Blue Jasmine – A mulher objeto de Woody Allen

Por Roberta Ribeiro

blue_jasmine_locandinaWoody Allen continua a cumprir sua frenética rotina de filmagens. Todo ano ele produz pelo menos um filme. E em 2013 ele já cumpriu o seu trabalho levando para o cinema “Blue Jasmine”, um drama denso e recheado de referências. Segundo o famoso diretor Quentin Tarantino, é um dos melhores filmes do ano. Sua obra anterior, “Para Roma com Amor” (2012), deu a impressão de que o velho neurótico havia feito o filme às pressas e, confesso, no início não estava tão entusiasmada com “Blue Jasmine”. Mas Woody Allen mostrou ao público que ainda está em plena forma e dessa vez caprichou. Roteiro, trilha sonora e direção dos atores são os pontos fortes do longa.

O filme estreou recentemente no Brasil, mas o diretor já está na pré-produção de seu próximo trabalho. De acordo informações da mídia, as filmagens devem acontecer na França, onde Allen tem um grande número de admiradores, e o título provisório do longa é “Magic in the Moonlight”. Vale lembrar que em Janeiro de 2014, Woody Allen será homenageado na 71º edição do Globo de Ouro. Mesmo ele já tendo afirmado diversas vezes que não deu nenhuma real contribuição ao cinema, é exatamente este o motivo da homenagem. Ironia do destino!

“Blue Jasmine” conta a história de Jeanette ou Jasmine (Cate Blanchett). Filha adotiva, ela se casa com Hal (Alec Baldwin), um homem rico e cheio de negócios duvidosos. Ginger (Sally Hawkins), sua irmã, leva uma vida pacata e simples em São Francisco, trabalhando em um mercado como empacotadora. A trama se desenvolve em torno da história de Jasmine que acaba sendo obrigada a ir morar com a irmã por não ter condições financeiras de permanecer no Brooklyn ou até mesmo em qualquer outro lugar. Ela não tem emprego e nem está disposta a encarar tudo para mudar de vida. Sua conturbada separação com o marido que comete suicídio dentro da cadeia, após ela o ter denunciado ao FBI por sua traição a deixa pobre. Sem muitas opções a única alternativa é contar com a ajuda da irmã.

É possível perceber que a inspiração de Woody Allen partiu na peça clássica “Um bonde chamado desejo”, do dramaturgo Tennessee Williams. Mas Allen conseguiu ir muito além, indo ao passado para reconstruir algumas ideias e questões no presente que são colocados na trama. A personagem Jasmine é uma mulher que se concentra na máxima de que “Você é aquilo que você tem”. Não é a toa que em vários momentos do filme ela se refere aos seus objetos com carinho e pelo nome da marca que eleva e tenta estabelecer o seu padrão de vida. No início do longa, ao chegar no aeroporto, ela espera sua bagagem. Na esteira ao ver os seus pertences logo ela exclama: “É minha Louis Vuitton!” Não é uma bolsa qualquer, é sua Louis Vuitton. O relógio não é apenas um relógio, é o rolex. Cercada de objetos com nomes, ela mesma se transforma num objeto, numa boneca viva. Chega a trocar de nome para assumir essa identidade de marca. Afinal, Jeanette não tem o mesmo glamour que Jasmine.

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Ela mesma diz para sua irmã, Ginger, que gosta de ostentar. Não vê isso como um problema, mas como uma condição. Porém, sua ostentação a leva sempre a “olhar para o outro lado”. Essa frase é dita no filme ao menos duas vezes, quando sua irmã e uma amiga traçam o perfil de Jasmine. O “olhar para o outro lado” indica certa passividade perante as coisas da vida. O que importa para Jasmine é viver bem e mesmo sentindo que Hal a mima demasiadamente, é disso que ela gosta. O mundo fútil e de aparências são constantes em sua vida e, talvez, esse seja seu maior problema.

Woody Allen conseguiu estabelecer uma narrativa no filme que possibilitou o espectador descobrir aos poucos o emaranhado de problemas que cercam a personagem principal. Ele costura as histórias em diferentes pontos, traçando um diálogo entre os diferentes acontecimentos e períodos cronológicos do enredo. E isso deixou ainda mais evidente a excelente atuação de Cate Blanchett. Um dos segredos de Woody Allen, em se tratando de direção dos atores, é deixá-los fazer o que querem, principalmente quando se trata de nomes importantes do cinema. Não sabemos o que aconteceu de fato com a construção e elaboração da personagem interpretada por Cate Blanchett, mas nas mãos de Woody Allen a atriz australiana brilhou. O diretor já conseguiu dar destaque a muitas atrizes em seus filmes, inclusive com direito a indicação e Oscar na Academia. Não sei se Cate Blanchett ganhará um Oscar de melhor atriz por esse personagem, mas, no mínimo, uma indicação seria justa.

Como estamos falando de atuação, é importante destacar Alec Baldwin interpretando Hal. Ele já fez outros trabalhos com Woody Allen, como “Simplesmente Alice” (1990) e “Para Roma com Amor” (2012), mas teve em “Blue Jasmine” o papel que mais combinou com sua persona. O magnata farsante que saía com várias mulheres e depois vai para a cadeia e comete suicídio. Ele cumpriu o seu dever, servindo como excelente parceiro, e escada cênica, para Cate Blanchett.

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A trilha sonora é também um ponto importante dentro da trama. Jasmine sempre tem lembranças do dia em quem conheceu Hal, e ao fundo tocava o clássico do cancioneiro popular norte-americano “Blue Moon”. Mas Woody Allen deixa para o público ouvir a bela canção somente ao final, numa versão jazzística, quando a personagem está sozinha se recordando no banco de uma praça. Nesse ponto, a palavra “Blue” presente no título da canção assume seu outro sentido, para além de indicar uma tonalidade de cor, destacando a melancolia de Jasmine. A melancolia da saudade, de um passado que não pode mais voltar e foi destruído por ela mesma.

O tom realista presente no filme é algo interessante. Ginger, irmã de Jasmine, quando tem uma oportunidade de “mudar de vida”, ela a abraça com toda força. E Jasmine não se cansa de tentar recomeçar, mesmo sabendo que jamais terá o mesmo glamour de antes. Woody Allen é sincero quando trata algumas questões em seus filmes. Ele nos faz pensar até que ponto as coisas materiais e as aparências influenciam nossas vidas. A traição conjugal é também um ponto chave para tentar compreender a difícil relação entre os personagens que são capazes de fazer várias tentativas para a conquista daquilo que acham ou acreditam ser o ideal.

Fui ao cinema duas vezes para ver “Blue Jasmine”. Da primeira vez a sala estava cheia. Percebi que aquelas pessoas estavam ali para ver Woody Allen. Não importa o que ele lhes oferecesse. Felizmente, foram felizes na obra desse ano que, não tenho dúvidas, se tornará um clássico na filmografia de Allen. O diretor está longe de se aposentar, ele ainda tem muito que fazer para o cinema e, sobretudo, para o seu público fiel. O cineasta franzino, inseguro, que usa óculos e que tem fama de ser neurótico. Essa sua estudada imagem pública é totalmente oposto ao o que ele demostra com o seu trabalho ao longo dos anos. Na verdade, é um artista disciplinado, que sabe aonde quer chegar e que demonstra muito fôlego. E que fez um filme que se tornou melhor na segunda vez que o vi.

Roberta Ribeiro é historiadora e pesquisadora da obra de Woody Allen.

 

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