Bordados – Se não leu, leia!

Depois de Persépolis a iraniana Marjane Satrapi volta ao gênero do relato autobiográfico que a consagrou, neste que é seu terceiro álbum lançado pela editora Cia. das Letras. Bordados é um livro de leitura deliciosa, arte sequencial sem uso de quadros, com desenhos simples espalhados pela página em completa harmonia com o texto, que imita grafia manuscrita. A história flui com tanta naturalidade que parece que você está sentado ali, na mesma sala que aquelas mulheres, ouvindo toda a sua conversa sem ser notado. É o que eu chamo de leitura aconchegante, não dá pra parar. Li tudo em uma barrigada e quando acabei queria mais.

Ao contrário de toda a densidade de sua primeira obra, focada nas décadas de conflitos com os quais a população iraniana é obrigada a conviver, Bordados é pautado na tranquilidade de um tema bem familiar a todos: as fofocas. Toda tarde, durante o samovar – chá típico que ocorre após as refeições – Satrapi e as demais mulheres de sua família se engajavam em um bate-papo para desenterrar casos de amor e sexo que elas próprias ou conhecidas vivenciaram. Uma troca de segredos e confissões cabeludas sobre experiências que, na época em que ocorreram, foram um drama, mas contadas agora ganham ares de comédia.

Embora seja de uma temática mais amena, a autora toca em um assunto que é tabu para seu povo e que todo o resto do mundo continua alheio: o relacionamento sexual no Oriente Médio pela perspectiva da mulher. Embora vivam sob um regime controlador que impõe total submissão aos homens, Bordados mostra que as iranianas nutrem desejos sexuais como qualquer outra mulher do mundo.

Na intimidade do lar da família e longe dos olhares de reprovação dos maridos, essas mulheres, de diversas gerações, expõem suas opiniões sobre o homem, a vida conjugal, o sexo e libertam seus anseios e afogam as mágoas através de suas histórias. Você, como convidado da autora, vai testemunhar de tudo. Os “causos” já seriam curiosos e engraçados vindos de qualquer pessoa, mas oriundos de mulheres tão reprimidas por seu país acabam mais interessantes. Tem aquela que precisou casar novinha com um velhote rico e fugiu antes de consumar o ato, uma que passou pela cerimônia matrimonial sem a presença do noivo, representado na ocasião por um grande retrato, uma que se envolveu com uma bicha enrustida, outra que alega preferir ser eternamente uma amante invés de esposa, enfim, cada situação mais exótica que a outra.

Inclusive tem a história que nos apresenta ao termo que empresta nome ao título, o tal do bordado. A virgindade é muito preciosa no Oriente Médio, as mulheres devem permanecer intocadas para seu futuro marido, mas nos dias de hoje é natural que algumas acabem por colocar os costumes de lado para se relacionar com um homem antes do casamento. É o caso de uma das protagonistas, que temia por sua primeira noite com o esposo, quando ele descobriria não ter se casado com uma virgem. Ela então é instruída a usar uma gilete na cama para simular a virgindade perdida com um pequeno corte, porém, no ímpeto da situação quem acaba cortado é o marido. Ao fim desse caso uma das mulheres diz que um bordado teria sido mais fácil, trata-se de uma cirurgia que “devolve” a virgindade à mulher através da reconstrução do hímen, uma prática muito comum por lá.

Marjane Satrapi, com seu traço inconfundível, nos apresenta a conta-gotas e com muito bom humor à situação das mulheres na sociedade iraniana, por meio desses diversos relatos habilmente costurados. Você vai se divertir muito e ansiar por mais no final. A dúvida que fica é como o grupo ali retratado reagiu aos constatar seus dramas pessoais recontados para o mundo por alguém de dentro do círculo. Acho que Satrapi não será mais convidada para nenhum samovar.

Veja mais sobre Bordados nesse videocast aqui.

Bordados (2010)
Editora Cia. Das Letras – R$35,00 – 136 páginas

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  1. O Roberto Ramos deveria ficar lendo seus quadrinhos de hominhos e bem desenhadinhos da Marvel!

    Cara mala!

  2. Roberto Ramos, saiba que mesmo com um desenho fora dos modelos estéticos padrões com o qual a maioria está acostumado Bordados dá um coro em muitos quadrinhos bonitinhos por aí, que tem zero de roteiro e são puros caça-niqueis. Isso é que é quadrinho, e não é de mulher, é SOBRE mulher. Quem gosta de mulher vai gostar de Bordados.