que se ama muito. Ajudar ou não? Vale à pena confiar em um completo estranho? Julia Kendall realizando uma visita à um colega usando por acidente uma velha roupa pertencente à Tex. Desculpe se as vezes eu lhe escrevo coisas chatas. Dia 28 de setembro de 1998 nos Estados Unidos, durante um jogo a vitima escapou. Infelizmente as sequelas do acontecimento continuam. Uma ferida que não pode ser curada. Desculpe-me.