A Máquina de Goldberg – Se não leu, leia!


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Sabe aquelas geringonças mirabolantes armadas para realizar um simples ato, passando por uma infinidade de estágios conectados entre si, podendo incluir desde um gato se espreguiçando até o acionamento de uma ampulheta? Então, esse sistema é conhecido como máquina de Goldberg e é de importância central para a graphic novel de mesmo nome escrita pela escritora Vanessa Bárbara e pelo ilustrador Fido Nesti.

A obra conta o típico drama de um adolescente que sofre bullying. O alvo das gozações é Getúlio, garoto que parece incorporar todas aquelas característica que podem deixar alguém muito impopular e perseguido. O suplício do garoto aumenta quando ele e sua turma de colégio vão passar uma temporada num acampamento de verão, ironicamente chamado de “Montanha Feliz”. Lá ele é posto em várias situações embaraçosas que o faz sofrer ainda mais com a perseguição dos colegas e do instrutor do lugar.

Foi com o zelador do acampamento que Getúlio conhece os aparatos que dão nome ao álbum. Para que simplificar uma ação se podemos complicá-la? O singelo ato de fechar uma porta se transforma em um processo de 17 estágios, que inclui um fole-assoprador inflando uma bexiga, fazendo que a bola que se repousava sobre ela seja lançado sobre uma canaleta… e assim vai, até a porta ser finalmente fechada. Quanto mais complexo e demorado for a sequência de atos, maior a façanha e orgulho de seu criador.

Essa peculiar forma de fazer as coisas foi uma criação do engenheiro e artista-plástico Rube Goldberg. Mais do que construir tais geringonças, Goldberg criou uma filosofia de vida. Uma vingança bem aplicada é aquela melhor elaborada, minuciosamente construída de maneira que o resultado seja inevitável. Vemos claramente isso dentro da trama. Getúlio não verá tais máquinas como um mero escapismo para a perseguição que sofre, mas como uma ferramenta para combatê-la, uma esperança.

Vanessa Bárbara é uma proeminente escritora brasileira que já lançou alguns livros muito interessantes, como O Livro Amarelo do Terminal (seu primeiro grande trabalho, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Reportagem), além de ser colunista da Folha de S. Paulo. Particularmente, sou muito fã do seu estilo de escrita. Seus textos sempre revelam o seu apurado poder de observação, e ela sempre procura lançar uma visão curiosa do fenômeno retratado. Também vemos isso muito bem ao longo da trama.

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Fido Nesti divide a autoria da obra com Vanessa e é o responsável pela arte do álbum. Seus trabalhos incluem ilustrações para diversos veículos de comunicação brasileiros e estrangeiros e para obras como Lusíadas em quadrinhos (Peirópolis, 2006) e Loucas de Amor em quadrinhos (Ideias a Granel, 2009).

Na presente obra, apesar dos desenhos estarem bem bacanas, creio que o tom monocromático (levemente esverdeado) tenha prejudicado a arte. Além disso, creio que a opção de contar a história amplamente por meio de quadro menores, simetricamente divididos, fazendo pouco uso de tomadas panorâmicas, tenha deixado o ritmo de leitura pouco dinâmico. Talvez a limitação no número de páginas justifique o modelo adotado. Todavia, não se trata de algo que especialmente comprometa a obra.

Lançado em novembro do ano passado, A Máquina de Goldberg se trata de um fruto de uma feliz iniciativa da Quadrinhos na Cia. de juntar escritores e ilustradores brasileiros em ascensão para escrever quadrinhos. Dentro dessa linha proposta pela editora foram lançados outras obras, como o elogiado Guadalupe (com roteiro de Angélica Freitas e arte de Odyr), V.I.S.H.N.U. (com roteiro de Ronaldo Bressane e Eric Acher e arte Fábio Cobiaco), Cachalote (Daniel Galera e Rafael Coutinho), e ainda promete outras para os próximos meses.

A Máquina de Goldberg
**** (7,5)
Quadrinhos na Cia. | novembro de 2012
Criação: Vanessa Barbara e Fido Nesti
112 páginas

 

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