Os verdadeiros “Heróis da TV” dos quadrinhos!

Um breve ensaio sobre a antiga coleção de HQs totalmente elaborada em solo brasileiro que estrelava grandes heróis japoneses de uma época fantástica, exibidos diariamente nos clássicos seriados nipônicos da extinta TV Manchete em meados nos anos 1980, configurando-se num dos primeiros “mangás” nacionais.

Hulk? Thor? Homem-Aranha? Conan? Nenhum deles estrelou essa série. Opa, calma! Estamos aqui falando de outra série intitulada “Heróis da TV”, que não mantinha nenhuma semelhança com os famosos super-heróis americanos da editora Marvel. Isso mesmo: na mesma época em que os encapuzados da “Casa das Ideias” estrelavam uma série em formatinho bem diversificada, uma terceira coleção homônima[1] viria alguns anos após, dessa vez protagonizando outro gênero de vigilantes.

Pouco mais de duas décadas já se passaram desde que um fenômeno de audiência atingiu a televisão tupiniquim, marcando a infância de toda uma geração que hoje relembra, com saudades, daqueles tempos onde heróis de armaduras e colantes coloridos enfrentavam monstros gigantes e criaturas mutantes dos mais longínquos recônditos do espaço ou mesmo da Terra. Para os fãs mais antigos, figuras como Jaspion, Changeman, Jiraiya, Black Kamen Rider, Cybercops, Jiban e tantos outros dominavam, em sua maioria, as tardes da extinta TV Manchete.

Oriundos do gênero Tokusatsu – os famosos seriados japoneses em live-action, de modesto orçamento visual e artístico – tais super-heróis de olhos puxados estampavam sua marca em brinquedos, álbuns de figurinhas, discos de vinil, roupas e até mesmo numa espécie de circo-show itinerante que passou por algumas cidades brasileiras.

Naturalmente, como ocorre em fenômenos semelhantes, os quadrinhos foram mais uma das plataformas midiáticas exploradas – ainda que a qualidade das histórias fosse bem aquém das tramas de seus respectivos seriados, apesar do esforço em manter a ingenuidade característica destes. E o mais interessante: todas elas eram 100% nacionais, escritas e desenhadas por artistas brasileiros.

Depois de algumas publicações anteriores por outras editoras brasileiras, em novembro de 1990 a editora Abril apostou no sucesso reinante dos tokusatsus nos programas matinais e vespertinos da tevê nacional e tratou de lançar o número 1 de “O Fantástico Jaspion”, em formatinho e com páginas coloridas, exatamente nos mesmos moldes das outras revistas de linha que a editora disponibilizava nas bancas.

Essa edição inaugural – bem como todas as que se seguiram – apresentava duas histórias: a primeira, sempre estrelada pelo herói do título, e a segunda por algum outro herói ou grupo de heróis (neste caso da primeira edição, foi o Comando Estelar Flashman). Ambas passavam-se algum tempo depois do fim dos respectivos seriados, mostrando aventuras “inéditas” destes combatentes do mal.

Apenas um ano depois, no número 12, a revista mudaria de nome e zeraria sua numeração: passaria a se chamar “Heróis da TV”, dessa vez revezando “episódios” desses aventureiros em suas páginas e publicando outros que ainda não tinha dado as caras, como Spielvan (erroneamente conhecido como Jaspion 2), Black Kamen Rider e Cybercops. Mais: alguns crossovers pintaram no gibi, a exemplo de Maskman vs. Chageman e Jaspion contra Spielvan. Sem contar participações que determinado metal hero ou super sentai fazia um na história do outro e vice-versa.

Nomes hoje conhecidos do panorama nacional dos quadrinhos – tais como Alexandre Nagado e Marcelo Cassaro, responsável pelos roteiros da série de sucesso Holy Avenger – contribuíram com muitas dessas tramas, estendendo as histórias originais e até mesmo inventando novos personagens.

Por vezes, tal iniciativa gerava certas confusões na cabeça do leitor infanto-juvenil: anatomias e roupas diferentes, cores discrepantes com o visual estabelecido na telinha, cenários incomuns e até mesmo acontecimentos que iriam contradizer certos eventos que ainda seriam mostrados nos episódios originais dos seriados televisivos. Todos esses inconvenientes até que foram amenizados quando a Heróis da TV chegou, gerando uma maior fidelidade conceitual e visual entre as histórias, configurando também um grande salto na qualidade dos desenhos.

Uma possível explicação para tais diferenças do visual da TV e dos gibis talvez fosse a forte influência que os quadrinhos norte-americanos possuíam na época. Não era raro ver um Jaspion ora corpulento e posudo, ora magricela e cínico; algum integrante do Maskman ou Changeman com agilidades acrobatas que fariam o Homem-Aranha corar; ou mesmo monstros e criaturas cósmicas espelhados nos variados vilões que habitavam o universo Marvel ou DC. Além do mais, a própria narrativa seguia esse padrão, com cenas e ângulos muito semelhantes aos comics.

Das características típicas dos mangás, praticamente não tinham nada – mas, ao menos, fora um tépido começo para as produções nipo-brasileiras, que de uns tempos para cá começaram a proliferar com mais força, através de corajosas iniciativas em um mercado tão competitivo e ausente quanto ao um apoio necessário aos artistas nacionais envolvidos.


[1] A primeira coleção de HERÓIS DA TV, lançada pela editora Abril, iniciou-se em 1975 com a primeira edição que trazia personagens dos estúdios Hanna-Barbera (Herculóide, Homem-Pássaro, Corrida Maluca, Space Ghost, etc.) – era uma espécie de continuação do título de mesmo nome que a editora O Cruzeiro matinha desde meados dos anos 1960, com os mesmos personagens. A segunda coleção surgiu quatro anos depois, em 1979, dessa vez apresentando um mix de histórias de vários super-heróis da editora Marvel Comics (Homem-Aranha, X-Men, Vingadores, Thor, etc.).

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André Craveiro é advogado, portador de veia cinéfila, excelente palato musical e apurado interesse por livros de qualidade (romances, poemas, doutrina, filosofia, contos, entre outros) e histórias em quadrinhos. Colaborador assíduo do Universo HQ e do Pipoca & Nanquim, é apaixonado pela cultura pop em geral, mas não sabe nada de Star Trek… Afinal, o que significa aquele gesto simbólico na forma de um “V” duplo, feito com a mão?

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  1. Noossa… belo post!!! Putz cara, que saudade da TV Manchete…

    Será que é muito difícil achar esses quadrinhos hoje??

  2. Olá Jairo!

    Que bom que gostou. Fiz especialmente pros antigos fãs desses seriados clássicos.

    Olha, dificil até que não é. Você consegue achar várias edições avulsas em sebos e sites de venda (mercado livre tem vários). COmplicado mesmo é achar uma coleção completa, por exemplo.

    E ainda tem as séries de outras editoras, com Jiraiya e Machineman.

    Grande abraço!

  3. O Pipoca só me surpreende a cada dia.

    Que belo post nostálgico esse!

    Parabéns ao colaborador André Craveiro, espero que a parceria com o pipoca tenha vida longa.

    Site fodaaa!

  4. Kralho, q post legal. Fiquei feliz e nostálgico aqui. Admiton que desconhecia a existência destes quadrinhos até este momento.

    Obrigado pelo post.

  5. Há-há-há

    Muito obrigado pelo post André. Sinta-se livre para enviar textos sempre que quiser, a casa é sua. Nunca li nada desses quadrinhos pois sou de "outra fase", mas na minha infância comprava as revistas do ancestral deles, Spectreman, que saía pela Bloch. Infelizmente esta é uma das coleções que não tenho mais hoje.

  6. Muito boa matéria, mas seria legal se vocês disponibilizassem as edições para download também, muito obrigado um forte abraço e sucesso!