Entrevista com Guilherme Braga – Tradutor de Lovecraft no Brasil

Galera, fizemos uma entrevista muito boa com o Guilherme Braga, que tem cuidado das excelentes edições de H. P. Lovecraft no Brasil, publicadas pela Editora Hedra, conforme você escutou em nosso podcast especial. Guilherme fala sobre sua carreira, mercado editorial, adaptações e, claro, Lovecraft!

1)               Olá Guilherme. Fale um pouco sobre você e seu trabalho para o público conhecê-lo melhor.

Comecei a traduzir profissionalmente no início de 2005, quando eu ainda trabalhava como professor de inglês em uma escola aqui de Porto Alegre. Aos poucos a tradução começou a exigir mais tempo do que eu poderia dispor na época, e em 2007 acabei me demitindo para me dedicar com maior empenho à tradução. Algumas das minhas traduções publicadas mais conhecidas, penso eu, são as traduções do Kerouac que fiz para a L&PM – Visões de Cody, Big Sur, Anjos da desolação – e as traduções do Lovecraft que venho fazendo para a Hedra, mas também traduzi vários outros autores clássicos e modernos. Sou formado em Letras pela UFRGS e estou terminando um mestrado em literatura comparada.

2)      Você se recorda em que momento começou a se interessar pela obra de Lovecraft? O que mais chamou-lhe a atenção em primeiro lugar?

Comecei a me interessar pela obra do Lovecraft provavelmente na mesma época em que vários outros fãs: na minha adolescência. Era a década de 90 e eu lia muita ficção de horror, em especial Clive Barker e Edgar Allan Poe. Na época a internet não era essa facilidade toda que é hoje, e conseguir livros importados muito menos. Lembro que um dia eu encontrei um site com um grande número de .TXTs do Lovecraft em inglês. Salvei os arquivos, formatei tudo direitinho, imprimi e guardei numa daquelas pastas-arquivo com saquinhos plásticos para começar a ler. Lembro em especial que “O navio branco” me deixou muito impressionado – a descrição da cachoeira em que os sete mares deságuam é uma imagem muito marcante, e sempre gostei de autores que sabem conjurar imagens fortes. Curiosamente, um dos primeiros textos completos que traduzi na vida foi o conto “Os gatos de Ulthar”. Não lembro direito quando foi, mas eu devia ter uns 16 ou 17 anos.

3)      Grande parte dos textos de escritores da geração de Lovecraft permanece inédita no Brasil. Na verdade, apenas uma pequena fração de toda aquela galera que publicava nos pulps foi lançada e, mesmo grandões como Robert Howard, Ray Bradbury e Clark Ashton Smith tiveram péssimo tratamento em nosso país. Você consegue encontrar culpados neste quadro? Há espaço para essa situação ser revertida em tempos que best-sellers costumam ser de fácil digestão?

Da maneira como eu vejo as coisas, a culpa pelo marasmo no nosso mercado editorial é em boa parte das editoras. Há alguns anos eu disse que minha impressão era que muitos editores brasileiros têm ideias para lançar novos títulos vendo a lista de mais vendidos da Livraria Cultura, e não frequentando bibliotecas. Continuo com exatamente a mesma impressão. O número de obras importantes que estão fora de catálogo ou permanecem inéditas no Brasil é absurdo, e pouquíssimas editoras se dão o trabalho de explorar essas lacunas gigantescas. Muito pelo contrário: o que se observa é uma clara tendência a copiar a concorrência ou então a copiar as editoras estrangeiras. O leitor que quer sair dessa mesmice não tem muita alternativa senão aprender uma língua estrangeira, porque esse é um problema generalizado, e não uma exclusividade das figuras que faziam parte do círculo do Lovecraft. Sei que para os leitores cada pequena lacuna preenchida é importante, mas não sou muito otimista quanto à possibilidade de grandes mudanças no panorama geral a curto ou médio prazo. Tomara que eu esteja errado.

4)      Como surgiu a proposta para trabalhar com a editora Hedra?

Foi um convite muito espontâneo. Na época eu já tinha organizado e traduzido um volume de contos do Poe chamado O gato preto para a Hedra e estava traduzindo um romancezinho pornográfico do século XIX chamado Flossie, a Vênus de quinze anos para a editora. Em agosto de 2008 o Bruno Costa, editor da Hedra, me mandou uma mensagem dizendo que estava pensando em me encomendar uma coletânea de contos do Lovecraft quando eu terminasse a Flossie. Topei na hora, porque o Lovecraft era um autor que eu queria traduzir – e o projeto está em andamento até hoje.

5)      Os livros que você traduziu trazem, pela primeira vez, um belo apêndice que, para os leitores que buscam se aprofundar um pouco mais na complexa obra de Lovecraft, se torna essencial. De quem foi essa ideia?

A ideia foi do Bruno, que começou essa história quando me encomendou a tradução da carta que consta no apêndice de O chamado de Cthulhu. Depois dessa carta veio a ideia de incluir outro texto sobre a escritura de contos fantásticos no mesmo volume, e a partir de então os apêndices têm sido um verdadeiro trabalho em equipe. Às vezes o Bruno me dá uma ideia mais ou menos vaga, tipo “Precisamos de uma carta” ou “Precisamos de um conto”, mas ao mesmo tempo me dá liberdade para escolher que carta ou que conto quero incluir. Outras vezes eu mesmo apresento sugestões – que em geral são aceitas, como aconteceu com a árvore genealógica que preparei para o apêndice de A sombra de Innsmouth ou ainda a tradução em versos que fiz do soneto “Antarktos” no apêndice de Nas montanhas da loucura. E acredito que haverá mais boas surpresas para os aficionados nos outros volumes ainda por vir.

6)      Você assistiu as adaptações cinematográficas da obra de Lovecraft? Nós temos apreço especial por Re-Animator, Do Além e Dagon. O que acha dos filmes, de forma geral? Quais são seus favoritos?

Confesso que não assisti muitas adaptações, mas gostei das filmagens de The Call of Cthulhu e The Whisperer in Darkness. O trailer da filmagem alemã de A cor que caiu do espaço também me pareceu bem interessante, mas ainda não tive oportunidade de assistir ao filme.

7)      Um dos destaques do catálogo da Hedra é Nas Montanhas da Loucura, o texto que durante anos esteve associado ao consagrado diretor Guilhermo Del Toro. Muita gente afirma que o volume não pode ser filmado por causa de sua complexidade. Você concorda?

De certa maneira concordo. Não que seja impossível fazer um filme interessante a partir do livro, porque o impossível não existe. Mas eu acho que boa parte do impacto causado pelos escritos do Lovecraft está nas palavras. O simples enredo das histórias em geral não tem muito suspense e costuma ser razoavelmente simples – é a textura da escrita que deixa as coisas mais interessantes. O Lovecraft pode gastar meia dúzia de páginas descrevendo os Grandes Anciões, mas quanto tempo a mesma imagem levaria para ser comunicada em imagens? Um segundo? Seria algo instantâneo. A única possibilidade que imagino para que o filme saísse decente seria algo com uma atmosfera tipo Alien, o oitavo passageiro. Mas não sou nem um pouco radical em relação aos autores que gosto e de muito bom grado assistiria a uma adaptação convincente, mesmo que fugisse um pouco – ou até bastante – do texto do Lovecraft. Em geral acho um pé no saco assistir filmagens idênticas aos livros.

8)      Existe algum texto de Lovecraft com o qual você se identifique mais? Você acha que os elementos bizarros e mórbidos presentes em sua obra encontram respaldo junto as plateias contemporâneas, pouco habituadas a escritores sem concessões como ele?

Minha obra favorita do Lovecraft é A cor que caiu do espaço. Na minha opinião é nesse texto que o Lovecraft encontrou o equilíbrio exato entre dizer e não dizer, insinuar e não insinuar. Em termos da estética, essa novela talvez seja a que corresponde da maneira mais exata ao que o Lovecraft declaradamente queria fazer com a literatura que escrevia. Também gosto bastante de “Celephaïs” e “A música de Erich Zann”.

9)      Guilherme, obrigado pela entrevista. Por favor, deixe uma mensagem para nosso leitores e, se quiser fazer um jabá, essa é agora.

Bom, quero em primeiro agradecer todo mundo que tem escrito resenhas favoráveis e elogiosas desses livros do Lovecraft editados pela Hedra. Embora eu não costume trocar mensagens em fóruns públicos da internet, costumo acompanhar as resenhas e os comentários sobre as minhas traduções e sobre o livro em si, e tenho achado muito legal ver que os leitores têm prestado atenção a todo o trabalho envolvido no livro – a tradução, os apêndices, as introduções, o projeto gráfico e o trabalho editorial. Fiquei particularmente feliz quando encontrei resenhas que comentavam o vocabulário erudito e as construções rebuscadas na tradução – como eu disse, acho que o horror lovecraftiano está em boa parte na linguagem, e parte do que eu queria fazer era apresentar um texto nesses moldes aos leitores brasileiros.

Deixe uma resposta

  1. Parabéns Guilherme Braga pelo excelente e penoso trabalho que é traduzir de maneira soberba os escritos de Lovecraft. Tomei contato com a obra do autor há cerca de 2 anos e foi identificação instantânea, até porque também sou grande fã da obra de Robert Howard. Parabéns a Hedra e ao Pipoca e Nanquim; a editora por trazer o horror lovecraftiano para o Brasil e ao site pela divulgação. Grande abraço a todos.

  2. ótima entrevista, adorei, mas infelismente eu não consigo encontrar o livro O Horror de Dunwich para venda, já procurei nas livrarias e até na Comix e não encontro. =(