Onze anos sem Crepax

Hoje é aniversário da morte de um gênio raro das HQs: Guido Crepax. Não dá pra passar a data sem uma rápida, porém sincera, homenagem.

Aviso: a seguir não será comentado uma biografia do quadrinista, mas somente parte da percepção do autor do texto sobre o artista.

O que Guido Crepax criava pode ser descrito sem freio algum como poesia visual. As páginas de seus quadrinhos exaltam a importância da leitura das imagens mais do que a das próprias palavras. Era nisso que o desenhista se pautava, e, sem acanho, se despiu do convencional tanto em sua proposta estética quanto de conteúdo.

Foi com sua personagem mais famosa, a sensualíssima Valentina, originalmente uma coadjuvante nas histórias do herói Nêutron – publicado em sua estreia nos quadrinhos na revista italiana Linus, em 1965 – , que Crepax passou a experimentar com elementos oníricos e psicodélicos em histórias cheias de sexo e erotismo sem vergonha. Sem vergonha mesmo, não no sentido pejorativo, mas completamente desprovido de pudor.

Valentina foi efetiva na revolução cultural sexual dos anos 1960 (mesmo por que uma de suas influências foi a personagem Barbarella, um dos alicerces dessa revolução).

Com Valentina (e as outras várias mulheres de Crepax), o autor criou histórias tão bizarras e agressivas quanto elegantes e sofisticadas. Ele expõe o sexo sem a menor timidez, aquele sexo que prima pela intensidade do sentir, que clama pela libertação total, que abraça a tênue linha entre dor e prazer, e cutuca bem na parte do cérebro escondida pelo manto da vergonha e da inibição social. Crepax excita com situações que nos faz ter receio em admitir, tanto homens quanto mulheres.

Sendo um autor não convencional, Crepax era, consequentemente, nada óbvio. Suas histórias são forradas de simbolismos e ideias sutis e, apesar de proporcionarem uma leitura dinâmica, pedem atenção aos detalhes. Cada painel expressa algo com força intensa, seja uma sequência de olhares inquietantes, ou a explicites do estímulo contínuo de um órgão sexual.

Mesmo nas adaptações literárias que produziu, como O Médico e o Monstro, Conde Drácula, e Justine, são esses nuances particulares que predominam na história, e só podem ser apreciados analisando com cautela a arquitetura de suas paginações.

As diagramações que Crepax oferece são únicas, e possuem planos de detalhe que proporcionam uma narrativa cinematográfica. Num gibi, se alguém está prestes a passar por uma porta em um painel, e, no seguinte, está na outra sala, pressupõe-se que a pessoa passou pela porta. Guido Crepax fazia questão de mostrar a porta fechada, e a porta aberta. Não economizava ao desenhar a lenta e sensual aproximação de lábios prestes a se beijar. Não se furtava ao destacar longas e dolorosas sessões de tortura, bem como intensos e contínuos atos de prazer. Esses detalhamentos, essa disposição estética e a força emocional acumulada no painel que ajudam a configurar a expressão “poesia visual”.

Crepax era uma raridade não só do mundo dos quadrinhos, como do mundo da arte em geral. Inovou a forma de leitura e a estética dos quadrinhos, foi parte integrante da revolução cultural sexual e é até hoje uma influência evidente.

Dizem que, para se tornar um mestre, uma pessoa deve praticar seu ofício até atingir o objetivo. Ele adaptou, aos 12 anos de idade, a história de O Médico e o Monstro apenas a partir de um relato do primo sobre a história. Alguns já nascem como ícones.

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  1. Quando o texto é bom, consegue te fazer se interessar ainda mais pelo assunto e te fazer correr atrás do material ou pesquisar e querer conhecer mais sobre o assunto descrito. E foi o que acabou de acontecer aqui.

    Boa, Paulo!