Entrevista com o desenhista Marcelo Braga

Quando o Alexandre aqui do PN encontrou o blog Diburros, logo mandou um e-mail pra mim e pro Bruno assim: “Olha que cara fera!“. Imediatamente entrei no site e passei a babar em em cima do teclado devido aos desenhos que ali eram postados. Depois de voltar umas três páginas para ver alguns posts antigos, decidi clicar no link Sobre o Diburros e vi que o responsável por todas aqueles desenhos era Marcelo Braga, nome que não me era estranho, alguma coisa dizia que eu já conhecia seu trabalho, “Acho que foi no MSP50 ou no MSP+50 que vi sua arte“, não precisei fuçar muito para descobrir que era isso mesmo, ele havia desenhado uma baita história para o segundo volume da antologia que homenageia o Mauricio de Souza e suas criações. “Uma entrevista com esse cara, será legal demais!” e alguns dias depois, ai está ela:

Olá, Braga! Para começar, conte-nos um pouco de quando se interessou por ilustração e posteriormente como isso se tornou carreira.

Eu sempre gostei de desenhar, mas só comecei a ilustrar profissionalmente quando mudei para São Paulo, trabalhando na DPZ ,no ano 2000. É uma agência importante, uma das principais na história da propaganda brasileira, fundada pelo Duailib, Petit e Zaragoza, estes dois últimos também artistas e, por isso, lá eles davam muita importância para o desenho em si.

Eu não poderia ter caído em um lugar melhor para trabalhar naquela fase da minha vida. Conhecer os desenhos do Petit e do Carlão, Diretor de Criação do saudoso 5º andar, mudou totalmente a minha maneira de encarar o que era desenhar. Ambos são fortes influências para mim até hoje.

Eles sempre gostaram muito de criar personagens, fazer layouts desenhados, storyboards, e, para mim, um moleque recém-chegado do interior com muita vontade de trabalhar, o ambiente não poderia ser mais fértil. Entrei como estagiário e logo estava como assistente de arte. Desenhava muito qualquer coisa que me pedissem. Era pesado, mas foi o melhor treino que eu tive, um jeito de testar e expandir os limites, conhecer as falhas, descobrir caminhos e desenvolver técnicas próprias que eu uso até hoje.

Nesse meio todo também conheci o Brasílio Matsumoto, este sim um verdadeiro ilustrador profissional e certamente um dos mais importantes da área. Ele foi uma peça fundamental em minha carreira, mostrou o caminho com o trabalho do seu estúdio, o famoso 6B. Na prática ele estava criando concorrência, mas nunca me tratou assim.

Quando decidi montar meu estúdio de ilustração, a Macacolândia, não estava sozinho. Estávamos eu, o Marcelo Daldoce, o Danilo Beyruth da DPZ e o Maurício Zuardi, saindo da F/Nazca. Isso foi em 2004, curiosamente o ano do macaco no horóscopo chinês.

Quais são suas maiores influências no âmbito ilustração?

Eu costumo dizer que ilustrar não é o mesmo que desenhar. São atividades parecidas, uma contém um pouco da outra e se influenciam mutuamente, claro, mas ainda assim distintas.

A maior influência no âmbito profissional é sem dúvida o Brasílio. Além de servir de inspiração, também foi muito generoso em explicar alguns mecanismos da profissão e passar um pouco do seu conhecimento adquirido ao longo de anos de experiência no mercado. Ele também estabeleceu um nível de qualidade no trabalho de ilustração publicitária que foi e é até hoje nossa referência.

Já no meu desenho eu nem sei direito por onde começar. Um nome que sempre me vem à cabeça é o Norman Rockwell. Foi o primeiro ilustrador/artista que me impressionou de verdade. Ainda assim parece um pouco injusto com os outros que vêm me influenciando desde sempre, não só a mim, mas acredito que toda a minha geração, Drew Struzan, Katsuhiro Otomo, Neal Adams, Adam Hughes, Kevin Maguire, Brian Bolland, Milo Manara e é claro, provavelmente a maior autoridade de todas, Moebius. Tirando o último, é uma lista incompleta e e de ordem aleatória. Além desses todos, até hoje, quando estou rabiscando alguma coisa no caderno de esboços, vem à minha cabeça o traço do Carlão da DPZ. Eu tento copiar a precisão, as sombras dele, mas é difícil. Certamente uma grande referência.

Em sua biografia no site você diz que tinha ambição de entrar no mercado norte-americano, você ainda almeja isso?

Eu tinha sim, queria ser desenhista do Homem-Aranha, do Super-Homem, do Wolverine, eu sempre quis trabalhar com isso. Desde pequeno eu faço minhas HQs, quem gosta de desenhar sempre é influenciado pelos quadrinhos, nem que seja em uma fase da vida. Eu nunca deixei de gostar, mas chegou uma hora em que eu precisava trabalhar, o mercado brasileiro era inexistente e o norte-americano era, na minha concepção, a única maneira de ganhar dinheiro fazendo isso. Os brasileiros que trabalhavam para as grandes editoras de lá ganhavam em dólar, desenhavam os personagens clássicos, tinham inclusive um belo status.

Hoje muitas portas já foram abertas (algumas à força), muitos caminhos apontados e é tudo diferente. Mesmo que não tenhamos ainda um mercado forte, que se sustente, tem bastante coisa acontecendo nos quadrinhos nacionais. É uma bela de uma vitrine, onde você pode suar a camisa para criar suas histórias e com o seu trabalho arrumar um contrato no exterior e, possivelmente, viver de quadrinhos. Ainda é trabalhar para fora, mas o enfoque é diferente, você vira um autor e não apenas um desenhista. Para mim isso é o mais interessante.

É claro que isso não é uma regra, mas é uma possibilidade que antes não existia, ou era bem mais rara.

Há o mercado europeu que acho muito interessante, mas esse eu não tenho ideia de como funciona.

Você já fez algum teste para as grandes editoras americanas como DC, Marvel ou Dark Horse?

Já sim. Fiz uns testes pra Marvel no fim de 1999, começo do ano 2000, umas páginas com o Justiceiro e um Sentinela, tudo através do Hélcio da Art & Comics. Eu poderia ter seguido tentando, mas apareceu uma oportunidade de estágio na DPZ e tive que optar pelo investimento mais seguro. Gostei da minha escolha.

A antologia Inkshot capitaneada pelo Hector Lima já tem previsão de lançamento? Tem alguma chance de ser publicada no Brasil?

Não sei, acho que deve ter alguma previsão, vou perguntar para o Hector. Se tem ou não chance de ser publicada aqui, depende das editoras. Deveria, é um trabalho bem legal.

Ano passado saiu uma HQ sua na revista “Aventuras na História” (Ed. Abril) chamada “Operação Thunderbolt”, ela é pequenina, porém um primor! Será que não rolaria um graphic novel mais encorpadona, acho que história pra isso tem né?!

Seria muito legal, né? Eu adoraria escrever e desenhar essa Graphic Novel. Foi um dos projetos mais bacanas em que eu me envolvi. Passei dias, semanas pesquisando tudo sobre o assunto, arrisco a dizer que naquela época eu era um dos caras mais bem informados do Brasil sobre a operação. A história toda é muito interessante, cheia de reviravoltas e tensa no limite. Uma pena que não exista um filme à altura, eu tentei desenhar o resgate da melhor maneira possível, mas 6 páginas é muito pouco. Dificilmente alguém bancaria um projeto desses, e para fazer por amor à arte, tem muita coisa na frente ainda.

[Para ler a história Operação Thunderbolt clique aqui]

E o projeto Smurf Wars,  tem alguma chance de sair do papel? O filme deles está pra chegar nos cinemas e essa sua idéia é sensacional!

Não é um projeto, é só um post no blog. Um post legal, o mais bem sucedido do Diburros e certamente o que chama mais a atenção, mas fica nisso. A idéia era brincar com o fato de que todos eles se parecem, são feitos na mesma forma, só muda um apetrecho aqui ou ali. Qualquer um da aldeia que tatuar um coração no braço vira o Robusto. O resto foi sendo construído a partir daí, mas não passou de um exercício.

Essa história jamais aconteceria, obviamente não é negócio para os donos da marca. Morte? Guerra? Estupro? São os Smurfs, porra. Já me sugeriram pintar todos de verde e chamar de SDURFS e daí sim desenhar a HQ, mas não é a mesma coisa.

Mas as pessoas gostam, é um enfoque diferente, vou deixar o post no ar até que algum advogado me contacte.

Como aconteceu o convite para a antologia MSP+50? Participar desse projeto trouxe um feedback positivo?

Aconteceu quando o Sidney Gusman encontrou com o Hector e viu o boneco da INKShot no Fiq!. A minha história chamou a atenção dele e depois de uma palavrinha com o Gustavo Duarte e o Danilo Beyruth, me fez o convite. Todo o feedback que eu tive foi positivo, mas o que marcou mais foi a oportunidade de desenhar a turminha diretamente para o Maurício. Isso e os contatos que eu fiz durante o projeto, conheci gente muito bacana. E claro, minha família toda adorou. Não tem jeito, pra grande maioria das pessoas, quadrinhos de verdade no Brasil é a “Turma da Mônica”.

Você utiliza muito apetrechos digitais para desenhar ou ainda prefere um esquema mais “old-scholl” lápis-papel-borracha?

Não me dou muito bem com esses lances digitais não. Prefiro o lápis, pincel, tinta, borracha, a sujeira, mas na minha profissão uso muito o computador. Tudo que eu ilustro passa pelo Photoshop pelo menos, nesse caso é a melhor maneira. E viva o CTRL + Z.

Pode adiantar pra gente alguns planos prestes a serem realizados no mundo dos quadrinhos?

Este ano vou visitar o mundo dos quadrinhos, vou participar da San Diego Comic-Con. É uma viagem que eu sempre quis fazer, vou para conhecer, mas preparei um Sketchbook com esboços e rabiscos para distribuir por lá e fazer mais contatos. Depois quero voltar para minha HQ, que comecei em 2004 e ainda não terminei. Se já é difícil fazer quadrinhos no Brasil quando você só faz isso, é ainda mais complicado quando você tem um estúdio de ilustração para tocar. Piora muito se você é um cara disperso como eu. Mas eu sei que nada disso é desculpa, voltando da viagem vou retomar a história e ir até o fim. Depois de pronta eu mostro para alguns editores e, se ninguém gostar, divido em algumas edições e começo a publicar independentemente. De qualquer maneira vai ser bem divertido.

Pode nos dar uma prévia da história de sua HQ, só pra dar aquele gostinho e fazer o pessoal aguarda-la mais ansiosamente?

Aqui vai.

Atualmente você ainda lê muita HQ? Se sim, quais foram as melhores que leu recentemente?

Não tenho lido tanto quanto eu gostaria, mas tenho gostado de algumas. A Três Sombras do Cyril Pedrosa, recentemente lançada aqui pela Cia da Letras é impressionante. Também leio tudo o que encontro do Gipi, Notes for a War Story, Garage Band, They Found The Car, as histórias são boas e o traço dele é carregado de personalidade. Leio de vez em quando  alguma Acme Novelty Library do Chris Ware, acompanho a BPRD, a turma do Hellboy sem o Hellboy e procuro comprar tudo o que eu encontro do Moebius e do Manara. Ocasionalmente compro um X-Men ou Super-Homem novo para dar uma olhada, mas sempre acho chato.

Braga, obrigado pela entrevista! Agora deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e ilustradores do mundo a fora.

Se você gosta de desenhar, trabalha com ilustração ou os dois, encha a cabeça de boas referências, seus sketchbooks de rabiscos, estude desenho, assista a muitos filmes, entenda seu mercado, mas faça as coisas do seu jeito. Não importa o que aconteça no fim, é a única maneira de você responsabilizar a pessoa certa.

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  1. Eu também! Quando sair a primeira graphic novel desse cara será no nível de Grampá e cia., vai ser foda!! Porquê o Pipoca e ele não iniciam um projeto juntos com a editora do livro de vocês? Hein hein?