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Bob e Harv: Dois Anti-heróis Americanos – Se não leu, leia!

Colaborador: Lucas Sampaio

Uma história de Harvey Pekar tem que ser lida ao som de jazz. Essa era a música que encantava o rabugento escritor de Cleveland, EUA, e tornava sua vida dura um pouco mais suportável, mais ou menos como acontece com todos nós. Jazz é um estilo de música interessante que recomendo tanto quanto Bob & Harv: Dois Anti-herois Americanos, um ritmo baseado na improvisação, naquele salto no escuro que, às vezes, resulta em um grande momento. Esses momentos aparecem mais e mais na nossa vida, se você se permitir combinar experiência com lances arriscados.

A palavra “arriscada” é perfeita para descrever a idéia de Harvey, de quê sua própria vida como fanático por jazz, arquivista em um hospital público, pobre em uma das cidades mais monótonas dos EUA, seria um bom tema para histórias em quadrinhos, a costumeira casa de super-heróis voadores e animais falantes.

É isso mesmo que você leu: Pekar criou uma revista em quadrinhos sobre seu próprio dia-a-dia. Nos EUA, sua revista American Splendor, cuja primeira coletânea no Brasil é “Bob & Harv” tratou do que Harvey viu, ouviu e pensou, das décadas de 1970 até a década passada, terminando com a morte de seu criador e protagonista.

Pekar estava ciente dos riscos de seu projeto, além disso, só conseguia desenhar bonecos de palito, por isso, valeu-se da fama e talento em desenho de vários artistas principalmente de Robert Crumb, o Bob do título do livro no Brasil, para garantir que um número mínimo de pessoas se prestasse a comprar suas histórias. Harvey reconhecia a dívida com seu amigo cartunista, tanto que, na sua introdução à coletânea, não hesita em afirmar na abertura do primeiro parágrafo: “Se você comprar este livro, provavelmente é porque conhece o trabalho de Crumb e não o meu”. As histórias de Harvey nunca foram realmente populares, com ou sem Crumb, fato que, para a sua própria frustração, forçou-o a permanecer no emprego de salário mísero, até a aposentadoria. Mas, as pequenas alegrias, grandes tristezas, piadas, desventuras, diálogos e monólogos das histórias de Pekar conseguiram manter um público fiel para American Splendor.

Bob & Harv: Dois Anti-heróis Americanos, como você já deve ter percebido, é uma reunião das histórias que combinaram o realismo agridoce dos roteiros de Harvey ao estilo cartunesco e detalhado dos desenhos de Crumb, publicadas originalmente nos anos1970 a 80, trazidas ao Brasil pela editora Conrad, acompanhando o sucesso das coletâneas de trabalhos de Robert Crumb no Brasil. O livro começa com uma introdução do cartunista brasileiro Laerte, para mostrar que, muito antes desse volume, as crônicas da vida de Pekar já eram importadas e lidas em inglês pelos interessados em quadrinhos no Brasil. Depois, os próprios Crumb e Pekar trocam elogios e defendem um ao outro de críticas.

Em seguida vemos as primeiras colaborações da dupla, na década de 1970. Nessa primeira parte da obra, é interessante notar os elementos hoje clássicos de American Splendorem formação. A primeira história mostra uma versão de Harvey, desenhado por Crumb, bastante diferente daquela que se tornaria costumeira nas histórias seguintes. Vemos o uso do pseudônimo “Jack, o mensageiro” para designar o próprio Harvey em algumas histórias. Será que Pekar hesitou nos primeiros anos de publicação em declarar abertamente que estava falando dele mesmo? Muitas dessas primeiras histórias se referem ao passado de Pekar, seus tempos de colecionador compulsivo de discos de jazz e a história de sua amizade com Robert Crumb. Uma dessas histórias em particular nos leva a infância de Harvey, quando ele conheceu o que parece ser um brasileiro que conviveu com índios canibais!

São particularmente interessantes as histórias que nos mostram nada mais que diálogos de Pekar com outras pessoas. Sem julgamento, Harvey nos permite conhecer indivíduos singulares como o Sr. Boats, Rollins, um homem anônimo no ônibus e o homem que ganhou 800 dólares com uma ligação. Esses e outros nos são apresentados em toda a sua estranheza e simplicidade. Pekar nos ensina que qualquer pessoa tem algo de especial, se você parar e prestar atenção nelas.

Essa característica torna-se mais forte quando as histórias começam a ser datadas na década de 1980. Vemos aumentar a frequência das páginas que consistem somente de diálogos, vemos até mesmo histórias sem a presença de Harvey. Mas ainda há aquelas hilárias sobre o mau humor e simplicidade que o caracterizavam.

Bob & Harv – Dois Anti-heróis Americanos é a aquisição ideal para quem busca leitura simples e envolvente (disponível em capa dura e cartonada). Sem enrolação, sem premissas mirabolantes, Harvey nos mostra a estranha beleza da vida real.

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  1. Sérgio CazuSérgio Cazu04-06-2012

    Olá Lucas, bom dia.

    Muito interessante o seu texto sobre o HQ. Eis algo que eu estava procurando ler já faz um bom tempo. Uma texto simples e confiável sobre o quadrinho que já há algum tempo atrás despertava minha curiosidade sempre que eu, despercebidamente, lia o título em algum site do gênero.
    Não sabia que se tratava, em tese, de algo auto-biográfico e parece ser uma baita obra. Com Crumb ainda mais, sem comentários. Vou procurar ler, com toda certeza.

    Obrigado pelas informações e por compartilhar o texto.
    Aquele abraço!

    • LucasLucas04-12-2012

      Obrigado pelo comentário, Sergio! Espero que se diverta com a HQ!

  2. MaraMara07-13-2012

    Excelente texto, Lucas!
    Acho que todo mundo precisa ler uma HQ desse tipo. Às vezes superestimamos tantos super-heróis, esquecendo que eles não existem na vida real, quando temos ao nosso alcance personagens de carne e osso, com mil e uma histórias verídicas para compartilhar. Adorei!

  3. Gustavo BassoGustavo Basso08-21-2012

    Essa edição é o obrigatória. Pena que pare ai a publicação do Harvey no Brasil.

    E ter o Crumb junto é covardia.