Lavagem – Resenha

Vlog do PN #67 – Lavagem

Notícia sobre o lançamento do Lavagem

Notícia sobre o lançamento da editora MINO

Estou um pouco atrasado, tudo bem. Lavagem foi lançado aqui em São Paulo há alguns meses e só agora estou resenhando o gibi. Dos lançamentos da editora MINO para esse ano de 2015, confesso que este era um trabalho que não via a hora de ter em mãos, principalmente, por dois de vários motivos: ter sido anunciado como um gibi de terror; e ser um trabalho de Shiko. O meu atraso trouxe o benefício de ter lido várias resenhas publicadas antes da minha, o que me fez ter algumas ideias formais de como elaborar algo diferente. Há algum tempo atrás fiz a resenha do gibi estreia da editora MINO aqui no site. Além de L’amour de Luciano Salles e Lavagem do Shiko, a editora já relançou o sensacional Harmatã de Pedro Cobiaco, relançará dia 30/05 Perpetuum Mobile de Diego Sanchez e promete ainda Ilha do Tesouro também do Cobiaco filho, lançamentos de Cobiaco pai e Deodato. Enfim se você ainda não sacou o rolê dessa editora você tá viajando!

Antes de me aventurar nas ideias que tive para a resenha, farei uma análise dos aspectos editorais do Lavagem. Confesso não ser especialista nesta área, por exemplo, ainda não entendi muito bem o que é uma “sangria”, mas de qualquer maneira, no mercado de quadrinhos nacionais, Lavagem é suis generis. O preço de capa é R$ 44,00, entretanto amiguinhas e amiguinhos, a capa sozinha vale estes 44 ou mais. Não se trata apenas da arte de outro mundo do Shiko, que é indescritível de tão foda, mas um olho mais atento, repara que a equipe editorial da MINO está não só fazendo um trabalho sensacional, como estão de “all in” em seus produtos. O que explica uma editora não colocar seu logo na capa? Procurem bem, o logo da editora é microscópico e está na lombada. Temos outro logo junto ao código de barra na quarta capa, mas bem escondidinho. O que faz uma empresa cometer este suicídio, em termos de marketing? Respondo: a total confiança em seu produto. A capa é 80% arte, disputando espaço apenas com o título – Lavagem – e a assinatura do Shiko – que sinceramente está quase decantada na mesma tonalidade do fundo.

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É preciso muita coragem, petulância e cacife para bancar uma aposta destas. O efeito deste ato é impressionante, pois faz deste gibi uma obra que não pode ser guardada enfileirada na sua coleção, seria um pecado. Efetivamente é muito difícil abandonar a capa e abrir iniciar as primeiras páginas, já que ela é extremamente cativante e convida o leitor a decifrar o enigma que ela representa. Uma mulher vestida de camisa branca, afogando em sangue, com os olhos vidrados, indicando ao mesmo tempo desespero, agonia, angústia, loucura e horror. Desde o primeiro momento que bati os olhos na capa, não consegui desassocia-la do famoso pôster do filme Tubarão (Jaws, 1975). Nele vemos um gigante tubarão branco emergindo a superfície com sua enorme mandíbula em direção a uma mulher, desavisada, nadando no mar. Porém, em Lavagem é como se fera e vítima estivessem condensadas em uma única figura, ou seja, ela funciona como a imagem logo em seguida ao pôster de Tubarão, quando o ataque já ocorreu e quem foi devorado por estes olhos insanos que nos encaram à deriva, foi a fera.

Como se a capa não bastasse, quando você abre o gibi deparasse com a contracapa estrategicamente preparada para funcionar tal qual um livro de pop up. Só que os traços de Shiko são tão estupendos que a editora não precisou materialmente fazer nada saltar aos seus olhos. Nesta contracapa, há uma sequência de imagens sobrepostas da protagonista da história em diversas expressões faciais e corporais. Diversas emoções que podem estar culturalmente associadas à insanidade estão representadas em uma arte que quase cobre completamente as duas páginas iniciais de Lavagem. Mas não é só isso, Shiko e a editora deixaram um espaço em branco na arte para ser completada pelos autógrafos estonteantes do artista. É muito fino galera, sério.

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Agora vou então abordar a história em si, ou seja, a partir daqui você vai encontrar uma enxurrada de spoilers, que você ou não deveria se preocupar com eles, ou deveria já ter lido o gibi, que fique avisado. A maioria das resenhas que li sobre a HQ buscavam abordar o conteúdo narrativo em termos de cenas reais e cenas fantasiosas, isto é, aquelas em que claramente estamos no nível da sanidade e outras em que provavelmente encontramos os personagens dentro de um devaneio, delírio ou alucinação. De fato, o gibi induz a essa cisão da narrativa. Isso fica muito claro já no inicio da história, quando a protagonista está transando com o barqueiro e os quadros a seguir são invadidos por discursos religiosos (proferidos por ninguém em quadro). Assim como por nuvens entorpecem o cenário da margem e do barco, seguidos de uma cena surrealista em que ela durante o sexo, decapita o barqueiro, transformando sua cabeça em uma de porco, que é vestida pela mulher nua na sequência.

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A interpretação convencional seria a de que a mulher saiu de casa pela manhã, tomou o barco para igreja, transou com o barqueiro, fantasiou que estava matando-o e que a cabeça dele transformou-se na de porco, devido sua alucinação. Portanto, ainda em devaneio ela veste a máscara de porco. Não irei fazer diferente, para analisar essa cena, também dividirei a narrativa entre realidade material e realidade psíquica. Mas, diferentemente do que li em outras resenhas, assumirei aquelas cenas que sugestivamente seriam os devaneios como realidade material e aquelas que parecem mais “normais”, irei interpretar como possíveis lapsos de insanidade da personagem. Farei isso me referindo à poesia de Chuang Tzu, na qual o sábio sonha ser uma borboleta e ao acordar dúvida se é um humano que sonhou ser borboleta ou se é uma borboleta sonhando que é humano. Isso significa que farei um exercício metodológico de compreender os devaneios da personagem como realidade, verdade inconsciente. Então tomemos a cena inicial, se invertermos a lógica sugestiva da narrativa o que obtemos?

Nossa protagonista inicia sua jornada em sonho ou devaneio, no qual ela sai de casa afirmando ao marido que iria para igreja. No barco, ela flerta com o barqueiro em uma troca de olhares – tudo ainda em sua fantasia. Na cena seguinte vemos o marido, sentado no chiqueiro com os porcos, insinuando saber sobre a fantasia dela com o barqueiro. Aqui podemos compreender que se trata da fantasia dela de que o marido saiba de sua traição, pois somente o saber do traído efetiva a total realização da traição. Na sequência, ainda em devaneio, a protagonista está transando com o barqueiro em um local deserto. Há uma cena muito interessante em que rosto dela está sombreado e podemos ver um sorriso velado no ato. Temos aqui o mesmo sorriso desferido pela personagem Marion no filme Psicose. Após furtar o dinheiro de seu chefe, Marion cai na alto-estrada e dirige até o Batel Motel, porém no caminho ela imagina o que seus companheiros de trabalho e seu chefe irão falar sobre ela quando perceberem que ela fugiu com o dinheiro. Neste momento, após algumas expressões de incerteza e preocupação, Marion sorri cinicamente, vangloriando-se daquilo que fantasia representar ao olhar do outro. Em Lavagem, nossa protagonista, ao realizar seu desejo de transar com o barqueiro e trair seu marido, deixa escapar um leve sorriso, ao fantasiar a reação do mesmo sabendo de seu ato.

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Aqui partimos para a cena na qual saímos da fantasia e encontramos pela primeira vez, a protagonista fora de seu devaneio. Ao contrário do que tínhamos visto até aqui, ela não está mais de costas para barqueiro, mas de repente sobre ele. Estava ela sonhando acordada, enquanto transava com o próprio barqueiro? Ou seja, enquanto a protagonista fazia sexo com o barqueiro, entrou em estado de absência, fantasiando ou lembrando outra cena de sexo com o mesmo. Não importa, pois neste momento, em que testemunhamos uma cena de sua realidade, ela empunha um facão e corta a cabeça do amante. Após matá-lo, ela vê em sua frente uma cabeça de porco. Se continuarmos com a interpretação distorcida, assumimos que neste momento, a narrativa está fora da realidade inconsciente da personagem e mantém-se na narrativa de realidade.

Isto significa que esta cena está materialmente acontecendo na vida da personagem. Não necessariamente no mesmo momento cronológico do sexo com o barqueiro. Essa perspectiva faz com que a mescla das páginas nos dê outra noção da narrativa. Podemos pensar que a cena dela nua vestida com a “máscara de porco” em meio ao chiqueiro do marido, enquanto ele esta com a mão em seu pênis é uma cena separada à anterior com o barqueiro – as páginas dessa cena fazem essa bricolagem entre ela e os porcos. Estaria ela realizando alguma fantasia distorcida de seu marido? Esta virada interpretativa faz com que o barqueiro tenha sido morto no início do gibi, mas ao final da história o reencontramos vivo. Porém, segundo nosso esforço, nesta cena final a protagonista estaria em um delírio, memória ou devaneio.

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É possível continuar a interpretação nestes termos? Sim. Isso significa que esta é a interpretação correta ou mais adequada do gibi? Definitivamente não. Por que fiz essa interpretação selvagem? Só pela galhofa mesmo, além de mostrar para os leitores como Lavagem é um produto riquíssimo e aberto. Isto para além de visceral, tenso e bonito. Espero que as amigas e amigos leitores tenham gostado da resenha. Se não, tenham certeza que mesmo assim ainda gostarão do Lavagem. Assim como de todos os outros lançamentos e relançamentos da editora MINO. Lembrando que dia 30/05, domingo às 15h teremos uma sessão de autógrafos com o relançamento de Perpetuum Mobile de Diego Sanchez na Gibiteria em São Paulo. Boa oportunidade para adquirir seu Lavagem na leva.

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