Entrevista com Quadrinhos Rasos – Quando a música inspira HQs

Uma coisa que eu adoro é quando os quadrinhos que se relacionam com música, tanto é que já gravamos dois videocasts sobre o tema.

Quando eu descobri o site Quadrinhos Rasos virei fã imediatamente, sem brincadeira! Eu tenho certeza que vocês também ficarão quando verem a página a baixo:

Não falei que é sensacional?

Olha essa então!

Sabe o que é melhor de tudo? A dupla responsável pelo projeto publica uma página nova toda a semana, então você pode entrar agora lá no site e se deliciar com mais de 80 histórias sensacionais.

Gostaram?

Agora confira essa entrevista com Eduardo e Luís Felipe e conheça melhor esses dois grandes artistas e seu novo projeto, que tem tudo para ser espetacular.

Quadrinhos Rasos é uma parceria entre Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, podem nos contar um pouco sobre cada um?

Eduardo: Bem…acho que estar vivo é uma baita responsabilidade e tô falando isso pra poder explicar porque que eu faço quadrinhos hoje. Sou formado em Produção Editorial, comecei um curso de artes, larguei porque meu negócio é entretenimento etc etc. Mas o mundo pára quando estou trabalhando com os quadrinhos que a gente cria, então acho que é minha responsabilidade continuar fazendo isso, porque parece muito certo.  Trabalhei um bom tempo com publicidade e não foi legal, ainda não é quando as contas apertam e eu tenho que pegar um desses serviços, não sinto que tô entretendo ninguém, que estou fazendo qualquer tipo de bem ou sendo útil de qualquer forma, acho uma porcaria. Bem diferente de quando estou fazendo quadrinhos ou no meu trabalho como diretor de arte para animação. Sempre gostei de ler quadrinhos, mas quando descobri o tanto que eu gosto de fazer quadrinhos foi uma das melhores experiências da minha vida e vi que não queria fazer isso sempre sozinho, ter topado com o Felipe nesse caminho foi muito bom, ele é excepcional em tudo que eu sou péssimo!

Luís Felipe: Eu nunca sei direito como responder esse tipo de pergunta. Eu posso falar que eu sou formado em História pela UFMG, que eu já trabalhei com um monte de coisa, e pretendo trabalhar com mais um monte. Que eu comecei a faculdade de Artes e larguei. Mas o mais importante no caso é falar como eu comecei com quadrinhos, eu acho.

Meu mundo de leitor de HQs mudou pela primeira vez quando eu li meu primeiro Calvin e Haroldo. E pela segunda vez quando eu li Rocketeer. Foram os dois quadrinhos que me fizeram ficar envolto no que lia. Nessa hora eu já sabia que queria era fazer isso da vida, porém, demorou muito para eu ter coragem de realmente tentar fazer isto.

Meu primeiro projeto com quadrinho foi o Bufas Danadas, tiras que eu mantenho até hoje. Depois, em conjunto com o Damasceno, criamos o Quadrinhos Rasos, o Achados e Perdidos e planejamos criar muito mais coisas pelos próximos anos. Fazer quadrinhos é muito divertido. E é muito legal ter pessoas que se divertem lendo o que a gente faz. Enquanto continuar assim, não vejo razão para parar de fazer.

É bom falar que é muito bom trabalhar com o Damasceno, ele é um grande amigo e uma figura sensacional. Ele disse que eu sou bom no que ele é ruim, e o inverso é verdade também!

Como e quando surgiu o site Quadrinhos Rasos?

Eduardo: O Quadrinhos Rasos surgiu em 8 de Setembro de 2010 – dia mundial da fisioterapia. Conheci o Felipe por volta de 2007, em um bar (Belo Horizonte yeah!) tínhamos amigos em comum e bem, os dois encheram a cara nesse dia e em algum momento a gente disse “ow, vâmo combinar um dia pra gente sentar e conversar sobre quadrinhos e tal” marcamos o dia e a hora. No dia seguinte eu não lembrava de nada que tinha acontecido, só que tinha marcado com o Felipe na quarta feira as 18hs pra gente conversar sobre nossos projetos de quadrinhos. Encontramos, conversamos, o santo bateu. O Felipe virou um grande amigo, e continuamos nossas reuniões semanais, às vezes elas rendiam, as vezes terminavam igual aquele primeiro dia do bar. Mas a gente foi ficando mais velho e no meu caso, quando vi que em pouco tempo teria 30 anos (não cheguei lá ainda) e pra onde eu olhava tinha gente falando que fazia isso, fazia aquilo, mas não fazia porcaria nenhuma bateu o desespero. “Não quero realizar uma coisa só e sair falando que eu sou quadrinista preciso de consistência!” Nós conversamos muito, já havíamos feito quadrinhos pra concursos, e enviado projetos pra editoras, mas era tudo muito esporádico e inconstante. Foi quando decidimos “Ok, a gente fala muito de quadrinhos mas não produz p… nenhuma, a gente precisa produzir pra ver do que a gente é capaz, pra testarmos nossas capacidades, ver quanto e com qual qualidade conseguimos produzir as coisa” seguido de “Beleza, vamos fazer um blog”. Precisávamos de um mote pra criarmos essas páginas semanais porque a gente gosta muito de regras e pontos de partida! O Felipe disse “tipo fazer páginas a partir de letras de músicas”. E foi isso! Completamos um ano a pouco tempo, sempre mantendo o site atualizado.

Luís Felipe: Como o Damasceno disse, nós conversamos sobre quadrinhos e sobre fazer quadrinhos há alguns anos, já. Em setembro de 2010 nós decidimos parar de conversar e criar uma maneira de realmente produzir alguma coisa. A ideia era criar o costume de fazer páginas de HQs semanalmente, mais como treinamento do que qualquer coisa. A primeira coisa que decidimos foi que seria um blog. A partir do momento que outras pessoas pudessem ver o que estamos produzindo, nós utilizaríamos isso como forma de manter o ritmo de criação. Uma coisa é fazer uma página por semana só para você mesmo, outra é para quem quiser ver.

Uma coisa forte desde o início foi a criação de regras. Nós precisamos de eixos norteadores para a coisa toda funcionar, e cada semana surge uma regra nova. Elas não são exatamente imutáveis, e muito menos inquebráveis, mas elas existem.

Outra coisa importante de falar é que a primeira página do Quadrinhos Rasos, Mila do Netinho, que o Damasceno fez,  é até hoje uma das minhas páginas favoritas. Ao ver a página do Damasceno eu percebi que ia ter que ralar para ficar perto do nível das coisas que ele iria fazer. E continuo tentando até hoje!

Eduardo: Momento baba ovo. O Felipe tá falando isso, mas vocês viram aquela página que ele fez com a música da Ivete? Sério!! Eu tô com muita raiva dele até agora. Um primor de narrativa.

Luís Felipe: Eu melhorei por osmose.

A idéia de desenhar quadrinhos baseado em trechos de música é ótima! Algum músico já viu a interpretação de vocês para a canção dele e entrou em contato?

Eduardo: A gente fica feliz demais que a galera curta! Gostamos de nos impormos regras pra criação das páginas, deixa mais divertido ter que contornar essas coisas.  Quanto aos artistas, nunca entraram em contato diretamente, só via twitter mesmo, a Pitty, o Roger do Ultraje e o Thedy do Nenhum de Nós até agora foram os que deram alguma resposta sobre o trabalho, pra nossa sorte, sempre positivas! A Pitty é nossa amiga do peito já, deu RT duas vezes, uma foi porque ela quis mesmo, na outra a gente encheu muito o saco com a campanha “Pitty dá um retuíte” aí já pra ajudar o Achados e Perdidos! Tentamos com a Sandy em “@sandyleah aumenta nossa platéia” e com a Ivete em “ajuda nosso embalo @ivetesangalo” mas nada feito… só a Pitty participou da campanha dela. A gente nunca foi de ficar mandando recado para os artistas chamando pra ver a página, fazemos pra galera mesmo, mas é sempre um prazer quando eles vêem e curtem.

Luís Felipe: A gente é meio cabeça dura. Quando a gente começou, nós queríamos que mais pessoas fossem no blog sem a gente divulgar. Foi um custo fazer um twitter e uma página no facebook, coisas que atualmente se tornaram indispensáveis para a divulgação, tanto do blog quanto do Achados e Perdidos. Nós continuamos teimosos para muitas coisas, mas estamos melhorando!

Teve alguém que não gostou ou algum problema envolvendo direitos autorais?

Eduardo: Pra nossa sorte não tivemos nenhum problema até agora. O que acontece é que usamos só um trecho da letra, as páginas são licenciadas via creative commons e não ganhamos nada com elas. Eu realmente não gosto da lógica possessiva do copyright e desse medo, que considero exagerado, de “ter suas ideias roubadas” ou coisa do tipo. Se roubarem a gente tem outra e bola pra frente. Mas ao primeiro sinal de confusão nós tiraríamos a coisa do ar. Não quero ter qualquer tipo de relação com essa mesquinharia. Não acho que seja um comportamento condizente com a realidade que estamos construindo. E sempre tratamos as músicas com o maior respeito, realmente não temos preconceitos musicais então nunca é uma forma de menosprezar a canção ou qualquer coisa do tipo. As músicas são nosso ponto de partida e o trabalho todo gira em torno delas, então tratamos delas com cuidado.

Luís Felipe: No final das contas, essa questão dos direitos autorais não deve vir a ser um problema. Nós só pegamos trechos das letras das músicas, o que já é feito em diversos suportes de entretenimento a anos. Pelo menos, esperamos que não. E se der problema, tem muito tema por aí. Qualquer coisa a gente faz quadrinho a partir de músicas de domínio público, ou de outra coisa completamente diferente. O importante é não parar de fazer.

Vocês homenageiam as mais diversas canções e de tudo quanto é estilo, como se dá essa escolha?

Eduardo: Pra não criarmos qualquer coisa na nossa cabeça antes da hora, decidimos desde o início que um escolheria a música pro outro. Então não existe um pensamento do tipo “ah! Essa música é boa de fazer” ou “essa música daria uma boa história”. As escolhas são ditatoriais e não podemos mudar a música que o outro escolhe! E na hora de escolher pensamos só nas músicas mesmo, aí fazemos a semana da tropicália, ou da bossa nova, rock dos anos 80, músicas que os dois gostam, músicas que não ouviríamos em casa, semana dos óculos escuros – os critérios são amplos. Por isso mesmo acabamos não aceitamos sugestões de músicas, é importante que elas sejam impostas, se tivéssemos várias sugestões íamos acabar pensando no que fazer a partir delas antes da hora. E vale lembrar que a gente não entende nada de música.

Luís Felipe: Nós escolhemos um a música do outro, e originalmente nós pegávamos a primeira música que vinha a cabeça e era isso. Rapidamente, porém, passamos a tirar as músicas a partir de temas – músicas punks brasileiras da década de 80; músicas de apresentação de programas infantis; músicas do Tim Maia; músicas que sabemos que o outro gosta – tudo pode ser um tema. Às vezes pedimos um tema para outras pessoas também.

Outra coisa que adicionamos de vez em quando é um segundo tema, que ao invés de ser para a música, é para a página em si. Como por exemplo, no natal, que fizemos páginas com temática natalina só que com músicas do Raul Seixas. A verdade é que essa não é uma regra muito específica. A gente basicamente faz o que dá na cabeça, e inventa um monte de diretriz só para virar um jogo mais do qualquer coisa.

Qual o estilo musical favorito de cada um de vocês?

Eduardo: ( Haters gonna hate ) É tão difícil quanto responder qualquer coisa sobre quadrinhos ou quadrinistas favoritos. É impossível na verdade. Eu não tenho critérios muito bem definidos de porque eu gosto das coisas, eu vejo, ouço, leio e aí se aquele negócio conversa de volta comigo é isso aí. Fui prestar atenção em música muito tarde, devia ter uns 16 anos. Não tinha interesse mesmo, ouvia o que estava tocando, nunca fui de nenhuma tribo que se definisse pelo tipo de música que ouve ou coisa do tipo. Meu irmão, Leandro, que sempre foi e ainda é um grande pesquisador de tudo ficava preocupado que eu não me interessava por música e tentava me fazer gostar de alguma coisa, ele me apareceu com aquele primeiro disco dos Hanson e disse: “Olha só, são uns garotos novos, da sua idade, e eles fazem música!” Eu achei legal ter gente da minha idade que fazia música e curti. Ainda curto, não tenho vergonha nenhuma de nada que eu gosto, mesmo. Aí passei não só a ouvir Hanson como a prestar atenção em música. Escolhi Oasis para ser a banda que eu acompanharia e daí passei a ouvir TUDO que encontrava. Adoro descobrir bandas de qualquer coisa. É coisa demais, de Belchior à Flogging Molly, passando por Fagner, Jonah Matranga, The Weepies e o que mais aparecer. Atualmente tenho ouvido muito Elvis e Adele. Foi muito bom redescobrir o Elvis e todas as músicas que eu sempre ouvi na infância. E gosto muito de sertanejo, muito mesmo, e sem essa balela culteba de “sertanejo bom é aquele de raiz” ahpelamordedeus. Eu gosto de tudo, moda de viola, sertanejo romântico, universitário. Claro que não gosto de absolutamente todas as músicas, mas tem uma quantidade muito grande de coisas que eu curto. Gosto do fato de ser óbvio, claro e honesto.

Luís Felipe: Meu estilo favorito de música é Third Wave Ska. Mas eu gosto muito de MPB, Rock, Punk, New Wave, Pop, Sertanejo, Funk, Country, Blues, Rap, Jazz, BigBand, Pagode, Clássico… E por aí vai. Eu gosto muito de música em geral. E não tem um estilo que, por mais que eu não goste, não tenha pelo menos uma música que adore ouvir.

O Damasceno gosta de sertanejo. Tem outras coisas que ele diz gostar. Mas a música que toca no coração dele é sertaneja.

Eduardo: Tá.. verdade.

Quais são as principais influências de vocês no mundo das narrativas gráficas?

Eduardo: Uma das minhas maiores influências diretas é o Daniel Lima, criador do Oswaldo Augusto, foi ele que me ensinou que eu podia desenhar, sou eternamente agradecido. O Felipe me influencia muito também, obviamente, porque a gente trabalha em sintonia, mas em espectros bem diferentes, ele tem um viés pra ficção e pra inventar coisas que eu acho fantástico e aprendi muito com ele. Agora se for começar a falar de autores que eu gosto ou que eu gosto de acreditar que tenham me influenciado aí é difícil não só porque são muitos, mas porque todo dia aparece um novo. Trabalho como diretor de arte para animação e esse é um universo que me influencia muito, porque adoro fazer isso também e adoro pesquisar animação. Uma das minhas artistas favoritas é a Mary Blair, gosto demais do trabalho dela. Gosto do trabalho do Hans Bacher como designer de produção e todo o processo criativo dele me influencia muito na hora de começar os trabalhos. Winsor Mccay, Alex Toth, Cristophe Blain, Ciryl Pedrosa e por aí vai. Nem comecei a falar dos orientais ainda, o Felipe vai falar deles mas vou repetir também Gourmet do Jiro Tanaguchi, Yotsuba!To de Kyohiko Azuma e tudo do Matsumoto Tayo eu espero que sejam influências mas por enquanto pra mim são obras primas da narrativa visual.

Luís Felipe: Hmm… Essa é uma questão que dá pano para manga. Nós compartilhamos muitas influências, até mais porque influenciamos um ao outro, então tudo que um falar acaba valendo para o outro também. Eu sou um fanático pelo Bill Watterson. Acho ele absolutamente genial. Tanto na maneira que ele cria quadrinhos, quanto na sua ética de trabalho. É uma figura de se admirar. Claro, existem diversos outros, Eisner, McCay, Kirby, Spielgman e todos os grandes são influências eternas para todos. Então nem conta falar deles. Eu gosto muito do trabalho do Eric Powell e da Kate Beaton. São dois nomes que me vieram à cabeça agora. Além de quadrinhos tradicionais eu leio diversas webcomics, que definitivamente afetam o meu trabalho.

Outra grande influência são os orientais. Eu acredito que falar que mangá é diferente de quadrinho ocidental já perdeu o sentido há um tempo, ambos são muito influenciados um pelo outro. E existe uma quantidade enorme de qualidade nos quadrinhos orientais, principalmente em histórias mais pé no chão. Histórias complexamente simples, como é o caso de Gourmet de Jiro Taniguchi e Yotsubato To! de Kiyohiko Azuma, dois mangas absolutamente sensacionais. E claro, tem o Tayo, que tudo que faz é bom.

Mais recentemente, o contato com as figuras do grupo Pandemônio aumentaram ainda mais as influências que eu já tinha, o que tem sido muito legal. É um grupo de pessoas incrivelmente talentosas que eu sinto o maior orgulho de fazer parte.

E essas são as do mundo das narrativas gráficas. Se fosse para falar das outras influências, certamente não haveria espaço.

Eduardo: Isso que o Felipe falou sobre o Pandemônio é uma verdade incontestável, não só porque eles são todos pessoas e quadrinistas sensacionais, mas porque conhecem coisas diferentes e nos apresentam coisas que não conhecíamos o tempo todo, me sinto um bebê descobrindo o mundo. Tenho uma admiração tremenda por todos eles, a saber: Daniel Werneck, que sangra Punk Rock e sabe das coisas. Daniel Lima, mago dos workflows de animação e aficcionado por personagens aquáticos. Ricardo “Ryot” Tokumoto – poço sem fundo de simpatia e competência. Vitor Cafaggi – Todo mundo sabe o tanto que é difícil fazer parecer fácil!  E a magnífica Lu Cafaggi, tudo que ela encosta vira ouro, exímia quadrinista e dona do coração desse gordo. Sério, fazer parte dessa turma dá um medo danado, mas é bom demais!!

Luís Felipe: Realmente, a gente é muito pequeno no meio de gente muito grande, o bom é que dá para ver que o teto é lá em cima, e dá para crescer muito ainda.

E o lance do financiamento colaborativo para tirar, ou melhor, colocar no papel os planos de um álbum, está sendo legal?

Eduardo: Puxa, não sei nem por onde começar a falar sobre o tanto que isso é legal. Nós queríamos tanto publicar quadrinhos e queríamos muito que fosse através de uma editora ou um selo que estivesse de acordo com nosso jeito de enxergar esse universo do entretenimento e o Quadrinhos Rasos representa isso pra gente. Quadrinhos que nos divertimos muito fazendo e torcemos muito para que divirta as pessoas que venham a ler. A ideia de que as pessoas interessadas em ler banquem a publicação e já comprem adiantado uma cópia do livro… puxa vida, é incrível. Mas mais incrível é que esteja funcionando, somos dois desconhecidos, iniciantes – sim, eu trabalho a quase 10 anos com ilustração e animação em Belo Horizonte,  fazia quadrinhos esporadicamente, sem ter onde colocar – ninguém me conhece. O Felipe já faz as tiras do Bufas Danadas tem um tempão, mas só depois que o Rasos começou a acontecer que ele criou coragem pra retomar e tá mandando ver. Mas é isso, as pessoas estão apostando no que mostramos ao longo de um ano de Quadrinhos Rasos e com o primeiro capítulo do Achados e Perdidos. E aqui cabe falar que uma das coisas que me dá mais vontade de ver isso tudo acontecendo e que eu sei que vai agradar muita gente são as músicas do Bruno Ito, não tenho qualquer dúvida que ele é um dos grandes responsáveis por tudo que conseguimos até agora. Tem muitas pessoas ajudando, pra nós é uma honra e um orgulho sermos responsáveis pelos livros de tanta gente!

Luís Felipe: Está sendo o máximo! Em todos os sentidos! É uma experiência incrível ver tanto o apoio dos amigos e família quanto ver figuras completamente desconhecidas acreditando em um projeto de dois belorizontinos megalomaníacos. O dinheiro está entrando, os livros estão saindo, e, no momento que respondo essa questão temos R$17.800 e 342 pessoas que apoiaram! Isso é muita coisa, e cresce a cada minuto. Claro que nós morremos do coração todo dia, e ficamos atualizando a página do projeto a cada cinco minutos. Mas vale a pena. Definitivamente vale a pena.

Outra coisa que é sensacional é a visibilidade que esse projeto nos trouxe. Muitas pessoas que mal conheciam o Quadrinhos Rasos estão chegando até o site através de links do Achados e Perdidos, e isso é muito legal. A divulgação que vem sendo feita é o que está fazendo ser possível a existência desse livro.

Eduardo: E as pessoas não só divulgam como encontram canais de divulgação pra gente, fazem banners, ajudam como podem, é de chorar. Afinal de contas se tivemos qualquer mérito nisso tudo foi o de acreditar nas pessoas que visitam o site. Foi graças a elas que tivemos coragem de pular de cabeça nesse projeto.

Luís Felipe: Ter publico é um negócio assustador e motivador. Ainda mais um como o nosso, que é super bacana. Mas se a gente vai para frente é por que tem esse tantão de gente atrás empurrando.

Cena de Achados e Perdidos

Esse álbum será um pouco diferente do que estamos acostumados a conferir no site de vocês, ao invés da música inspirar quadrinhos, dessa vez os quadrinhos inspiraram as músicas e vai até rolar um CD junto ao livro, conta pra gente um pouco mais dessa empreitada.

Eduardo: Bruno Ito. É isso. O que aconteceu foi que quando decidimos lançar queríamos manter a relação com a música. Temos certeza que se completamos um ano e com tanta gente vendo é em grande parte graças à relação com a música. Cada vez que alguém comenta “não costumo ler quadrinhos mas achei o site de vocês e estou adorando” eu quase explodo de felicidade. Pra gente era importante manter a relação com a música nessa primeira publicação do Selo Quadrinhos Rasos. O Felipe conhece o Ito há um tempão e eu conhecia e sabia que ele era um músico estupendo. Mas agora eu amo ele. Tive o prazer de conhecer ele um pouco melhor e de poder participar com ele do processo de criação das músicas (na verdade a minha participação é “achar tudo muito bonito”). Tem sido uma experiência muito boa conversar sobre as músicas, ouvir o que ele faz e as opiniões dele a respeito de tudo.

Luís Felipe: Isso é o Damasceno sendo um gênio.

O Achados e Perdidos é uma ideia antiga, da época em que conversávamos sobre quadrinhos, sem fazer. Chegamos a criar modelos, e desenhar algumas páginas para mandar para editoras e concursos, e apesar de boas respostas, nunca chegamos nos finalmentes. Decidimos fazer então, mesmo assim o livro, através do já mencionado financiamento colaborativo.

O negócio é que, um dia, enquanto a gente almoçava na rua, o Damasceno me veio falando que tinha tido uma ideia. O que foi um grande eufemismo, ele tinha sido iluminado, isso sim. A ideia de trazer o Bruno Ito – grande amigo e músico sensacional – foi o elemento que faltava nesse livro. Eu acredito que mais de metade das vendas são devido às lindas músicas do Ito, com certeza.

O processo de fazer o livro tem sido… interessante. Começamos de um jeito e terminamos de outro. A melhor palavra para explicar, eu acredito que seja “orgânico”. Têm dedos dos três em todas as partes. Eu e o Damasceno opinamos nas músicas, assim como o Ito fala o que ele acha que está bom na história. Eu e o Damasceno, então, é uma mistura completa. Eu escrevia o diálogo que ele já modificava, enquanto ele desenhava uma página em cima de um layout que eu fiz, me passava para eu colorir a base enquanto ele finalizava a cor depois, e eu modificava algumas coisas nos desenhos e ele alterava os layouts, e no meio disso discutíamos as cores, e sei lá o que, e por aí vai… É complicado de explicar, mas funciona muito bem!

Eduardo: É uma bagunça. O que acontece é que a gente não só tolera ou respeita, mas acolhe as ideias um do outro e fazemos o melhor possível em função da história que queremos contar.

Luís Felipe: Tai, isso que o Damasceno falou é o ponto. Uma coisa é confiar no seu colega e analisar a modificação dele para ver se é boa, mas imaginando que vai vir algo de qualidade. Outra é conhecer a figura com quem você trabalha ao ponto de saber que qualquer coisa que ele modificar vai ficar boa, e no raro caso de não ficar, ele não vai questionar hora nenhuma se você modificar novamente. Não existe preciosismo, “isso tem que ser assim”. É mais, “mudei tal coisa, ok?”. E pronto.

Agora o espaço é de vocês, pode falar tudo o que tiverem vontade!

Eduardo: Obrigado! Eu quero fazer quadrinhos por mais um bilhão de anos. Antes eu achava que tinha que viver tudo até os 30 e que se a vida não tivesse acontecido até lá eu seria um perdedor. Agora eu quero fazer essas coisas até o dia que eu morrer, com a maior calma do mundo. Admiro muito gente como o Alex Toth, Jack Kirby, Tezuka e afins, que tinham mais experiência no mindinho do que eu terei minha vida inteira. Mas eu vou tentar, sem pressa. E vou sempre agradecer todo mundo que vier se divertir comigo. É uma baita honra. Obrigado mesmo.

Luís Felipe: Isso que o Damasceno falou. Igualzinho. Só uma coisinha a mais: Ainda dá tempo de comprar o seu livro!!!! Por favor!!! Vai lá!! Garanta o seu Achados e Perdidos!!!

O PN deseja muita sorte no lançamento de Achados e Perdidos e já não vemos a hora de colocar as mãos em nosso exemplares. Parabéns pelo trabalho!

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  1. Legal demais!! Bem que o Daniel falou ali em cima, depois que vi a primeira história já adorei o trabalho desses caras.
    Parabéns pela ideia e desenhos incríveis.

  2. Belíssimo trabalho! O Pipoca e Nanquim me surpreende nas indicações de tudo quanto é coisa maravilhosa.

    Vou comprar de antemão essa HQ Achados e Perdidos. Pelo jeito será muito maneira.

    Parabéns pelo projeto!

  3. Lembrei de uma edição do reinado sombrio onde os personagens são comparados com musicas!!!!