O Quarto Vivente – Análise e Interpretação

Por Paulo Cecconi, Lauro de Luna Larsen e Janaina de Luna Larsen.

Aviso:

Esta resenha contém várias informações relacionadas à obra comentada. É direcionada às pessoas que já leram a HQ. Recomendamos fortemente que, caso não tenha lido O Quarto Vivente ainda, adquira aqui: http://www.dimensaolimbo.com/

Comprou? Leu? Podemos prosseguir…

Mas, afinal, o que é O Quarto Vivente?

O Quarto Vivente é uma história em quadrinhos lançada em 2013 pelo quadrinista brasileiro Luciano Salles. Totalmente auto-financiado, o gibi ganhou destaque em vários blogs e sites, teve diversos reviews, e o autor foi evidenciado como uma gande promessa para os quadrinhos nacionais. Porém, o que todas as resenhas e festejos não falaram foi sobre o que o autor quis contar na história. Muitas resenhas apontavam para uma obra aberta à interpretação, citavam referências de filmes ou de quadrinhos, e todas eram muito genéricas ao descrever o enredo. Foi notando esse entendimento difuso que resolvemos desvendar a obra. As informações propostas são baseadas na pesquisa de vários aspectos religiosos, filosóficos e estéticos.

Esta resenha acompanha várias páginas do gibi, analisando a maior quantidade de detalhes que foi possível, e, ao fazê-lo, descobrimos que a obra é ainda mais rica do que percebemos numa primeira leitura e não imaginávamos a quantidade de surpresas reservadas aos leitores mais atentos, fazendo emergir os significados por trás dos números, nomes, cores e enquadramentos.

Então, à obra:

Podemos explicar do que O Quarto Vivente trata em uma palavra: apocalipse. Não o apocalipse do senso comum, o fim do mundo, mas um apocalipse ligado às tradições católicas. A palavra, em sua origem, significa “revelação”. Com isso em mente, é preciso que entendamos o termo pela sua linguagem profética.

Segundo a teologia das igrejas protestantes, João teria recebido visões de Jesus Cristo por meio de um anjo. Uma destas visões era o Juízo Final. Neste contexto temos a seguinte linha escatológica:

  1. Carta às igrejas.
  2. Princípio das dores (pequenas catástrofes).
  3. Abertura dos selos (Cavaleiros do Apocalipse, clamor dos mártires, grande terremoto e abalos celestes).
  4. Governo do Anticristo por 7 anos, (Sinal da Besta, Paz, Guerras).
  5. Anjos derramam taças sobre a Terra, que significa a ira de Deus em 7 etapas, (Fome, Pestes, Terremotos, Maremotos, etc.).
  6. Volta de Jesus Cristo e da igreja a Terra.
  7. Governo Milenar de Jesus Cristo.
  8. Juízo Final
  9. Novo Céu e Nova Terra

Nossa primeira análise desse futuro distópico será embasada no item 5 mencionado acima. A história não nos dá nenhuma informação precisa sobre o passado, porém, é bem clara sobre o sentimento geral do contexto sócio-político do presente. Na página 8 temos um painel de página inteira nos apresentando esse presente/futuro. O ano é 2177, e o texto indica algo importante acontecido 88 anos antes da data:

“Fostes no ano de 2089 o início do processo das novas configurações tectônicas. Em 57 anos, toda antiga Eurásia submeteu-se às novas acomodações movidas por terremotos e maremotos. A salinidade oceânica invades as novas aberturas e os expulsa”.

O trecho acima possui vários pontos de intersecção com o período que se denomina “A grande tribulação”. Esta expressão se refere a um período de tempo descrito na Bíblia como sendo de grande aflição mundial, que antecederia a presença de Jesus Cristo e, por consequência, julgamento por parte de Deus. Seu nome se origina do livro bíblico de Mateus, capítulo 24, versículo 21:porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá“.

Vale destacar a passagem:

Apocalipse 8:6-13

6. E os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para tocá-las.
7. E o primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e foram lançados na terra, que foi queimada na sua terça parte; queimou-se a terça parte das árvores, e toda a erva verde foi queimada.
8. E o segundo anjo tocou a trombeta; e foi lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar.
9. E morreu a terça parte das criaturas que tinham vida no mar; e perdeu-se a terça parte das naus.
10. E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.
11. E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas.
12. E o quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhasse, e semelhantemente a noite.
13. E olhei, e ouvi um anjo voar pelo meio do céu, dizendo com grande voz: Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra! por causa das outras vozes das trombetas dos três anjos que hão de ainda tocar.

Ou ainda,

Zacarias 13:8

Em toda a terra, diz o Senhor, dois terços dela serão eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela.

Aprofundando ainda mais o significados da descrição feita, observamos que é mencionada a salinidade da água e como ela invadiria a Terra por fendas. Estas informações também batem com as profecias do monge devasso Grigori Rasputin, um místico russo, figura politicamente influente no final do período czarista. Reparem neste trecho de uma de suas profecias:

“Os mares entrarão como ladrões nas cidades, nas casas e as terras se tornarão salgadas. E o sal entrará nas águas e não haverá água que não esteja salgada. As terras salgadas não darão mais fruto e, quando derem, será um fruto amargo. Por isso será visto terrenos férteis serem transformados em pântanos salgados. E outras terras secarão por um calor que estará aumentando. O homem se encontrará sob chuvas salgadas e caminhará nas terras salgadas e andará errante entre a seca e a inundação.”

Todas as passagens citadas colaboram com o desaparecimento de dois terços da Terra. O povo sobrevivente ao cataclisma foi repatriado fraternalmente e, com o final da grande tribulação, chega o momento do novo Cristo. Neste momento, apresentamos a protagonista: Juliett-E Manom. 

Verifiquemos, primeiramente, o nome da personagem. Provavelmente, primeira ideia que vem à mente da maioria é Julieta, de Romeu e Julieta, do dramaturgo William Shakespeare, uma das suas obras mais conhecidas no mundo inteiro.

Hoje, o relacionamento dos protagonistas da obra do autor é considerado como o arquétipo do amor juvenil. Romeu e Julieta tem como temas principais a descoberta que as personagens fazem sobre os seres humanos, compreendendo que eles não são nem totalmente bons, nem totalmente maus, mas que, em vez disso, são um pouco dos dois; o despertar da fantasia onírica e a entrada para a realidade; o perigo que existe na ação precipitada sem qualquer tipo de racionalização, e o poder que existe num destino trágico. É possível que Luciano Salles tivesse isso em mente, mas o fator determinante na escolha do nome da personagem não reside nisso, mas na sua etimologia. Juliett deriva de Julianne, que tem como significado a Jovialidade. Manom, em francês, significa um diminutivo para o nome Maria. Percebemos, então, que a trama possui uma Jovem Maria, em concordância com a simbologia cristã na história.

Na primeira aparição de nossa “Jovem Maria” na história, ela tem um diálogo com alguém ou alguma coisa de origem desconhecida. Nesse diálogo, essa “voz do além” menciona que Juliett-E deve se resolver em relação à decisão que tomou, para fechar um plano chamado Leucas-Hibridumanizado. O nome “leucas” vem da baleia beluga (Delphinapterus leucas). Hidrumanizado é a junção de hidro (água) com humano.

Outra coisa que podemos notar nesse primeiro contato com a a protagonista são algumas peculiaridades físicas de Juliett. Ela possui duas formas geométricas em sua face: um círculo e um triângulo invertido. Novamente temos consciência do trabalho minucioso do autor para enriquecer sua narrativa com significados à espera de um leitor curioso. Essas figuras geométricas não são puro esteticismo. Na verdade, são símbolos presentes nas mais diversas culturas. Inclusive, o círculo marca todas as páginas ímpares do gibi, e o triângulo, as pares.

O círculo

Na simbologia das formas, o círculo é associado ao ponto e ambos podem ser considerados como sinais supremos de perfeição, união e plenitude. O ponto simboliza o centro e a divindade. O círculo é também sinónimo de movimento, expansão e tempo.  O tempo circular e cíclico da tradição e da Antiguidade opõe-se ao comum e moderno conceito de tempo linear. Tanto na Babilónia, como na antiga Grécia ou nos primeiros tempos da cristandade, o círculo simbolizava a eternidade.

O Triângulo isósceles negativo

O triângulo, com o ápice para baixo, representa o ternário feminino e a figura da mãe. Ou seja, o princípio espiritual penetrando e vivificando a matéria. A faculdade.

1

De volta à Juliet, ela então se encaminha para casa. Nesse momento vemos a imagem de um grade relógio digital com o horário 21:55.

Partindo agora para a numerologia, encontramos significados para os números citados.

21 também pode ser considerado 9 (21h da noite). O 9 representa o início de um novo ciclo. É mais uma jogada subjetiva de Luciano, que aos poucos dá dicas do verdadeiro enredo da HQ. É interessante notar também que OQV representa também um novo ciclo para o próprio autor, sendo seu primeiro trabalho após abandonar um emprego de mais de 11 anos como bancário. 

Depois há o 55. O número 5, isolado, representa a liberdade, característica marcante e forte da protagonista. O 5 duplo, no caso, também faz referência ao próprio autor, já que ele também, agora, possui uma nova liberdade de escolhas no rumo tomado.

Visto que essa não é uma análise que respeita a cronologia da história, voltemos às primeiras páginas do gibi:

A história começa com um bizarro diálogo entre dois idosos. O vocabulário, tanto dos recordatórios quanto dos personagens, já apresenta elementos linguísticos que são uma expressão dos 88 anos em que a todos os franceses foram fraternalmente aceitos no território brasileiro. É notável o exercício de imaginação empregado pelo autor para mostrar o impacto que essa nova configuração mundial traria para a língua portuguesa. Muitas das expressões usadas pelos personagens têm sua origem francófona. Umas das palavras mais recorrentes que permeia o texto é D’accord (de acordo). A escolha da palavra é mais uma amostra da preocupação do autor em dar profundidade a sua história. Peguemos a sua definição no dicionário:

a.cor.do
(ôsm (de acordar1 Harmonia de vistas; concordância, concórdia, conformidade. 2 Convenção, convênio, tratado, pacto. 3 Tino, reflexão.

Uma expressão interessante que entra em conflito com o contexto social do tempo da história. Luciano faz questão de mostrar na terceira página do gibi (imagem abaixo), que vem logo após o diálogo dos velhinhos, que não há espaço para acordos na nova ordem mundial, e todos devem seguir na mesma direção, sem possibilidade de escolhas.

4

 

 

Note a falta de janelas nos carros ou mesmo nas edificações que passam ao largo da via, demonstrando a falta de necessidade de contato com o outro e extrapolando uma conduta totalmente egocentrista. O egocentrismo, aliás, é a qualidade da personalidade humana que remete ao indivíduo que prioriza a si e a seus desejos diante da realidade, tornando-se imerso em uma fantasia apropriada a esse padrão de aceitação e não enxergando a realidade da vida social e das necessidades de outros indivíduos em relação às suas.

Há de se prestar atenção em algumas simbologias já nestas páginas de abertura. Os velhinhos, por exemplo, indicam o fim de um ciclo, algo que está prestes a terminar. Logo após, temos a imagem da autoridade: o policial(um oficial de algum tipo). A ação mostrada no painel, pisando com seu coturno em uma massa cinzenta que espalha pigmentos coloridos, representa a força opressora esmagando a criatividade, a livre escolha.

Retornemos agora à Juliett, que, na página 06 chega ao local onde mora. Este é mais um momento de grandes simbolismos. Em seu prédio, o painel do elevador mostra os números 13 (semioculto pelo dedo da personagem), 14, 15 e 16. Através do recordatório descobrimos que ela mora no décimo quarto andar, mas sempre escolhe o décimo terceiro e faz o último lance por escadas, com câmeras e as sempre presentes telas holográficas. Entendendo o procedimento de Juliett de sempre descer num determinado andar e subir as escadas até chegar em casa como um ritual imposto por ela mesma, percebemos, através dos números mostrados, que este é seu momento de autocontemplação, e o leitor descobre o que se passa em sua mente e coração: um sentimento de isolamento e solidão.

Vejamos o Salmo 13:

1. Até quando, Senhor?
Para sempre te esquecerás de mim?
Até quando esconderás de mim o teu rosto?
2. Até quando terei inquietações
e tristeza no coração dia após dia?
Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim?
3. Olha para mim e responde, Senhor, meu Deus.
Ilumina os meus olhos,
ou do contrário dormirei o sono da morte;
4. os meus inimigos dirão: “Eu o venci”,
e os meus adversários festejarão o meu fracasso.
5. Eu, porém, confio em teu amor;
o meu coração exulta em tua salvação.
6. Quero cantar ao Senhor
pelo bem que me tem feito.

O mesmo ocorre com o Salmos 14:

1. Diz o tolo em seu coração: “Deus não existe”.
Corromperam-se e cometeram atos detestáveis;
não há ninguém que faça o bem.
2. O Senhor olha dos céus
para os filhos dos homens,
para ver se há alguém que tenha entendimento,
alguém que busque a Deus.
3. Todos se desviaram,
igualmente se corromperam;
não há ninguém que faça o bem,
não há nem um sequer.
4. Será que nenhum dos malfeitores aprende?
Eles devoram o meu povo
como quem come pão
e não clamam pelo Senhor!
5. Olhem! Estão tomados de pavor!
Pois Deus está presente no meio dos justos.
6. Vocês, malfeitores,
frustram os planos dos pobres,
mas o refúgio deles é o Senhor.
7. Ah, se de Sião viesse a salvação para Israel!
Quando o Senhor restaurar o seu povo,
Jacó exultará! Israel se regozijará!

Estes dois Salmos, representados na história como o local por onde ela sempre passa (décimo terceiro andar) e o lugar onde ela mora (décimo quarto), claramente expressam o sentimento de falta de propósito (Deus) no mundo apresentado. Esta ideia é corroborada pelo uso contínuo da palavra Acaso no gibi. Na definição do dicionário:

Acaso
1. Fato imprevisto; casualidade.
2. Sorte, destino.
3. Casualmente.

Se aprofundarmos um pouco mais, Acaso (do latim a casu, sem causa) é algo que surge ou acontece a esmo, sem motivo ou explicação aparente. A palavra tem três sentidos diferentes, que dependem do significado que se dá à palavra causa:

1 – Algo que acontece sem finalidade ou sem objetivo, isto é, algo sem causa final. Neste sentido, o acaso, filosoficamente entendido, se opõe à teleologia.

2 – Algo que acontece sem ser consequência de algo passado, ou seja, efeito que não se explica por uma determinação precedente. Neste sentido, o acaso, filosoficamente entendido, se opõe ao pré-determinismo.

3 – Algo que acontece sem ser explicado. Nesse sentido, o acaso, filosoficamente entendido, se opõe ao determinismo.

Voltemos ao apartamento de Juliett. Esperando por sua encomenda, ela adormece e sonha. O sonho é marcado pela interação da protagonista com um camaleão. Juliett-E pergunta o que a criatura foi, sugerindo que os animais não sejam algo muito comum no presente/futuro. O réptil responde que é natural que ela não saiba, pois foi extinto há anos.

Fica evidente, no diálogo, que o camaleão é uma referência a Lúcifer, quando ele explica a Juliett que foi o mestre dos disfarces. Um dos apelidos pelo qual Lúcifer é conhecido é justamente “Pai das Mentiras”.

Compreendido este fato, é natural caracterizar o animal na trama como uma representação do mal, porém, analisemos sobre outros ângulos. Podemos dividir em três vertentes o campo da interpretação de sonhos: o censo comum (Significado Tradicional), Freud e Jung.

Significado Tradicional
Diz-se que sonhar com um camaleão é um mal presságio, que anuncia  que apouca sorte tomará todos os aspectos para tombar sobre nós.

Freud
Freud considera o sonho com um camaleão, para uma mulher, como uma expressão da vontade de tornar-se similar ao homem, de perder a personalidade. Para um homem, é a recusa de aceitar o mundo tal como é.

Jung
Para Jung, o significado do sonho com um camaleão é que o equilíbrio interior está conseguido, mas à custa de concessões recíprocas que provocam erosão da personalidade. Este sonho recorda que é necessário fugir a essa apatia.

Todas elas encontram eco na história do Luciano, mas podemos ir um pouco além e tentar COMPREENDER o papel de um camaleão no desenrolar de histórias em geral como um arquétipo. Joseph Campbell, em sua análise de Star Wars, criou um arquétipo para o significado do camaleão:

O Camaleão é um arquétipo que faz jus ao nome: assim como o lagarto que muda a cor de seu corpo de acordo com o ambiente para se camuflar e esconder-se do inimigo, o personagem cujo arquétipo é o Camaleão tem como característica principal as mudanças (que podem ser físicas ou psicológicas). Ele muda seu comportamento para se adequar a uma determinada situação, o que muitas vezes pode ser perigoso para o herói que, por não conhecer a verdadeira personalidade do Camaleão, nunca saberá se ele é verdadeiramente confiável. A função do camaleão é trazer dúvida e suspensa à história. São projeções de nossos lados “ocultos” que podem vir à tona a qualquer momento. Esse arquétipo é muito utilizado em filmes de suspense, onde o melhor amigo do herói ou a pessoa que ele menos desconfiava vai se mostrar alguém totalmente diferente do que era no início da narrativa, tornando-se um assassino de sangue frio ou um traidor.”

Na história, o camaleão é a tentação para Juliett se desviar, e serve também como porta de entrada para o fantástico na história.

É interessante perceber que, ao acordar, a primeira ação da personagem é ligar para seu interesse amoroso. Notamos seu desconforto com o sonho através de painéis mostrando os pés da jovem se contorcendo, sugerindo uma evidente ansiedade. Nessa ansiedade, ela liga para seu interesse amoroso, como uma forma de se tranquilizar e validar a própria existência.

É então que a encomenda chega. Aqui há um novo ponto curioso: na caixa de correio vê-se uma placa de madeira com o nome da personagem escrito de próprio punho, um contraponto em relação a toda uma sociedade padronizada e automatizada, sem grandes espaços para expressões pessoais.

De volta à encomenda: o autor aperta o passo com jump cuts, – um corte que quebra a continuidade do tempo – pulando de uma parte da ação para outra, que é obviamente separada da primeira por um intervalo de tempo.

Tudo acontece em planos detalhe: o interfone avisa da chegada da encomenda, corte para a caixa de encomenda, corte para Juliett ansiosamente mordendo os lábios em apreensão, corte para o botão 13 (1+3 = 4; já falaremos sobre ele) do elevador, e o último quadro são só os ecos de seus passos apresados no último lance de escada para chegada no seu apartamento.

No local é revelado o conteúdo de sua misteriosa encomenda. São quatros elementos (sim, há uma verdadeira obsessão pelo numero quatro): um blister com três pílulas, um spray, um consolo e um livro/manual estampado com um olho e quatro pequenos adornos. A visão do leitor se afasta até chegar ao último quadro, no qual temos a parede do quarto e quatro azulejos destacados.

O número 4 é o nome de “Deus” em diversas tradições, entre eles: os Assírio: Adad; Egípcio: Amun; Persa: Syre; Grego: Theo; Alemão: Gott; Francês: Dieu; Arabe; Alah, o quadrado, a matéria, a forma, o império, o Espírito entrando na matéria, simbolizando o trabalho, o sacrifício (3×4 = 12), caminho do homem, planeta terra, domínio, as 4 estações, as 4 faces da lua, os 4 elementos, os 4 pontos cardeais, a cruz do mundo, o animal, a esfinge, os 4 veículos que formam a personalidade humana, os quatro temperamentos, os 4 símbolos da matemática, os 4 reinos, atividade constante, persistência, os esforços contínuos, o método, a praticidade, o trabalho, a virtude, os quatro veículos inferiores que compõem a formação oculta do homem: Físico, Vital, Emocional, Mental, 4 planos.

Além disso, a palavra “quatro” aparece mais vezes no capítulo 1 de Ezequiel do que em qualquer outro capítulo da Bíblia. Neste capítulo ela aparece dez vezes, falando dos “quatro seres viventes”, cada um com quatro rostos, cada um deles com quatro asas, etc. O título da obra vem daí, das profecias de Ezequiel com os quatros viventes.

Retomando a narrativa, nossa protagonista passa a iniciar o procedimento de fecundação in vitro. Juliett toma três pílulas, cada uma de uma cor, na seguinte ordem: vermelha, amarela e azul. Novamente o autor se vale de simbologias. A escolha de cada cor é premeditada, e traduz características da personalidade da personagem principal:

Vermelho: é a cor mais quente, mais estimulante. Representa, entre outras coisas, a força de vontade, a liderança. Essa liderança será relacionada à personagem mais adiante.

Amarelo: Cor de grande energia, que simboliza a prosperidade, traz luz para iluminar os problemas.

Azul: última pílula que Juliett toma, simboliza o sonho; a cor do espírito e do pensamento. Transmite afetuosidade e representa o raciocínio lógico.

Todas as pílulas estão grafadas com as letras LH. Além do nome já mencionado (leucas-hibridumanizado) é também a abreviação para o hormônio luteinizante, luteoestimulina ou ainda LH (Luteinizing Hormone) é a proteína reguladora da secreção da progesterona na mulher e controla o amadurecimento dos folículos de Graaf, a ovulação, a iniciação do corpo lúteo.

Ela inicia o procedimento. Apesar de não estar representado graficamente, o segundo elemento a ser utilizado é algum tipo de spray (talvez um lubrificante).  Dando sequência, temos o falo, que aparece em close no primeiro quadro no qual é mostrado, já o segundo é puro gozo. Inseminada, Julliet agora deve permanecer imóvel por 4 (de novo) horas.

Toda essa sequência do procedimento tem como último quadro um close do olho da protagonista. Segundo Cirlot (Juan Eduardo Cirlot Laporta, em seu livro Diccionario de los símbolos, 1974), a essência do simbolismo do olho está contida num dito do filósofo romano Plotino, segundo o qual “nenhum olho está capacitado a ver o Sol enquanto, de certa maneira, não for ele mesmo um sol”. Dado que o Sol é fonte de luz, e que a luz é símbolo da inteligência e do espírito, deduz-se que o processo de ver representa um ato do espírito e simboliza o conhecimento.

Com o fim de todo o procedimento, a visão do leitor se afasta da protagonista, que parece estar flutuando e ascendendo ao céu. A página termina com o livro/manual no chão do quarto. Na capa, o perturbador olho de uma criatura ainda não identificada (porém, pode-se presumir ser o olho de uma baleia tanto por se assemelhar a um e pelo fato de que o nome do produto carrega a palavra “leucas”). Esse mesmo olho que, na contra capa da revista, aparece somado à uma sutil pirâmide, o que remete automaticamente ao olho que tudo vê das lojas maçônicas. Este símbolo é uma derivação do olho de Hórus, “O olho desempenha um dos papéis mais importantes no simbolismo oculto e, provavelmente, deve a sua origem aos desenhos mágicos do Olho de Horus, que foi um dos mais utilizados símbolos mágicos egípcios” (Magical Symbols, p. 101, escrito pelo ocultista Fredrick Goodman). A palestra maçônica do terceiro grau ensina que o “Olho Que Tudo Vê, a quem o Sol, Lua e as Estrelas obedecem, e sob cujo vigilante cuidadorealiza suas revoluções estupendas, contempla os recessos mais íntimos do coração humano, e nos recompensará de acordo às nossas obras.” (p. Beyond The Light ‘136).

Fredrick Goodman também escreve que “o olho se relaciona com o ‘Deus dentro de nós’ para o maior guardião espiritual que pode ‘ver’ o propósito da vida do homem e de alguma maneira misteriosa guiá-lo.” (Magical Symbols, p. 101 – Símbolos Mágicos).

Capa da frente

3

 

Chega a confirmação, por um teste caseiro, de que Juliett está grávida.

Um mês após, o interesse romântico de Juliett se apresenta: Madelein-E Mag-Dala, referência clara à Maria Madalena. O Evangelho de Maria Madalena (O Evangelho de Maria Madalena é um texto gnóstico encontrado no Codex Akhmin, que foi adquirido pelo Dr. Carl Rheinhardt na cidade do Cairo em 1896.) traz uma nova interpretação de quem teria sido Maria de Madalena. Segundo este evangelho, ela teria sido uma discípula de suma importância à qual Jesus teria confidenciado informações que não teria passado aos outros discípulos. É sugerido ali como confidente de Jesus, alguém, portanto, mais próximo dele do que os demais. Outro fator curioso é que Madelein-E trabalha como cover de Edith Piaf. “O que eu quero é que alguém, depois de ter ouvido tudo, diga, como foi dito de Maria Madalena: ‘Seus pecados lhe serão perdoados, porque ela muito amou'”. (Edith Piaf)

Na página 20, quando Juliett revela a gravidez para a ex-amante, a falta de Deus e de espiritualidade novamente aparecem no diálogo entre as duas, na frase de Madelein-E: “Pelo Amor ao Acaso”. Além do supramencionado uso do termo “Acaso”, a utilização dele com uma expressão religiosa (Pelo amor de Deus) serve como uma dica do autor para a atenção às referências bíblicas.

Chegando aos momentos derradeiros da história, entramos na página 24. Esta página é muito peculiar, pois subjetivamente carrega muita informação. Observe:

Page 24 A

 

Note o estudo de perspectiva necessário para a construção da página. Em primeiro plano, temos uma escada, ou seja, um caminho que leva a um plano mais elevado. Perceba como as linhas necessárias para dar o efeito de profundidade partem da escada e se jogam em direção ao centro da página, criando a imagem subjetiva de um triângulo, indicando a intenção central da mensagem. Acima, no terceiro plano, vemos a imagem de uma luz amarela. Note como ela está no topo, como se fosse o sol, sugerindo uma espécie de permissão divina direcionada ao ato de Juliet.

A página seguinte, 25, apresenta uma sequência de elementos importantíssima para a análise.

O primeiro painel mostra as pontas dos dois pés de Juliett para fora da água. É necessário notar que ela não mergulha na piscina, mas sim, afunda gradualmente. Quando alguém entra em uma piscina, não o faz ficando de ponta cabeça. Esta é mais uma jogada subliminar do autor para mostrar uma característica importante da personagem, que é ver as coisas sob uma perspectiva diferente, e, em uma análise mais profunda, está prestes a reverter a situação. Esta conclusão encontra suporte em mais uma referência mística: o tarô. Veja a imagem abaixo:

Page 25 A

 

A enforcado

Note a semelhança da carta expressa de maneira extremamente sutil no quadrinho.

O enforcado: significa o sacrifício, reverter a situação, ver sob uma nova perspectiva.

Passemos agora aos números, uma das partes mais importantes da história.

Na mesma sequência da piscina, Juliett passa vários minutos debaixo da água. Notamos, em primeiro lugar, que o tempo imerso é por demais extenso, o que indica que ela não apenas mergulhou, mas estaria “se afogando”. Lógico, este afogamento é meramente simbólico. O AFOGAMENTO representa a perda dos limites estruturados pela consciência, a quebra de paradigmas, onde os velhos conceitos serão alterados. Além disso, o autor marca essa passagem de tempo indicando alguns números pelos painéis. Estes números possuem fortes referências.

O primeiro momento do tempo que possui referência clara é o terceiro tempo: 3 min: 22 segs. Como este é o clímax da história, o momento derradeiro, que, como mencionamos antes, representará o fim do mundo e também o começo de uma nova era, estes números têm sua base no Apocalipse da Bíblia. Note:

Apocalipse 22:13 – Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o derradeiro.

O tempo seguinte é 6 min: 16 segs. O número da besta é tido como 666, porém, está errado. O verdadeiro número da besta é 616. Este número, na história, chama a atenção do leitor para a anunciação do apocalipse.

Agora é chegada a hora da revelação, da grande virada e onde todas as referências se justificam: Juliett dá a luz à uma baleia branca. Numa primeira vista, poderia ser visto como uma viagem surreal do autor, mas é neste fato que todas as refer6encias convergem. Vejamos:

A baleia: Simboliza a escuridão abissal e misteriosa, o inconsciente, o local para onde o herói precisa retornar para que seja possível o seu renascimento. No mito do herói, a baleia é um símbolo da Grande -Mãe devoradora em cujo ventre o deus-herói se transforma, e sendo que nesse confronto com a Grande-Mãe, temos o simbolismo de que é o ego do homem que precisava ser transformado. A luta do herói conta a baleia ou qualquer outro monstro marinho se constitui num símbolo da luta pela libertação da consciência do eu das ligações com o inconsciente e a sua salvação se constitui dessa maneira num símbolo da vitória do consciente sobre o inconsciente. A saída do ventre da baleia significa um renascer ou uma ressurreição, tanto que o símbolo da baleia é comum a vários ritos de iniciação. A entrada em seu ventre é análoga a descida ao sub-mundo e a passagem pelo inferno.

Conforme mostrado, a baleia significa grande mudança, ou seja, o fim de um período e o início de outro.

Esse é o momento que justifica a nossa leitura sobre a obra, um conto fantástico sobre o apocalipse e o recomeço de uma nova era. Aqui todas as informações convergem, as citações bíblicas escondidas, a presença do camaleão no sonho de Juliette, a etimologia dos nomes, todas essas pequenas peças do quebra-cabeça que formam a figura do nascimento de um novo redentor e a esperança de um novo futuro.

Novamente, analisando uma página que claramente possui uma construção composicional, chamamos atenção para os recados subliminares expostos pelas linhas usadas para a criação da página:

6

Os pontos de intersecção proporcionam o clímax da história, o momento derradeiro, o nascimento. As linhas mostram a forma de uma estrela de seis lados, ou seja, a estrela de Davi. Além de ser o símbolo de Deus, encontramos no hinduísmo uma referência ainda mais forte, na qual a estrela representa um deus da trindade: Brahma, Bishnu e Bhiva, respectivamente, o criador, preservador e destruidor. Logo, este seria o momento do grande encontro das entidades que permeiam a história, travando uma batalha por de trás das paredes do óbvio.

Enfim chegamos ao fim de nossa proposta, que era criar um guia de leitura e iluminar as referências bastante enigmáticas e um tanto obscuras que permeiam a obra. É evidente também que muitos outros pontos não foram elucidados. O gibi traz grande carga de símbolos pessoais e a verdade é que já estávamos em parafuso com a pesquisa e era hora de passar essa bola adiante e deixar com vocês as novas descobertas que o texto ainda esconde.

Outra intenção nossa é evidenciar ainda mais o talento de Luciano Salles, um artista que propôs com O Quarto Vivente um exercício de análise e interpretação forte por parte do leitor, convidando-o a sair do conforto do mero entretenimento. A subjetividade e as ferramentas visuais e linguísticas usadas pelo autor para contar a história, fogem da narrativa mundana e oferecem uma experiência arrojada de leitura.

 

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  1. E se você contar as letras do título? E se você atribuir a cada letra do alfabeto um número de 1 a 9? E se, depois, você lembrar do nome do autor? E não esquecer o número de páginas incluindo capas e contracapas? Você também precisaria adicionar a interpretação: o formato do livro que é retangular e os retângulos como todo estudante do ensino fundamental deveria aprender tem quatro, note bem que são quatro, ângulos retos, note também que são retos, ou seja, medem 90°, ou seja um quarto de um ângulo de uma volta (ou um ângulo raso) que pode representar um círculo e você sabe o que os círculos significam. Ah, não esqueça que o retângulo é um quadrilátero (quatro lados, do latim).

    Eu vou parar por aqui ou vou explicar os segredos do universo e acho que nem conseguiria entender.

    Eu espero que tenha ficado claro.

    Parabéns pelo texto; Foi… instrutivo.

    P.S.: meu deus (quatro letras) veja como está claro agora, são dez horas e seis minutos do dia 03 do 06 de 2014 e acabo de perceber que deveria levar em consideração os dias, as horas e os segundos do ponto de vista da órbita de Marte, que é o quarto planeta do sistema solar…

    PAREI

  2. Putz!
    Depois de ler o texto de vocês, e ter acesso a tantas outras informações, terei que reler “O Quarto Vivente”… E, de quebra, vou ter que reler o texto de vocês, também… Hehehe.
    Um abraço, pessoal. Valeu!!

  3. Pesquisa incrível do HQ de Luciano Salles. é muito mais do que uma HQ, é uma pesquisa imensa pra criar esta incrível história; leia esta crônica e depois leia O Quarto Vivente.. Incrivel…….muito profundo.

  4. Bom, quem já assistiu aula na faculdade sabe: o amontoado de informações não impede o assunto de ser chato.

    Abraço!