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Vamos falar de Hitchcock: A Dama Oculta (1938)

Deliciosa audácia fazer comentários sobre os filmes de Alfred Hitchcock. Ainda mais esta obra, uma dentre as 58 deste grande diretor que acima de tudo, sabia fazer cinema, não apenas filmes. Lembrando que já comentei o filme Disque M para Matar do mesmo diretor, aqui no Pipoca.

A Dama Oculta, pode por alguns instantes parecer escapar ao que comum se espera de um filme hitchcockiano, pois apesar de ter como trama principal um jogo de espionagem e muito suspense, também está recheado de humor. No início já nota-se esta constatação. Um prólogo nos é apresentado, e nele encontramos os protagonistas desta trama hospedados em uma estalagem nas montanhas austríacas, pois terão que esperar a nevasca passar para assim poderem embarcar na maria-fumaça da região. Durante uma boa parte do início do filme somos convocados a conhecer estes personagens. Sem pressa, sem tropeços apressados. Hitchcock era um gênio e nos deixa degustar seus personagens durante os encontros e desencontros hilários destes hóspedes. A reverberação deste início é impressionante, pois as primeiras imagens que vemos da paisagem local, nos posiciona neste espaço sem tempo. Assim como os hospedes, estamos “ilhados” nesta nevasca e temos até o amanhecer para conhecer lentamente cada um.

No trem, nos deparamos com um mistério que de tantas peripécias deixa de ser assustador e assume um ritmo burlesco, que só enaltece o filme. Há uma grande variedade de personagens, cada um com sua mania, o que deixa o filme com um ar teatral, fazendo assim, a eminência da segunda guerra mundial – sobre o que o filme se trata – passar despercebida e inocentemente tangente. Essa é a grande jogada, e Hitchcock sabe o que faz. A Dama Oculta utiliza da pureza do jogo de achar e esconder para tratar de assuntos de importância mundial, em um período de guerra – digo isso tanto pelo filme, quando pela verdadeira Dama Oculta, Sra. Froy.

A simpaticíssima velhinha Froy é o eixo de ambiguidade neste filme. Quem suspeitaria da vovozinha? E assim como ela, todos neste filme são ambíguos, e conhecê-los pela segunda vez é tão maravilhoso quanto na primeira. É no meio deste mundo ambíguo que se encaixam os heróis deste enredo, que no final são as únicas personagens de uma faceta. A trama beira um Sherlock Holmes ou Agatha Christie, mas não o é, pois quem irá investigar o estranho sumiço da Sra. Froy, não se trata de um gênio da dedução e sim a “jovem noiva” e o “músico erudito”. Neste nível de mistério, a trama sempre nos convida a ficar confabulando sobre qual seria o melhor movimento na sequência deste grande jogo de xadrez cinematográfico – e tenham certeza, mesmo assim Hitchcock sempre irá te surpreender.

Para além da trama, preciso salientar mais um ponto deste clássico. Bem estamos falando de uma obra de 1938, ou seja, estamos no engatinhar do cinema. Assim, se detenha com muita atenção aos primeiros segundos do filme e admire o que é a verdadeira arte do cinema, enquanto a câmera sobrevoa a estalagem nas montanhas. Trata-se da arte no cinema, pois assim como ninguém quer que a “Noite Estrelada” de Van Gogh pareça real e engane sua percepção, é fabuloso ver que se trata de uma maquete perfeita e sem ilusão. E é assim que Hitchcock nos mostra a linda maquete da estalagem, que obviamente percebemos que é uma montagem, porém o estilo de filmagem, a câmera em panorâmica com a trilha escolhida, possibilita a contemplação de uma obra de arte, já que cinema é a 7ª delas.

Hitchcock foi um dos primeiros diretores que começaram a montar a personalidade “britânica” como essa figura caricaturada que conhecemos hoje em dia, por tanto, vale a pena assistir o filme para soltar muitas risadas com a dupla de britânicos viciados em Críquete. A cena do tiro na mão é impagável.

A Dama Oculta encontra-se na fase realista do cinema hitchcockiano que vai de 1930 a 1940. Por tanto, diferentemente dos clássicos Pássaros e Psicose trabalha dentro de uma narrativa clássica do diretor. Assim como Os 39 degraus, trabalha o relacionamento do casal herói, já que ambos precisam amadurecer durante a narrativa, a fim de poder solucionar os mistérios do mundo, para que possam ficar juntos.

Hitchcock apresenta assim a clássica temática dos obstáculos que atrapalham o encontro do casal, de maneira que quanto mais difícil, mais atados pelo desejo ficam os personagens. No fim a dama que desaparece (The Lady Vanishes) Está mais relacionada à própria condição de noiva da heroína principal do que com necessariamente a agente dupla idosa que misteriosamente some do trem. Iris a beata do inicio do filme, “trilha” por um caminho em que abandona sua faceta de dama para circular por várias facetas da feminilidade frente a obstáculos inusitados. Não é só a Sra. Froy que nos surpreende, mas Iris também – Hitchcock profetiza o breve sinal do início do feminismo.

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Sobre o autor

Diego PenhaDiego é Psicólogo, colabora no site com textos sobre Cinema e Psicologia. É autor das pequisas: “Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores” e "Zumbis: O Discurso Inconsciente em um Fenômeno Social", ambas realizadas na PUC-SP. Simplificando: pegue Freud, Lacan, Marx, Zizek, Foucault, Hitchcock, Romero, Kubrick e Tarantino em um liquidificador que terás um belo supra-sumo dos textos deste autor. Gosta dos filmes dos diretores Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, George Romero, Lucio Fulci, Steven Spielberg, Peter Jackson, George Lucas e Christopher Nolan. É vidrado nas leituras de J.R.R. Tolkien, Sigmund Freud, Slavoj Zizek e Jacques Lacan. Também gosta de quadrinhos brasileiros. Fã absolutamente assumido de Led Zeppelin.Ver todas as publicações de Diego Penha →

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