Bórgia – Se Não Leu, Leia!

No mês passado, a Conrad nos trouxe a conclusão da espetacular coleção Bórgia ao publicar o quarto volume e afinal, me vi na obrigação de fazer uma resenha sobre este trabalho seminal.

Bórgia começou a ser publicado no Brasil em 2005 e caso você não saiba quais são os volumes que compõe a série, primeiro vamos a eles

Vol. 1 – Sangue Para o Papa

Vol. 2 – O Poder e o Incesto

Vol. 3 – As Chamas da Fogueira

Vol. 4 – Tudo é Vaidade

Escrita pelo espanhol Alejandro Jodorowsky e magistralmente ilustrada pelo mestre dos quadrinhos eróticos, o italiano Milo Manara, Bórgia narra a saga da família que dá nome à série e que de fato existiu, tendo ficado famosa por conta das disputas de poder e intrigas em que seus patriarcas se envolveram.

Jodorowsky concentra seu roteiro no período do Renascimento, durante o papado de Rodrigo Bórgia, considerado o mais cruel, corrupto e depravado de todos os papas da idade média; e o escritor não faz concessões e desde o primeiro número, cria imagens perturbadoras de violência, sadismo, pedofilia e torturas, criando o cenário ideal para Milo Manara realizar o trabalho mais espetacular de toda sua carreira.

Manara é conhecido pelas mulheres que desenha – suas histórias oscilam entre o erotismo, mas não raro descambam para a pornografia desenfreada, com roteiros não melhores que um filme pornô, porém aqui, ele vai além. Sua recriação da Europa medieval é primorosa, desde vestimentas, caracterização dos personagens, geografia e urbanismo. A chance de ver um trabalho seu colorizado também é impar, já que a maior parte de suas obras (inclusive O Click que é a mais famosa) costuma ser em preto e branco.

Ainda que Bórgia não tivesse um única balão de fala, somente olhar para a arte afiada deste mestre em sua melhor forma já valeria o preço de capa.

Falando em capa, a coleção Bórgia foi lançada em capa-dura, com acabamento de primeira linha, superando em qualidade técnica a maior parte do que é lançado no Brasil mesmo entre as graphic novels – contudo a Conrad também disponibilizou volumes em capa cartonada e mais acessíveis, a venda no submarino.

Apesar do preço tentador, eu recomendo fortemente que você adquira as edições em capa dura – mesmo que leve mais tempo para comprar todas.

Jodorowsky toma muitas liberdades criativas em relação à História e exagera em alguns fatos que sequer têm comprovação, tudo para criar a atmosfera densa, insana e paranoica que deve ter sido o papado de Rodrigo Bórgia, que mudou o nome para Papa Alexandre VI após sua nomeação.

Por exemplo, sabe-se que Rodrigo usou sua fortuna para comprar os votos de seus pares durante o conclave que o elegeu, em 1492 – mas na história de Jodorowsky, o escritor cria uma situação que vai muito além do mero suborno, e deixa o leitor arrepiado, pensando no que está por vir. Aparentemente, a intenção do autor não é ser historicamente preciso ou biográfico, mas sim apoiar-se em uma biografia para contar um momento de decadência da história da humanidade de forma plástica, artística, quase mítica.

Resiste o exemplo de uma Era Imperialista, dominada por poucos, sendo contraposta a nossa Era Globalizada, na qual o imperialismo é disfarçado e as formas de domínio são outras – mais perniciosas e sutis. A desumanidade que Jodorowsky mostra não é descabida ou exagerada: tudo serve ao propósito de contar essa maravilhosa história.

Rodrigo Bórgia teve diversos filhos, bastardos e legítimos, sendo os mais importantes César e Lucrécia. A relação entre Lucrécia e seu pai na HQ é a mais incestuosa possível, ainda que a História trate esse assunto como rumores, espalhados pelo satírico Filofila – na época opositor aos Bórgias. A linda Lucrécia fornece alguns dos momentos mais bizarros de toda a série, criando um contraponto perfeito de toda aquela beleza angelical que nos faz desejá-la, com a náusea e repugnância que ela nos causa quando age em prol da família.

Aliás, família é o que se resume o mote da série. Tudo é feito em nome do poder da família; da possibilidade de gerar ganhos e riquezas tão magnânimos, que o nome perduraria até muito depois que todos se tornassem pó. Para isso, Rodrigo não mede esforços, porém, diferente do senso de honra e respeito que tem, digamos, um Dom Corleone, ele simplesmente atropela tudo o que está diante de seu caminho – inclusive a prole.

 

Há momentos de puro brilhantismo na história – como a participação de Nicolau Maquiavel (que em sua obra máxima, O Príncipe, eternizou a persona de César Bórgia), e de Leonardo da Vinci; duas presenças marcantes na história da humanidade, cujos nomes carregam uma enorme carga emocional e que, por conta das atitudes indistintas na série, despertam a curiosidade do leitor e o fazem pensar ‘Será?’.

Bórgia é uma HQ que merece ser lida e relida, e exposta com orgulho na estante de qualquer colecionador. Se você quiser saber mais sobre essa excêntrica família (sem ter muito trabalho), recomendo 3 produções cinematográficas: O Conclave (2006), Los Borgia (2006), The Borgias (2011) – esta última uma série de TV fascinante, com a presença do competente Jeremy Irons no papel de Rodrigo Bórgia.

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  1. eu sempre fui louco para ler essa serie, vcs sambem se o ultimo vol foi lançado em capa cartonada? eu nao achei, pq se nao foi nem compensa comprar as edições cartonadas.

  2. Essa é uma das melhores Hqs q eu quardo com orgulho na minha estante.
    Quando algumas pessoas folheam acham que é somente alguma estória pornografica, mas quando começam a ler vem que a muito mais do que aparenta.
    E tive sorte que comprei numa promoção todas as três primeiras edições encadernadas em capa dura.

  3. Aê pessoal, o Jodorowsky é chileno e não espanhol. Finalmente saiu a última!!! Meu porquinho já tá com medo do que vai acontecer. heheheheheheh

  4. Graças a Deus eu e meu marido estamos libertos e salvos dessa falta de dignidade humana, misturada na falta de desobediência e amor para com Deus, Nosso Criador. Infelizmente há muitos rapazes e mesmo moças, que são sugados por histórias, livros e quadrinhos que estão deformando e deturpando a mentalidade dos jovens de minha geração Y. Quantos estão perdidos e sendo levados por pessoas com pensamentos demoníacos, com o objetivo de deformar a mente humana e ganhar rios de dinheiro com a podridão que publicam. Este quadrinho é como outros do mesmo sentido e mesmo filmes, jogos, desenhos, animes, novelas, seriados… Que deformam o conceito saudável do sentido de família. Pessoas que não tem o equilíbrio familiar em uma educação moralmente, religiosamente, intelectualmente e sexualmente falando (todos sem exceção) não serão pessoas felizes. Terão prazeres momentâneos, mas por dentro ficará cada vez mais oco e quando chegar a idade madura e seus sedentarismo, ocorrerá que lhe faltou o mais importante. O amor e o respeito, que não foi desenvolvido nem teria como, pois com a forma sexualmente deturpada sendo ensinada para estes jovens. Jovem quer adrenalina, jovem quer experimentar o que o mundo oferece, jovem quer correr risco, jovem enfrentam limites… Mas se jovem soubesse que tudo isso não passa de ilusão como o efeito de uma droga, bastaria um momento de pesar e pensar nas consequências que estão por vir. E quando vierem, poderá ser tarde demais para suportá-la. Por isso, eu como psicóloga e boa mãe que me consideram, não recomendo esses tipos de livros de forma alguma, nem mesmo ao seu pior inimigo. Nem todos ouvem as palavras de um sábio, mas precisam sentir na pele essas próprias palavras. Feliz aquele que consegue compreender e mais ainda, consegue mudar de vida. Aquele que continuar neste caminho desumano, desalmado e desesperado, só um milagre para acontecer.

    • Discernir a realidade de um mero conto de teor erótico presumo ser uma habilidade gozada por poucos ao que parece…

      Bórgia é um quadrinho voltado ao público adulto (ler-se de opiniões formadas e consolidadas) e pesadamente inadequado p/ crianças e jovens pela vulgarização da sexualidade e, principalmente, por mostrar um faceta da realidade humana que poucos tem estomago para encarar de frente.

      Eu particularmente adoro a estória aliada a arte exuberante do Manara em um de seus maiores (se não o maior) de seus trabalhos. Respeito quem não gosta, mas postular que a obra acarreta a uma desconstrução moral é demais p/ minha inteligência… sem mais…