Persépolis: Uma Obra Obrigatória

Recentemente tive a oportunidade de ler a edição de Persépolis lançada pelo Quadrinhos na CIA e a sensação que tive ao terminar a revista foi de vergonha. Em primeiro lugar, vergonha de fazer parte da raça humana. Em nosso mundo tecnológico, capitaneado pela força da Internet, cheio de informações instantâneas, relacionamentos superficiais, muito entretenimento e pouco aprofundamento, é bastante fácil de esquecer que em algumas partes do mundo, a atrocidade, intolerância, degeneração e fanatismo reinam incontroláveis. E vergonha também por ser um colecionador e especialista em HQs, que até hoje não tinha tomado contato com uma obra seminal como essas.

Primeiro vamos à edição da Quadrinhos, que na minha opinião, é primorosa. A editora apresenta todos os volumes de uma só vez, completos. Ponto a favor. A ausência de uma boa introdução, prefácios e extras que se tornaram comuns nas publicações atuais é facilmente explicada: nada deve influenciá-lo quando você ler Persépolis. É uma história que não precisa de carta de apresentação, nem referências. Ela fala por si só. O que pode ser dito sobre a HQ que ela própria não fala? Também acredito que a opção da editora em lançar materiais com capa cartonada é acertada, pois em um país que lê tão pouco quanto o nosso (e cuja distribuição de renda é tão desigual), fugir da capa dura que torna o preço dos produtos proibitivo é uma necessidade.

Persépolis é um daqueles quadrinhos que ultrapassa o nicho de leitores que os consomem habitualmente e atinge outro público, não necessariamente fã da nona arte, porém ávido por boas histórias. Se coloca ao lado de obras como Maus, Watchmen, Ken Parker, Lobo Solitário… histórias que transcendem os estereótipos e cuja qualidade inquestionável explica o fascínio que despertam. A obra de Marjana Satrapi possibilita a reflexão de questões complexas e contemporâneas, as quais fogem à nossa realidade (e entendimento). Ler sobre um fato ou estudá-lo é seguramente diferente de vivenciá-lo e assim, em capítulos excepcionais como o A Chave e As Ovelhas, a autora nos coloca a par de todo o caos que os iranianos viveram durante o período de revolução islâmica que assolou o país no início da década de 80.

Mas Persépolis é mais do que um exercício de imaginação para o leitor; tal qual obras magnânimas da literatura, oferece uma oportunidade de amadurecimento pessoal. Se os desenhos de Marjane não correspondem exatamente ao prazer estético comumente esperado de uma HQ de ponta, vale ressaltar que após a leitura de algumas páginas, ao se acostumar com o estilo simples e paradoxalmente detalhado que ela impõe, o leitor entende que a arte contribui imensamente para a experiência singular que é a leitura de Persépolis.

Uma junção perfeita do campo da imagem com o da palavra, esta HQ é uma obrigatoriedade para qualquer leitor, amante ou não de HQs.

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  1. É tão bom assim!?
    É como se eu tivesse sentido a satisfação que você teve ao ter lido esse livro.
    Tenho ele aqui em casa, mas nunca li, justamente pelo fato do desenho não ter me chamado a atenção.

  2. Excelente obra, até minha esposa que não curte quadrinhos adorou, aliás não só essa como todas as obras da marjane satrapi são excepecionais, mas persepolis éde longe a mais legal

  3. Ja havia ouvido Falar muito bem de Persépolis e devido ao preço resolvi baixar o scan antes de gastar acho que 43,50 quando saiu o encadernado completo. Vi os desenhos e confesso que não me empolgou muito.
    Agora vou dar uma olhada melhor nela.
    Existe até um filme lançado em 2009 com direção da própria marjane Satrapi. que tb baixei e ainda não vi. http://www.youtube.com/watch?v=3PXHeKuBzPY

  4. Por curiosidade comprei essa edição especial na Anime Friends desse ano em SP, e não me arrependi, a edição é primorosa e te prende do inicio ao fim, é inteligente, surpreendente.

    Minha esposa também leu e a achou fabulosa, tanto que esssa edição foi um ponta pé para que ele lesse mais quadrinhos como MAus, Sandman, Fracasso de Público e etc…

    Esse livro é excelente e recomendo para todos leitores de bons quadrinhos.

  5. O quadrinho é uma grande obra! Uma aula sobre o que ocorre por aqueles lados, o preconceito, o quanto o homem é desumano… O desenho animado poderia ser melhor, mas ai teria que ser mais extenso, para poder falar sobre todo o quadrinho… Excelente post!

  6. Tem duas graphic novels que são minha escolha padrão pra apresentar quadrinhos pra quem normalmente torce o nariz: Persépolis e Retalhos. Sempre funciona 😉

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