Uma Breve História dos Jogos de Tabuleiro (Parte 2)

Na segunda parte do nosso texto vamos falar sobre como o mercado de jogos atingiu seu ápice e entrou em declínio. Caso não tenha lida a primeira parte, clique aqui.

A Idade de Ouro (1960-1995) – A ascensão e o colapso do mercado americano.

Dos anos 1960 ao início dos 1980, a indústria mundial de jogos de tabuleiro foi dominada pelas empresas americanas.  As demais indústrias mundiais limitavam-se praticamente a publicar traduções dos jogos comercializados nos Estados Unidos.

Com poucas exceções, a indústria era dividida entre jogos relativamente simples e familiares como Life (Jogo da Vida, de 1960), Risk (War na adaptação brasileira, de 1959) e Careers (Jogo das Profissões, de 1955) produzidos, na sua maioria, por Milton Bradley e Parker Brothers; e jogos de cenários históricos e de maior complexidade estratégica como Afrika Korps (1964), Panzerblitz (1970), Squad Leader (1977), Ironclads (1979) e Civilization (Não confundir com o Civilizationde Sid Meier, adaptação em tabuleiro baseada no jogo de PC e que já teve duas versão, de 1982) produzidos pela Avalon Hill, Strategy &Tactics Magazine, Game Designer’s Workshop (GDW), Yaquinto, Battleline e um grande número de outras empresas. Estes últimos eram produzidos para o público adulto, com centenas de títulos cobrindo os principais conflitos e eras históricas.

Os mais complexos desses wargames tinha manuais de regras com vinte ou mais páginas. Um exemplo extremo foi Drang Nach Osten da GDW (1973), uma simulação do front oriental da Segunda Guerra Mundial. Seu mapa cobria a maior parte de uma mesa de ping-pong, e exigia dezenas horas de jogo com os jogadores organizados em equipe de três.


Alguns jogos de estratégia tratavam de conflitos econômicos ou de construção de civilizações, seus mapas apresentavam divisões de províncias ou regiões em vez de hexágonos, por exemplo,  Britannia (1986) da Gibsons Games, o Civilization da Avalon Hill e Conquest of the Empire (1984) da Milton Bradley, a clássica série Gamemaster de jogos de estratégia, que também incluía Axis and Allies (1981) e Shogun (1984). Esses jogos do final da Era de Ouro utilizavam métodos mais simples para solução de conflitos que os wargames anteriores e, em alguns casos, incluíam peças de plástico ou arredondadas, contadores de recurso ou cartas de civilização (estes se tornaram mais importantes nos jogos da Idade de Prata).

Outro gênero de jogo que se tornou tremendamente popular na Idade de Ouro foi o role-playing game (RPG). Estes jogos envolvem os jogadores na interpretação de personagens individuais em uma série de aventuras e conflitos em universos de fantasia, terror e ficção científica. O rei destes é o Dungeons and Dragons (cuja primeira edição data de 1974 e a quarta de 2008) que, com diversas expansões e variantes, tornou-se tão popular que gerou um pânico moral pelo medo de que jogadores menores de idade ao interpretarem papéis de magos, elfos e anões, levassem isso tão a sério a ponto de, na vida real, cometerem assaltos, homicídios e suicídios. Parte do público dos RPGs foi tomado nas últimas décadas por jogos de computador de aventura e fantasia, que eliminam a necessidade de um “mestre de jogo” e de conjuntos complexos de regras de interpretação, pois o computador faz todos os cálculos e cria os cenários de jogo.

Dois outros gêneros de jogos de tabuleiro da Idade de Ouro que merecem menção são os jogos da família baseada no conhecimento, tais como Trivial Pursuit (1981) e Balderdash (1971) onde o jogador vence com base na inteligência e memória para trivialidades. Trivial Pursuit publicou dezenas de expansões e variantes, e é popular ainda hoje.

O segundo gênero é o de jogos sobre a exploração espacial e de combate de nave, que ocupava um nicho importante do mercado dos jogos de tabuleiro na Idade de Ouro. Um desses jogos foi Star Fleet Battles (de 1979 até hoje), um jogo de nave de combate no universo original da série de TV Star Trek. Seu manual de regras completo requer um fichário grande para organizar tudo, incluindo uma série interminável de folhetos de expansão que adicionavam novas regras e centenas de desenhos para um punhado de novas naves (estas expansões estão sendo produzidos até hoje). Ele foi adaptado para dois jogos de computador chamados Star Trek: Starfleet Command (1999) e Comando da Frota Estelar II: Empires at War (2001), onde os jogadores comandam uma única nave, em batalhas táticas e campanhas estratégicas.
Outros exemplos de jogos de ficção científica desse período incluem Avalon Hill’s Stellar Conquest (1975) e GDW’s Imperium (1977).

A crescente popularidade e sofisticação dos jogos de computador a partir do final de 1980 e durante a década de 90 reduziu seriamente a produção das empresas americanas de jogos de tabuleiro, levando várias delas à falência e forçando as sobreviventes a reduzir drasticamente sua produção. Mesmo a poderosa Avalon Hill, a maior casa de produção de jogos durante a Idade de Ouro, foi dissolvida no final de 1990 e seu catálogo adquirido pela Hasbro, que re-lançou uma série selecionada de títulos.

Nesse cenário de prosperidade surge o primeiro jogo de tabuleiro moderno sobre zumbis. Dawn of the Dead foi um jogo sobre mortos vivos criado por John H. Butterfield (um designer bem conhecido do período) e lançado em 1978.

O jogo era baseado no filme homônimo de George Romero e chegou a alcançar algum sucesso comercial sendo produzido até 1981 e recebeu até uma edição japonesa.

Depois dele o mercado demorou mais de uma década para produzir o seu próximo título de relevância sobre o tema.

O período foi tão bom que reflexos chegaram ao Brasil. No final da década de 70 até metade da década de 80, editoras brasileiras (mais notadamente a Grow) chegaram a lançar diversos títulos do mercado americano no Brasil. Algo ínfimo se comparado ao volume do mercado internacional, mas relevante se comparado ao mercado nacional moderno.

A Era de Ouro dos jogos de tabuleiro americanos acabou com a chegada do Commodore, Amiga e Atari ST s prateleiras das lojas em 1985. Nesse período grandes empresas foram à falência, incorporadas por outras maiores. O computador pessoal matou a popularidade dos jogos de tabuleiro para adultos, pelo menos no mercado americano.

No próximo capítulo: Os europeus assumem as rédeas do mercado de jogos de tabuleiro e revolucionam sua produção.

Ir para a parte 3.

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  1. c9 isso aed, Prof. MichelJoguei e aprovei. Valeu pela dica!Enquanto pveserras a memf3ria histf3rica. Eu distribuo um preamio para vocea. Veja le1 no Saiba Histf3ria.Abrae7os, deste Rio de Janeiro com noite chuvosa!