Histórias em quadrinhos como degrau básico ao saudável hábito de ler – Café com Quadrinhos #03

O assunto acima é bastante cômodo, nada casual.

Acredito que uma significativa parcela dos leitores de quadrinhos tenha, como corolário, uma queda pela leitura em prosa: artigos, crônicas, romances, poemas e contos fazem parte do solitário e gostoso prazer que é ler.

A maravilhosa aventura de pensar com a própria cabeça, estimular a mente a alcançar novos horizontes, enriquecer o espírito com a infindável gama de conhecimentos à disposição de quem quiser… tudo isso pode ser conquistado adquirindo o simples hábito da leitura.

Uma pena que tal costume seja praticamente considerado palavrão hoje em dia, perdendo-se gradualmente na agitada era da informação (irônico, não?).

Como tantos, recordo dos tempos idos da infância e entrada na adolescência. Muitos prazeres disputavam algum tempo durante aqueles nostálgicos dias: videogames, desenhos animados, brinquedos, filmes, futebol (pelada de rua e futebol de mesa, ou botão em algumas regiões), torcer pro Palmeiras quando ganhava títulos, amizades, namoros, escola (estudar pra passar era nossa maior preocupação na vida!) e, claro, os quadrinhos.

Confesso que pelo menos até os 14, 15 anos, não tinha nenhum interesse nos livros. Um aperreio ter que ler aqueles paradidáticos do colégio, não era? Um ou outro ainda se salvava, mas comparavam-se a gotas de café fresquinho num vasto oceano de Fanta Uva (Hah!).

O que consumia vinha única e exclusivamente dos gibis. Nada mais.

Queixava-me, com razão, da costumeira impressão deficiente que muitos daqueles malfadados formatinhos apresentavam. Por isso, a leitura de minisséries, edições especiais e graphic novels em formato americano ou magazine era um deleite imenso.

Em um formato mais amplo, o texto das histórias parecia “crescer” na mesma medida. Os diálogos ficavam melhores, mais encorpados, com acréscimo de palavras e termos interessantes até então desconhecidos. As próprias sequências na narrativa de um quadro para o outro ficavam mais dinâmicas, ótimas para apreciar melhor a arte interna.

Essa nova maneira de ler foi um pontapé (ou um petardo mesmo, com o bico da chuteira) para uma transposição aos romances e livros de toda sorte. Adentrava o silencioso e cativante mundo da quinta arte.

Mas o gosto pelos quadrinhos continuou. Não só continuou – recrudesceu, aumentando significativamente com o passar dos anos.

É uma pena que grande parte da nossa sociedade ainda tenha aquela deturpada visão das histórias em quadrinhos como “besteira”, “tolice infantil”, algo a se gostar nos primeiros anos de vida e tratar logo de marginalizar assim que for conquistando maturidade.

Notório que há boas e más histórias – assim como há ótimos e péssimos filmes, excelentes e detestáveis músicas, livros incríveis e outros que não valem o papel em que foram impressos, entre outros -, mas essa pecha infeliz ainda persiste.

Lamentar é pouco nestes casos, mas enfim…

Bem poucos ainda veem a nona arte como importante amparo na educação básica de qualquer pessoa. Em alguns casos, não raro configura-se na própria otimização desta: desperta o gosto pela leitura, traz significativas melhoras para o raciocínio, ajuda no crescimento intelectual, amplia o vocabulário, enrique a escrita – não importando a idade do leitor.

Quando se noticiam projetos do governo nacional envolvendo quadrinhos através de políticas públicas de incentivo à leitura nas escolas e comunidades – a exemplo do que o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) já fez reiteradas vezes –, é uma merecida conquista. Tanto para os autores envolvidos, cujos novos trabalhos ganham notoriedade, quanto àqueles que desfrutarão uma forma simples e eficiente de aprendizado.

Igualmente a todo meio de comunicação impresso, as HQs configuram-se numa pirâmide basilar de instrução literária.

Os quadrinhos são, em absoluto, um degrau básico ao saudável hábito de ler.

Como poderia deixar de ser diferente?

 

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  1. Ao meu ver, a informação está tão fácil e mastigada hoje em dia, que a garotada me parece fadada a despencar ladeira abaixo.
    façamos o seguinte, então:
    Acabemos com os sites de busca!
    Destruamos as teclas Control C e V dos PCs da vida…
    Ordenemos que, a partir de agora, tal qual era feito em minha época,os trabalhos escolares de nossos "herdeiros" sejam obrigatoriamente tecidos em folhas de papel almasso, com no mínimo vinte páginas, manuscritas em canetas esferográficas e pesquisados em grandes enciclopédias britânicas do século XX!!! Tudo devidamente registrado.

    Torna-se obrigado, também, a inserção das artes sequenciais para facilitar e enriquecer o conteúdo dos trabalhos…colorido manualmente, com traço a nanquim em pena e papel canson de gramatura especializada…
    Façamos a garotada de hoje pensar de verdade…queimar neurõnios, entrarem em parafuso…
    Ha ha ha…

  2. Sou redator publicitário de uma grande editora.
    Boa parte do que uso na minha profissão, eu acabei aprendendo na leitura de quadrinhos.
    Os quadrinhos têm um conteúdo que é completamente desconhecido para os ignorantes pseudo-intelectuais.
    Óbvio que também gosto de livros e outras coisas, mas foi nos quadrinhos que essa paixão se iniciou pra valer.