O Estilhaço, de Carolina Ito

Por: Tamiris Volcean. 

Era dezembro de 2013. A jornalista Carolina Ito partia em uma viagem que mudaria seu modo de ver o mundo. Carolina precisava de um tema para o produto de seu trabalho de conclusão de curso e decidiu colocar o Vale do Jequitinhonha, uma região que aguçava sua curiosidade e lhe causava inquietação, no universo dos quadrinhos.

Infiltrando-se em uma expedição de voluntários, a então estudante viajou três dias para chegar ao seu destino final. O comboio saiu de Olímpia (SP) e a viagem não foi muito agradável.

  
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O Vale do Jequitinhonha

A região, pertencente ao estado de Minas Gerais, é conhecida pelos baixos indicadores sociais e por apresentar, em algumas regiões, características do sertão nordestino. O vale comporta 75 cidades que se distribuem até a divisa de Minas com a Bahia. De acordo com o Portal Pólo Jequitinhonha, a região possui uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes.

Em 1974, o vale foi batizado pela ONU de “Vale da Miséria”.

Carolina chega à Salinas

Quando realizou a parada na primeira cidade da região mineira, Carolina sentiu-se uma estrangeira. Esse sentimento, mesclado com inspiração advinda da obra de Albert Camus, deu nome ao primeiro capítulo da HQ. Em um ambiente totalmente novo e desconhecido, a estudante de jornalismo saiu de sua zona de conforto.

Quando questionada sobre os fatores que a fizeram sentir-se completamente estranha a um povo que compartilha a mesma nacionalidade, Carolina responde:

“O fato de vir de outro estado, falar de modo diferente, ter vivido em cidades que, à primeira vista, não se pareciam com as cidades que percorri no Jequitinhonha e até o fato de eu ser meio oriental me faziam sentir que havia uma diferença brutal entre nós. Depois vi que não era bem assim.”

 Em seus desenhos, a autora mostra sua visão sobre aquele novo pedaço de mundo que acabara de descobrir. É como se chegássemos ao local junto dela e, dessa forma, pudéssemos entrar em contato com aquele povo tão intensamente quanto ela.

Segundo Carolina, os moradores com os quais conversou para escrever o roteiro de sua HQ eram, em geral, bem receptivos e gostavam e conversar. Sabendo que o Vale do Jequitinhonha sofre pelo isolamento geográfico e cultural, ter uma pessoa disponível para ouvir histórias de vida e, principalmente, sobre as dificuldades vivenciadas por aquele povo, tornara-se um presente e a satisfação de uma necessidade.

Ser mulher no Jequitinhonha 

No segundo capítulo da HQ, Carolina mostra-se mais habituada à região e as entrevistas começam a ser retratadas por seus traços. Neste capítulo fala-se, sobretudo, sobre a seca que assola a região em algumas épocas do ano. No entanto, algo me chamou a atenção.

Em um dos quadros, uma das personagens inicia um diálogo com Carolina. Apesar de ser, como ela mesma classificou, uma estrangeira naquela espaço, a personagem que a interpela não demonstra curiosidade ou interesse por questões culturais, pessoais ou motivacionais que a levaram até ali. Logo de cara pergunta: “E só tá você de mulher?”.

As estruturas familiares no Jequitinhonha deixam claro as relações de poder entre homens e mulheres. Uma mulher desacompanhada em meio a um comboio de homens voluntários causa espanto aos moradores da região. Carolina diz que foi alertada para não sair sozinha para fazer as entrevistas, pois teria problemas, mas, como boa jornalista, rompeu essa regra inúmeras vezes para não perder a fonte.

Perguntamos à autora o que é ser mulher no Jequitinhonha:

“A mulher cuida dos filhos a maior parte do tempo, enquanto o homem vai buscar emprego em lugares próximos da capital ou em outros estados, já que as condições econômicas do Jequitinhonha não garantem emprego o ano todo. Isso me intrigava, afinal, a maioria das mães era jovem, cuidavam de cinco, oito filhos e isso deve ser totalmente exaustivo. Sem contar os relatos de violência sexual que ouvia aqui e ali, mas não tinham comprovação, já que a denúncia não é recorrente. Apesar disso, as famílias, sobretudo nas cidades menores e distritos, pareciam formar uma rede de solidariedade em que um ajudava o outro no que podia.”

Não precisamos ir até o vale para sentirmos o peso nos ombros destas mulheres que, apesar da dura jornada de trabalho doméstico, não são reconhecidas por seus familiares. Os desenhos de Carolina retratam o descaso com a aparência e com a saúde. Seus traços, intensificados na região abaixo dos olhos, fazem com que possamos sentir o cansaço daquelas mulheres a muitos quilômetros de distância. Cansaço físico, mental e emocional.

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Ser mulher no universo dos quadrinhos

Mas não é só no Jequitinhonha que as mulheres sentem o peso da indiferença. Quando buscamos autoras reconhecidas no universo dos quadrinhos, também notamos a baixa representatividade do sexo feminino. De acordo com o grupo Mulheres em Quadrinhos, dedicado a discutir a problemática de gênero no setor, apenas 13% dos indicados ao Troféu HQMix 2015 eram mulheres. Carolina foi autora do levantamento divulgado no Mulheres em Quadrinhos, todo o trabalho pode ser conferido em seu blog.

Carolina driblou o machismo ao enfrentar saídas sozinhas em busca de entrevistas que tornassem sua HQ interessante ao público, no entanto ainda luta contra o machismo presente em um universo que ainda não escancarou as portas para as mulheres. Dona do blog Salsicha em Conserva, Carolina vai além do Jequitinhonha para discutir temas que ainda a incomodam no mundo das HQs.

Detalhes das cenas do Jequitinhonha

Li a HQ de uma só vez. Estive no Jequitinhonha. Sempre fui amante da literatura por muitos motivos. Um dos principais, era o fato de poder viajar o mundo utilizando a imaginação. De uns tempos para cá, consegui transpor essa abstração de espaço para as histórias em quadrinhos também. Viajar pelos traços, ficar cara a cara com as personagens, transformar o olhar do(a) autor(a) em meu olhar. Lendo Estilhaço não foi diferente. Consegui acompanhar o olhar de Carolina sobre a região.

Em muitas cenas, podemos notar o uso do plano detalhe, focando, principalmente, a boca e olhos da personagem. Cenas que trazem dramaticidade à obra e nos faz imergir nas histórias de vida contadas pelas pessoas retratadas. Detalhes que passariam despercebidos pela maioria dos participantes da expedição que levou Carolina ao miolo de Minas Gerais, mas que não passaram pelo filtro da jornalista, que conseguiu garimpar histórias únicas daquele mar areado.

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Os sonhos e a fé do Jequitinhonha

Jocélia é uma adolescente cheia de sonhos. Com seus óculos de grossa armação, ela convida Carolina para adentrar em seu cafofo, como ela mesma gosta de denominar o pequeno espaço que considera só seu. Ela mesma juntou dinheiro e comprou o cafofo. Dentro do seu próprio espaço, compartilha seus sonhos com Carolina – o maior deles, sair do vale em busca de formação universitária. Jocélia é uma das tantas meninas-mulheres da região. Pequena em tamanho, grande em disposição para aguentar a dura realidade que a ronda.

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Na cena em que retrata Jocélia compartilhando seus sonhos, Carolina faz uso do enquadramento plongée.

Percebo o quanto a escolha do enquadramento influencia na mensagem que uma cena de HQ pode transmitir. A autora confirma:

“Tentei mostrar que Jocélia falava coisas muito parecidas com o que eu pensava na idade dela – eu, branca, classe média, nascida no interior de São Paulo – e também sonhos parecidos, vontade de conhecer outros lugares, de conquistar autonomia.  Acho que esse enquadramento coloca o leitor na posição de um observador, de alguém que assiste a conversa entre duas mulheres que se assemelham de alguma forma. Mas também há momentos em que a perspectiva é da própria personagem ou do que seria a visão do narrador. Essa possibilidade de brincar com as instâncias narrativas, com os “pontos de vista” nos quadrinhos me fascina bastante.”

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O povo do Jequitinhonha sonha na mesma proporção que tem fé. Durante toda a HQ, notamos, em muitos pontos, a fé intensa daqueles habitantes que enfrentam uma adversidade por dia. Nos diversos relatos ao longo do enredo, entramos em contato com a seca, fome, descaso governamental e isolamento social, entretanto, estes mesmos relatos sempre terminam com alguma frase de esperança. Esperança revestida de fé. A fé é, sem dúvida, algo marcante.

“Acredito que o apego à fé e à religião seja fruto de uma sensação geral de abandono, já que eles não acreditam que os representantes políticos nem o setor público vão mudar radicalmente as condições por lá.”

Estilhaço é voz do Jequitinhonha

Isolado geograficamente dos interesses governamentais, os problemas do vale são pouco divulgados e discutidos. Escolher essa região como tema central da HQ comprova que os quadrinhos podem tratar de assuntos variados, desde a ficção tradicional, até abordagens que possuam vínculo direto com a realidade.

Estamos acostumados a encontrar enredos relacionados a conflitos quando buscamos uma história em quadrinhos, como nas famosas HQs de Joe Sacco. Entretanto, devemos olhar para a mistura de traços e falas distribuídas em balões como uma forma complexa e atraente de se contar uma história. Os balões de Estilhaço eternizam e espalham as palavras, sonhos, aspirações, temores e ideias daqueles que nunca foram ouvidos, dando voz aos marginalizados pela sociedade.

Quando escolhemos abrir a primeira página de Estilhaço, o abismo que há entre nós, estrangeiros, e o povo do Jequitinhonha diminui. Encontramos problemas reais, dotados de rostos expressivos. A obra de Carolina Ito reafirma a função social das histórias em quadrinhos, a qual torna-se, muitas vezes, esquecida em meio a publicações de entretenimento.

O caleidoscópio

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Logo no início da obra, deparamo-nos com uma lembrança pessoal de Carolina. Quando criança, a autora foi presenteada com um caleidoscópio e o utilizou como metáfora ao longo do livro.

Quando a imagem do caleidoscópio apareceu pela primeira vez, fiquei algum tempo observando a ilustração que ocupa uma página inteira. Por que esse objeto marcara tanto a vida de Carolina a ponto de ocupar papel de destaque em sua primeira HQ?

Chegando ao fim, eis o caleidoscópio novamente. Para fechar o enredo. E por entre aqueles cacos de vidros sobrepostos, pude encaixar cada história lida nas dezenas de páginas. Cada uma ocupando o seu lugar naquele quebra-cabeças complexo.

Entendi, enfim, que o caleidoscópio era uma das melhores formas de demonstrar o quão fragmentada é a realidade em algumas regiões do Brasil – e do mundo! Diante dos problemas, uma vida se quebra aqui e outra perde uma ponta acolá, sobrando apenas cacos soltos que juntos formam construções difíceis de compreender à primeira vista. Carolina complementa:

“O caleidoscópio dá a ideia da complexidade do ser humano, de que não é possível encaixá-lo dentro de papeis, estereótipos e preconceitos. Em um nível mais pessoal, reflete um estado constante de espanto, de desconstrução, de enxergar as pessoas em suas particularidades e semelhanças.”

A viagem de volta

Após percorrer as tantas cidades do miolo mineiro, Carolina sobe no comboio em direção ao estado de São Paulo. Exausta e com a cabeça fervilhando para começar a escrever o roteiro, a jornalista retorna com a certeza de que é possível unir suas duas maiores paixões: os quadrinhos e o jornalismo. Quando questionada sobre o que mudou na Carolina que chegou no Jequitinhonha e aquela que partiu em direção ao sudeste novamente, responde:

A mudança teve muito a ver com autoconhecimento, uma tentativa de me sentir menos “estrangeira” em relação aos outros e a mim mesma, como disse anteriormente. E tive a certeza de que quero contar mais histórias como essa.”

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Estilhaço
60 páginas
Miolo em preto, branco e cinza.
Papel offset 90g.
Capa dura colorida.

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