O mercado de animes e mangás e sua influência no Brasil e no mundo

Esse artigo foi originalmente publicado na revista digital SuperMag #01, que você pode baixar gratuitamente clicando aqui. Aproveite também para ouvir nosso podcast sobre o mesmo assunto: O poder dos quadrinhos japoneses.

Após a virada do milênio, os mangás conquistaram a atenção de uma boa parcela do público jovem brasileiro, posicionando-se como uma mídia de grande influência cultural. Mas, antes de falarmos sobre esse assunto, cabe voltar um pouco no tempo e recorrer à explicação de como o Japão se destacou culturalmente perante os demais países.

O Japão evoluiu de consumidor a exportador de influência cultural após o término dos conflitos da Segunda Grande Guerra, processo cujo início se deu com a comercialização de diversos produtos, como brinquedos, aparelhos eletrônicos e automóveis. A expansão tecnológica ocorrida no arquipélago nesse período contribuiu para a elevação do país ao posto de segunda maior economia mundial, na década de 1980, quando se consagrou como a única nação pós-guerra a romper com a hegemonia dos EUA na exportação de cultura. Os japoneses são um povo inspirador por conseguirem erguer um país industrializado e desenvolvido sem abrir mão de sua herança cultural. Suas tradições, sua história, culinária, filosofia, tecnologia, moda e todo tipo de produtos midiáticos hoje são conhecidos, cultuados e consumidos em todo o território ocidental.

Entre as artes-marciais, o budismo, o bonsai e o sushi, duas formas de arte que caminham de mãos dadas se destacam como principais divulgadoras da cultura nipônica no mundo: os mangás e os animes! Tudo começou em 1963, quando o mestre Osamu Tezuka fundou a indústria das animações no Japão ao levar para as telas uma de suas maiores criações nos quadrinhos: o menino androide Astroboy. O personagem estrelou a primeira série animada da TV japonesa com trama continuada e personagens recorrentes, e seu sucesso permitiu que fosse vendida para ser exibida na terra do Tio Sam. Depois disso, a produção de desenhos animados não parou mais e os mangás continuaram a ser adaptados, fazendo dessa dupla o maior ramo da indústria do entretenimento no Japão, movimentando uma receita bilionária e trabalhando com números extraordinários.

O mestre Osamu Tezuka.

Estima-se que os mangás representam por volta de 40% do material impresso no Japão. Lá, todas as pessoas têm o habito de ler essas publicações, que são comercializadas em uma extensa variedade de formatos e com segmentos para todo o tipo de público, da criança até o idoso. Tal costume é facilmente compreensível; os mangás são um entretenimento relativamente barato e muito prático de ser consumido, ideal para uma sociedade com tão pouco tempo livre para o lazer e que nutre grande paixão pela leitura (resultado do alto capital injetado na área da educação). Com milhões e milhões de exemplares vendidos mundialmente, é inquestionável a liderança dos japoneses no mercado de histórias em quadrinhos, superando até mesmo a indústria norte-americana de super-heróis.

Com os animes, os números são ainda mais exorbitantes. Os cerca de 400 estúdios existentes por lá produzem mais de dois mil episódios por ano, gerando bilhões de dólares com a transmissão dentro e fora do país, exportando séries para todos os continentes. Os animes fazem pela cultura do Japão o mesmo que Hollywood faz pela dos EUA.

O curioso é que as animações perdem para os mangás em popularidade entre os japoneses, devido aos horários de exibição que nem sempre coincidem com a agenda do espectador e a uma menor variedade de temas por conta do custo elevado da produção, mas internacionalmente elas têm o efeito de alavancar as vendas das histórias impressas. Em praticamente todos os países ocidentais a publicação de mangás encontrou seu “boom” na transmissão de animes.

No Brasil, os primeiros animes chegaram durante a década de 1960, e já nessa época colecionaram fãs. Porém, foi somente nos anos 1990 que eles vieram a se tornar amplamente conhecidos e cultuados pelas crianças e adolescentes, com a exibição de séries consagradas como Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z e Pokémon, que com seus altos índices de audiência chamaram a atenção das emissoras e desencadearam um boom de desenhos japoneses e produtos derivados, que perdura até a atualidade e está longe de acabar.

Como era de se prever, não tardou para que o sucesso dos animes por aqui se estendesse aos mangás. Esses quadrinhos encontraram seu auge no Brasil pouco mais de uma década após o primeiro deles ser publicado de forma tímida, em 1988 (o Lobo Solitário, pela Cedibra). No início dos anos 2000, as editoras apostavam em obras que já detinham respaldo entre o público graças a uma série homônima de televisão, mas logo o mercado pôde abranger títulos que não possuíam relações prévias com os leitores, resultado da paixão pelos mangás que com o tempo se instaurou entre os brasileiros, principalmente entre os jovens.

O consumidor infanto-juvenil ainda hoje é o grande alvo das editoras nacionais, consequentemente, a quantidade de títulos com histórias de apelo entre os integrantes dessa faixa etária é bem mais ampla em nossas bancas. O Brasil deve centenas de milhares de novos leitores aos animes e mangás. Não se pode subestimar o poder que essas mídias apresentam nesse quesito. Se para o país isso é bom, para a cultura japonesa dentro do país é ainda melhor. O interesse de muitos jovens em estudar o idioma japonês, praticar alguma arte-marcial, provar da culinária oriental ou até mesmo de ser adepto do budismo, se originou no contato com os mangás. Geralmente, essas pessoas evoluem de apreciadoras dos quadrinhos e animações do Japão, para apreciadoras dos costumes e da cultura pop japonesa em geral.

Outros dois benefícios dos mangás e animes para os brasileiros ainda podem ser listados. Primeiro, eles são a principal expressão artística a garantir que a influência cultural norte-americana não seja predominante. Hoje, a terra do sol nascente tem mais bagagem intelectual no Brasil do que os países europeus com seu cinema e sua literatura – mas todos são igualmente importantes para manter a variedade de referências. Segundo, suas páginas monocromáticas e dinâmica novelística exalam uma forte inspiração que é absorvida pelos nossos próprios artistas. Como exemplos, temos centenas de jovens produzindo seus próprios fanzines para serem expostos ou vendidos em eventos voltados a esse nicho, e até mesmo o Estúdio Mauricio de Sousa mantém um bem sucedido título regular inspirado no traço japonês, o Turma da Mônica Jovem. E isso não é de hoje, já nos anos 1960 autores brasileiros com descendência oriental, como Claudio Seto, se utilizavam da estética gráfica e narrativa dos mangás em seus trabalhos em diversas revistas e livros. Impossível não lembrar também de Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, o primeiro mangá seriado de sucesso produzido por brasileiros. Aos poucos, os animes e mangás são cada vez mais assimilados pela cultura pop nacional.

Também existe outro efeito curioso que os animes e mangás geram sobre seus fãs, um que não tem como ser contabilizado por nenhuma estatística: a influência na moral e na ética do jovem. Seja nos mangás ou nos animes (e nesse estão enquadrados as séries televisivas e os longas-metragens), a maioria das histórias infanto-juvenis transmitem mensagens repletas de bons valores, como amizade, união, perseverança, igualdade e a busca por um sonho. Mesmo aqueles com cenas de violência preocupam-se em resultar nesses aprendizados. Basta acessar um dos vários fóruns na internet destinados a discussão dessas histórias para perceber que suas mensagens realmente são capazes de moldar para melhor o caráter de uma pessoa, bem como de elevar a sua autoestima. Não há como não reconhecer o bem que essas séries fazem pela educação dos jovens brasileiros.

Enfim, o Japão, por ser um país de tradições fortemente enraizadas e com uma cultura pop altamente consumida por sua própria sociedade, conseguiu se destacar como exportador de influência cultural, pois afinal de contas, como bem disse Cristiane Sato, autora do livro Japop: o poder da cultura pop japonesa, “para ser exportável, o pop precisa primeiro ser sólido em casa”.

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  1. Faltou falar que boa parte da popularidade se deu por conta da pirataria desenfreada de animes e mangas. Traçando um paralelo, foi o mesmo que aconteceu com o PlayStation aqui no Brasil. Claro, o material original é de qualidade, mas sem esse fácil acesso essa “mania” não teria sido tão grande.

    • Eu já penso o seguinte Mauri, só ocorreu a pirataria por conta do boom causado pelas transmissões em TV aberta. Ninguém baixa o que não gosta, e se hoje muitos animes são pirateados, é por que tem gente buscando por isso.

  2. FIRST!!!!!
    Valeu Bruno Zargo. Depois de um podcast de mangas mais informação a esse respeito é uma boa pedida.

  3. Duas obras do Osama Tezuka ja foram traduzida no Brazil pela New Pop que são Metropolis, o primeiro manga que ele lançou e Dororo que é um otimo shonen.

    • Eu não li o mangá Metropolis, mas assisti o longa-metragem animado e gostei pra caramba, é muito bom!! Um dia vamos fazer um videocast do Tezuka, merece mesmo!

      A Princesa e o Cavaleiro e Buda também saíram no Brasil, e são ótimos!

      • O manga é bom, mas o anime é melhor ainda ja que o manga mostra um tezuka ainda cru e que foi o primeiro maga moderno, pois mostra as primeiras linhas de movimento e o manga tem um tom mais infantil mas não menos tragico e o Dororo é excelente por que é um shonen escrito pelo Tezuka e na qual faz uma critica ferrenha contra a guerra. E outro detalhe Naoki Urasawa reescreveu um arco do Astroboy do Tezuka muito bom chamado Pluto, que seria uma especie de versão Ultimate do arco o Robo mais forte do mundo e outro detalhe, Urasawa é um grande fã de Tezuka e o protagonista de monster tem o mesmo nome do criador do Astro Boy, Doutor Temma. Além de que AstroBoy é considerado a obraprima do Tezuka e muitos acreditam que a obra infantil de Tezuka é mais relevante que sua obra adulta, já que Dororo tem uma pegada um pouco mais infantil mas também tem temas pesados e esta obra mostra o que para mim eu acho uma grande injustiça, que o Tezuka merece estar no panteão dos grandes mestres dos quadrinhos e que usa a linguagem dos quadrinhos de uma forma incrivel.

  4. Excelente matéria!!!!!

    Mangás são incriveis além de variados,tem para todo mundo.

    Alguem sabe o nome desse mangá em destaque na foto acima?

  5. Sobre a popularidade dos animes no Brasil, é válido parabenizar o trabalho dos fansubs, como o MDAM e o Anime no Sekai, só para citar alguns, pessoas que dispõem de parte de seu tempo para disponibilizar os episódios legendados, na maioria das vezes em formato com qualidade excelente. E também os sites que disponibilizam as séries, seja via link direto ou torrent, como, por exemplo, o extinto Haitou Animes (pena que acabou).

    • Verdade Rafael, afinal, a maioria dos animes só chega ao Brasil por conta do trabalho dessas pessoas, visto que muito poucos saem na TV. Bem lembrado!

  6. Ótimo artigo, de excelente esclarecimento, com a mesma seriedade dos textos acadêmicos. A pesquisa ficou bem concisa, e devo ressaltar o mérito de se ter mencionado o pioneiro “O Lobo Solitátio” (1988). Tal mangá, num estilo, digamos, “adulto” (não no sentido erótico), ajudou a difundir a cultura samurai fora das telas. Percebo que na nostalgia nipo-quadrinística aqui no Brasil, aquele mangá é um tanto esquecido, porém sua maturidade narrativa o fez ser reeditado nos anos 1990 (ed. Sampa) e nos anos 2000 (ed. Panini), e ainda tem promessa pruma versão de cinema. Em matéria de animes pioneiros e emblemáticos, faltou mencionar o contemporâneo de Astroboy, “Speed Racer”, que, bem aceito pela pop cult norte-americana, migrou do anime pra animação à estadunidense, inclusive chegando por aqui primeiro que Astroboy. De fato, “somente nos anos 1990 que eles [os animes] vieram a se tornar amplamente conhecidos e cultuados”, mas é bom lembrar que o Brasil foi gradual e extensamente preparado pro consumo desse material, pois desde os anos 1960, como frisou esse artigo, a garotada já recepcionava “Nacional Kid”, “Príncipe Planeta”, “Spectreman”, “Ultraman”, “Superdínamo”, “Fantosmas”, “Ultraseven” mais todas as franquias dos anos 1980, como “Doraemon”, Changeman, Jiraya, etc. “Os Cavaleiros do Zodíaco” trazia um gráfico mais colorido, diverso, com efeitos de flashs, luzes, ângulos cinematográficos e uma proposta de combate envolvendo arte marcial, magia e drama. Daí pra cá, todos os mangás e animes com essa natureza são promovidos entre os brazucas. “Os japoneses são um povo inspirador por conseguirem erguer um país industrializado e desenvolvido sem abrir mão de sua herança cultural”. Até certo ponto, pois notamos pelo processo globalizante que o Japão, concernente à pop art, tem sincretizado a cult dos E.U.A. Vemos isso nos grupos de música/dança, no vestuário juvenil, e também… nos mangás; isso mesmo, pois já li críticas de que o desenho dos olhos, os seios fartos, a altura dos biótipos, os quadris femininos robustos, coxas agigantadas dos personagens seriam modelos copiados dos biótipos norte (e sul)-americanos.

  7. Pingback: O mercado de animes e mangás e sua influência no Brasil e no mundo | CONEXÃO COMIX

  8. oi gostaria de saber se você aceita fazer o anime que eu escrevi o gênero dele de ação, terror e outros se você estiver interessado mande mensagem pro meu face ou mande mensagem para ler o conteudo