Escalpo – Se não leu, leia!

 

Em 2010 eu fiquei sabendo que a revista Vertigo ia voltar a ser lançada, dessa vez pela Editora Panini. De imediato fiz cálculos pra adequar essa revista nos gastos mensais, por que todo mundo sabe que quase tudo que sai por esse selo é garantia de qualidade. Quando tive notícia que Lugar Nenhum, obra de Neil Gaiman (meu ídolo. E provavelmente seu também) ia estar no mix dessa revista, não tive dúvida.

Um ano depois, entretanto, não é Lugar Nenhum que ainda me faz comprar o título mensal. Na verdade, a história foi uma decepção, e já saiu do mix, dando lugar para Vampiro Americano.

Escalpo é a melhor história do mix, em minha opinião. Vikings (Northlanders, no original) é bem legal também, mas cheia de altos e baixos. Escalpo é uma daquelas raridades que só tem altos.

Bem vindo à ‘Rosa da Pradaria’, a reserva indígena com maior índice de alcoolismo dos EUA, onde são implantados laboratórios de meta-anfetamina sob determinação do chefe tribal, onde perambulam grávidas e prostitutas viciadas em crack, e onde assassinatos a agentes federais fazem parte da história local.

O cenário e os personagens de Escalpo subvertem o ditado popular “o poder corrompe”. Na verdade “as pessoas corrompem o poder”.

A história é centrada em Dashiel Cavalo Ruim, um Oglala Lakota que abandonou a reserva Rosa da Pradaria e voltou após 15 anos como um agente infiltrado.

Um pitbull sem coleira, Dashiel tem a missão de entregar ao FBI os casos de assassinato envolvendo direta ou indiretamente Lincoln Corvo Vermelho, o chefão mafioso que domina a reserva com mão de ferro. O disfarce de um policial sob ordens de Corvo Vermelho, então, veio a calhar, e deu a chance de Dashiel extravasar a fúria e conhecer outros personagens importantes para a trama.

Riqueza de personagens é o que não falta nessa história. Conhecemos Gina Cavalo Ruim (mãe de Dashiel), O Apanhador, Carol, Dino Urso Pobre e outros, não sendo nenhum um personagem unidimensional. O realismo é tal que quase nos convencemos que os eventos e diálogos nos quadrinhos poderiam de fato ter acontecido. A escrotidão dos personagens é a mesma das pessoas de verdade! É possível ficar com raiva ou pena deles.

Não há em Escalpo aquele personagem que seja o tempo todo bonzinho ou heróico ou o arquetípico vilão. Se por um lado temos Gina, uma defensora da herança nativa, nela temos também uma assassina. Dashiel é cativante e tem a dose de brutalidade pra agradar qualquer leitor, mas é também um cabeça-dura ignorante que dá raiva. Corvo Vermelho pode ser um mafioso sem piedade, mas no decorrer da história vemos um lado sensível dele que é espetacular.

Não dá pra falar desta obra sem entrar em mais detalhes, mas fica a minha recomendação. Essa é uma revista que vale à pena ser lida e relida, pois tem uma dose de genialidade única, porque não se parece com nada que você já leu. O roteiro de Jason Aaron merece os prêmios que ganhou, e a arte de R.M. Guéra dá vida à história com um realismo brutal.

Pra finalizar, vale frisar que Escalpo foi em parte inspirada em Leonard Peltier, um índio que foi condenado pelo assassinato de dois agentes do FBI, em um tiroteio em uma reserva indígena em 1975. Este evento resultou no documentário ‘Incidente em Oglaga’, de 1992, dirigido por Michael Apted e narrado por Robert Redford. O índio Leonard Peltier foi condenado, mas muitos acreditavam ser ele inocente.

Escalpo é um excelente trabalho, daquele tipo que estamos sempre ansiosos por ver, mas poucas vezes encontramos. Por favor, se não leram, leiam!

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Pedro Ribeiro Nogueira (@Pedro_RNogueira) é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.Pedro Ribeiro Nogueira é estudante de Filosofia e Direito. Aprecia e escreve HQs, ouve muito Rock’n’roll, pratica a desobediência civil e recusa-se terminantemente a dançar.


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  1. Pouts..

    Quero ler o baguiu.

    Deu mesmo vontade. Se eu não gostar, mando te matar.

    Pedrão escreve bem. Quando crescer, quero ser como ele.

  2. Escalpo foi uma verdadeira surpresa quando comecei a ler. Foi somente a partir da edição 12 da revista Vertigo que vi uma trama densa e pesada que confere mais com a realidad. Desde a revista 100 Balas que não via uma estória policial tão boa.
    Como você mesmo escreveu é uma estória recomendadicima para se ler, e se achar chato na primeira vez que ler de um tempo e veja se na proxima consiguira parar.

  3. REalmente, a revista VErtigo na minha opinião é a melhor revista mix no mercado, principalmente por Vikings e Escalpo duas séries que adoro, Escalpo é realmente espetacular quem não leu leia que não vai se arrepender.

  4. São resenhas como esta que me fazem não perder tempo com histórias ruins (as quais quase sempre paro na metade)

    Hum… Vertigo voltou.

  5. Scalpo tah sendo a melhor parte da vertigo. da arrepio de ler esses paginas aqui em casa…. xD
    toh curtindo muito!

  6. Escalpo é uma das melhores produções que li nos últimos tempos. Chego a ficar com um gosto amargo na boca, tamanho o envolvimento que os artistas conseguem do leitor. É raro texto e imagens casarem tão bem durante tanto tempo. Boa dica, Pedro, assino embaixo.