V de Vingança e o Occupy Wall Street

A prova da imortalidade de toda película cinematográfica é sua influência em acontecimentos cotidianos, mesmo que seu cartaz não esteja mais estampado nas paredes do cinema.

O filme V de Vingança, adaptação do graphic novel de Alan Moore, não é um lançamento do ano, mas seu pacote ideológico pode ser observado em movimentos de protesto por todo o mundo, como o Occupy Wall Street.
O cinema, fonte artística e cultural, pode ser classificado como uma importante ferramenta do mercado publicitário para promover a venda de ideias e doutrinas.

A produção de Joel Silver e os irmãos Wachowski, com James McTeigue na direção, fez algumas modificações no enredo proposto por Alan Moore em sua graphic novel. Os grandes fãs da série de quadrinhos responsabilizam algumas modificações pela perda da qualidade natural própria de informações.

No entanto, é presumível que em 132 minutos não caiba toda a profundidade e detalhes descritivos presentes em algo publicado gradualmente.

O enredo do graphic novel representa brilhantemente o autoritarismo do governo sobre os meios de comunicação e a imposição da censura. Inspirando-se no romance 1984, de George Orwell, escrito em 1948, Moore cria um sistema de monitoramento semelhante ao utilizado pelo Grande Irmão de Orwell.

A presença de campos de concentração e ações violentas contra minorias presente no enredo dos quadrinhos indica a forte influência de governos totalitários reais, como o Nazismo, para a criação da trama. Ao formular o nome dos personagens, Alan Moore deixa evidente a analogia entre o nome do chanceler representante do totalitarismo na Alemanha e o nome do seu chanceler fictício. Além disso, aproxima o símbolo utilizado por V, personagem principal da HQ, do símbolo utilizado por anarquistas.

Alan Moore, que possui em seu currículo obras como Watchmen e O Monstro do Pântano, não gostou da adaptação da obra para o cinema, na realidade, essa aversão não é pontual. O escritor insiste em permanecer distante das produções, dizendo que os filmes não são capazes de manter as características particulares de suas obras.

A trama cinematográfica de V de Vingança, conhecida por muitos, é carregada de simbologia referente à imposição de um governo autoritário e à luta pela liberdade, mas não apresenta nenhum sistema de monitoramento. Um mesmo tema é visualizado por diferentes ângulos dentro de uma sociedade e não apenas por um governante autoritário.

No filme, o protagonista de codinome V inicia sua luta inspirando-se no ocorrido na noite de cinco de novembro de 1605, conhecida como “Noite das Fogueiras” (Bonfire Night).

Essa data foi marcada pela derrota da “Conspiração da Pólvora” que protestava contra o poder abusivo do rei protestante Jaime I da Inglaterra. O principal integrante da conspiração, Guy Fawkes, foi capturado e torturado pelo governo inglês. V, personagem com evidente espírito anarquista, passa então a utilizar uma máscara homenageando o conspirador Fawkes.

As máscaras foram utilizadas por diversos povos e em diversos contextos históricos para infinitas finalidades. Inicialmente, eram utilizadas para representar entidades divinas, afastar maus espíritos e também curar. Posteriormente, foram inseridas em muitas culturas a fim de representar cada tribo e exercer papel de instrumento protetor. Até que, no Renascimento, passaram a assumir o papel de entreter e estar presente em festas e ocasiões destinadas à diversão.

Sendo assim, com o passar do tempo, as máscaras tiveram sua função e significado descaracterizados gradativamente, passando de instrumento ideológico do campo político, social e religioso, a mero complemento decorativo.

“Sob sua máscara há mais que um rosto: há ideias. E ideias são à prova de balas”

Na obra em questão, a máscara utilizada pelo protagonista garante sua individualidade, além de demonstrar claramente quais os ideias de sua luta.
V idealiza uma sociedade não conformista e livre de medos, sua ideologia é aplicada quando conhece uma jovem chamada Evey Hammond (Natalie Portman). A jovem, totalmente passiva frente às ações governamentais, é atacada por integrantes da polícia secreta e tem como seu salvador o enigmático V.

A partir desse primeiro contato, Evey é retirada da escuridão. Assim como no Mito da Caverna escrito pelo filósofo grego Platão, V tenta abrir os olhos de Evey através de lições, libertando-a das correntes do medo que a prendiam em sua própria caverna.

É claro que o projeto de V teria alguns obstáculos pela frente, dentre eles o Inspetor de Polícia Eric Finch (Stephen Rea) responsável por manter a ordem e a soberania do governo autoritário do Chanceler Adam Sutler (John Hurt).
O longa, com suas muitas informações implícitas, ou não tão implícitas assim, conta com uma trilha sonora capaz de reforçar a mensagem que se deseja transmitir. Os crédito finais são regados a Rolling Stones com sua canção intitulada como Street Fighting Man (Lutador das Ruas), evidenciando o importante papel desse herói fora dos padrões representado da figura do protagonista V. Fora dos padrões porque, enquanto é visto como terrorista pelo Estado, é aclamado como herói da liberdade pela sociedade.

V de Vingança possui um epílogo capaz de representar brilhantemente a libertação do povo e o fim do governo autoritário de Sutler. Dessa forma, conclui-se que a luta de V não foi em vão, apesar de sua morte no último episódio da destruição total da força totalitária.

A luta de V não ficou esquecida na estante junto a outros filmes antigos. Hoje, muitas manifestações utilizam sua ideologia para alcançar os objetivos de suas reivindicações. Figurativamente, colocam as máscaras de Guy Fawkes para fazer referência ao filme que conseguiu como poucos, promover uma propaganda idearia eficiente.

O Occupy Wall Street é o movimento atual em que se encontram os mascarados.

Os manifestantes escondem-se atrás de uma imagem padrão para confirmar a singularidade de opinião frente à crise financeira mundial e a ambição de grandes empresas e empresários.

O movimento baseia-se na indignação. A maior parte dos manifestantes é representante da classe média, aquela que mais sofre com a desestabilização da economia, ou seja, o argumento afirmando que aqueles que participam do movimento são desocupados, hippies e filhinhos de papai é totalmente falho.

“Algumas pessoas usam a máscara por moda, outras sabem o que ela representa. Eu tenho-a para mostrar o meu apoio à mensagem contra a tirania e fazer parte deste movimento global de contestação e de cidadania”, palavras de um manifestante a uma revista americana.

Como sempre, há uma parcela dos adeptos às ideologias propostas por determinada simbologia que não sabem ao certo seu significado. Mas, já é fato que utilizar o cinema, os quadrinhos e outros meios de comunicação é o melhor método de conseguir maior alcance para a mensagem que se deseja passar, seja ela de cunho político, religioso ou social.

Apesar de muitos preferirem a graphic novel ao filme, não podemos negar que o cinema está se tornando um artefato cultural cada vez mais poderoso. Filmes como este e outros exemplos como Clube da Luta (David Fincher) são responsáveis pela produção de discursos ideológicos, contidos em tramas de ação, capazes de influenciar espectadores pertencentes a momentos históricos distintos.

É o cinema imortalizando e transmitindo pensamentos críticos e de qualidade (ou não).

V de Vingança
(V for Vedetta – 2006)

Direção: James McTeigue
Produção: Joel Silver e irmãos Wachowski
Elenco original: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, Stephen Fry, John Hurt, Natasha Wightman

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Tamiris Volcean, estudante de Biologia intensamente influenciada pela arte da escrita.

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  1. É muito interessante a contradição fortemente presente em nosso sistema econômico. Pois de fato o cinema é financiado por empresas multimilionárias que tem a intenção apenas de dar lucro a seus acionistas. Mesmo que a mensagem seja negativa a respeito do modo de vida levado por esses senhorios do cinema, os projetos contaversivos são levados adiante mediante a possibilidade de lucro resultante, abrindo um precedente de crítica a própria forma econômica que o sustenta.
    Claro que isso é uma mera reflexão, pois tal tema já tem ampla discussão bibliográfica.

  2. Ótimo texto, só queria que fosse mais longo, poderia ler sobre V e suas implicações por um bom tempo. Eu gostei muito do filme, não li a graphic novel, mas sei da sua importância. O filme funciona muito bem no que lhe cabe, se não segue a fundo a obra original só podemos lamentar, mas com certeza não podemos desmerecer o filme e os efeitos que os dois tanto filme quanto graphic novel aplicaram em nossa sociedade. 

  3. Belo texto. Estou escrevendo um resumo do “Occupy Wall Street” e cheguei em um ponto que tive que sitar a influencia de alguns filmes, como o V de Vingança, mas lembrei de alguns outros filmes como o documentários “Capitalismo – Uma Historia de Amor”.
    Se foce um movimento Brasileiro certamente Tropa de Elite 2 estaria no mesmo patamar de V. Poucos filmes chamam a responsabilidade para cada individuo e mostram as terríveis consequência da corrupção, da omissão como este.

    Apensar de tudo este movimento, embora exista também no Brasil, EUA, Europa e Asia e ate Africa do Sul (“Occupy All Streets”) tem suas origens no oriente médio, onde a chamada primavera árabe deu o exemplo, mostrando que o povo na rua é capas de provocar mudanças atualmente. Mudanças as vezes positivas ou ate uma guerra civil.

    Mas como disse o codinome V:  “não existe certezas, apenas oportunidades”.

  4. Só uma coisa que lembrei, em dado momento no filme, quando o governo esta realmente preocupado com a ameaça de explosão do parlamento, um funcionário do governo esta lendo um relatório de escutas aleatórias nos telefones, mostrando que as pessoas estavam falando sobre o V.

  5. Ótimo texto. Mas
    tenho apenas uma observação: sob o ponto de vista histórico as máscaras nunca
    tiveram sua função e significado descaracterizados, mas resignificados, assim
    como vários objetos culturais. O próprio Moore resignificou algumas idéias
    pra fazer a sua própria.

  6. Assim como Watchmen, o quadrinhos é melhor na minha opinião. Porem não deixa de ser um belo filme. Não li V, mas o filme é muito bom. Bem interessante. 

    • O filme Watchmen, segue a linha do HQ com poucas adaptações, isso é: alguns corte (como o cargueiro negro), algumas substituições como trocar os estras no final de cada volume pela abertura e um documentário lançado em separado e por fim alguns diálogos trocados sem explicação nenhuma (por exemplo o Dr.Manhattan falando que não se importou com a morte do colega, quando do original era o PAI). Apesar de tudo isso, o filme segue a linha do HQ quase se como um storyboard.

      Diferentemente do V, que foi realmente muito alterada. A personagem Ivy (Natalie Portiman) era uma criança e prostituta no original. O codinome V tem mais de um tipo de mascara, incluindo uma nariguda e uma com cara de palhaço. Não existe romance entre a Ivy e o V. O programa de TV originalmente era um programa de radio. etc
      Recomendo fortemente que leia o ‘V de Vendeta’, garanto que valie a pena.

      • Valeu pela dica Caiio Cabelo, vou aguardar um possivel lançamento da panini e vou adquirir ‘V de Vendeta’.

  7. Sobre a influência (é do que trata o artigo) tudo certo. O problema é a forma como os manifestantes interpretam a obra. É incrível como as pessoas erram o alvo neste tipo de discussão: O que esperam com ‘Occupy Wall Street’ ? Que empresários deixem de ser gananciosos? Empresários são tão bons ou ruins quanto a média da população eles não vão melhorar e vão continuar fazendo de tudo para receber proteção do governo (ao contrário do apregoado foi essa proteção e não a ausência de intervenção que causou a dita crise). O alvos deveriam ser bem outros, quais sejam: A casa Branca e/ou o FED. O gênio Alan Moore sabia muito bem o alvo correto e quem leu sua obra ou mesmo viu o filmes sabe qual ele considera ser o alvo correto. É só ver a Europa que tem um sistema muito mais ‘controlado’ que os EUA e onde a crise é (em termos relativos) MUITO maior do que nos EUA.