Necro Morfus – Resenha

Necro Morfus – 2014

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Do dia 17 à 19 de julho de 2015 tivemos o 21º Fest Comix aqui em São Paulo. Quem acompanha minhas resenhas já deve estar sabendo que costumo fazer a rapa de quadrinhos nacionais e independentes nestes eventos. Na Comic Com Experience no ano passado, eu havia proposto apenas comprar gibis desconhecidos que custassem no máximo 15 reais, pois dessa maneira tentaria dar mais valor para a galera que está começando e que geralmente passamos reto quando temos olhos apena para os peixes grandes. Veja aqui as resenhas da Comic Con e outras.

Nesta Fest Comix, decidi apostar em quadrinistas e roteiristas que tivessem duas características essenciais, na minha opinião, para esse tipo de evento. Eu poderia ficar aqui dando uma espécie de sermão, falando como os expositores e vendedores poderiam se portar para “ME” agradar, mas não vem ao caso. Nessa resenha estou aqui para falar de Necro Morfus de Gabriel Arrais e Magenta King. O que vem ao caso é que este foi um dos únicos gibis que não comprei no evento.

O que aconteceu foi que Gabriel estava no mesma mesa que Marcio R. Gotland, autor de Greg – O contador de histórias. Estava trocando algumas ideias com Marcio e dando uma olhada nos gibis que estavam na mesa. Vocês sabem como é: alguns você pega e folheia, outros você apenas passa o olho por cima. Enquanto isso os artistas ficam tentando te vender seus próprios peixes – certo eles – te apontando seus próprios gibis ou indicando de seus parceiros. Porém, eu não havia notado Necro Morfus. Quando estava de saída levando apenas o gibi de Marcio comigo, o Gabriel levantou, me chamou, pegou um exemplar do seu trabalho e me presenteou com ele. Por que dar falar sobre isso?

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Bom, por que saquei nessa situação uma coisa muito interessante sobre esses eventos e sobre a relação entre artistas e imprensa. Nós resenhistas, blogueiros, vlogueiros e outros obviamente gostamos de receber quadrinhos e outros materiais de presente. Também entendemos que alguns o fazem apenas para ganhar uma resenha, ser indicado no youtube e por aí vai. Isso faz parte do esquema e apesar de ser meio estranho, as vezes parecendo agiotagem de ambos os lados é uma relação importante para ambos. Assim sendo, na maioria das vezes pago pelos quadrinhos que me interessei, sem barganhar nem nada e aceito presentes quando vem. As resenhas saem quando fico animado com o gibi e acho que tenho o que falar sobre ele, sem me sentir pressionado por fazer esta ou aquela resenha.

Só que desta vez, enquanto eu estava indo embora da mesa, Gabriel sacou que eu não levaria seu gibi. Não sei se ele percebeu que a chance de conseguir uma resenha estava indo embora. Ou se simplesmente quis ser legal. De qualquer maneira, senti que Arrais achou que eu PRECISAVA levar Necro Morfus. Quando recebi o presente, pedi para que ele me explicasse sobre o quadrinho, o que fez brevemente e pronto. Essa situação foi tão inquietante que nem lembrar de pegar autógrafo lembrei. Teve algo de muito espontâneo e inusitado em como tudo desenrolou. O que fez Gabriel mudar de ideia e resolver me dar o gibi nos 45 do segundo tempo? Quando li o quadrinho, pude formular uma possível resposta: Gabriel Arrais acredita no potencial de sua história.

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Necro Morfus é roteirizado pelo próprio Gabriel e a arte é assinada por Magenta King. Foi publicado pelo selo RQT Comics que é gerenciado por ambos em conjunto com Diego Benine (revisor), sendo que Necro Morfus é o primeiro projeto publicado por eles na RQT. O gibi que tenho em mãos é o primeiro volume, que acredito que se chama “osso do rei”. Na introdução Gabriel nos deixa por dentro dos processos de criação de seu roteiro, assim como ao fim da história temos uma “galeria de esboços” de King, no qual podemos ver uma sequência de estudos na construção dos personagens.

A história tem como personagem principal Douglas, um garoto de 16 anos que por algum motivo ainda não explicado adquiriu a maldição de poder de assumir a aparência e algumas memórias de que qualquer pessoa ou animal que esteja morto/a. Para tanto, basta apenas tocar nos restos das mesmas. Com isso, seu próprio corpo e aparência estacionaram no tempo, fazendo com que ele próprio não envelheça mais. O gibi começa com uma sequência sensacional na qual, Douglas está utilizando o corpo de uma atriz pornô enquanto transa com outra mulher. Ao mesmo tempo em que está transando, narra em monólogo interior sua situação, fazendo paralelos com a mitologia grega e o mito de Tirésias, aquele que podia escolher ter corpo de homem ou corpo de mulher, ou seja, sabia do gozo de ambos os sexos.

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Essa é uma ideia muito bem trabalhada nestas primeiras páginas, ainda mais pela escolha que Gabriel fez. Como nos diz o personagem, podendo ele escolher em obter prazer como homem ou mulher, ele escolhe fazê-lo sempre como mulher e com outra mulher. Na minha opinião, Gabriel corria um grande risco nesta abordagem, já que a situação ontológica de seu personagem o obriga a fazer afirmações um tanto quanto radicais sobre o que é a ontologia em si e mais radicais ainda quando se trata de argumentar sobre diferenças entre os modos de gozar em um corpo feminino e um corpo masculino. Arrais de maneira objetiva e afastando-se da maioria dos clichês faz uma aposta interessante que deixaria qualquer psicanalista lacaniano cheio de orgulho.

Há algumas coisas que precisam ser trabalhadas para melhorar o gibi. Cenas como a inicial e a do sequestro são excepcionais  e extraem o melhor do roteiro e da arte. Os traços do Magenta King tem seus pontos altos exatamente nestas cenas, em que predomina a ação e a violência. Os movimentos fluem sem que precise de muito para isso. Há algo muito vivo em sua arte, o que faz com que as cenas de diálogos e as mais ralentadas fiquem um pouco “mancas”. As cenas entre Douglas e o psiquiatra Dr. Krehl são definitivamente o ponto fraco da história.

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Psiquiatras, psicanalista e psicólogos sempre são retratados de maneira bastante standartizadas e excessivamente clichê nos quadrinhos, cinema e literatura em geral. Em Necro Morfus não é diferente. Para dar um exemplo, o Dr. Krehl é um psiquiatra no melhor estilo psicoterapeuta, coisa raríssima à algumas décadas. Quem frequenta psiquiatras hoje em dia sabe que essa história de passar sessões longas contando sua história para o médico é romance hollywoodiano. A maioria dos psiquiatras hoje em dia não passam de 20 minutos com seus pacientes e baseiam os tratamentos muito mais em psicofarmacos do que em sessões psicoterápicas.

Porém, não acho que Gabriel deveria se preocupar com a veracidade deste personagem, pelo contrário, apesar do Dr. Krehl não ser um psiquiatra convencional – e isso fica muito claro na trama -, sua função na narrativa ainda não está definida. Ficou claro para mim que o Dr. Krehl entrará na trama por outra vertente, que sua função na narrativa não é dar profundida à Douglas, entretanto, houve certa derrapada e está foi exatamente a função que assumiu. Os diálogos entre os dois quebram excessivamente o ritmo da história, mesmo quando associados à flashback.

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O problema que enxergo neste personagem e que fez com que as cenas entre Douglas e o psiquiatra fossem muito destoantes do resto do gibi é que se o personagem principal “conversa” com o leitor através de um monólogo interior, qual o sentido de ele conversar com um psiquiatra? Os monólogos interiores de Douglas poderiam funcionar muito bem sobrepostos à outras cenas, como acontece na primeira cena, por exemplo. Neles poderíamos saber tudo o que precisamos saber sobre os sentimentos do personagem, dando a ele a profundidade precisa e necessária.

O Dr. Krehl deveria ser levado ao seu limite enquanto personagem. Suas intenções deveria ser completamente opacas e impossíveis de serem computadas, ficando mais claras ao longo do tempo. O recurso do monólogo interior não precisaria ser abandonado nestas cenas, deveria ser levado ao extremo. Douglas poderia muito bem estar conversando com os leitores enquanto conversa com o psiquiatra. Este recurso poderia ser usado para provocar a tensão necessária entre os dois personagens, que se bem entendi era a intenção de Gabriel.

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Em resumo, o gibi é muito intrigante e possui um roteiro interessantíssimo, sedimentado em uma boa ideia. A arte funciona muito bem em boa parte da história e mesmo nos poucos momentos que está desafinada com a narrativa, não deixa de ser bonita. Há alguns pontos que podem ser melhorados, mas mesmo assim estou aguardando o próximo volume. Gabriel Arrais, Magenta King e Necro Morfus devem ser acompanhados de perto.

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Facebook dos artistas:

Gabriel Arrais

Magenta King

Site: RQT COMICS

 

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