Capitão América: O Soldado Invernal – Se não leu, leia!

Faz tempo que, por insatisfação pessoal, o “poderoso” mercado americano de HQs – MARVEL e DC – me levou a adotar uma postura de indiferença, devido à suas “aniquilantes guerras civis espaciais” ou “intermináveis crises infinitamente sem fim”, sem esquecer seus pseudo revolucionários “rebootamentos” e “resetações”. Verdadeiros tiros no pé, pura BULLSHIT!

Mas nem tudo se mostra perdido no universo das maiores, e eis que de tempos em tempos algo de interessante nos salta aos olhos no meio de todo este lixo editorial. Este é o caso do arco “Capitão América: Soldado Invernal”, escrito por Ed Brubaker e ilustrado por Steve Epting (os flashbacks são iustrados por Michael Lark).

“Das sombras da Guerra Fria, uma lenda vira realidade”.
– da contracapa do encadernado Marvel Deluxe

Na história, encontramos um perturbado Steve Rogers – ainda sob os efeitos dos acontecimentos ocorridos durante Vingadores: A Queda, no qual, inclusive, houve a dissolução da equipe – se lançando em uma investigação para descobrir a verdade por detrás do suposto assassinato de seu pior inimigo, o Caveira Vermelha. Com a ajuda da SHIELD e parceiros de outrora, Rogers enfrenta alguns fantasmas do passado, na forma de estranhas recordações, vendo o surgimento de uma ameaça inesperada, envolvendo Bucky Barnes, seu falecido ex-parceiro de batalha.

O autor constrói todo o seu argumento sobre elementos clássicos do personagem, remexendo em seu passado, mas nunca de forma gratuita ou saudosista, mas sim, para catapultar e fundamentar novas idéias, numa trama instigantemente bem amarrada. É gratificante ver um escritor trabalhar com respeito as raízes de um ícone tradicional dos quadrinhos – com 75 anos de bagagem -, fazendo isso em prol de seu amadurecimento como personagem, desmistificando muitas de suas associações negativas geradas devido a sua origem como propaganda política americana durante a Segunda Guerra Mundial, ou a alcunha de bandeira ambulante, defensor dos ideais do American Way of Life, mostrando que Steve Rogers é, acima de tudo, um soldado universal.

“Sabe o que eu vejo quando sonho Sharon? Eu vejo a guerra, a minha guerra. Depois de todos esses anos ainda sonho com trincheiras na floresta negra… ainda ouço os gritos dos soldados aterrorizados, sinto o cheiro de seu sangue e lágrimas…ainda sonho com Bucky. Com ele e com todos os outros que não pude salvar… não me parece justo , depois de tanto tempo, que meus sonhos ainda continuem em 1944”.
– Steve Rogers

No campo da arte, nem preciso falar muito. O tarimbado Steve Epting é classudo, cinematicamente perfeito em suas sequências narrativas, caindo como uma luva no clima criado pelo texto de seu parceiro; nunca vi ninguem usar tão bem o artifício do escudo nas cenas de ação envolvendo o personagem. Só adicionaria um ponto negativo neste quesito: a diagramação “comportada” atribuída pelo artista às páginas, fato que, por outro lado, não chega a tirar o brilho do resultado final.

Vale destacar o interlúdio “A Solitária Morte de Jack Monroe”, que narra a vertiginosa degradação física e psicológica do último ano de vida do personagem que empresta seu nome ao título, mais conhecido como Nômade. A história é ilustrada por John Paul Leon e Tom Palmer.

“Talvez nós todos sejamos diferentes o tempo todo… talvez nossa identidade não passe de fragmentos de tempo e de recordações… Talvez o tempo todo a gente mude de vida, de direção, de penteado e de roupas. Outra parte de nós cresce pra tomar o nosso lugar”.
– Jack Monroe

Continuo acreditando que um dia algum escritor do quilate de um Brubaker vá fazer isso pelo Homem-Aranha… a esperança é a última que morre… né?

Capitão América – O Soldado Invernal (Capa Dura)

Editora: Panini Comics

Autores: Ed Brubaker (roteiro) Steve Epting (arte)

Preço: R$ 75,00

Número de Páginas: 308

Lançamento: Julho de 2011

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Publicado originalmente em Captain America 1-9, 11-14 (2005/2006). No Brasil em Os Novos Vingadores 33-37 (2006/2007) e no encadernado Marvel Deluxe Capitão América: O Soldado Invernal (2011)

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Willian Blackwell é leitor/colecionador de HQs e livros, apreciador de cinema e boa música. Autodidata, um espirito livre, adepto de um perspectivismo experimentalista com tendência a gostos bizarros e atividades grosseiras. Boa gente!

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  1. Caramba 75,00 tá caro mesmo U.u…
    Eu nunca gostei muito do Capitão América, justamente por causa de alguns autores que o faziam baseando suas histórias num ideal americano.

  2. O Capitão sempre foi um patriota mas nunca um “patriota americanizado” que segue o ideal deturpado americano, ele muito ao contrário de que muitos pensar é um verdadeiro idealista da  liberdade de pensamento e expressão, que sempre leu sua história sabe muito bem do que estou falando pois Steve se revoltou do governo várias vezes, se tornando o Nomade ou somente Capitão, ou sendo lider dos Vingadores renegados na Guerra Civil, e esses álbuns lançados recentemente pela Panini da fase do Brubaker é muito um primor de leitura e desenho recomendadíssimo.