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Lúcifer: A Opção Estrela da Manhã (2ª parte) – Se não leu, leia!

Dando sequência ao review de Lúcifer: Opção Estrela da Manhã, vemos na cena de abertura da segunda edição Bradiach exaurido, ao que parece graças à sua maldição de “ver” várias imagens de acontecimentos aleatórios. Aparentemente tudo parece resultante dos desejos atendidos pela Veleidade, e com consequências nem sempre satisfatórias. Bradiach vê também Lucifer caminhando em direção ao Nono Círculo do Inferno. Na Divina Comédia de Dante Alighieri, esse lugar é o Lago Cocite, local das lamentações que fica no centro da Terra, formado pelas lágrimas e sangue dos condenados. No Cocite estão imersos todos os traidores, representados pela figura de Lúcifer, o traidor de Deus. Nesse lago, os traidores são distribuídos em quatro esferas diferentes, dependendo da gravidade da traição.

Lúcifer encontra Remiel, um dos dois anjos incumbidos de guardar o Inferno após o abandono de Lucifer. Percebemos a sagacidade de ex-dirigente do Inferno, que com sarcasmo e arrogância, passa facilmente por Remiel, “porquinho, porquinho, me deixe entrar”, diz. Durante a saga Entes Queridos em Sandman, Remiel havia pedido a Lúcifer para reconsiderar e voltar para o Inferno.

Lúcifer encontra também Duma, o Anjo do Silêncio, o outro responsavel pelo Inferno, curiosamente um dos poucos anjos cujo nome não termina na sílaba “el”. A saudação de Lúcifer é uma citaçao do poema “O Jardim” de Andrew Marvell, uma obra que exalta a Natureza idealizada em contraste com o estado decadente das coisas sob influência do Homem. Essa passagem é também uma referência direta ao poeta Virgilio, nas Bucólicas, onde “ninguém mais juncará o solo com ervas floridas, ou cobrirá as fontes com verdes sombras?”. O poema de Marvell é uma espécie de retorno ao Éden, o mundo idealizado, que leva a imaginar um Deus Jardineiro tendo Adão (Homem) como seu ajudante, incumbido de cuidar do Jardim, e que depois seria expulso por desobediência ao Criador e por não cuidar do jardim.

Vemos aqui transparecer o quão parece ser pesado o fardo para Lúcifer ao admitir a Duma que ele, Lúcifer, está ali a serviço do Senhor. No entanto, Lúcifer sabe que precisará da orientação de Duma para encontrar as Veleidades, que estão escondidas quatro níveis abaixo. Descobrimos que as Veleidades tem origem no início dos tempos, quando ainda imperava o silêncio no mundo dos Homens, quando ainda viviam em cavernas, e não possuíam voz para se expressarem, apenas pensamentos. Época em que os pequenos deuses silenciosos foram criados a partir dos desejos mudos de seus adoradores.  Diferente de Remiel, Lúcifer aparenta ter certo grau de respeito com Duma, tanto que o agradece ao saber qual direção deve tomar. Os quatro níveis mencionados, certamente se referem à Criação e não ao Inferno.

Lúcifer volta a Bradiach, conversa de um telefone público com Pharamond Farrell, uma deidade vista pela ultima vez em Sandman: Vidas Breves. Ao que parece a busca de Lúcifer deve ser feita em forma de peregrinação, tanto que ele irá andar a pé, usar avião e automóvel como meio de transporte. O confronto com Mahu se dá de forma rápida e eficiente. Nesse ponto novamente vemos como o poder da luz de Lúcifer é usado para derrotar os dois Lilim, que “não são truques, mas pura magia simpática”, diz o personagem. Descobrimos a utilidade da pena retirada da ave – finalmente asas – e também que Mahu raptou Rachel para servir de barganha com Lúcifer.

De volta ao piano bar, vemos Mazikeen trabalhando silenciosamente, e logo em seguida ser possuída por algum tipo de entidade. Embora não seja claro, parece que se trata da Veleidade, que aprisiona Lúcifer juntamente com Rachel em uma armadilha de realidade através do reflexo no olho de Mazikeen.

Bradiach debate com Mahu que “o céu está rompido, e o inferno é um gesto vazio, quando mundo e o desejo se tornarem um, não haverá necessidade de um lugar separado chamado Inferno”. As implicações desse comentário seriam os apontamentos que atos demais desastrosos para o equilíbrio universal estão em andamento, e por isso a intervenção dos Céus se fez necessária, pois conhecendo a natureza humana, o Inferno estaria instalado na própria Terra, por conta do caos gerado graças ao desenfreado desejo humano. A referência certamente seria pela ausência de Lúcifer no Inferno, que agora está sob a administração dos Céus, através de Remiel e Dumas. Lúcifer que fora uma vez expulso dos Céus, caminha livremente entre os Homens para cumprir um trabalho para o Criador, em troca de uma carta de passagem.

No encontro de Lúcifer com Farrell descobrimos que o poder da Veleidade atingiu também seus negócios. O pedido de Lúcifer de não ser mais chamado de Lorde tem relação com sua abdicação na regência do Inferno. Rachel à primeira vista não acredita na identidade de Lúcifer, e demonstra certa ingenuidade ao pensar que Lúcifer teria levado a alma de seu irmão Paul ou que ela teria que jogar algum tipo de jogo com Lúcifer para ter Paul de volta.

Percebemos que a travessia de Lúcifer para o primeiro nível deve ser sob a forma de peregrinação, e que pagamentos devem ser feitos e caminhos devem ser encontrados. O aes grave, mencionado nesta estória, era usado como moeda de pagamento na Itália Central nos séculos quarto e quinto antes de Cristo. A ascendência navajo de Rachel também será parte da peregrinação, e a passagem deve ser encontrada em terras navajos. O monte Tsoodzil, é o nome atual do Monte Taylor, localizado no noroeste do Novo México, também conhecido pelos Navajos como Montanha Sagrada do Sul ou Montanha Turquesa, local sagrado como o berço ancestral dos Navajos, o Dinétah, que na mitologia navajo é a área onde está centrado o mito da Criação Navajo. Os clãs da Pena (‘Ats’oos dine’e) e dos Hogan (Hooghan lani) são alguns dos clãs navajos, e pelo comentário de Lúcifer de que Rachel não é um dos Dineh, significa que ela não era navajo legítima, ou seja, Rachel é mestiça. O comentário de Lúcifer de que está “indo matar alguns deuses” certamente é o prenúncio do conflito com os Deuses Silenciosos.

Na próxima edição veremos como se dará o conflito entre Lúcifer e a Veleidade, onde algumas respostas serão dadas, e mais perguntas surgirão no capítulo final dessa magnífica saga destilada com várias referências sobre a Criação dos Mundos.

Leia mais sobre essa obra: Parte 1 e Parte 3.

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Sobre o autor

GilgameshÉ um fã, leitor e colecionador de quadrinhos há mais de 20 anos, mora na região de Belo Horizonte, formou-se em Letras pela UFMG e descobriu nos quadrinhos um dos melhores prazeres da vida. Já conseguiu guardar um acervo razoável de HQs e é fã incondicional do Demolidor e de todas as vertentes da DC/Vertigo.Ver todas as publicações de Gilgamesh →

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  1. Diego NunesDiego Nunes05-22-2012

    Excelente resenha. Existe alguma edição mais recente desta que revista à venda?
    Obrigado

    • GilgameshGilgamesh05-23-2012

      Diego, sou suspeito em falar que essa série de Lucifer foi um dos melhores produtos da DC Vertigo na virada do ano 2000. Infelismente no Brasil, so vimos publicada essa minissérie Opção Estrela da Manhã e os 11 primeiros capitulos da serie mensal, todos pela editora Brainstore, alem do especial Lucifer: Nirvana pela editora Opera Graphica. Mês que vem nos vemos no desfecho dessa minisserie. Grande abraço.

    • ObamisObamis05-23-2012

      Olha essa resenha foi otima lá no sebo do messias lá na sé tem um monte destas revistas digamos abandonadas

      • GilgameshGilgamesh05-30-2012

        Obamis, pena que Lucifer passou meio que desapercebido pelo público brasileiro. Vale uma conferida.