A Saga do Monstro do Pântano – Publicação que precisa continuar

Meu primeiro contato com A Saga do Monstro do Pântano na fase de Alan Moore ocorreu no luxuoso encadernado da Pixel Media: capa dura, papel couché, colorido, com introdução do próprio autor, notas explicativas, além  de uma história inédita no Brasil. A editora tinha planos de lançar nesse formato todas as 45 edições de Moore, mas fecharam as portas sem sequer lançar o segundo. A única forma de continuar a leitura é com os antigos encadernados da Brainstore, que vão até o volume 3. Mas havemos de convir que, pra quem começou a ler com a Pixel, ter que prosseguir nas edições preto e branco da Brainstore é deveras brochante (nem vou citar a Abril). A salvação depende apenas da Panini. Oras, se a editora adotou alguns dos títulos abandonados pela Pixel para dar continuidade, como Preacher e Hellblazer, porque não fazer o mesmo com Monstro do Pântano? Seria excelente! Mais do que isso, é uma obrigação!

É imensa a importância da série nessa fase. Foi o primeiro título de horror, desde os anos 50, a ser voltado para um público maior de idade, o que mais tarde culminou na inauguração do selo Vertigo de quadrinhos adultos. Graças a Monstro do Pântano, Alan Moore ganhou fama nos EUA, reconhecido como um grande autor, o passo inicial para todos os seus trabalhos posteriores, que lhe concederam a alcunha de gênio dos quadrinhos. O potencial demonstrado pelo britânico nesse trabalho fez com que as principais editoras norte-americanas voltassem os olhos para a Europa, em busca de outros nomes para seus quadrinhos. Neil Gaiman, David Lloyd, Grant Morrison, Warren Ellis e muitos outros surgiram daí pra frente. Séries consagradas como Sandman, Os Invisíveis, Homem-Animal e Starman devem sua existência a Monstro do Pântano. Além disso, um importante personagem das HQs adultas nasceu nessas páginas, o mago John Constantine.

O Monstro do Pântano foi criado por  Len Wein e Berni Wrightson em 1972. É a história de um jovem cientista chamado Alec Holland, que estava trabalhando junto com sua esposa em uma fórmula “bio-restauradora” para acelerar o crescimento das plantas. Entretanto, alguém sabotou sua experiência e todo o laboratório explodiu com os dois dentro. A mulher morreu na hora, mas Alec saiu correndo em chamas e se jogou em um pântano, com suas roupas encharcadas pela fórmula. O pântano reagiu à química e o homem se transformou no Monstro do Pântano. Típico assim.

Em 1976, após 24 números, a série foi interrompida, voltando apenas em 1982, com roteiros de Martin Pasko. Na vigésima edição dessa fase, em 1984, Alan Moore entrou no lugar de Pasko, que deixou o título à beira do cancelamento. Aliás, foi justamente por isso que Moore foi chamado. O barbudo era relativamente desconhecido nessa época, com histórias publicadas apenas na Inglaterra, para os editores a maneira ideal de conhecer seu trabalho era em uma série já condenada, onde não havia nada a perder.

O que o escritor fez com o título surpreendeu a todos, é realmente brilhante! Na vigésima edição ele precisava encerrar o arco de histórias iniciado por Pasko, o que fez “matando” o Monstro do Pântano, somente para no número seguinte dar início a sua reformulação. De cientista em corpo de monstro, o personagem passou a ser um monstro que pensava ter sido um cientista. Alec Holland deixou de existir no dia da sabotagem de seu experimento, o composto químico apenas afetou a vegetação do pântano, que se moldou em uma forma humanóide e se apoderou da essência de Holland, originando uma criatura confusa com convicção de que antes era uma pessoa comum. Ao voltar de sua “morte”, consciente de que jamais foi humano, ele passa a atuar como o Elemental que sempre deveria ter sido, um ser conectado com toda a natureza, conceito muito mais amplo que o anterior.

Não havia precedentes para a narrativa que Moore empregou na época, é fascinante! E até hoje continua assim, se você ler agora ficará tão impressionado quanto quem leu no auge da publicação. A genialidade de Moore sempre esteve no fato de empregar em suas histórias recursos somente permitidos pela arte sequencial, impossíveis de serem reproduzidos em qualquer outro meio. Só lendo para descobrir o quanto é bom! Tão bom, que de série prestes a ser cancelada subiu para a mais vendida da DC – cerca de 100 mil exemplares por mês!

A arte de Steve Bissette e John Totleben também contribui muito para a grandeza da obra. A diagramação dos dois é ousada, os textos do título se mesclam ao cenário (como em Spirit), os quadros têm transição natural, seja por seu formato e posição ou por meio de elementos vazados, e os desenhos passam o clima ideal, dá pra sentir o cheiro de lodo do pântano. Pode até parecer feio a princípio, mas quando você ler verá como a sincronia entre texto e arte é perfeita.

Está certo que Monstro do Pântano já teve seu final publicado no Brasil pela Abril, mas assim como as edições da Brainstore, essas não contam pois não tiveram o devido tratamento. Quem sabe um dia poderemos ter a coleção completa no formato luxuoso iniciado pela Pixel, eu e milhares de leitores brasileiros seriamos eternamente gratos a Panini.

Para saber mais sobre Alan Moore e Vertigo clique nos links e assista nossos videocasts.

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  1. Eu não tenho muitas esperanças Bruno. A Panini acerta muito, mas também pisa muito na bola. Veja o Starman que vc citou – aliás, Starman não é da Vertigo, não sei se quis dizer isso, enfim.

    A publicação do Monstro do Pântano foi realmente um pesadelo. Heróis em Ação, Novos Titãs, Superamigos, Batman (2º série da Abril), Superpowers, formatinho próprio e finalmente o formato americano, no qual findou a fase Moore.

    No entanto, os fãs do personagem ainda puderam acompanhar um pouco da fase de Rick Veitch nos roteiros, que é quase tão boa qto a fase Alan Moore. O melhor da fase Veitch saiu em forma de mini série em 04 edições, denominada "O Celestial e o Profano" e é realmente muito boa. Há evidências irrefutáveis de que Moore e Veitch planejaram algo dessa fase com antecedência. A participação de Solomon Grundy e o nascimento do Broto foram insinuados na história "O Mestre dos Tormentos" (desculpem se errei o título, não fui consultar minha coleção) com Darkseid e Metron.

    A última história que saiu na sequência certa, salvo engano, foi o segundo encontro do Monstro com o Superman, desta vez em Metrópolis, qdo o Monstro busca se vingar de Luthor.

    Depois disso viria a participação do Monstro na saga Invasão, na qual viajaria pelo tempo até Camelot, Segunda Guerra e concluindo com a famosa história em que apareceria Jesus Cristo na cruz…censurada pela DC. Mas isso é outra história.

    Mais recentemente foram publicados os encadernados "Semente Ruim" e "Amor em Vão" e uma história ruim que saiu na Pixel Magazine, mas essas histórias são beeeeeeem mais adiantadas na cronologia.

    Vale a pena pegar o encadernado "Semente Ruim" pois ele contém um checklist com resumo de toda a saga do personagem até aquele ponto.

    Escrevi demais. De novo.

    Abraço!

  2. Puxa Marshall, valeu pelo comentário, acrescentou muito conteúdo ao meu post, adorei!
    Ainda não li a fase de Veitch à frente do título, mas se você disse que é tão boa quanta a de Moore vou correr atrás.
    Sei que a Panini pisa muito na bola, não apenas com Starman (sei que não é Vertigo, aliás, salvo engano, exceto por Os Invísiveis nenhuma das outras citadas pertencia a Vertigo no principio – citei Starman por também ser um personagem reformulado)deixou na mão também Liga da Justiça de Grant Morrison, Crise nas Multiplas Terras, as séries Crônicas que traz as HQs da Era de Prata da DC, Transmetropolitan, etc, mas ainda não pegaram Monstro do Pântano, saindo o volume 2 já estaria bom viu…

  3. Vocês comentaram algumas vezes durante os programas a respeito desta obra, e pelo que vocês tem dito, deve ser mesmo muito bom.

  4. Daniel, até que não achei Semente Ruim tão "ruim" assim rsrsrs. Sério, não é nem de longe comparável às fases Moore ou Veitch, mas da pra ler. Os desenhos são do argentino Henrique Breccia, que é bom, mas não gostei da arte final nem das cores. A merda é que pularam muitas histórias do personagem. Até agora não entendi o porque de publicar esse arco muito, mas muito a frente de onde a série havia parado.

    Como eu disse, o volume trás um checklist das histórias americanas e publicações brasileiras, completinho. Excelente pra orientar coleções.

    Bruno, eu disse quase tão boa, veja bem. Não vai com muita sede que vc pode se decepcionar.

    No mais acho que o próprio Monstro do Pantano só foi oficializado no selo Vertigo bem depois da saída do Moore.

  5. a galera esquece que a fase pré-Moore também era excelente. os roteiros de Len Wein eram ousados para a época e a revista era assumidamente de terror. Fora isso, mesmo que as histórias fossem a maior merda possível, a arte de Berni Wrightson compensaria – um dos melhores (e mais subaproveitados) desenhistas da história.
    A Ebal publicou em formatinho a maior parte dessas aventuras e vale muito, muito a pena.

  6. Marshall os desenhos do Breccia sao atè que bons, mas o resto todo è uma grande porcaria, eu anotei tudo o que eu precisava daquele histórico e troquei esses volumes.

    Mas todo o resto pré moore e uma parte do pòs Moore que foi publicado aqui vale a pena sim!
    Eu acho Celestial e Profano e um baita arco! Aconselhável mesmo!

    abrass!

  7. O Alexandre falou uma verdade agora. A fase pré-Moore que a Ebal Publicou em formatinho é foda e um tesouro difícil de achar hoje em dia. Alguns personagens que surgiram nessa fase (fora os principais, obviamente) foram revisitados por Alan Moore como o "monstro de retalhos" (na verdade o pai de Abigail Cable) e o alienígena. Fora essa série de 13 números e um extra a Ebal Publicou também dois especiais, um com o Batman, um com Superman e outro com os Desafiadores do Desconhecido.

    Do catálogo da Ebal eu só tenho 07 números dos 13 e nenhum dos especiais….vc por acaso não teria alguma coisa aí teria Alexandre rsrs?

  8. Monstro do Pântano é uma leitura obrigatória, pena que a publicação por aqui (como o Bruno e Marshal falatam) foi uma merda.
    A Pixel lançou o 1º encadernado e ficou por isso mesmo, quem sabe que com o lançamento do então "amaldiçoado" último volume do PReacher a PAnini não publique Monstro do Pântano e també as excelentes: Invisíveis e Homem Animal ambas do Morrison.

  9. Comprei minhas edições faz pouco mais de um ano, não tinha notado que apenas a primeira era capa dura e tudo o mais, foi decepcionante ver aquelas edições da Brainstore ao lado da feita pela Pixel.
    Eu não duvido que a Panini continue a saga mas aposto todas as minhas fichas que se continuarem farão isso a partir do Vol. 4.

  10. Pingback: Videocast 77 – Especial Vertigo – Pipoca e Nanquim « iCult Generation

  11. Pessoal, eu tenho muita esperança de que alguma editora (Panini?) ainda publique o material do Pantanoso por aqui sim. Como recentemente o velho Constantine ganhou encadernados pela Panini mostrando as primeiras estórias do mago ingles, o que parece foi bem recebido pelos leitores, o futuro pode ser promissor sim para o Monstro do Pantano. Claro, nada disso pode se dizer como garantido, né? Gostaria de parabenizar o Bruno pelo post, excelente! e tambem ao amigão Marshall pelos comentarios. E aos comentarios do Daniel que tive o prazer de topar no FIQ recentemente. Gostaria de acrescentar que a fase publicada pela Ebal é uma das minhas preferidas, que alias tenho e guardo como a um tesouro! Esse material tambem merece uma republicação. A fase pos-Moore tem momentos muito bons como a fase Veitch, especialmente a saga “Celestial e o Profano”, mas depois disso, ha um grande hiato de material de qualidade, apenas retomado com algum mérito posteriormente nas únicas quatro edições escritas por Morrison (#140-143 “The Vegetable Man) em parceria com Mark Millar. Nessas edicoes acontece uma interessante releitura de alguns conceitos desenvolvidos por Moore, entre o homem e o monstro.  Depois disso, Millar prossegue à frente do título até a ultima edição #171, elevando o status de elemental a um outro estágio. Vale a pena dar uma conferida! A fase de BRIAN K. VAUGHAN é totalmente dispensável. Essas fases não sairam por aqui. Agora a fase de Diggle e Brecchia merece uma atençao: é uma retomada do clima sobrenatural dos anos 70, com acrescimo de muitas boas ideias que foram construidas ao longo dos anos por tantos escritores à frente do título, e com os belos e competentes desenhos de Brecchia. Espero que toda essa fase seja publicada por aqui. No mais, um abraço a todos. Parabens ao Pipoca e Nanquim.

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