Dredd – Um Juiz sem partido

Por Rafa Campos Rocha. 

Precisei refletir muito para compreender porque eu não conseguia terminar o meu texto sobre o Juiz Dredd. A resposta é simples, mas pode chocar os fãs de quadrinhos. A minha dificuldade para escrever sobre Dredd é porque sou fã do personagem, coisa que dificilmente acontece comigo. Bom, sou fã de Popeye, por exemplo, mas não a ponto de ler histórias que não tenham sido desenhadas e escritas por Segar, seu criador. A mesma coisa com, sei lá, o Demolidor de Frank Miller. A forma como eu o denomino é autoexplicativa, espero. E a posição de admirador de um personagem fictício, mais do que de seus autores, me deixa na incômoda posição de fã de quadrinhos comum. O mesmo tipo que tento, com tanto esforço, esnobar, demonstrando distanciamento crítico e outras bobagens.

É. A vida não cansa de nos ensinar as coisas.

Juiz Dredd foi criado por John Wagner e desenhado por Carlos Ezquerra para a revista 2000 AD, em 1978. Seu visual foi mantido com muito pudor por todos os desenhistas que o sucederam, do impressionista Mike McMahaon ao célebre virtuose Brian Bolland, assim como os textos mantiveram seu caráter e integridade, passando por roteiristas distintos como Pat Mills, John Howard e o próprio Wagner. Ou seja, foi a fidelidade ao personagem que o manteve sadio e atual, e mostra a força de sua própria imagem. É por essa força que muitos dos heróis de quadrinhos são considerados os mitos, e até mesmo os deuses modernos.

Dredd, em sua justiça por vezes fria e brutal, poderia ser, por exemplo, o nosso Omolu dos quadrinhos. Mas esse é um tema que não posso – e não quero – discorrer por escrito e sem um copo na mão.

Para quem não sabe, Dredd é um personagem de ficção científica, que atua em uma distopia urbana chamada de Mega City One. Nesse cenário, Dredd e os outros juízes exercem o cargo de… juízes, obviamente. Mas também de policiais, investigadores, promotores públicos e carrascos. Ou seja, são mais ou menos como a nossa Polícia Militar, só que sem o racismo institucional e a corrupção endêmica e absoluta, mas com a mesma preocupação de manutenção do status quo. O que deixa uma questão curiosa: como gostar de um herói desses? Afinal, Dredd é um fanático e um obtuso, muito mais interessado na letra da Lei do que na Justiça, propriamente. Esse apego à Lei, entretanto, é a sua originalidade em contraste aos outros personagens fascistas dos quadrinhos (quase a totalidade dos personagens de aventura, vamos convir). Esses heróis, como, por exemplo, o Justiceiro ou Wolverine, burlam a lei para aplicar o que acham que seja a Justiça. O oposto de Dredd.

Bom, já expliquei o fascínio. Dredd é um ingênuo, que não enxerga a origem social da lei, vendo-a como uma esfera acima da vida dos homens. Mais ou menos como um religioso que acreditasse realmente em Deus (deve existir em algum lugar, eu imagino). Por outro lado, Dredd não suporta os desonestos, mesmo dentro da liga dos juízes, chegando a mandar o próprio irmão (irmão de proveta, mas irmão do mesmo jeito) para a prisão perpétua (e depois matando-o, em outro episódio). É um fascista e um dogmático, mas sua retidão acaba por encantar qualquer pessoa que tenha tido contato com qualquer membro da manutenção da ordem pública, do policial ao senador, passando pelo juiz e o promotor. Porque nenhum deles está interessado na Lei, nem sequer no status quo, o que já seria ruim o bastante. Um juiz que seja realmente moralista seria um alívio perto do que eles são, na realidade.

Porque a função de todos eles; do policial, do juiz, do promotor, do deputado e do presidente da república, é fazer com que os pobres continuem sustentando os ricos. Simples assim. Em um cenário desses me diga se somente um, um profissional da lei, que exercesse sua função com a mínima ingenuidade não seria bem-vindo? Porque os policiais brasileiros quando estão espancando crianças, assassinando a população negra e coagindo a população, não estão aplicando sequer a letra da Lei (por mais odioso, reacionário e burguês que seja, e é, todo o sistema legal ocidental).

Evidentemente, qualquer rábula pode me acusar de estar generalizando e de não conhecer nada do nosso sistema legal, ou de qualquer outro. Dizer que as coisas “não são assim tão simples”, como todos os meus amigos instruídos, informados e babacas dos dois lados do espectro político gostam de dizer. Para eles eu diria que a resenha crítica é uma obra de arte e que, ao seu modo, tem o total direito de generalizar e opinar sem fundamento. E de ser ambígua. E esse é o outro ponto pelo qual gosto tanto de Dredd, além de sua impopularidade entre os cretinos bem-pensantes da cultura. Dredd é um personagem ambíguo, e desperta sentimentos ambíguos em todos nós. Seu fanatismo atrai e causa repulsa, ao mesmo tempo; assim como, digamos, a misoginia doentia de Sam Peckinpah.

Em tempos de quadrinhos edificantes, de lições de civilidade, tolerância e respeito ao próximo – esses sim repugnantes libelos de submissão ao estado e ao seu patrão, o Capital -, a centelha da ambiguidade pode me manter, pelo menos, com uma esperança.

Por exemplo, imagine que Dredd visse um de seus colegas abraçado a um político almofadinha, de um determinado partido conservador, e que depois esse mesmo juiz perseguisse, sem provas, um determinado político, de um partido oposto. O que ele faria? Bom, nos sabemos. Iria verificar as contas daquele juiz, em um mandato, depois a casa dele. Quando descobrisse que a esposa desse juiz, por exemplo, trabalha para uma grande petrolífera estrangeira e que essa mesma empresa tinha, na figura do político perseguido um grande empecilho, ele agiria como costuma agir; espancando brutalmente os dois até conseguir uma confissão.

Aí quando descobrisse que esse seu colega juiz não passasse de uma cadelinha de partidos políticos corruptos e grandes empresas internacionais, o enviaria para os infernais planetas de trabalhos forçados, para que morresse por ali, já que o fato de ser juiz somente agrava os seus crimes.

É por nos fazer sonhar com um mundo em que juízes corruptos pagam por seus crimes que Dredd é o meu herói.

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Rafa Campos Rocha é autor dos quadrinhos Deus Essa Gostosa e Magda, lançados pela Quadrinhos na Cia.

 

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